Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 14 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo XIV

 

Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.

Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.

Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de quase lhe arrancar os cabelos.

—Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão existem alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»

O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que lhe prometera e que{87} ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... não se é honrado impunemente!

—Sim, senhor, respondeu com voz sumida.

Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e aproximou a cadeira.

—Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.

—É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.

—Em que grau era parente de Onésimo Toucard?

Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal; abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior. Contudo, após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual desembaraço e respondeu:

—Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da família, hoje extinta.

—Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?

—A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim, ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.

—De que modo?

—Por um dos seus anúncios.{88}

—Há cinco anos que os não publico!...

—É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?

—Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.

—Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros, que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em 8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras...

—Foi em Paris que se efectuou a partilha?

—Não, em Liverpool.

—Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou cinco dias apenas?

—Um ou dois, se tanto.

—E o senhor?

—Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para Calcutá, sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em Versailles.

—Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?

—Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...

O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.{89}

—Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos que possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua identidade...

—Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre comigo os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura segura...

E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.

Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres, outrora dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.

—Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas cartas de Onésimo... Conhece-lhe a letra?

—Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.

Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu querido irmão...»

O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e comparou a letra dos{90} apontamentos com a das cartas. Não podia conservar a sombra de uma dúvida.

—Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança, reconheço-o por irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...

—Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a pois... meu bravo!

—Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão pereceu.

Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!

—Entretanto...

—Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que morreu; agora vamos às contas...

—Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e porquê, ele me confiou as suas últimas vontades.

—Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!

O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu interlocutor.

—Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um grande traste!

Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar: {91}

—Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre algum tratante... Mas tratemos agora...

—Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.

E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e depô-las sobre a mesa, uma por uma.

A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco mais.

—Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria. Viva a França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado comigo, lá na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois milhões, consinto em que me enforquem!

O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância de júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...

Pedro bateu-lhe no ombro.

—Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma recompensa...

O senhor Germinal abanou a cabeça.

—Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital devem ter produzido uma continha menos má...

—Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso? Estes valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de minha casa!{92}

—Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações, em terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez render de alguma forma?

—Não, senhor.

—E guardou-os doze anos, assim... num buraco?

—Certamente!...

—Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de catorze anos?

—Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de outrem?

—Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.

—Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.

—Isso é verdade... respondeu Toucard.

E, olhando em torno de si, acrescentou:

—E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a virtude é uma bela coisa!

E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:

—Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...

O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro. {93}

—O que é? perguntou este último.

—É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios, aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e cinquenta cêntimos.

—Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário! exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui tem o maço, tire o que quiser.

O senhor Germinal endireitou-se com altivez.

—Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.

Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com firmeza. Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por ver-se dali para fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mãos do velho, disse-lhe:

—Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto de ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como um burro, mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não ficará assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.

Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou as notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os olhos{94} a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu a escada cantarolando.

O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez tranquilo... e quase alegre também!

Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.{95}