Nas Cinzas

Eugène Berthoud · Capítulo 5 de 20

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Nas Cinzas

Capítulo V

André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor Germinal, aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.

—E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...{27}

 

V

 

Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma humana, escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha diante de si.

O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante seis meses em sitio húmido.

Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio de caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu fato cheio de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos, nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedaço de crânio amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos orlados de um círculo desbotado como os{28} dos peixes cozidos, os lábios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era também a sua voz, e até se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso.

Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor Germinal não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um homem tímido, humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma trepidação nervosa inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a atenção alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo verdadeiramente fenomenal para o seu carácter, parecia obrar sob a pressão de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonâmbulo recalcitrante, que o magnetizador dirige.

E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido, lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain dispensou ao pai da sua... quimera loura.

—Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que amável surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como agradecer-lhe...

Pouco faltou para que André ajoelhasse.

O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam a entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos, esfregou{29} lentamente os dedos nodosos, uns contra os outros, e disse:

—É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável verdade, André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.

—Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!

—Muito grande.

—Felizmente o tempo está bom.

—Muito bom.

—Ainda que bastante frio.

—Muito frio.

Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma das mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O senhor Germinal baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela esfregou a outra.

—Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade, poderíamos permitir-nos... um leve extraordinário...

—É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a conclusão a que queria chegar o seu interlocutor.

—Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu vizinho...{30}

O coração de André cessou de bater.

—Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço, sim... tomo a liberdade... de o convidar...

—Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.

—Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um tal... Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...

—Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço cor de ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe unicamente... o favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas às oito e dez minutos... para passar o serão... modestamente... em família.

—Em família! repetiu André extasiado.

—Então... aceita?

—Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio!

O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia consternado.

—Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.

—Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.

Este último encaminhou-se para a porta.{31}

—Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma garrafa de cidra.

—Adoro a cidra!

O senhor Germinal abriu a porta.

—E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.

—Sou doido por castanhas!

A porta fechou-se.

André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do atelier, executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra igual não há memoria!

Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir: «Ora essa!»

Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso sobre a caixa das tintas, derramando algumas.{32}