Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 15 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo XV

 

À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses, distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.

Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as últimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.

Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido, tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:—Amemo-nos, apesar de tudo!

Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal, envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.{96}

—Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos, meu amigo!...

O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se severo, bradou:

—Rosa!

—Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.

—Vá já para casa.

Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e de amargura.

—Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso de falar com André.

Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.

—E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...

Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o senhor Germinal pela gola do casaco:

—Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um momento.

—O do senhor Sauvain.

—E quem é que se chama assim?

—Este mancebo.

O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de André, que mediu com olhar inflamado.{97}

—Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?

—Certamente!...

—Nasceu perto de Granville?

—É exacto.

—E seu pai era marinheiro?

—Era.

—A bordo da Ariana, que se perdeu com a carga e tripulação... há vinte anos?

—Sim, mas porque acaso?...

—Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard, tornando-se carmesim.

E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o chapéu.

—E sua mãe? continuou ele ofegante.

—Minha mãe...

—Não receberia ela?...

—O quê?

—Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?

—Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?

—Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.

—Entretanto...

—Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!

—Então teve relações com meu pai?

Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.

—Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem reparar; tenho de fazer fortuna...{98} c'os diabos! Mais tarde não digo que... mas presentemente...

Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada provavelmente à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes, o seu crânio calvo, que ficou vermelho e fumegante.

Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e sentou-se num banco para tomar alento.

O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.

—Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim assim? Que disse eu, que tanto os espante?

—Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...

—A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou. Demais... sou propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o sangue à cabeça! Mas não façam caso... já passou.

O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando noutra coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.

Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.{99}

André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.

—Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui, quero dar-lhe duas palavras.

O pintor seguiu-o, assaz intrigado.

—Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis nesta ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!

E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.

André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.

—A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.

—A título de amigo.

—Vimos-nos apenas duas vezes!...

—A título... de antigo amigo de seu pai.

—Conhecia-o de leve, segundo disse.

—Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava... É a minha vez agora. Que diabo!...

—Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.

—Porquê?

—Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado{100} pobre para aceitar qualquer empréstimo, não sabendo quando poderei pagá-lo.

—Ora? que importa isso?...

—Importa-me muitíssimo!

—Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se recusa aceitar o que tantos outros...

Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.

—Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho! Vais aventurar-te sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de imbecis que lhe és superior no artigo inteligência.

—Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...