Nas Cinzas
Capítulo VII
Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários talhões, de modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na renda, gozava de uma pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a seu bel-prazer.
André Sauvain não participava dessa regalia.
Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.
Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres, André se tornara indispensável{38} ao misterioso velhote; contava-se com ele, agora, como com um génio do lar.
O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação daquela flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera. Uma manhã estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio de sol, escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul, deixara-se cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as novas vergônteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que tinham aberto as suas corolas durante a noite.
«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali passeio... em sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco estremeceria sob o seu invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre mostrar-se à fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada para acorrer jubilosa, que a água do tanque se agitaria de contente, que a parreira enlaçaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem vindo!... Pobre André! já não és a criança que nós encantávamos; já não tens as faces rosadas, a fronte límpida,{39} a franca alegria, a gargalhada espontânea de então! Agora... és um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o camponês, que te trouxe às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos humildes como somos, conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor parte das tuas recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco carunchoso, onde tua mãe te embalava cantando.»
Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.
—Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim. Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura; dir-se-ia que reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem daqueles companheiros da sua infância.
—É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que na minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a esperança transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á acaso que não descobrisse ainda?...
Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!
Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça e esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas foi{40} perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava por cima dos dois jovens.
—Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe confiou, a última vez que o viu.
O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.
—Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por áspera brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as folhas em redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...
Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras e inquietas.
—Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma carta, que beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente, meu querido filho, e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois, partia eu... a pé, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o meu pão enquanto caminhava, matando a sede na água lodosa dos fossos da estrada, repelindo o sono, que me fechava as pálpebras... Cheguei enfim! A porta estava aberta... entrei chamando minha mãe... vi-a imóvel, branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos{41} no meio do quarto... sem gritos, sem lágrimas, sem ideias... Minha mãe estava morta!
O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.
—Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha casa deserta... menos deserta que a minha alma!
Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os olhos.
—Parece-se com sua mãe, André?
—Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais possuía, neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera triste e solitária; éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de dedicação para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua consolação... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser rico, respeitado, celebre... Minha mãe morreu!
Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma pérola líquida cair-lhe sobre a fronte.
—Como eu a teria amado! suspirou a jovem.
André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.{42}
—Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém, Rosa, acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se, pouco a pouco, uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza. Ao princípio, era apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara no meu caminho, mas... o gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em planta, e a planta em frondosa floresta, cheia de canções, de murmúrios e de perfumes!...
André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela sorria através das lágrimas.
—E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de minha mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me terias amado! Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu espírito encantador tem mil delicadezas; porque me substituíste nos sonhos de meu filho; porque és a luz dos seus olhos, a flor da sua esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o, Rosinha... peço-to eu! ama meu filho, que te ama tanto!»
Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.
—Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?
Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a{43} donzela, cujas faces se encenderam em pudico rubor.
Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à porta do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado, mais ferrugento do que nunca.
—Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o casamento?{44}