No Rumo do Mundo de Regeneração

Divaldo Pereira Franco · Capítulo 16 de 21

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No Rumo do Mundo de Regeneração

15. A Cidade da Justiça

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A CIDADE DA JUSTIÇA

 

Q uando alguém elege trabalhar na Vinha do Senhor, não mais dispõe de hora vazia nem desencanto no serviço, porque tudo são oportunidades de reflexão e aprendizagem.

No reduto onde estagiávamos jamais faltava ensejo de ajudar. As criaturas estão sempre em processos de aprendizagem variada, não lhes sendo poupadas as mais diversas experiências que contribuem para a sua evolução.

Posteriormente às comunicações mediúnicas já relatadas, quando foram atendidos o anão e o senhor bispo, recebemos instruções dos programadores das atividades fundamentais para estudarmos a possibilidade de uma visita às furnas onde se refugiavam os Espíritos denominados justiceiros.

A localização era conhecida pelo irmão Spinelli e principalmente por Eurípedes, situando-se em região pantanosa, próximo a uma cadeia de montanhas muito conhecidas.

Pela manhã, em nosso setor de trabalho, reunimo-nos e o mentor apresentou uma planta cuidadosa da referida comunidade. Através de um projetor sobre tela, observamos fascinados os desenhos vivos da localização, ao mesmo tempo a movimentação que dava vida aos gráficos muito bem delineados.

O pântano imenso, parte coberto por vegetação espessa e parte descoberto, onde flutuava uma espuma escura e putrefata, era espantoso pelo empestar do ambiente com uma névoa escura e compacta, exalando odor pútrido.

Era antecipado por um charco lodacento e pestilencial em pleno coração de uma floresta sujeita às marés que traziam lixo e cadáveres de animais, tornando a região portadora de terrível podridão.

Aves de hábitos necrófagos e de tamanho exagerado voavam em volta, crocitando ameaçadoramente numa região sombria na qual não penetrava a luz solar.

Seres disformes, ligeiramente parecidos aos biótipos primitivos e peludos segurando troços de madeira rondavam a periferia com o exterior, na condição de guardas ou vigias.

Sons estranhos e funéreos surgiam e desapareciam em espocar de trovões antecipados de relâmpagos e raios que rasgavam a treva e pareciam fender o solo sacudido pelo seu impacto. Era semelhante ao período dos primeiros hominídeos (Homo erectus), mais símios que humanos.

Ainda arqueados, gesticulam com todo o corpo sem poderem articular sons que correspondam à comunicação verbal.

Aguaceiros constantes e gelados tombavam sobre a temerária região, tornando fantasmagórica e diluviana toda a área.

Essa era a visão da planta apresentada no seu aspecto real, embora no exterior, físico, essas características permanecessem com aspecto tenebroso...

O benfeitor explicava que a construção multissecular fora aproveitada, em razão das condições geográficas primitivas e durante séculos, desde o período das invasões bárbaras, e foi sendo ampliada e trabalhada para os fins hediondos a que seria dedicada.

É provável que, na extraordinária obra de Dante Alighieri, Virgílio houvesse conduzido o poeta, em desdobramento parcial pelo sono, a região semelhante na face da Terra, que detém número considerável em diversas partes do planeta, dando lugar à conceituação tenebrosa do Inferno.

O objetivo era encontrar um ponto frágil que nos permitisse adentrar nas imensas fronteiras daquele submundo e, naturalmente, darmos início aos estudos de transladação; em considerando a transformação moral dos seus habitantes, aos milhares desde priscas eras, seria muito mais complexo do que o planificado para produzir-se esse deslocamento físico da comunidade e dos seus habitantes que recalcitrassem ante as providências que os poderiam retirar para reencarnar-se ainda na Terra.

A projeção muito especial era impressionante, como se estivéssemos na região hostil.

