Nas Cinzas
Capítulo XVIII
Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente, quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.
Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das suas portas, as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com os pés embranquecidos da poeira.
Uma hora depois, André avistava o seu casebre.{119}
XVIII
Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da Costa não o derrubara de todo.
Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com o seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.
Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouçava-se pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da superfície das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudário.
André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e entrou em casa. Um{120} odor indefinível se exalava daquele recinto, onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz indecisa do dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, com os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira, o crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da pesca, herança de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por acabar. Parecia que a obreira saíra de casa... momentos antes.
André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham bordado.
Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí, mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.
O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lábios...
Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo, que, se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro mundo.
O pintor não confessara tudo a Rosa.{121}
Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam, e afinal desapareceu, abandonando à miséria a esposa e o filho recém-nascido.
Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da Ariana, e da perda daquele navio com toda a tripulação.
Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as brutalidades de Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um culto, aliás pouco merecido, e conservou-se viúva.
Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e abnegação. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educação conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim...
Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer as suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando por ali, o{122} encontrou, e apreciando a sua inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas de alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.
Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.
Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um grito estridente, acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o rosto desfigurado, segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um prodígio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. Não podia duvidar-se de que, mais uma desgraça pousara a sua mão de ferro sobre aquela humilde existência... Que desgraça fora, nunca o soube André.
Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o sinistro enigma?
Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua imaginação ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas impetuosas do vento, abalando o tecto, {123} sucediam-se, como gargalhadas de escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...
Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim às apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contígua, e aí ajuntou algumas achas, que dispôs na lareira.
Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.
Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O pintor quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro, resistente, metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro da blusa.
Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular. Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensável de mulher.
André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que começou a crepitar.
O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que, entre aquela chave e o mistério{124} que procurava desvendar, havia talvez íntima relação...
De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.
Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?
André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações, descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.
A caixa abriu-se; continha apenas um papel.
Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta inglesa, indicava a procedência de Liverpool.
Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em frente daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de sua mãe.
Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou primeiramente a assinatura.{125} Ao vê-la, escapou-se-lhe dos lábios um grito de surpresa.
No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!
Depois, André leu o que se segue:
«Liverpool, 4 de Maio de 1842.—Minha senhora: O meu nome, embora lhe seja desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever, informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.
«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém Onésimo Sauvain não morreu.
«Quando a Ariana naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio, do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação, tivemos a boa fortuna de escapar.
«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados, igualmente desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu marido é um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas empresas, e, navegando de conserva, levámos a cabo não poucas especulações lucrativas.
«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e{126} de Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo Toucard. Ora eu, que não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua. Confessou-me que deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que não tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil; disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto persegui-o com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua morte, que me prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que tivesse adquirido meios suficientes para viverem cómoda e honradamente.
«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A parte de Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade dissolveu-se; ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em paz da sua modesta abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão exíguo capital, reembarco para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo tentar fortuna.
«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal; mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais, inclino-me a crer que ele roerá a palavra a este seu criado, continuando a deixar a esposa em viuvez,{127} e que dissipará em orgias o capital, que pertence legitimamente a seu filho.
«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis na sua idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.
«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às ordens que me dita a consciência.
«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo que adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não me parece difícil que consiga descobri-lo.
«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito de==Pedro Toucard.»
Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta, estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter produzido em sua mãe.
Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte civil à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico, e não lhe importava sequer se seu filho tinha pão!...
Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas{128} ilusões violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que tivera.
Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada dos acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias complicações.
Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!
Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas mãos de um estranho, pertenciam-lhe!
Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!
Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera, era André quem enriquecia a mulher que amava!
Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter para os seus legítimos donos!
André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda não estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos,{129} não pudera vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de traficar mais uma vez.
Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e de André!
«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei restituir o dinheiro!»
E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito. Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios enérgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso não teria então mais nenhum obstáculo, que opor ao seu casamento com Rosa.
Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois, prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e teve um pesadelo.
Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata maciça, galopava, ao longo dos boulevards, numa carruagem puxada por doze cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: «Agarra, que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor som... E Pedro fugia sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a multidão, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de Sauvain...{130}