Nas Cinzas
Capítulo XI
Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe a bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o diabo no corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que obrigou Pedro, ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam confiado a guarda, por um pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na sua opinião, o gérmen de uma casa de comércio. Mas Pedro foi agarrado; Pedro levou uma boa surra de pancadas; e Pedro... recomeçou as suas operações em mais larga escala.
Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o seu carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente insuportável. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indústria, pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro quis ser marujo. Aos{64} doze anos embarcou como grumete, com a cabeça recheada de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo um pacote de peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.
Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão. Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha as pernas muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete léguas, e lançou-se a galope atrás da fortuna.
Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só à sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de locomoção conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco anos a pé, a cavalo, em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a nado, em diligência, pela posta, em patacho... traficando, vendendo, comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em peliças, em azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S. Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Génova, expositor em Londres, mestre{65} de dança em S. Petersburgo, caçador em Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em Madrid, livreiro em Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu cem profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.
Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em zero... E sempre assim, durante meio século!
O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um colegial com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no fundo de um poço. Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas, que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligência. Tão ardente no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existência faustosa nos seus dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro às mãos cheias, e saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma côdea de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando de servir de criado àqueles mesmos que recebera à sua mesa.
Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções corrosivas da perda e do ganho.
Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza,{66} e dissera consigo: «Não irás além!» Queria dois milhões. Por varias vezes conseguiu o seu fim; mas... vinha um incêndio, uma falência, uma revolução, um cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias, e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua última tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus servos estrangulados. E Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente a sua teia despedaçada.
Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas, opulento à medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da pátria. Porém a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima ou duodécima vez.
Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tábua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braços com um tétano, dirigiu-se{67} para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou andrajoso e faminto.
—E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que escutara esta narrativa com crescente interesse.
—Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos, serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados, escritor público, contratador de bilhetes de teatro, professor de esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo já alguns centos de francos, que me produzirão avultados lucros. Vou alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa.
—Com que fundos?
—Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!... Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês teria ganho o quádruplo!
—Ou ficaria sem nada...
—Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo... Aposto que ainda me verá milionário!
—Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter confiança em si!{68}
—Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto de mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma ideia... Eis porque eu tenho confiança!...
Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.
—Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços, leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me depara... este, por exemplo, e zás! uma ideia me...
Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel, que lhe estava servindo para demonstração...
—Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.
—Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou no pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:
—Que numero é o desta casa?
—Oitenta e sete.
—Rua dos Mártires?{69}
—Sem dúvida.
—Há cá alguém que se chame Germinal?
—Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.
—Aonde mora?
—Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...
—Com mil raios! bradou Pedro.
E, num salto de jaguar, atravessou o atelier, abriu a porta, correu para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e desnorteado.
Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.
—É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro Toucard.
O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu apenas com o seu eterno raspadouro.
—Sim senhor, disse Rosa.
—Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e sou...
Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar com os braços, e caiu pesadamente sobre o banco.
—Meu pai!... exclamou Rosa assustada.
—Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.{70}
—Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho! Separem-se... pois nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se bruscamente a Pedro Toucard, que o observava com impaciente curiosidade, disse-lhe:
—Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas, seguido pelo provençal, não menos agitado do que ele.
Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao pé deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do seu amado André.
—Separar-nos!... murmurou ela.
—Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.
—Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação, meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois, abatido, deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu por terra o pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.
Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos de anúncios.
O pintor leu o que se segue:
«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de maio de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam a M. Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»{71}