Nas Cinzas
Capítulo XIX
Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo as névoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a imensidade líquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro; assim, no coração de André, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo se evaporara ao sol da esperança.
Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa era:
1.º—Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a excentricidade da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair sobre si.
2.º—Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.
3.º—Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor Germinal; ir ter com{131} ele, ainda que estivesse na Gronelândia, agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.
Nada mais simples!
André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper do sol.
Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel recordação, ante um montículo invadido por ervas parasitas e por parietárias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braços dessa cruz, já não se distinguia.
André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se tranquilo, mas em profundo recolhimento.
No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do velho jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque decidira passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.
Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou a pôr na arca a caixa{132} de conchinhas, confiou a chave da casa ao empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não tinha tempo a perder.
No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu atelier, escovando o chapéu para correr em busca do provençal.
—Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais facilmente encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele transportou a sua tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir apanhar, entre uma compra e uma venda de fundos.
Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André, petrificado de espanto, recuou três passos.
Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!
—O senhor!... exclamou Sauvain.
—Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons dias, caro amigo!...
E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força, estreitando-a nas suas.
Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:
—Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco mudado... um tanto pálido...{133} mais magro... mas bem disposto e animado, o que me causa imenso prazer.
—É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.
—Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...
—E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto chegava semelhante impudência.
—Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a minha última visita data de há quatro meses?
—Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.
—Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco difícil, para fazer-lhe.
—Uma confidência!
—Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem suas razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...
—Realmente?
—É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem andado opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...
Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André esvaiu-se quase de súbito.{134}
—Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos; e visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo o arrependimento, misericórdia!...
—Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.
O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.
—Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...
—Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil, porque eu sei tudo.
—Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!
—Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?
—Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...
—Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.
—Eu!...
—Ora leia.
E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.
Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.
—Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais{135} nova do que eu... doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao seu destino!
—Enganava-se.
—Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este dinheiro...
—O meu dinheiro, quer dizer?
—Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?
—Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.
E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar, desenterrara a chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de tantos mistérios!
—É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a cabeça. Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que cara ficaria diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o primeiro a confessar a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!
—Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a falta!
—Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável! Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição de Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e fui eu... eu!...
—Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.{136}
Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta surpresa.
—Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!
—Porquê?
—Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças de amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete, conversa tranquilamente com ele!...
—A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos. Mas o passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez mal... sim... visto estar pronto a restituir...
—Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!...
André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.
—Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...
—Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o meu exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei ares de um feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil francos?
Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes ares.{137}
Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos buracos do fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.
O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da miséria. Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.
—Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele; agora olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de água. Feridas de dinheiro não são mortais.
—Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?
—O quê?
—O que eu suponho...
—Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e depois... veio a baixa.
—Portanto está tudo perdido!
—Fundido, destruído, evaporado!
—Não resta coisa alguma?
—Restam-me... dívidas.
—E a herança de meu pai?
—Foi para casa de seiscentos diabos.
—Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente.
O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas algibeiras das calças despedaçadas,{138} e poderia mesmo jurar-se que um vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.
—Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me, mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com que me enforcarem!...
André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.
Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo desespero, caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:
«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»
Pedro pareceu sinceramente comovido.
—Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido, velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!
E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um rosário de pragas.
Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com o rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.
—Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda, coice! O enguiço triunfa{139} hoje, de acordo! mas eu sou um espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma obrigação de cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?
André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em pranto.
—Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação com as suas covardes zombarias!... Saia!
—Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...
—Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.
—Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente seria vê-lo rico e satisfeito.
—E por isso me roubou o meu património, não é assim?
—Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco já estavam no meu bolso, agarravam-se a mim e gritavam-me: «Leva-nos! Foi, graças a ti, que Onésimo nos ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!... Leva-nos, Pedro, e quintuplicar-nos-ás... decuplicar-nos-ás! André, Rosa, toda a família será feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!»... Com a breca, levei-as!... Se esta explicação{140} lhe não basta, pegue numa pistola, e abra-me a cabeça; até me faz favor!... Ou então... arraste-me ao banco dos réus, para que me condenem às galés.
André, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tédio.
—Não, replicou por fim. Não me esqueço de que foi amigo de meu pai; não me esqueço desta carta... a única acção honesta da sua vida! Não me vingarei, senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!
Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.
Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba, reflectiu, e inclinando-se para André, que lhe voltava as costas, murmurou:
—Senhor Sauvain...
—Ainda aqui! exclamou o pintor.
—Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de consolação, que o céu se encarregou de castigar-me. Estou mais miserável, senhor André, do que no dia em que me fez a esmola... que tão pouco lhe aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna mendigar, vou direito daqui lançar-me ao rio. Adeus!
—Espere!... disse Sauvain.
E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.
—Leve isso.{141}
—Eu!...
—Arrecade isso, já lho disse, e vá-se embora. É em memoria de minha mãe, a quem tentou prestar um serviço. Eu... de nada preciso já.
Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos lampejavam humedecidos.
—De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não recobro o sono, que me foge?
O pintor encolheu os ombros.
—O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a minha raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam uma parcela sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!
O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do atelier. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado insensível ao mundo exterior.
—Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca, com mil bombardas!