Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 3 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo III

Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha sobre a cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação corria à desfilada, e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em três garfadas e com três suspiros, segundo o uso imemorial dos namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a canção alegre a prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.

Era véspera de Natal. Em toda a linha dos boulevards humildes barracas de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre as suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de ociosos passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da multidão buliçosa e festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra. Voltou a si, como um dormente{12} que desperta em sobressalto, e, poucos minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava, surpreendia-lhe o olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a atenção, uma fisionomia na verdade singular.{13}

 

III

Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.

No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.

A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se bifurcava em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao passo que a pele macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava coberta de manchas lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus abaixo de zero, cobria-lhe a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e cansadas já não tinham cor apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase erma de botões, mal lhe protegia o tronco contra os rigores da temperatura,{14} e os braços mergulhavam até aos cotovelos nas algibeiras de umas velhas calças de ganga.

Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das órbitas para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos: perdigotos recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões enormes, lagostas escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno, cujos lombos prateados vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e as suas ventas dilatadas aspiravam com força as emanações culinárias que saíam pelos ventiladores.

De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva concentrada, um sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço tímido. Passou a mão curta e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados, mais ainda pela atracção dos comestíveis do que pelas luzes. Depois estudou, uma a uma, com angustiosa atenção as figuras que o rodeavam inclinadas para a vidraça. Por fim franziram-se-lhe os lábios num amargo sorriso, e o seu olhar tornou-se carregado. Tirou lentamente o chapéu, e soltando um suspiro, enxugou o crânio calvo, onde brilhavam grossas bagas de suor. Foi então que descobriu André{15} Sauvain, o qual, parado a pouca distância, o observava com crescente interesse. Vendo-se espiado, o velho franziu as negras sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe coloriu o pergaminho das faces; com um gesto indiferente e irónico, tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e balanceando-se à moda dos marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a contrariedade:

—Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me empalhado?

Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais notável ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.

—Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive intenção de o ofender.

—Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?

—É a primeira vez que o vejo!

—Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures... ou ao senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho eu... ou em Calcutá... talvez na Filadélfia?...

—Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.

—E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei. Mas então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?{16}

—Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua fisionomia interessou-me.

—Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de Sócrates... ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso extinguiu-se-lhe logo numa contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e segurou-se, para não cair, ao ombro do moço pintor.

—Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou para o fundo.

André, muito inquieto, amparou-o até ao mais próximo banco e sentou-se ao pé dele.

—Não é nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...

Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as forças. Depois de alguns minutos de silêncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mão uma das pontas da sua longa barba, e fitando André Sauvain, com o seu olhar manhoso e ousado, disse-lhe bruscamente:

—Não receia comprometer-se, senhor?

—Como?...

—Mostrando-se na companhia de um miserável maltrapilho como eu.

André encolheu os ombros.{17}

—Não tenho preconceitos, respondeu ele, nem tão pouco amigos, ou mesmo conhecidos: os meus meios não me permitem esse luxo. Além disso não estou muito mais bem vestido do que o senhor...

—Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... é o que me convém!

—O que lhe convém!... Que quer dizer?

—Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol, procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso ficaram-me as palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é... nauseabundo. Nem todos o entenderiam.

—Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...

—Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.

André sentiu um calafrio no coração.

—Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim, mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que não como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado defronte dessa exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar assim aos esfaimados tantas coisas que fariam crescer água na boca até a um homem farto! Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma noite em que{18} o tinido dos garfos e o glu-glu das garrafas se fazia ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se à mesa; seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao incomodo de articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua fisionomia inspirou-me confiança... parece-se com... com quem diabo se parece das pessoas que tenho conhecido?... Não importa, falei... o pior está passado!

André remexia já nas algibeiras.

—Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me dinheiro... e partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado. Chamo-me Pedro Toucard; é um nome, que não rima com mendigo, nem com tratante. Preste-me um serviço.

—Qual?

—Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto, aqui onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...

—Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a minha bolsa, partilhemos.

E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua fortuna.

As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou{19} aquele metal, como um amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e adorada.

—Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!... eu que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não... não... exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!

—Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.

E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco francos na mão calosa do desconhecido.

Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível luta que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um pardo esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.

—É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca, retendo a mão de André nas suas e apertando-a com energia.

Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos, exclamou: