Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 13 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo XIII

Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde recordar-se.

À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria através dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o espírito, o seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os socorros, que de todos os lados acorriam.{76}

Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.

Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras:

—Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria mão a... Eu chamo-me...

Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no wagon, que começava a ser invadido pelo fogo.{77}

 

XIII

No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é acrescentar que foi de carruagem.

Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o corpo fez à involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o espírito, a de dois cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera consigo, não querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a morte tão de perto.

A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo. {78}

Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.

Continha noventa e dois mil francos.

Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos do seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos; eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o qual barricou a porta.

Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.

Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, só forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias despesas, escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.

O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se.

Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se ladrões, que esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.{79}

O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em pé, descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.

Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tábua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso.

Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria, e fazer valer os seus direitos à aposentação.

À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora responsabilidade, em proveito dela.

Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante a dizer-lhe:

—Entregue-o pela sua própria mão a...

Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o bastante{80} para o senhor Germinal não se arredar um passo da vontade expressa do moribundo.

Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite, estafado, moído e de mau humor. Interrogou o Almanaque do comercio, gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polícia, por pouco não pegou de estaca em cada uma das legações estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e contudo não descobriu em parte alguma vestígios da passagem ou da morada de Onésimo Toucard.

Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir à máscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutíferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... depois vinte...

À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frenético, mais nervoso, mais{81} pusilânime. Os noventa e dois mil francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos. Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário. Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição expressa de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois, contratou com uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu reclame fosse publicado duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de sentinela.

Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposições latentes, começou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mãos, trémulas de voluptuosidade, no maço das noventa e duas notas de banco, a amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio fru-fru... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se de súbito, fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.{82}

Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a sua fisionomia, fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...

Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam cumprir. O viúvo admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha a mesma graça, a mesma afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar, mas também a mesma débil constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupações, as suas mãos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.

À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe o impossível... isto é, dinheiro. Os seus vagos, instintos de cobiça pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo:{83}

—Se o não reclamassem!...

Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo simultaneamente lhe passou pela imaginação fascinada. Em vão se desculpava para com a sua consciência, murmurando:

—É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de júbilo, quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho; cessara de publicar anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de menos a evitar.

Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor Germinal, até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braços com a febre ou com a fome, sentindo através do tabique sua filha a chorar, tivera horripilantes tentações, relativas a esse dinheiro, que dormia inútil ao alcance da sua mão. Contudo não tirou dele a mínima parcela, nem sequer trocou uma nota.

Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso,{84} austero até ao superlativo, chegou, de concessão em concessão, a formar o seguinte raciocínio:

«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que não carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.»

Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos ócios e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade. Mas, logo que pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas, empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo.

«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão! Esperemos mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»

Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor por André Sauvain.{85}

Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitações. Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a parte; estudou o pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que expirasse o décimo segundo ano do depósito.

Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência oprimida e o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens.

Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro Desmancha-prazeres.{86}