No Rumo do Mundo de Regeneração

Divaldo Pereira Franco · Capítulo 10 de 21

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No Rumo do Mundo de Regeneração

9. Atividades Complexas no Mais-Além

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ATIVIDADES COMPLEXAS NO MAIS-

ALÉM

 

À medida que o trabalho se avolumava, tivemos que voltar ao hospital onde realizávamos o mister, dando prosseguimento ao socorro de emergência que as circunstâncias exigiam.

No momento em que saímos, o respeitável orientador do novo hospital veio agradecer-nos e solicitou-nos que inscrevêssemos também aquele nosocômio nas atividades espirituais de atendimento desobsessivo a muitos pacientes que se acumpliciaram com as forças maléficas da natureza.

Observávamos o vaivém de familiares e amigos desencarnados que se vinculavam aos pacientes, e chamavam-nos a atenção as interferências perniciosas dos Espíritos ociosos e de outros vingadores com aspectos, confessamos, horripilantes.

Já tivera ocasião de ver essa fauna desencarnada em cemitérios nos quais muitos recém-chegados eram disputados, como ocorre em qualquer feira em que se compram ou se adquirem estranhos serviçais para qualquer atividade, inclusive, para o hórrido crime do homicídio.

Em volta, como se estivessem aguardando comparsas ou vítimas, havia um número expressivo de Entidades errantes e portadoras de carantonhas apavorantes.

Sob a segura direção do nosso Spinelli, mantínhamos o pensamento nos deveres que nos cumpriam executar, sem procurar qualquer tipo de explicação para a população inquieta no lugar.

Nosso mentor comprometeu-se a retornar em ocasiões especiais e volvemos ao nosso campo de ação.

A jovem auxiliar de enfermagem, agora mais calma, preparava-se para seguir ao lar, onde ficaria algum tempo em luto pela desencarnação do irmão e do genitor.

Até as 20h mantivemos o tempo aplicado no auxílio aos internados, aos visitantes, mas também aos desencarnados que pareciam ali residir.

Naquela noite, havia reunião doutrinária no Centro Espírita que era a instituição responsável pela programação de amor e de caridade.

No horário habitual, em razão da quarentena estabelecida pelas autoridades de saúde, não havia participantes presenciais, exceto alguns residentes na Comunidade. Nada obstante, a reunião foi aberta, como habitualmente, e umas vinte pessoas que trabalhavam devotadamente se encontravam perfeitamente sintonizadas com os deveres que lhes diziam respeito.

O orador iria explicar o tema de estudo, baseado num texto de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, a respeito de um tema de grande e sempre atual importância: A felicidade não é deste mundo (capítulo V, item 20).

Foi um momento emocionante, porque, em razão das dificuldades de estarem presentes grupos de pessoas, havia-se resolvido manter as atividades da Casa utilizando-se a Internet, especialmente transmitindo os estudos e permitindo que um número muito significativo de pessoas interessadas no conhecimento da Palavra tivesse acesso.

Visivelmente inspirado, o expositor referiu-se à realidade a respeito da vida nas suas duas feições: a encarnada e a desencarnada, demonstrando a grandeza da imortalidade como única forma de entender-se a Criação na sua profundidade e significativo.

Estendeu-se, apresentando conceitos ricos de experiências e de fáceis aplicações, por aproximadamente quarenta minutos.

A seguir, foi encerrado o labor e todos nos recolhemos um pouco ao ar livre para comentários entre os residentes, assim como nosso grupo e trabalhadores desencarnados da sociedade espírita.

Os socorros de sempre continuavam e a movimentação de amor e caridade junto aos desencarnados em aflição seguia ininterrupta.

Buscamos os nossos cômodos até o momento previsto para nossa reunião mediúnica, dando continuidade aos labores do dia.

Mais ou menos uma hora da madrugada seguimos à sala mediúnica, preparada pela nossa gentil Marta, que recepcionava os convidados e os colocava nos lugares que lhes estavam reservados; quando chegamos, encontramos o diretor espiritual Antúlio, nosso convidado para a programação socorrista especial.

