Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 16 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo XVI

—Coisa nenhuma, neste momento!...

—Aonde vai a correr?

Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com gesto majestoso, e partiu exclamando:

—A casa do meu banqueiro!

E desapareceu.{101}

 

XVI

 

—É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações com a minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um homem surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como corre!... É um furacão!

—Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço pelo de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos castelos no ar! Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os punhos de raiva.

Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em indignação, revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.

Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de peixe cozido,{102} e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis vezes, com intervalos.

Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância fez notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida, tinha bem característica a bossa da teima invencível.

O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com Onésimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más tentações reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus desalentos.

Quando acabou, André disse-lhe friamente:

—Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em repouso; está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que nós, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos sem hesitação ao seu legítimo proprietário.

—Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um mancebo digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe meu filho...

André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.

—Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversê-mos um pouco sobre coisas mais importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...{103}

—Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.

—Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.

O senhor Germinal levantou-se bruscamente.

—Não me entendeu, pelo que vejo?

—Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e que o restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o facto, muito mais importante, de que dependerá o nosso futuro?

—Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade material de minha filha...

—Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a podiam reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?

—Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por aquela obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à sua a sorte de Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela viver neste cacifo? Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os expedientes, as dívidas, os cuidados, a doença... a morte!

—Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora o senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se este{104} consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?

—Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...

—E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?

—Ignoro-o, mas não casará consigo.

—Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas, extinguir-se-ia o sol.

—Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar mais nisso.

—Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a primavera do meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse pedir-me que esqueça Rosa!

—Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não casará com minha filha!

—Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no peito o gérmen de uma doença mortal? E com que{105} direito aquilata pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense, acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta, embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço, corajoso, inteligente e forte?

—Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que, quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos. Não possuirá minha filha, senhor Sauvain.

—Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!

—Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de honra de que não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe acalentar ilusões inúteis. Com essa condição...

—Nunca!

—Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.

—É a sua terminante decisão?

—É.

—Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e eu esperaremos...

—A minha morte?

—Não, senhor; a maioridade de sua filha.

—Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu lhe feche a minha porta,{106} e terá a bondade de renunciar à conversação de minha filha.

—Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo contra sua vontade!

—Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.

E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do atelier.

Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de súplicas; mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André voltou desanimado; ao desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos extremos, as resoluções insensatas, e até uns vagos desejos de lançar fogo ao edifício, precipitar-se através das ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos braços e fugir com ela... fosse para onde fosse!...

André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha, primeiro timidamente, depois com mais força.

Nenhuma resposta.{107}

Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um vizinho desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia.

Depois disto, André desceu ao atelier, atirou consigo para cima do canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.

Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia não surgira ainda.

Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e, com os cabelos eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.

Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.

O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a deitar-se, vestido como estava,{108} dizendo consigo... que ninguém já sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões, adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na sua habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.

—E esta!

Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o bigode eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.

—Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...

—De quê?

—De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...

—Que gente?

—A família Germinal.

André sentou-se de súbito no canapé.

—Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.

—Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.

—Ainda a mesma tolice!{109}

—Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.

—Do senhor Germinal?... Você endoideceu!

—Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...

—O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.

—Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos vidros do meu quarto. Quem é? perguntei eu.—Sou eu, Germinal, responderam. Era já caso para admirar!... pois não era? Um homem que, durante doze anos, não deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo de um braço e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o mês por inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro dele, a que vejo a cor— sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e não sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a de repelão. Puxei a corda e... boas noites!

André parecia uma estátua.{110}

—Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!

—A prova é que tenho aqui a chave da casa.

O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.

O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama não fora desfeita.

André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça sobre o peito e perdeu os sentidos.{111}