Após os minudentes estudos, Eurípedes propôs que se aguardasse a noite, portanto, momento mais sombrio, e que o nosso grupo, estando próximo de um dos acessos bem guardados, quando chegassem alguns arrebanhados encapuzados, uníssemo-nos a eles, atravessando a estreita ponte distendida sobre o tremedal e lá dentro poderíamos misturar-nos aos sucessivos grupos deambulantes pelos espaços de movimentação.

Resolução aceita, foi-nos proposta uma conduta mental de compaixão e de misericórdia, de maneira que nos revestíssemos de couraças vibratórias que nos protegessem das urdiduras tóxicas do ambiente nefasto e, ao mesmo tempo, permitisse-nos atingir a meta que ignorávamos pessoalmente.

Para mim, ainda inexperiente em tecnologia transcendente, o curioso era observar que na planta projetada, à medida que nos detínhamos em qualquer detalhe, este adquiria vida e surgia em terceira dimensão.

As horas transcorriam conosco nas imediações do tenebroso local, encoberto por densa camada de vibrações de muito baixo nível, emanada pelos ali residentes e suas ações nefastas.

Nesse ínterim, acercou-se-nos um grupo expressivo de Espíritos que se identificavam pelas funções que exerciam. E de fato demo-nos conta de que se tratava de especialistas em um tipo de engenharia que eu desconhecia.

Recebidos afetuosamente pelo benfeitor Spinelli, que os aguardava com discrição, tiveram acesso de imediato ao painel no qual refletia a planta da comunidade que acabáramos de conhecer naquela projeção especial.

Eles remontaram aos alicerces das construções nas furnas da triste paisagem que logo mais deveríamos visitar.

Comentaram detidamente uns com os outros a respeito dos equipamentos especiais que pudessem deslocar as edificações fluídicas sobre os subterrâneos e salas sombrias, transformadas em estranhas habitações punitivas e residências coletivas promíscuas e miserandas.

Após as análises minudentes, foi exposta a maneira mais eficiente para a transplantação de todo o conjunto, permanecendo as edificações da Natureza que futuros espeleólogos iriam identificar como galerias fantásticas sem terem a mínima ideia do que ali havia ocorrido por séculos...

Para completar o plano de transferência da cidade, tornava-se inevitável penetrar nos seus meandros.

O Amor do Pai Celeste, que sempre busca liberar o Espírito do crime, e não o punir pelo desar praticado, facultava que caravanas espirituais misericordiosas visitassem o paul de sofrimento para acolher aqueles que se encontravam arrependidos sinceramente no lodaçal da entrada.

Animais viscosos e estranhos, muitos deles resultado de fenômenos de zoantropia, misturavam-se a batráquios e outros repelentes, em ininterrupto afogar-se sem parar. Estavam desencarnados, sim, porém despertaram naquela terrível prisão a céu aberto, cujas emanações pantanosas cobriam o brilho das estrelas.

Havia permanente tempestade específica no ar, que chibatava inclemente a região, e de vez em quando produzia chuva e frio cortante. Os relâmpagos e trovões eram pavorosos.

Mesmo aqueles atormentados que tentavam fugir pareciam apoiar-se à lama movediça que os não sustentava e cedia ao seu peso, afogando-os de contínuo.

Santa Isabel de Portugal e inúmeros grupos na sua caridade inspirados visitavam aqueles pélagos, em homenagem à Mãe Santíssima, com equipes de socorristas com redes luminosas magnéticas que, atiradas sobre o tremedal, permitiam a retirada daqueles sofredores sinceramente modificados, que se imantavam às suas malhas, sendo recolhidos. Quando, entretanto, não se tratava de uma transformação interior legítima, rompiam-se as malhas em que se agarravam e voltavam a cair no abismo.

Ninguém consegue ludibriar as Leis Universais, nem se consegue exceção.

A região era, mesmo para nós, de difícil acesso, embora a nossa melhor boa vontade. Entretanto, técnicos de socorro e visitação habitual haviam traçado rotas em linha indiana, na qual se tem apoio para alcançar a entrada de acesso ao interior.