Dois auxiliares do labor trouxeram em sono, por desdobramento espiritual, a jovem auxiliar de enfermagem, que repousava suavemente. De igual modo, veio conduzido o Espírito inimigo, que a estava induzindo ao autocídio, e mais algumas Entidades vinculadas aos pacientes do hospital que nos acolhia.

A reunião foi dirigida pelo irmão Spinelli, que orou com grande unção, rogando o auxílio dos Céus para o nosso empreendimento fraterno, e percebemos suave claridade invadir o recinto com a iluminação diminuída. À mesa mediúnica, entre outros, estavam Cláudio, Gracindo, e Malvina e Amália, nossas queridas médiuns para o ministério do intercâmbio.

Os demais estávamos sentados na primeira fila com os visitantes e os necessitados de atendimento especializado.

O Dr. Eudalbo despertou a jovem sofrida e falou-lhe com muita doçura a respeito da reunião de que iria participar. Demonstrando alguma estranheza, como era natural, manteve-se serena, pensando na Mãe de Jesus e, por extensão, na mãezinha em convalescença e sob a ação da angústia.

Iniciada a reunião, Malvina entrou em transe e começou a estertorar nervosamente sob a indução psíquica do perseguidor da jovem auxiliar de enfermagem.

Blasonava com certo atrevimento, dizendo-se estranho àquele grupo, com exceção da jovem, que se assustou ao reconhecer o comunicante.

Percebendo-se identificado, ele ergueu os punhos cerrados da médium e, transtornado, investiu, embora retido no abençoado fenômeno da psicofonia. Surpreendeu-se de falar pela boca e mover-se no corpo da médium, e, sem compreender exatamente o que se passava, arremeteu com perguntas violentas que lhe explodiam na mente.

– Que sortilégio é este? O que se passa aqui comigo? Que estranho tribunal é este?

Com gentileza, mas severidade, Spinelli respondeu-lhe:

– Não somos um tribunal, nenhum sortilégio estamos utilizando e o que aqui se passa é fácil de entender-se. O caro amigo sabe que já perdeu a roupagem física e que vem afligindo a jovem hoje vitimada por muitas dores decorrentes das mortes do genitor e do irmão pela enfermidade cruel...

Com que direito se propõe a infernizar quem cumpre os seus deveres e ama os seus familiares com elevação? Quais são os seus poderes sobre ela e todos nós, que nada podemos fazer senão sob a permissão das Divinas Leis!? Por que o seu projeto de lhe roubar a existência física, somente porque ela se negou a receber as suas mórbidas carícias?

Sim, é a vítima dos seus assaltos, quando era criança e você procurava molestá-la com frequência. Ela conseguiu fugir da sua doença moral, mas a sua imagem ficou a perturbar-lhe o inconsciente, produzindo-lhe pesadelos hórridos. Felizmente a morte o arrebatou e, viciado, dominado pelo pretérito de devassidão, continuou a sua faina infeliz, reencontrando-a.

– Ela é minha – ripostou o desditoso – e ninguém poderá separar-nos. Existem razões profundas para estarmos juntos e conseguirei, agora, que também ela morra. Sei como manipulá-la e a perseguirei até a consumpção dos meus desejos, escravizando-a aos meus sentimentos. Muito tempo nos une e separa, porém, agora, será para sempre.

– O amigo equivoca-se... Também conhecemos os torpes dias vividos na cidade de Nice, na França, após a revolução, nos dias gloriosos das luzes e das trevas, em uma análise imparcial, o amigo deve-lhe muito mais, pelo que a induziu e culminou atirando-a ao abismo moral e orgânico.

– Se nos conhece, melhor será deixar-nos, como tentaram outros, do que atenazar-nos com as suas forças mágicas.

– A antiga Annette hoje está nas mãos do Senhor, a Quem se entregou desde muito jovem, no período em que você a reencontrou.

Ela renasceu sob a proteção da Senhora de Nazaré, que dela cuida.

Lamentamos os seus projetos, embora fora da roupa carnal. Jamais a arrebanhará para regiões de sombras e misérias. Essa noite terrível já ficou no solo da França e, desde então, nos Céus surgiram estrelas que clareiam as regiões nefastas nas quais ainda as feridas morais exsudam purulentos resíduos das pestes morais.

Agora você está falando conosco através de uma servidora da mediunidade que oferece as suas energias para ajudá-lo na lucidez, no reabastecimento de energias saudáveis e na recuperação do seu organismo espiritual.

Trata-se de uma médium saudável, e você conhece a linguagem que era comum em Nice naqueles longevos dias.

Agora o amigo sentirá um torpor e uma sonolência que o levará ao repouso, para despertar noutra situação.

A jovem acompanhava o diálogo espantada, porque não lograva compreender em todo o seu conteúdo a explicação.

Cláudio aplicou-lhe energias balsâmicas e ela foi desligada da dedicada sensitiva e conduzida à outra sala, onde permaneceria adormecida até ser transferida para a nossa Comunidade espiritual.

Após qualquer diálogo terapêutico de natureza esclarecedora aos desencarnados, faz-se necessário um repouso do paciente para a adaptação à nova ordem de ideias. Chamaremos de convalescença, como ocorre nos equivalentes fenômenos de natureza orgânica terrestre.

A assimilação dos conteúdos é lenta, ocupando as áreas físicas e mentais antes sobrecarregadas pelas energias deletérias.

Por isso, o sono reparador proporciona um benefício inestimável, facultando um despertar menos aflitivo e de certo bem-estar.

Imediatamente Malvina começou a mover-se na cadeira, visivelmente incorporada.

Antúlio acercou-se da médium em transe profundo, e eu notei que o Espírito em psicofonia era alguém com significativa alteração da forma perispiritual. A face era lupina e, embora mantivesse a forma humana, encontrava dificuldade para adaptar-se ao organismo eletrônico da mediunidade.

Observei que, simultaneamente, diversos Espíritos perturbados, que sintonizavam com o comunicante, eram como que telementalizados por ele, que demonstrava na face alterada a máscara do ódio e do desespero, por sentir-se quase que imobilizado, com incapacidade de controlar a própria mente envolta em fluidos escuros que lhe eram habituais.

A nossa Malvina era um Espírito gentil e missionário no sentido doutrinário, porquanto servia à Causa Espírita com abnegação e entrega total.

Desde quando passou a cooperar nas atividades do lar que nos albergava, a sua mediunidade exerceu um papel fundamental nas orientações e programas a serem executados, sem o querer, chamando a atenção dos perversos da Erraticidade inferior.

Inimizades e intrigas acumularam-se em sua volta, gerando incompreensões e difamações, de modo a desanimá-la de prosseguir no ministério da mediunidade com Jesus, isto é, do serviço honesto e desinteressado, que não se circunscrevia aos interesses subalternos de muitas pessoas.

Calúnias bem urdidas tentaram massacrá-la, mas ela não desanimou. Compreendia que, na raiz desses desafios, as pessoas maledicentes e frívolas eram estimuladas por Espíritos do mesmo naipe, que tinham interesse de impedir-lhe o mediumnato, a saudável divulgação do Espiritismo.

Não compreendem, os insensatos, que toda e qualquer perseguição aos servidores da grei, seja qual for, resulta na difamação dos ideais de sustentação das vidas. Era exatamente isto que faziam os irmãos perturbadores equivocados e que a odiavam.

Mais recentemente, menos de um quinquênio, o cerco tornou-se-lhe feroz, porque fora proclamada pelas trevas uma guerra contra Jesus, o Pacificador, o Amor não amado, e, de alguma forma, todos aqueles que buscavam ser-Lhe fiéis foram atacados com inclemência, a fim de ser alcançada a meta existencial da filosofia materialista em desenvolvimento.

Tendo adquirido uma enfermidade orgânica atormentadora, ela sofria dores contínuas e, uma que outra vez, sentia-se fragilizada e quase sem estímulo, porém, atendida carinhosamente pelos seus guias espirituais, prosseguia com os joelhos desconjuntados, fiel ao programa exaustivo e abençoado.

Nesse referido tempo, emoções adormecidas e acalmadas passaram a ressurgir-lhe na mente, a golpear moralmente os seus sentimentos.

Todo médium fiel a Jesus passa por esse caminho estreito, que chamamos via crucis, para melhor instrumentalizar-se espiritualmente para o ministério.

Era o que a nossa irmã sabia fazer: mantinha a alegria da fé, que é uma bênção, sem valorizar as punhaladas espirituais momentâneas, sempre sabendo animar os demais e inspirar ternura em grande número de pessoas, que a envolviam nas dúlcidas vibrações da prece de gratidão e de afeto.

O amor sempre produz ternura em volta e carinho em si mesmo.

A mediunidade é uma experiência de amor na prática, especialmente por ser posta a serviço de necessitados totalmente desconhecidos, fazendo recordar o ensinamento de Jesus sobre o dar com a mão direita sem que a esquerda o saiba...

Muitos candidatos ao labor da caridade pretendem o exibicionismo e o modismo, a atormentada ânsia de fama e de exaltação da personalidade, quando o seu ministério é exatamente o oposto. O médium sincero e dedicado sabe manter as suas faculdades resguardadas da célebre lenda a respeito da mosca azul, cuja picada altera a conduta do indivíduo, concedendo-lhe elevados valores que não possui.

Olvidam-se, muitos candidatos da mediunidade socorrista, dos irmãos da retaguarda, mais sofredores e mais necessitados, e passam a ser falsos intérpretes de Espíritos nobres, que não têm nenhum interesse em exaltar a memória, mas, ao invés, lamentam o pouco que se acreditam haver feito enquanto na Terra.

É de bom alvitre que os bons médiuns, aqueles que trabalham a serviço do bem, não desejem utilizar a mediunidade para receber as fúteis louvaminhas e elogios grosseiros, antes vivendo para o desempenho da tarefa autoiluminativa.

Justo no momento em que o dialogador acercou-se para a conversação edificante, as barreiras de isolamento, que controlavam as Entidades infelizes que faziam parte do séquito do comunicante, permitiram que todos se adentrassem no círculo vibratório das comunicações, com propósitos de fazer algazarra e mesmo tentarem agressão.

O ambiente, porém, não lhes permitia espaço mais amplo para os seus interesses vulgares, assim permaneceram automaticamente em expectativa, enquanto a ocorrência cristã era realizada.

Nesse momento, recordei-me da autoridade de Jesus diante dos Espíritos perturbadores e cruéis. Duas ou três palavras, a grandeza do Seu verbo, a Sua aproximação neles produziam o efeito desejado, que era o de liberar o paciente dos seus tenazes constritores.

Naquele caso, no entanto, o objetivo era fixá-lo nas energias do reencarnado, a fim de que voltasse a experimentar o fluido animal de que se nutria, para uma conversação franca e responsável pelo seu futuro.

Foi o visitante quem, arrogante e cínico, deu início ao diálogo:

– Bem sei o que está acontecendo, em razão da minha posição de chefe de equipe. Tive o cuidado de escolher os meus melhores acompanhantes para esta bizarra apresentação. Bem se entende, portanto, que aqui estou comunicando-me com os senhores por espontânea vontade e pelo desejo imenso de poder declarar com lucidez o patamar das lutas em que nos encontramos.

Para facilitar o nosso diálogo, declaro que não sou partidário das suas ultrapassadas e criminosas crenças. Sou discípulo da dinastia Omíada, responsável pelo califado daqueles que seríamos sacrificados e discriminados, mas alcançaríamos as mais distantes regiões da Terra. Mas isto é história do passado. Agora estamos unidos, sunitas e xiitas, contra o inimigo comum que é o seu Profeta Jesus. No começo O respeitávamos como um dos profetas que vieram preparar o período da libertação por volta da metade do século VII... Logo depois, no período das guerras sagradas, os judeus e cristãos uniram-se contra nós e, desde então, reinamos em áreas diferentes, sendo que, agora, há um pouco mais de um século, desejamos extinguir esses malditos que desgraçaram o Ocidente e parte do Oriente com as falsas crenças, idolatrias, furtos e crimes em nome de Deus, porém do Deus que eles construíram.

Enquanto não vencermos esses desventurados propagandistas da ilusão e do crime, do pecado e do erro, lutaremos das regiões onde nos encontramos, a fim de, por fim, encontrarmos o paraíso preconizado pelo Corão.

– Depreendo que, apesar de desencarnado, ainda não desfruta da plenitude celestial – asseverou o nosso Antúlio, aproveitando-se da pausa natural que o comunicante fez. – Segundo o Alcorão, logo após a morte do fiel, se é justo e devotado, experimenta de imediato as delícias do Paraíso. Como acaba de expor, não é exatamente assim. Isto porque o Reino dos Céus encontra-se no coração pacificado, no sentimento de amor, de compaixão e na conduta reta e gentil para com todos.

Pelo que o amigo acaba de narrar, encontra-se numa província espiritual de lutas, sofrimentos, rancores e perseguições a todos aqueles que não compartilham das suas ideias, qual ocorre no mundo físico. Vocês xiitas têm como lema o sacrifício e a abnegação, que é uma regra muito bela. No entanto, transcorridos séculos talvez da sua morte, ainda não pôde fruir a felicidade, que é o prêmio dessa conduta após a morte.

– É natural – revidou, agora com o semblante da médium totalmente transfigurado, a escorrer pela boca uma baba peçonhenta e fétida. – Estamos buscando o holocausto. Quando recentemente declaramos a guerra total contra Jesus e o Judaísmo, entramos em luta física, abandonando nosso reduto para interferir no comportamento dos homens e das mulheres, achincalhando seus deuses e cultos, ao mesmo tempo instalando o deboche e as aberrações morais, para os vencer mais rapidamente.

– Concordo, sim, com a informação. A criatura humana é ainda mais sensível aos prazeres sensoriais e chulos do que às emoções superiores e dignificadoras.

Nada obstante, Jesus providenciou com antecipação, antes desta grande batalha, enviando à Terra o Consolador, os Espíritos nobres, a fim de restaurarem os Seus ensinamentos e disciplinarem as baixas condutas, fazendo que os Seus discípulos ascendam aos Planos superiores da harmonia.

– É ingenuidade de sua parte acreditar que esses esbirros estúpidos e presunçosos possam enfrentar-nos e superar-nos...

– Não se trata de os superar nem os enfrentar, mas sim de evitar que o mal de que todos vós sois portadores dominem-lhes a forma de viver, afastando-os dos mínimos deveres do amor e da fraternidade. Desejamos, eles e nós outros, os desencarnados do Evangelho redivivo, demonstrar que o Profeta Jesus, por Mohammed respeitado, seja reconhecido como o Guia da Humanidade, que o é. Não se trata aqui de uma vitória física, mas de uma união de sentimentos pelo bem da sociedade...

– Mas o nosso empenho é destruir essa sociedade que se apoia em falsos valores do Cristianismo e do Judaísmo, que em breve serão expulsos da cultura terrestre.

Nosso propósito é insuflar a descrença e, consequentemente, o ódio entre as pessoas agarradas ao materialismo e à ilusão de uma existência única, desbordando-se nas extravagâncias do gozo à exaustão.

As resistências físicas e morais dos seres humanos são muito frágeis... Quando fustigados e despertados para as sensações enganosas, enlouquecem e tudo trocam pelo estranho gozo que os consome rapidamente... Nesse momento, voltam-se para as benéficas experiências do serviço de amor em que se comprazem e se fortalecem, voltando ao vigor perdido. Tem sido sempre assim, desde o período mitológico do pensamento.

O que o amigo vem fazendo é de uma covardia incomum…

– A que se refere? Não lhe entendo a frase.

– Claro que sim. Refiro-me à sua contínua e perseverante perseguição à nossa irmã Malvina, especialmente depois de declarada a guerra. Antes ela sofria a injunção dos inimigos da sua cristalina mediunidade, mas agora é um combate incessante para que não tenha resistência de levar adiante conosco o compromisso que assumiu antes da reencarnação. Vemo-la crucificada em dores e, ademais, sob camartelos de pensamentos perversos que a atormentam e ferem os sentimentos, ameaçando-a de mil formas possíveis de amedrontá-la...

Ela é imbatível porque se apoia na oração e no trabalho da caridade com amor, é abnegada e experimenta o imenso prazer de servir em nome de Jesus, e você bem como os seus biltres esvoaçam em seu contorno, quase não lhe dando trégua para os momentos de paz e alegria.

– É claro que sim! É nossa inimiga e está do outro lado do exército, no lado contrário. Ela é a porta de comunicação, o aparelho que tem desbaratado muitos planos nossos, graças à sua mediunidade. Que pague em lágrimas, o que nos perturba de contínuo.

Odiamo-la com todas as veras do coração. Particularmente, depois que me assenhoreei de algumas suas experiências do passado, detestei a infame e me utilizo – aliás, não sou apenas eu – dos seus calcanhares de aquiles para poder domesticá-la... E afirmo que ela cederá. Está fraca e oscilando, portanto, em um bom momento para nós.

– O que o amigo não sabe é que providências efetivas dos seus guias espirituais concederam-lhe maior prazo para o serviço, prolongando-lhe a existência, mesmo com as dores, que terminarão por sublimá-la. Ou desconhece que a dor resignada e bem vivida constituía bênção de Deus àqueles aos quais Ele ama? Aqui estamos a ajudá-la e o trouxemos aqui – sublinhou o verbo – para este encontro que muito nos felicita.

O inimigo percebeu o que ele quis dizer e verberou furioso:

– Vimos, eu e todos que aqui estamos, porque eu sabia que era uma batalha que iríamos travar, e eles esperam somente um sinal para demonstrarmos nossa força, fazendo aqui uma baderna.

– Prevendo qualquer atitude dessa natureza, muito comum a amigos como você, também tomamos providências...

Muito difícil descrever a ocorrência inesperada.

O comunicante começou a falar em árabe e a gesticular fazendo movimentos ritualísticos, como num transe religioso, e os acompanhantes puseram-se a gritar e a fazer soar pequenos tambores que retiraram das longas indumentárias, enquanto cantavam com extravagante ritmo.

Alguns deles retiraram os mantos que os envolviam e deparamo-nos com um grupo feminino em quase total nudez, que, ao ritmo da música selvagem, puseram-se a dançar de maneira luxuriante, e a sala, antes debilmente iluminada, foi invadida por uma nuvem densa com aves estranhas e lúgubres que crocitavam em desordenada algazarra...

Os encarnados iam ser fisicamente agredidos, quando caíram uns cones transparentes que os envolveram e, subitamente, uma luz mirífica desceu como se fora um manto protetor e a claridade voltou ao normal, porém, em tonalidade azulácea, na qual centenas de pontos luminosos mais fortes brilhavam incessantemente.

No mesmo instante, adentraram-se na sala alguns Espíritos trajados de forma inusual, sufistas, que pareciam em transe, em razão do semblante iluminado e sereno, que começaram a recolher os atormentados que tentavam gerar tumulto.

Os tambores pequenos silenciaram e uma doce voz fez-se ouvir, saindo de um foco de luz que flutuava na sala e lentamente tomou a forma feminina:

– Ibn, Jesus compadece-se de ti e pede-me para recolher-te ao meu coração de mãe saudosa! Não blasfemes mais e sê dócil à voz da Verdade.

Acercou-se nimbada de claridade brilhante e aproximou-se da médium em transe profundo.

O Espírito que a incorporava deu um grito, gesticulando e falando árabe, atirou-se-lhe nos braços acolhedores.

Os sufistas, que ainda estavam no ambiente, acompanharam-na e desapareceram com a nobre Entidade.

A médium foi carinhosamente amparada, enquanto Cláudio lhe aplicava passes e respirava-se o suave odor de rosas.

Um grande silêncio tomou conta do ambiente e emoções variadas agradeceram à Misericórdia Divina.

Parte de uma grande luta espiritual encerrava-se sob o orvalho da oração, abrindo novos capítulos para o futuro.

A devotada médium vinha sofrendo ultimamente mais investidas do que anteriormente, pelo fato de sua entrega total ao ministério da paz entre as criaturas e especialmente em razão dos acontecimentos tenebrosos fomentados pelos adversários da Luz e semeadores das sombras do mal.

Agora, por certo, embora continuasse o cerco dos inimigos do Cristo, as dores da médium seriam atenuadas, em face de ser o irmão Ibn o responsável mais direto pelo nefando cerco.

Havia, naturalmente, outros adversários que permaneciam a distância sob o domínio das mentes demoníacas, gerando sofrimentos e programando desaires para os trabalhadores da paz.

A pandemia traiçoeira que se abatia sobre a Humanidade e trazia uma programação destrutiva de grande porte também responderia por muitos outros males que assolariam os países em geral, as comunidades em particular e as criaturas especialmente.

Aqueles que se recuperavam da doença ficavam marcados com as cicatrizes morais na alma e nem sempre reconhecidos a Deus pela cura de que foram objeto. Além disso, os dramas econômicos que irão sacudir os povos em recuperação quando passar os seus momentos mais cruéis, a incidência de crimes de muitas naturezas, os rancores acumulados e os sentimentos de vingança inútil continuariam consumindo populações volumosas.

Ademais, os problemas dos relacionamentos políticos abalados, dos contratos não cumpridos, das suspeitas surdas e declaradas, dos espectros da fome e da miséria econômica resultantes dos períodos de quarentena, sem trabalho, sem produção e em reconstrução lenta eram os dolorosos efeitos que coroariam os futuros dias de paz, quando chegassem.

Desse modo, instalaram-se as pandemias morais da indiferença pela dor do próximo, pela sobrevivência de alguns que foram poupados, ao lado, certamente, das bênçãos que deveriam servir de alicerce a todos para a construção de uma nova sociedade, de instituições com outros valores e de uma Humanidade mais compatível com as Leis de Deus.

Naquele momento, porém, o ministério de socorro imediato caracterizava-se pela compaixão, pela necessidade de diminuir os danos e o contágio pessoal, renovando o ânimo de todos que se encontravam abatidos e desconfortáveis.

A reunião mediúnica teve prosseguimento, porquanto a nossa Amália entrou em transe e imediatamente o irmão Spinelli foi atendê-la.

Tratava-se de um recém-desencarnado pela Covid-19.

A sua situação era deplorável pelo sofrimento que exteriorizava, debatendo-se na organização mediúnica e suplicando socorro para não desencarnar...

Era um cavalheiro de 58 anos, aproximadamente, que fora diabético e tivera vários episódios de AVC, havendo sido contaminado por certa irresponsabilidade, tendo-se exposto em ambiente infectado.

O diálogo foi aflitivo porque o desencarnado não se houvera preparado de maneira alguma para a realidade do Mais-além.

Estava sendo atendido por solicitação do administrador Gracindo, que era seu filho e acompanhara o drama da enfermidade até a sua consumpção em menos de duas semanas.

Além do mais, a perturbação do genitor estava atingindo a viúva, que era muito sensível e nunca se preocupara em cuidar da sua realidade espiritual, apesar da dedicação do filho, convicto das verdades espirituais.

Mais duas comunicações tiveram lugar e as atividades foram encerradas à hora regulamentar, quando retornamos aos nossos cômodos e encaminhamos os reencarnados que haviam sido convidados à participação na tarefa ora concluída.

A madrugada avançava tranquila, aureolada de estrelas e de uma franja de luar distante.

“O amor, sem dúvida, é o melhor instrumento para

facilitar a autodescoberta, o encontro com o Si mesmo,

ajudar na aventura grandiosa de conquistar o infinito e

plenificar-se.”

Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco