No Rumo do Mundo de Regeneração

Divaldo Pereira Franco · Capítulo 19 de 21

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No Rumo do Mundo de Regeneração

18. Movimentação Bem Coordenada

18

 

MOVIMENTAÇÃO BEM

COORDENADA

 

E nquanto cuidávamos de alguns problemas de obsessão e correlatos, o grupo de especialistas que visitou a caverna havia conseguido mapear as furnas mais profundas e alguns abismos internos que serviam de presídios para os Espíritos mais rebeldes.

É muito difícil definir quanto gostaríamos de explicar como era a região em que estava a Cidade da Justiça, tais as condições físicas do lugar em que fora edificada, assim como eram os tormentos daqueles que a habitavam.

Existem na Terra favelas de miséria absoluta, nas quais o ser humano chafurda com suínos, bovinos, répteis e formas de seres hediondos e outros animais no mesmo ambiente, e alimentam-se quase que mesmo do que encontram em absoluta decomposição e estado de degradação. Misturam-se dejetos com alimentos e água infetada é servida para todos os fins. As furnas, no entanto, ultrapassavam essas paisagens, pois que dificilmente se podia identificar seres humanos com outros animais ali em promiscuidade.

Havia alguns séculos que Entidades primitivas que guerreavam no planeta, submetendo nações, arrasando povos e destruindo vidas, quase tudo reduzindo a pó e a destroços, resolveram criar aquela cidade sinistra para servir de antro punitivo aos considerados inimigos ou credores das suas tormentosas posturas infernais, em nome da ignorância reinante.

Naquela hora do encerramento da utilíssima reunião mediúnica, fomos convidados a participar de um debate fraterno sobre a transferência da Cidade da Justiça para outra dimensão.

Já estávamos informados da localização do astro onde ficariam os aprendizes recalcitrantes em estágio de purificação.

A constituição física do lugar era bem parecida com a Terra de alguns bilhões de anos de organização e habitabilidade.

O aspecto da matéria em ebulição de muito elevada temperatura, qual ainda ocorre hoje em nosso orbe terrestre, na barisfera, era local apropriado, na parte superior, na crosta para a fixação dos alicerces transplantados.

A atmosfera na região, se assim podemos denominar, era carregada de elementos químicos venenosos, que acumulavam partículas quentíssimas dentro, misturando-se à massa ígnea que os vulcões vomitavam ininterruptamente, flutuando sobre área muito escura.

As montanhas sacudidas por convulsões contínuas mantinham o aspecto fantasmagórico e apavorante.

Não havia como perceber se havia na sua periferia ou entranhas a vida sob qualquer aspecto.

Ventos fortes sopravam em desordem e tudo em volta conduzia a uma visão infernal.

Alguns dos engenheiros que estiveram conosco na cidade apresentavam os planos em aparelhos eletrônicos.

As imagens, os traçados, os contornos sem negro e os registros, como eram vivos e apresentavam-se em terceira dimensão, facultavam ver-se em profundidade o interior na realidade do conjunto...

Com razão, no passado, os médiuns e sensitivos em geral, os santos e os mártires, assim como os místicos eram conduzidos ao Mundo espiritual através do desdobramento pelo sono e tomavam conhecimento da realidade que defrontavam, retornando com as ideias que se infiltraram na ignorância do povo, a respeito do Purgatório, hoje eliminado da Igreja de Roma, e principalmente do Inferno. No sentido oposto, um e outro, igualmente em desdobramento, também visitavam as regiões felizes, a que denominavam Céus e os classificaram, conforme o cabalismo, em sete faixas até a sublimação, o mais alto degrau da glória e da Espiritualidade.

O estudo e a lógica da Doutrina Espírita demonstraram que são educandários para os alunos terrestres após a morte do corpo.

Prolongamento da vida física, são frutos do pensamento coletivo dos desencarnados, que geraram pela ação da mente atormentada e culpada tais redutos também transitórios de purificação.

A área ocupada pela planta era expressiva e, por isso mesmo, a transplantação para outra localização exigia muita habilidade e cuidadosos cálculos matemáticos.

Um deles, dos engenheiros, vivamente preocupado, após considerações profundas e oportunas, esclareceu:

– Iremos transferir para o novo lugar áreas muito grandes, usando aparelhos tipo gruas, guindastes e outros que são especialmente desenhados para esse fim, com trabalhadores todos treinados para a alteração paisagística.

Tive a impressão de que lhes era familiar o empreendimento de engenharia, pois que a condensação de idioplasma dava-se passando do habitual estado de fluidez para formas visíveis e palpáveis.

Referiu-se à transferência no passado próximo dos monumentos egípcios, que foram transferidos para outro lugar, a fim de sobreviverem ao lago de Assuan, no Egito.

Tudo foi feito com engenho e perfeição graças aos investimentos internacionais e aos admiráveis engenheiros dedicados ao grandioso empreendimento.

Outros grupos no Brasil e noutros países também se preparavam para a reunião sobre a transferência das respectivas localizações, obedecendo aos operários especializados que davam prosseguimento às exigências da Lei do Progresso.

Definida a data da operação muito delicada, grupos técnicos fariam os seccionamentos dos imensos trechos e começariam a sua remoção, conduzindo os seus habitantes, que se não dariam conta do que estava ocorrendo, tal o estado de transtorno mental e emocional de que eram vítimas.

Suportes espirituais foram colocados antes do seccionamento das grandes placas, a fim de que a parte seccionada pudesse permanecer sem abalos violentos que poderiam arrebentá-las, enquanto um grupo de especialistas em meditação unir-se-ia em um lugar próximo e se entregar-se-ia à concentração profunda, a fim de facilitar o esforço conjugado da locomoção nas partes que eram possíveis de movimentar no momento.

O dia 13 de maio, pela evocação da liberdade dos escravizados no Brasil, foi eleito como o inicial das operações de remoção e transporte.

Milhares de Espíritos generosos haviam sido convocados, em grande júbilo, para contribuir na formação de habitabilidade do novo mundo.

O ar fétido e asfixiante que antes pairava em todo o recinto, visitado por contínuas correntes de ar, diminuiu a sua intensidade, e era comovedor o esforço de tantos obreiros, trabalhando na construção da escola de regeneração, por enquanto em ambiente de tal ordem.

Num momento da levitação e do auxílio de uma maquinaria especial, pudemos ver que o Sol nascente não conseguia penetrar a massa compacta com furnas, níveis e desníveis, que os doentes em si mesmo haviam consolidado através dos tempos.

A movimentação gigantesca e a ação dos anônimos edificando a Escola de redenção dos equivocados falavam-nos sem palavras sobre o Reino de Deus,que é edificado no coração.

O primeiro bloco a ser removido do lugar fantasmagórico, lúbrico era muito maior do que pensávamos, e em consequência ficamos pasmados ante o espaço ocupado anteriormente, quase a perder de vista. As sombras que permaneciam sobre a área onde se projetara até há pouco possuía um aspecto asqueroso, e as bordas derramavam um líquido espesso, escuro e nauseante.

Mais tarde, fomos informados que se tratava das emissões mentais e se transformavam as ondulações em líquido, processo inicial de condensação dos horrores mentais de cada qual, conforme sua conduta pessoal.

A noite, que era sempre terrível, naquela oportunidade abrira uma clareira na nuvem densa atingindo a camada extraída.

Em momento próprio foram substituídos os trabalhadores voluntários e meditadores, a fim de que o trabalho não sofresse solução de continuidade.

Amanhecendo no nosso amado pouso, fomos informados dos ataques ferozes que estavam sofrendo os residentes, bem assim os companheiros da grei laboriosa, agora com o exercício e prática de reuniões mediúnicas temporariamente.

Felizmente todos estavam informados da responsabilidade destes dias e das mudanças que se vêm operando para a eliminação dos seus malefícios.

Em determinados momentos aplicava-se a programação como num campo de marimbondos cuja enorme colmeia se havia permitido adentrar.

O nosso diretor programou uma atividade mediúnica com os elementos mais experientes para reforçar as defesas, como a assegurar aos residentes reencarnados ou não de que as mãos de Jesus movimentavam as suas.

Os adversários que faziam parte da milícia foram dirigidos para o abrigo da fé e da caridade cristãs, com a finalidade de robustecer aqueles que dessem sinal de cansaço e fragilidade. Sob as vibrações funestas e atendendo aos infelizes de ambos os planos para descarregarem os fardos dos sofrimentos necessários que se prontificaram a sofrer, demos início ao programa reservado para aquela região.

Os legionários, sempre a postos, foram destacados para acompanhar os devotados membros que se abasteceriam nos pensamentos.

Sem dúvida era uma guerra local que se instalara no Reduto do Evangelho onde brilhava a Divina Luz do Amor do Mestre.

Podíamos ver o verdadeiro desfile de almas felizes e de má catadura, nas quais estavam inscritas as intenções pessoais.

Concomitantemente, o telefone e os órgãos de comunicação virtual não cessavam de rogar ajuda, oração, socorro para enfermos da pandemia, de obsessores entre os seus trabalhadores.

Passamos o dia em socorro bem planejado, transformando a sala de conferências agora sem uso, num hospital de guerra, onde recolhemos enfermos que são atendidos por todos nós.

Todo ideal de dignificação humana encontra opositores que, às vezes, tornam-se inimigos cruéis e se transformam em vítimas de Espíritos maldosos, que os induzem ao antagonismo e desejam destruir tudo quanto não quiseram nem querem conquistar na vilegiatura da carne.

O trabalho delicado de alteração da psicosfera do lugar, verdadeiro santuário do bem e das graças, constituía-nos uma bênção ímpar.

Não faltaram voluntários, que passaram a ser conduzidos pelo nosso Cláudio, o médium especializado em terapia pelos passes.

Ao mesmo tempo, mantivemos contato com outros grupos encarregados de labores especiais.

Muitos deles defrontavam reações severas, através de difamação, de acusações publicadas pelas redes sociais em desafio para desmoralizarem médiuns, expositores e instituições.

Organizações respeitáveis eram caluniadas com prazer, olvidando-se os benefícios oferecidos aos seus residentes muito necessitados, sobretudo de amor e de ternura que lhes são ministrados, além dos básicos como alimentação e demais.

Mordidos pela inveja e pelo despeito, pela competição doentia na sua jactância, nada faziam. Ociosos, com tempo bastante para perturbar, geravam difícil luta com os verdadeiros trabalhadores do Evangelho que saíam sempre vitoriosos, desde que todo aquele que segue Jesus termina por encontrá-lO. Reconfortado, vencedor do mal de que se livrou, adquire força e alegria no contínuo bom combate...

Nesse comenos, recebemos notícias de que muitos dos grupos pela América Latina estavam encontrando dificuldades inomináveis, qual ocorria na Europa.

Necessitava-se de obreiros reencarnados que tivessem algumas informações da Vida além da matéria, para facilitar o delicado esforço de todos que estavam empenhados na grande operação. Em consequência, era mais expressivo o número dos aderentes espirituais, mais ou menos adaptados a atividades idênticas umas e parecidas outras, nas diversas comunidades espirituais correspondentes ao seu último berço na Terra.

Na cidade onde nos alojávamos tivera abençoados espiritistas nos tempos heroicos, que acenderam a chama da fé renovada no lar e entre amigos, deixando bons traços do Espiritismo, sabiamente apresentado e cuja marcha não foi interrompida por ocasião da desencarnação deles. Eles continuaram fiéisao ideal, porque inclusive se comunicavam para oferecer instruções e conforto aos seus fiéis seguidores.

Um companheiro dedicado, por todos amado, há pouco tempo começou a apresentar a síndrome de Parkinson e, embora auxiliado com os recursos de que se dispunha, foi piorando o seu quadro, que, nessa ocasião, afetara o raciocínio, conduzindo-o a delírios e perda total do raciocínio...

Mais recentemente, o seu distúrbio mental levou-o a dizer que estava sendo perseguido por um dos diretores da casa. Tentou-se ajudá-lo com explicações sinceras e a medicação recomendada, porém sem segurança de recuperação da saúde. Tudo fora debalde, porque na sua piora, agora com dificuldade dos movimentos e da palavra, passava horas de rebeldia e reincidia na tese persecutória.

Naqueles dias em que nos encontrávamos distantes, ele foi levado inconscientemente ao lar do confrade e fez-se instrumento de um lamentável escândalo.

Depois de acalmadas as injúrias e impropérios, passou a ter momentos de lucidez e deu-se conta do que lhe estava acontecendo.

Homem de caráter cristão e dedicado ao bem, deu-se conta da aflição da família do amigo e começou com a ideia de suicídio, mais de uma vez enunciada.

Naquele dia, ele estava em crise grave. A alucinação tomou-lhe as faculdades mentais e a família optou por interná-lo, aplicando-lhe o psiquiatra uma dose de sonífero que o acalmou, levando-o ao sono.

Foi solicitado ao nosso diretor um socorro específico pelos seus familiares que não ignoravam o desafio da doença unida a uma obsessão de velha data e padeciam muito acompanhando a desintegração da mente e do corpo do venerando familiar.

O irmão Spinelli dedicou-se a estudar a planificação para mais tarde, quando seria realizada a atividade mediúnica, inclusive nos convidando à reflexão, preparando-nos para o mister dignificador.

A reunião mediúnica séria constitui-se compromisso superior com os Espíritos nobres que nos acompanham, assim como nos são solidários. É um espaço de tempo bem cuidado, para poder-se sintonizar com as Fontes da Vida, de onde viemos e que nos sustentam, auxiliando-nos com o nosso guia espiritual a penetrar na realidade além do véu da carne.

Pode-se afirmar com tranquilidade que qualquer doença, desastre, acontecimento trágico ou honoráveis conquistas no bem sempre ocorrem com a participação desses irmãos que velam por nós. E, de acordo com o nosso comportamento, temos aqueles que nos são afins, que se utilizam de nossa energia ou oferecerem-nas em nome do Excelso Amor.

Embora o nosso enfermo tenha tido um comportamento excelente durante a existência, trazia uma pesada carga de perturbações e débitos de experiências passadas.

A debilidade de forças em razão da síndrome de Parkinson aumenta a irritabilidade, como lhe era habitual, e graças a esse desconforto emocional conseguiu sintonizar com adversários de ontem que o caçavam com destemor no comportamento de justiceiros do Mais-além.

Notamos que a psicosfera da cidade estava muito carregada de vibrações doentias, depressões, exaltação e revolta interior.

Procuramos utilizar bem as horas de que dispúnhamos para nos encontrarmos serenos e otimistas no auxílio superior.

O Núcleo Espírita é, sem dúvida, reduto de socorro de urgência e emergência para muitas vidas estioladas mediante o conforto e direções de equilíbrio que propicia de imediato, evitando, desse modo, emaranhamentos em situações mais perversas e complexas do que aquelas nas quais se encontram ao serem atendidas.

Meia hora antes do início da reunião a sala já se encontrava quase repleta, apresentando um aspecto salutar para os serviços que ali seriam executados.

Diversos sofredores ignoravam o seu estado de desencarnados, renitentes em reclamações, expressões faciais agressivas, e os amigos espirituais que deles cuidam mantinham tranquilidade, buscando atendê-los sem fazer muito ruído.

Alguns eram frequentadores habituais nos trabalhos de desobsessão e outros eram convidados especiais para o atendimento presencial e pessoal.

Diversos irmãos da Ordem dos Templários que cooperavam conosco foram convidados para auxiliar-nos no socorro específico da Doutrina e de outras terapias que eram aplicadas pelo nosso grupo e por membros desencarnados da Instituição.

Uma equipe de auxiliares conduzia cada convidado aos lugares adrede escolhidos, a fim de poderem servir melhor e serem ajudados individualmente.

Na primeira hora da madrugada, iniciou-se a reunião, sendo convidado para fazer a prece o irmão Gracindo, na condição de responsável pela Entidade fraternal.

Após a oração ungida de misericórdia e irrestrita confiança em Deus, Amália, que sempre estava vigilante conosco e em serviço incessante, fez o transe para a psicofonia, e o visitante chegou blasfemando sobre Deus e tudo na loucura de que se encontrava tomado.

A psicofonia era perfeita, porquanto podíamos ver o Espírito influenciando diversos órgãos pertencentes às glândulas do sistema endócrino que pareciam pequenas lâmpadas elétricas que luziam parcamente, demonstrando que forneciam energia para a comunicação. As palavras eram acompanhadas de gestos numa perfeita incorporação.

Foi permitido que o visitante fizesse uma catarse algo agitada até o momento em que o nosso irmão Spinelli interveio com suavidade.

Em torno da sala, não obstante a segurança das defesas aos ataques mentais e ao ódio em chispas destrutivas, sentíamos a ameaça dos adversários espirituais que tentavam perturbar a reunião edificante para eles próprios.

De imediato, muito transfigurada com as características do rebelde comunicante, nossa Amália deu campo à manifestação ruidosa, embora o controle da sua disciplina, que se lhe tornara habitual, para que tudo corresse de acordo com os padrões da ordem e do equilíbrio.

Com a permissão dos mentores, diversos enfermos espirituais pertencentes ao grupo agressivo acompanhavam a psicofonia atormentada com espanto e ira, desejando transmitir forças ao comunicante.

Todos nós, profundamente concentrados, buscávamos contribuir para o êxito do cometimento sob as bênçãos de Jesus.

Foi a Entidade quem deu início ao diálogo, iracunda e sem equilíbrio.

– Se pensam que não estamos cientes do que se está passando, encontram-se terrivelmente enganados – descarregou com arrogância. – As operações que estão em curso para a transferência de nossa comunidade justiceira para outra região compatível com os nossos propósitos chamam-nos a atenção e começamos a reagir de maneira que corresponde aos seus intentos.

Vemos a movimentação de especialistas e trabalhadores desconhecidos num tremendo afã de expulsar-nos da nossa região com as edificações que logramos realizar através dos tempos. Não será tão fácil, como lhes pode parecer neste momento...

Não se destrói ou se transfere uma grande área habitável sem grande prejuízo para o investimento. E a nossa obra tem seus alicerces fixados nas rochas dos tempos, próprias para atender os objetivos para os quais a edificamos.

No entanto, o que me interessa neste momento é a conduta desse decadente cristão que está sendo consumido pelo desgaste orgânico e nossas contínuas manifestações.

Levá-lo-emos ao suicídio como etapa inicial do programa que reservamos consolidar a partir de agora. Os bons tempos da ignorância e das religiões castradoras, responsáveis pelos desvarios de grande parte da civilização, cedem lugar agora “ao tudo é válido”, ao prazer alucinante e à depravação sem medida, sem controle. O Crucificado será novamente avaliado e punido pela audácia de apresentar-se como o Salvador da Humanidade.

Este santarrão, por exemplo, que se refugiou, desde há muito, neste antro de purificação, tem muito a expungir ainda antes de conquistar o fanal que é o Reino de Deus nas misérias humanas.

Demonstraremos que a capa de santo que veste é disfarce e as orientações sagradas que segue não passam de utopia e engodo, já que é tão miserável como qualquer um de nós, que o conhecemos na face oculta pela hipocrisia.

Nesse momento, o nosso benfeitor, com a voz enérgica e serena, retrucou:

– Agora que o amigo fez uma síntese dos seus conhecimentos e dos nossos objetivos nesta jornada, cabe-nos asseverar-lhe que as suas informações estão bem estruturadas em algumas atividades.

Não estamos aqui por deleite pessoal nem por outras razões que talvez nos escapem, mas por decisão superior dos mentores da Humanidade neste grave período de transformações e de programação de um mundo novo e rico de paz centrado no amor vivido por Jesus, nosso Modelo de perfeição e condutor de segurança. O bem está fixando-se nos corações humanos, e a Terra desempenhará a tarefa para a qual se encontra programada. As dores que assaltam os seres humanos fazem parte da imensa e profunda diretriz de regeneração de todos nós.

O caro amigo está reagindo sob ordens de comandos extravagantes que se têm apresentado como senhores da região que têm habitado. O seu domínio, porém, chega ao término, porque está vinculado à transitoriedade do mal e dos sofrimentos de que as Soberanos Leis se utilizam para a depuração dos Espíritos no crisol da evolução.

A arrogância com que expôs as suas considerações demonstra que a ilusão que o consome já se dilui ante o sol da realidade. Neste nosso encontro, demonstraremos que o irmão que se utiliza da debilidade orgânica do nosso querido trabalhador do bem, nesta quadra de enfermidade, não será consumido pelo autocídio, porque a soma de benefícios que acumulou durante a atual existência é muito maior do que os males que o aturdiam e fizeram-no atrasar no cadinho redentor. Nada ocorre sem a anuência do Pai Criador, e a sua jactância é fruto da ignorância do poder do amor, que transcende as paixões do deleite carnal.

– O que é incontestável observamos em nosso poder de os enfrentar nos seus domínios, qual está sucedendo.

E, talvez para poder convencer-se de um valor que não tinha, prosseguiu:

– Aqui estamos vários justiceiros, que vimos para o enfrentamento e estamos dispostos a produzir pânico...

Observamos que o comunicante se dirigia aos companheiros que se encontravam próximos à mesa, estimulando-os a que tentassem incorporar em Malvina e contaminassem os demais membros da reunião mediante um coletivo ataque com emissão de fluidos tóxicos...

O irmão Spinelli mentalmente convocou Cláudio, que, utilizando-se das energias de que é possuidor, conseguia emitir sucessivas ondas de harmonia que a todos envolviam, evitando que as emissões mentais de rancor e violência chegassem a alcançar os presentes assinalados.

Quando outros Espíritos se somaram aos que se encontravam no esforço mental de emitir pensamentos e vibrações deletérios, Eurípedes, em recolhimento profundo, começou a orar com voz doce e compassiva, ocorrendo um fenômeno comovedor: pétalas de rosas perfumadas começaram a cair suavemente e se desmanchavam ao tocar-nos.

A claridade que se fez permitia que víssemos grupos de Espíritos rebeldes devassos, além dos limites da sala, confundindo-se com as criaturas humanas em desdobramento, que se debatiam nos conflitos emocionais e nos desejos infrenes das paixões sensuais. Em verdadeira alucinação, louvavam nomes de líderes terrestres que se lhes submetiam e divulgavam as aberrações... Cantavam, em deboche ruidoso, músicas de exaltação ao sexo vil, ao infanticídio, ao suicídio, ao enfrentamento às leis e à união de pais com filhos, irmãos, familiares, numa promiscuidade insuportável. A lascívia e a degradação dos costumes faziam parte do novo comportamento da sociedade sem qualquer limite, a pedofilia exaltava o prazer da violência e a agressividade gerava um verdadeiro caos entre eles na bacanal irreprimível.

Os Espíritos do mesmo naipe moral que se encontravam na reunião, podendo ver o que se passava além da sala, desejaram acompanhar a burlesca brutalidade, perceberam um estranho estado vocal que lhes não permitia enunciar qualquer palavra ou movimentar-se ao ritmo dos berros e gestos da mais baixa devassidão.

Encontrávamo-nos em um cenário estranho, onde se confrontavam os bons sentimentos e a baixeza asselvajada desafiando tudo, e os espectros que a exerciam tinham as mais torpes expressões, transformados em seres primários que pareciam brotar do chão.

A voz dúlcida de Eurípedes cresceu e alcançou a multidão além das barreiras vibratórias que os separavam, conclamando todos ao despertar, ao renascer dos destroços e deformidades da aparência humana.

Nesse espetáculo de terror e desorientação, de gritos e angústias, a suavidade do grupo em oração, acompanhando a mensagem do benfeitor e demonstrando o poder do Amor e da Misericórdia de nosso Pai, contrastava de maneira chocante.

O embate prolongou-se por alguns breves minutos, enquanto a multidão agitada seguiu na direção dos seus festejos, ficando pelo caminho inúmeros tombados que seriam acolhidos pelos auxiliares do programa mediúnico.

A ordem permaneceu, e lentamente voltamos ao espaço único da sala mediúnica em ordem e com grande movimentação de socorro aos necessitados que se deixaram amparar.

O nosso irmão assistido, agora mais livre da injunção obsessiva do justiceiro que permanecia incorporado em Amália, apresentou significativo bem-estar, enquanto o irmão Spinelli continuava no diálogo abençoado com o seu perturbador, que também fazia parte do grupo baderneiro de assalto às criaturas humanas.

Vencido pela clareza da verdade e lógica dos conceitos emitidos pelo mentor, o inimigo do bem derreou numa espécie de desmaio providencial, sendo retirado do campo mediúnico.

Diversas comunicações sucederam-se, mesclando-se inimigos pessoais com aqueles que se proclamam adversários do Cristo a serviço do deus vingança.

À hora própria, houve passes coletivos ministrados pelo nosso Cláudio e seus colaboradores, quando se encerrou a reunião especial.

“Os verdadeiros servidores que merecem destaque são

aqueles que servem de exemplo pelo que fazem em favor

da Causa, e não aqueles que estão preocupados com as

casas nas quais laboram e nas pessoas que as dirigem.”

Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco