Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 4 de 20

Páginas do PDF

Nas Cinzas

Capítulo IV

—Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna corra, apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André respondeu apenas com um grito abafado.

Pálido, com o coração palpitante, seguia com os{20} olhos uma mulher, cujo vestido roçara por ele ao passar.

Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros sob um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.

—Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.

Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se desesperadamente atrás da sua visão.

Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a sua barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:

—Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com quem diabo se parece ele?...{21}

 

IV

 

André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do chapéu de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a Deus, e ousou enfim encarar... uma decepção!

Não era ela!

—Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa. Apaixonar-me antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que fazer círculos na água com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou não o sou? Sou. Pois bem! esquecerei essa criança loura.

Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as brasas da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a senhora Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos sopeiros, invadiu o atelier no desempenho do seu oficio de servente, achou André empoleirado{22} sobre três cadeiras, espreitando, através do seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as portas cerradas.

—E esta! exclamou ela com voz masculina.

—Quem mora ali? perguntou o pintor.

A senhora Poussignol arregalou os olhos na direcção que lhe indicava o dedo do seu cliente, aspirou uma pitada de rapé, e brandiu a vassoura com gesto feroz.

—Aquilo?... disse ela, não é coisa que preste!

André sentiu-se assomado de violenta indignação.

Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de cadeiras, pediu à porteira que continuasse.

—Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma mobília de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo a luz... Eis-aí está!

—E ela? interrogou André.

—Ela!... O locatário chama-se Germinal. É um empregado reformado, um velho avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um soldo, e que nem é capaz de largar seis liards pelas festas do ano!

—E ela? repetiu André.

—Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida à janela... Felizmente perde o seu tempo; o senhor André é o rei dos trabalhadores, e{23} não levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a própria Vénus!

André empalideceu.

—Como!... pois pensa que é por minha causa? Nunca dei por tal.

—Pudera!... Todo entregue às suas pinturas, não repara em mais nada. Pois há bastantes dias que ela deita o lúzio para cá. Vê-se muito bem lá de cima o interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...

—Mas quem é ela? exclamou André impaciente.

—Ora! é a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura de um lacrau, tal e qual! Não pode deixar de ser algum antigo criminoso, que tenha a consciência carregada de assassínios.

—Que ideia!

—É o que lhe digo. Em primeiro lugar, há onze anos que não põe os pés na rua! não se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze anos! Que pensa daquilo?

—Será.

—Qual historia! Tem tanta saúde, como o senhor ou como eu, mas tem medo de ser filado, ora aí está! Só apanha ar num jardim de bonecas, do tamanho do Constitucional desdobrado... e isso porque o proprietário lho permite de graça... Até causa dó!...

—E ela? insistiu André.{24}

—A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa alguma desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco esse velho papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a sete pés; se batem à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só se decide a abrir ao cabo de um quarto de hora. Se lhe entregam uma carta, fica verde como um afogado. Ora diga-me se é possível que um cristão honrado tenha semelhantes sustos?

—E ela?

—Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha, desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar disso, ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o pai Germinal apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se não fosse a filha, havia de custar-lhe a passar a vida.

—Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...

—Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a porteira.

—É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos namorados?...

—Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua podia... vadiar o seu{25} bocado, requebrar-se, dar ouvidos a lerias, mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu trabalho, volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum remorso tivesse a pesar-lhe no estômago!

—Que espécie de gente costuma receber?

—Gente?... em casa dele!

—Sim.

—Receber?... o sr. Germinal!... Essa é melhor! Se ele nem um gato conhece no mundo inteiro!

—E... os vizinhos?

—Sabe lá sequer quem são! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos.

—Com a breca! murmurou André despeitado; é com efeito um ente bem misterioso, e parece-me assaz difícil domesticá-lo!

—Pois se eu lhe digo que é um urso! Não há exemplo de que tenha dirigido uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e à filha. E pelo que toca a sair do seu buraco, era mais fácil deixar-se fazer pedaços...

Uma pancada, discretamente batida na porta do atelier, interrompeu a senhora Poussignol.

—Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.

A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela abertura.{26}

—Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.

Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar assustado, e pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou, articulando as palavras como se cada silaba lhe fosse arrancada da laringe por um saca-rolhas invisível:

—Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...