Nas Cinzas
Capítulo X
Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas tivessem todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain desejara, nesse momento, que o género humano tivesse um só peito, para poder estreita-lo amigavelmente nos braços.
Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido, cuja companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.
—Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio, pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e Meca por sua causa.
—Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?
—Nem o nome, nem a morada... No momento{59} em que lhe perguntava uma e outra coisa, zás! partiu como uma bala!
—Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...
—Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.
—Ora... uma bagatela!
—Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem à noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a rua dos Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas as minhas pernas já não são setas, e cheguei justamente a tempo de receber com a sua porta na cara. Não eram horas para visitas. Tomei o numero da casa, e eis-me aqui!
—Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no atelier.
Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo com afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o pintor da módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma familiaridade cada vez maior.
Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a examinar vários{60} esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e descobriu sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher... sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros.
—Bravo! exclamou ele.
—Que temos? interrogou André descontente.
—A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo... porque naturalmente é correspondido!
—Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada sem-cerimónia, estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não sou já preciso...
—Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com mil bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito. Além de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se corrige nesta idade, com todos os diabos!
—Tanto pior! observou-lhe André.
—Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.
André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.
—Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.
—Para quê?{61}
—Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.
—Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a boa intenção, meu bravo!
—Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz, porque vai desposar a sua bela das tranças doiradas!
—Como o sabe?
—Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos de memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa afeição, aguda ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim!
E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado com bambinelas de seu lavor.
—Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus? perguntou André, rindo.{62}
—Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando melancolicamente as suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal necessário... Agora estou muito em baixo!... Mas tenho diante de mim o futuro; ainda hei de trepar, creia! É a minha sina! E, quem sabe?... talvez que eu algum dia lhe compre quadros.
André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na idade em que geralmente só se pensa no repouso.
—Nada o faz desanimar! disse o pintor.
—E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na minha historia?
—Venha ela!
O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.
—Pode a gente fumar em sua casa?
—De certo!
Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca, escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua longa barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.{63}