Organizando-nos à noite, que chegara fúnebre ao local, no horário estabelecido, reunimo-nos todos à borda do imenso rincão de horror e oramos emocionados, iniciando a travessia.

Ouvíamos o clamor da tempestade e dos seres espirituais em lamentos e queixas horríveis, misturados a vozes de aves hórridas que voavam sobre nossas cabeças.

Fôramos advertidos a termos cuidados com o nosso sentimento de compaixão das suas dores, compreendo, porém, que todos haviam elegido espontaneamente o habitat, porque havia também os farsantes que imploravam misericórdia, conforme as sereias mitológicas do livro A Odisseia, escrito por Homero, que arrastavam com as suas melodias os navegadores distraídos ou curiosos, a fim de devorá-los depois...

Vimos vários exemplos de seres chorosos e mistificadores que surgiam à nossa frente inspirando-nos piedade, no entanto eram ardilosos obsessores tentando afastar-nos do roteiro de segurança para tombar-lhes nas seduções.

Com aproximadamente meia hora, atravessamos o charco pestilencial e alcançamos o patamar sólido.

Acima da hedionda e sombria entrada via-se uma tabuleta mal-apresentada e grotesca, com a inscrição Cidade da Justiça.

Embora acostumado a visitar regiões dantescas, um inexplicável horror começou a apoderar-se-me.

Vigilante e amoroso, Eurípedes percebeu-me a angústia e, de imediato, com uma forte vibração mental, instigou-me:

– Pense em Jesus e Seu Amor, porque aqui estão em maioria aqueles que O detestam e aqueloutros que O defraudaram...

Recompondo-me imediatamente, mantive o pensamento no Sermão da Montanha, ao alcance de todos nós, e em número volumoso espalhamo-nos pelos amplos meandros de horror, sabendo a hora do reencontro para o retorno.

Cada grupo tinha uma função especial adrede estabelecida.

Nossa equipe reuniu-se e avançou pelo que seria um corredor central largo e de acesso a salas laterais.

Não havia curiosidade em nenhum de nós, antes o interesse de conhecer esse submundo espiritual que existe em nosso interior, cujos atos vulgares e infames põem a descoberto quando nas experiências carnais, assinalando nosso perispírito com os valores que nos caracterizam e a morte nos leva a vivenciá-los.

O pandemônio era chocante, e as aberrações, inimagináveis, praticadas em toda parte, num espetáculo deprimente e nauseante. As exsudações pútridas infestam tudo e era necessário um bom controle mental de nossa parte, a fim de permanecermos seguindo ao objetivo que ali nos levara.

Subitamente alcançamos uma sala ampla, na qual se atropelavam os residentes e dava-nos a impressão de que era momento de algum julgamento.

Um vergonhoso simulacro de justiça era representado por alguns perversos árbitros, que se sentaram num ridículo tribunal no qual estavam diversos Espíritos apavorados que deveriam ser sentenciados...

Numa agitação infrene entre gritos e chibatadas aplicadas por auxiliares do hediondo tribunal na turbamulta, foram sendo julgados os criminosos, alguns deles representantes de cultos religiosos enganadores, líderes comunitários e administradores que usurparam os bens públicos.

Apavorados, cada qual procurava justificar os atos ignóbeis sob acusações inclementes que negavam, mas terminavam por ceder, em face da apresentação das cenas indignas que eram expostas numa tela muito grande, na qual eram projetados alguns dos momentos incríveis em que delinquiram...

Dei-me conta de algumas atitudes no capítulo das obsessões, quando gravam algumas cenas covardes e ignóbeis daqueles aos quais pretendem submeter, ao mesmo tempo que por telepatia transmitem culpa e ressentimento de si mesmos. Na grande maioria das vezes, a momentânea vítima tombava nos quadros mentais, que os aturdiam.

As punições eram cruéis, irrevogáveis até futuro julgamento, quando expungissem parte delas.

Alguns Espíritos deformados em processo degenerativo na aparência, quase inconscientes do que ali se passava, foram transferidos para outro ambiente, no qual seriam hipnotizados para completarem as modificações ideoplásticas.

O enfermo era sentado em um tipo de cadeira especial e a ela atado. Colocava-se sobre sua cabeça uma coroa metálica, semelhante à que se aplica nos condenados à morte por eletricidade, e fios pesados se ligavam a equivalentes equipamentos dos justiceiros hipnotizadores. Estes emitiam com força mental: “Você é um lobo; todo você freme de forma lupina; assuma a sua real personalidade”, enquanto as pequenas mudanças que traziam na face eram acentuadas, produzindo a hipnoplastia...

Eram transferidos para uma seção ao lado em sono profundo e, ao despertarem, haviam-se transformado nas construções mentais que foram aprimoradas no setor terapêutico.

Seguimos em frente e vimos verdadeiras celas de presídios insólitos, nos quais em tumulto e desespero verdadeiras feras se encontravam detidas.

Posteriormente, o abençoado Eurípedes esclareceu-nos que, nos períodos graves dos movimentos guerreiros na Terra, essas Entidades são liberadas e passam a contribuir com os horrores bélicos.

Neste momento em que uma tremenda obsessão coletiva avança pelo planeta, são incontáveis os Espíritos desse molde moral liberados na hedionda campanha de perversão dos sentidos e sentimentos, na pantomima do ódio contra Jesus e os Seus discípulos, nas biografias de caráter destrutivo de mulheres e homens que edificaram o bem na civilização, apresentando-lhes falhas que se encontram na imaginação dos autores, tudo fazendo para confundir.

Ao mesmo tempo, espalham meias-verdades, que são mais perigosas do que as negativas, porque transtornam o pensamento e a conduta das pessoas imaturas e ingênuas que ainda não se encontraram.

Mais adiante, vimos o desfile que é habitual como divertimento para os infelizes que enxameiam, cuja sordidez é difícil de descrever.

A imaginação enlouquecida dos maus indivíduos não tem limite, o que dá lugar às mais inconcebíveis manifestações exteriores, que os aprazem, e mais se perdem nos dédalos das aflições sem medidas, até o momento quando a Divindade interfere por meio de expurgos coletivos quais os que estão sendo acionados neste período.

Comecei a perceber que nosso grupo se destacava pela indumentária e forma de comportamento, chamando a atenção, a princípio, de um ou outro Espírito, e logo começamos a ser seguidos por uma turbamulta. A aglomeração que crescia foi-nos empurrando para outro salão, onde havia um estranho trono e alguns móveis esquisitos.

Soaram estranhos cornos, e ao meio de uma dúzia de terríveis indivíduos lupinos estava um ser monstruoso, carregado entre archotes de chamas avermelhadas, enquanto se cantava uma canção fescenina.

Fomos retidos pela turba, e, de imediato, o chefe foi colocado no trono ridículo.

A balbúrdia era terrível, assim como os odores no ar pesado e sombrio. A furna iluminada por archotes era infernal.

Misturavam-se os sons mais estranhos aos bramidos do mar dos sofrimentos suplicando socorro; gargalhadas de loucura mesclavam-se com os gemidos por todo lado.

...E o canto de deboche tentava suplantar a desordem.

Fomos sendo empurrados sem agressividade para o centro da sala e, quando chegamos ao lugar que lhes parecia próprio, afastaram-se ruidosamente, deixando-nos a sós.

Olhei para os semblantes dos irmãos Eurípedes e Spinelli, neles encontrando uma serenidade superior e um suave brilho que lhes expressava a sintonia com Jesus.

Talvez eles esperassem aquele acontecimento ou tivessem algum plano que ignorávamos.

Nós outros, que experimentávamos a ocorrência por primeira vez, embora confiantes, encontrávamo-nos expectantes.

Naquele instante, em que a baderna parecia atingir o absurdo, captamos o pensamento vigoroso do mentor, que nos convocava à confiança irrestrita no Pai de Misericórdia.

Uma harmonia sutil banhou-nos, e eu lembrei-me do holocausto dos cristãos primitivos.

Repentinamente, ao som forte de tambores surdos, houve um inesperado silêncio.

O chefe, com aparência tribal, levantou-se e todos se ajoelharam, enunciando expressões chulas e de bajulação, num espetáculo realmente caricato, ridículo.

Ele sentou-se novamente, com pompa e aspecto fescenino, como se estivesse divertindo-se com a situação invulgar.

Indagou-nos, então, com uma voz roufenha e ameaçadora:

– Quem são vocês e o que desejam aqui? Ademais, como se adentraram em nossa cidade sem credenciais de autorização?

Eurípedes deu dois passos à frente e, fitando-o com um olhar de comiseração, respondeu:

– Somos discípulos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e aqui vimos em Seu nome dar notícias do Seu Reino...

Não terminara a frase e irrompeu uma tempestade de chistes, deboches e acusações.

O chefete pediu silêncio com gritaria estrondosa.

– Prossiga! – impôs com irreprimível ira. – Quais são essas notícias?

Sem alterar-se, o cristão primitivo, que se não perturbou no passado ante o testemunho glorioso, redarguiu:

– Estamos atravessando o período denominado como fim dos tempos maus e logo mais a justiça real será estabelecida nos corações espirituais da Humanidade, sem disfarce nem dominação arbitrária que se impõe pela força...

Porque esta é tida como a cidade que a ela se dedica, fomos enviados para convidarmos todos ao despertamento da Verdade, libertando os seus escravos, abrindo as portas dos cárceres, desocupando os antros do que chamam de aplicação das regras dominadoras e facultando aos condenados a oportunidade de arrependimento dos gravames praticados, a fim de reencarnar-se em massa para a redenção nos próximos “últimos dias”...

Não concluiu o pensamento, quando alguns bestas-feras se aproximaram agressivos e tentaram atacar o nobre missionário do amor, porém se detiveram imobilizados por estranha energia.

Azagaias e pedras, lixo e quanto estava próximo foi atirado como chuva de ódio sobre nós; tudo, porém, pairava no ar, escurecendo mais o recinto sombrio.

A cena imprevista causou estupor, especialmente quando o dominador gritou para os seus guardas, alguns com aparência canina, outros lupina:

– Arrastem-nos até aqui, mais próximo de mim, para esbofeteá-los.

Diversos aproximaram-se com estardalhaço, como se ali fosse uma arena de combate, porém, quando saltaram sobre o nosso pequeno grupo, ficaram paralisados no gesto ameaçador.

Eurípedes aproximou-se espontaneamente do palanque onde estava o arremedo de trono e disse com serenidade sublime:

– Aqui vimos em paz com o objetivo de ajudá-los a mudar de atitude, encaminhando-os à luz do Divino Amor, e somos agredidos pelo ódio e pelo medo que a todos domina.

Jesus é o Senhor e ninguém O vence, porque é a Luz do mundo e a Porta para a salvação. Por que o odiais?!

A algaravia era ensurdecedora. A massa espiritual imensa, porque atraía outros passantes e atormentados, estava enfurecida e descontrolada.

Alguns gritavam com medo, supondo estarem diante de figuras dos deuses mitológicos e devastadores, também infernais e mais poderosos do que esses que os infelicitavam, e ajoelhavam-se, arrastando-se pelo piso imundo.

Vociferando e com os olhos em brasa, o algoz ergueu sua lança primitiva e o escudo ameaçadoramente, descendo alguns degraus e, vis-à-vis, deteve-se diante do Apóstolo Sacramentano.

– Odiamos o seu Governante e construímos este reino para a justiça das Suas vítimas.

Todos que aqui residimos estamos em processo de recuperação dos males sofridos pelos Seus representantes, e hoje desejamos que todos vivam o gozo sem fim que Ele tentou inibir com a Sua falsa pureza.

Destruiremos a memória do farsante da Cruz, apresentaremos as Suas e as misérias dos Seus seguidores que foram impostos a sociedades dos tempos passados através da História.

Não cessaremos ou diminuiremos o nosso avanço, especialmente do grupo que logo mais seguirá na direção das criaturas humanas para exterminar os desventurados que a Ele se apegam.

Nesse momento, ouvimos um alarido de vozes incontáveis que formavam uma espécie de exército e se preparavam para atacar os seres humanos, ampliando o pavor da pandemia e dos atos criminosos que estavam atingindo as famílias desajustadas nos lares...

– Eu venci Roma, depois destruí suas igrejas absurdas e devassas, matei os Seus adoradores. Voltei e comandei milhares de homens, implantando o terror e a destruição durante a Idade Média...

– O irmão blasona a respeito do passado que não anulou Jesus – retrucou-lhe o cristão decidido.

– Mas O desmoralizamos, renascendo muitos de nós sob a Sua proteção e da falsa Igreja, reduzindo a crença pela ignorância e pelo ódio...

– No entanto – adiu Eurípedes –, Ele voltou com os Seus abençoados discípulos, os missionários, para reabilitar o mundo ingrato, e agora Sua Doutrina ressurge através de nós, os imortais.

Enquanto acontecia o confronto, pude notar a presença, na multidão, de alguns dos nossos companheiros que aguardavam no local reservado ao reencontro e foram atraídos à sala do formidando debate da luz contra a treva.

A situação fazia-se cada vez mais grave, rica da beleza da fé do nosso benfeitor de tal forma que, ante os fatos extraordinários que aconteceram com os agressores, passou a influenciar os tementes encarcerados, que não entendiam exatamente a ocorrência.

O ambiente tenso e exsudando baixíssimas vibrações, ante a mente cristã do nosso grupo, foi permeado por tênue claridade que não apenas se misturava na densa névoa, como envolvia o combatente do Evangelho.

Nesse comenos, ouviu-se um estrondo estranho na imensa caverna, que ficou repercutindo nos diversos cômodos, assustando os residentes.

Tive a impressão de que o furioso controlador da cidade iria atacar fisicamente o antagonista, tão próximo se acercara, numa transformação monstruosa de um gigante lendário e destruidor, quando, profundamente compadecido, Eurípedes lhe disse:

– Meu irmão, aproveita este momento. Jesus espera por ti. Rende-te à Sua Misericórdia e liberta-te do ódio que te consome.

– Nunca! – berrou o adversário. – Persegui-lO-emos até a consumpção d’Ele ou a nossa. Não se trata de uma questão banal... São séculos de rancor e luta, sendo que, desta vez, nossos exércitos espalharão o horror e o crime entre aqueles que se Lhe vinculam. Muito em breve daremos as ordens de comando e iremos pessoalmente dirigir a ofensiva.

Não me venha também com truques circenses, paralisando os nossos membros, lembrando-se de que são invasores de propriedades que lhes não pertencem. Desnecessário informá-lo de que também disponho de recursos dessa e de outra natureza.

Ato contínuo, voltou-se na direção dos Espíritos imobilizados em atitude viva de agressividade e, enunciando algumas palavras que pareciam cabalísticas e fazendo gestos algo ridículos, devolveu-lhes os movimentos a ponto de tombarem no chão.

No mesmo instante, o visitante que representava o Senhor concluiu a nossa visita:

– Cumprimos com o nosso dever. Ainda é tempo, desde que, ao sairmos daqui, já não teremos alternativa senão transplantarmos a cidade para a região do exílio que receberá os maus.

Caminhando vagarosamente entre os aturdidos – alguns choravam e pediam apoio, outros gargalhavam bestializados –, retornamos à entrada, onde encontramos os demais companheiros e fizemos o caminho de retorno.

A noite estava banhada pela palidez de uma luz turva, que mal vencia algumas camadas carregadas de densas vibrações inferiores.

“As Sublimes Leis não convêm com os

desastres morais que praticamos,

seja qual for a justificativa, sempre falsa.”

Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco