No Rumo do Mundo de Regeneração
6. Aclarando Acontecimentos
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ACLARANDO ACONTECIMENTOS
D everíamos visitar um hospital público que se preparara para receber pacientes vitimados pelo novo coronavírus. Os maiores cuidados haviam sido dedicados à área das UTIs, devidamente munidas com os aparelhos respiratórios.
Havia uma dolorosa expectativa no ambiente. A preocupação em separar os portadores da pandemia dos demais pacientes criara um ambiente de receios injustificados. Tanto os médicos, qual ocorria com os enfermeiros, mantinham-se em cautela e muita vigilância, a fim de evitarem ser contaminados.
A movimentação era expressiva, vale dizer, de encarnados, assim como de desencarnados.
Pais, familiares e outros aflitos acorreram do Mundo espiritual para visitar os parentes que se encontravam sob suspeita, aguardando o resultado dos exames a que foram submetidos.
Concomitantemente, Espíritos sofredores buscavam inquietos as pessoas amadas, sem conhecimento real do seu estado. Havia também a presença de vampirizadores do Além, em processos de lamentáveis obsessões.
O irmão Spinelli informou-nos que aquele seria o laboratório para as nossas experiências transcendentais e concitou-nos a orar na sala do diretor, de modo que deveriam espalhar-se as vibrações de bem-estar que pudéssemos produzir.
Recolhemo-nos interiormente, rogando ao Médico Sublime Sua Misericórdia e proteção.
Terminada a prece, saímos em grupo e acompanhamos uma jovem auxiliar de enfermagem que conduzia o resultado dos exames que chegavam do laboratório governamental. Havia tristeza e ansiedade no seu semblante, e ao entregar o documento ao diretor do hospital, afastou-se, enquanto ele tomava conhecimento da ocorrência grave esperada e, ao mesmo tempo, desagradável.
Dos 13 exames de pacientes que se haviam internado antes, 8 eram positivos para a Covid-19.
A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora, procurando-se de imediato a retirada de alguns pacientes da enfermaria em que se encontravam e conduzi-los para a sala reservada especialmente para a virose temível.
Uma dama de 30 anos presumíveis foi dominada pelo desespero e, lamentando-se, afirmava que iria desencarnar, porque era portadora de diabetes em estado avançado.
O médico acercou-se-lhe e mui tranquilamente lhe explicou que estava sendo atendida em tempo e que o seu organismo jovem resistiria, superando a infecção.
Chamou-me a atenção um cavalheiro de aproximados cinquenta anos, que mergulhou no silêncio da oração e entregou-se à Providência divina, atraindo, de imediato, venerando Espírito que o envolveu em vibrações de paz e de coragem.
Os demais se deixaram dominar pelas lágrimas e algumas reclamações, exprobrando o governo, denominado de negligente e transferindo a responsabilidade por encontrar-se ali.
Afirmavam que as autoridades governamentais já sabiam da pandemia com as suas garras assassinas, e que, ao invés de resguardarem as pessoas de aglomerações e meios fáceis de contágio, estimularam os prazeres do Carnaval, e ali estavam as vítimas dos folguedos perniciosos. Não se davam conta de que a responsabilidade é de cada um, porquanto todos estamos conscientes do perigo de contágio de enfermidade de tal porte desde antes do Carnaval anunciada.
Sucede que os prazeres servis ainda merecem mais atenção do que os deveres austeros, e o conceito infeliz de muitos latino-americanos de que neles nada pega, como se fossem constituídos de matéria especial.
Alastrava-se a doença depuradora da sociedade em todo o mundo, e no Brasil começava com fome cruel, encontrando a cultura leviana de muitos e a falta de compromisso com a vida.
No gabinete do diretor, diversos médicos discutiam a respeito de qual a terapêutica melhor recomendada para os pacientes inseguros.
Discussões politiqueiras de baixo nível esqueciam as vidas humanas para cuidar dos seus interesses mesquinhos e venais.
Alguns desses esculápios, que já vinham aplicando medicamentos que deram bons resultados nos casos da Espanha e da Itália, consumidas pelo surto feroz, deixavam de lado as brigas e ofensas políticas para encontrar uma solução de emergência, enquanto os laboratórios do mundo trabalhavam na produção da vacina salvadora.
Passamos as horas da manhã atendendo os irmãos contaminados, auxiliando-os no equilíbrio do sistema imunológico e principalmente da harmonia íntima, intuindo-os a buscarem a oração que lhes daria forças para a conquista dos resultados felizes.
Num momento em que fiquei a sós com o nosso Spinelli, comentei a respeito da reunião mediúnica da noite anterior.
Entre os fenômenos que me surpreenderam, chocou-me o aparecimento dos Espíritos que emergiam do solo transformado num cemitério com os seus aspectos atoleimados e infelizes. Perguntei-lhe se a cena que aconteceu na sala em que estávamos havia sido transportada de alguma região onde os Espíritos se encontravam ou como aconteceu o aparecimento da cena estranha e apavorante.
Pacientemente, explicou-me:
– Recorde-se, o caro Miranda, que a psicosfera ambiente no local da reunião modificou-se expressivamente à forma como se encontrava no início da atividade.
Quando os irmãos apareceram, traziam as lembranças dos lugares em que viviam e o pensamento firme de todos condensou no local em que então se encontravam, repetindo a paisagem dantesca em que viviam. A força da mente acostumada a determinadas circunstâncias e acontecimentos dá-lhes vida à medida que memoriza e vivencia. Todos ligados entre si pelos mesmos crimes e feitos, assim como pelas mesmas situações de resgate penoso, criam por ideoplastia os cenários e as circunstâncias que lhes são familiares.
– E o fenômeno de transformação – indaguei – para a fase lupina, que teve lugar no comunicante, como explicá-lo?
– Nosso irmão de tal forma degenerou o perispírito, nos sucessivos anos de horror que se tem permitido, que passou a sentir-se como um lobo construído pela perversidade dos seus atos. Tem na mente, no entanto, a sua forma anterior, que lhe ficou na memória como sendo máscara conveniente. Enquanto blasonava, procurando argumentos falsos para esconder os sentimentos reais, a aparência era preservada, mas, à medida que se permitiu apresentar-se como se sente, ou como está interiormente, a forma de ser humano foi diluída pela força interior do vampirismo e passou a usá-la.
Neste momento, mantém a deformidade que irá sendo modificada à medida que se comunique mediunicamente e o seu perispírito recupere a expressão humana, através do arrependimento sincero e da renovação interior.
O longo processo de construção do ódio com todos os seus ingredientes de vingança condensou os fluidos emitidos e construiu as formas terríveis que inspira pavor, e somente através de uma real mudança emocional e mental podem ser diluídas essas construções aparvalhantes.
Após a comunicação mediúnica da noite passada, fluidos novos foram ingeridos e formas-pensamento diversas irão assomar do inconsciente profundo, reconstruindo a realidade humana que lhe caracterizou a última existência terrestre.
O pensamento é sempre a fonte e a sede das construções do ser sob qualquer aspecto considerado. Por isso, o Mestre Jesus sempre recomendou temperança e perseverança no bem, a fim de que as vinculações com a Divina Transcendência facultem o prosseguimento da ordem e da paz. Tudo quanto se pensa, de acordo com a intensidade mental da ideia, adquire forma e vida. As incontáveis construções mentais espalham-se por toda parte, gerando formas-pensamento e até mesmo regiões específicas no baixo-astral ou nas Regiões formosas.
Vivemos num mundo de energia que se amolda à onda mental, dando lugar a formas transitórias que o tempo cristaliza e se tornam material...
Vejamos a nossa presença real nesta saleta em que não somos detectados pelos reencarnados e, nada obstante, estamos percebendo, sem atropelamentos, as ocorrências que aqui têm lugar. Invisíveis somos, entretanto, tangíveis, porque temos peso atômico e volume próprio, graças ao envoltório do perispírito, que nos modela a aparência. Podemos registrar aqui, o que ora percebemos, como também, com um pouco de fixação da mente, acompanhar regressivamente tudo quanto aqui ocorreu, porque está impregnado nas diferentes faixas e ondas vibratórias.
Ouvimos, nesse momento, alguns gritos e correria na direção do apartamento ao lado. Não somente as pessoas como alguns Espíritos fomos atraídos e, ao nos adentrarmos, defrontamos uma paciente visivelmente incorporada por um inimigo espiritual que a dominava.
Tudo acontecera rapidamente. Ao ser notificada que estava confirmado o diagnóstico da Covid-19, ela se contraiu e, dominada pelo medo da morte, começou a desarmonizar-se interiormente, quando o adversário que a persegue, há algum tempo, utilizou-se das circunstâncias para provocar uma grave reação, perfeitamente dispensável. Agitou-se e começou a debater-se nas mãos dos enfermeiros, que logo pensaram ser uma crise emocional, como realmente o era, e de imediato aplicaram-lhe uma alta dose de calmante, deixando-a prostrada.
O irmão Cláudio aproximou-se da paciente e, aplicando-lhe energias restauradoras, afastou o invasor, que foi controlado pelo nosso mentor, enquanto ela passou a dormir sob a ação do medicamento e dos fluidos.
Foi transferida imediatamente para a parte do hospital em que poderia ficar com outros enfermos, sem o perigo de contaminação a outros pacientes.
Ao sair da sala, em pleno corredor que levava à UTI, onde já se encontravam pacientes sendo atendidos com o respirador artificial, um deles, porém, sexagenário, com uma história clínica mais grave, porque cardíaco, experimentava a asfixia, proveniente do pulmão totalmente impossibilitado de cumprir sua função, graças às colônias maciças do vírus na sua volúpia devoradora. O coração pulsava com imenso esforço para bombear o sangue, e começou a falhar. O rosto congestionado pela asfixia e os olhos um pouco fora das órbitas denunciavam a presença da morte, o que se deu inexoravelmente.
O irmão Spinelli aproximou-se do cadáver, enquanto os funcionários tomavam as providências compatíveis, e apontando os brônquios e as câmaras pulmonares, elucidou penalizado:
– Que tragédia, a do vício do tabaco! Nosso irmão é considerado como suicida indireto, por haver submetido o seu organismo à pressão das substâncias químicas do cigarro, que lhe destruíram os alvéolos delicados, impedindo-os de manterem as suas funções vitais.
Observamos que Espíritos viciosos de péssimo nível moral acercaram-se do cadáver e arrebataram o recém-desencarnado, antes da eliminação das últimas energias vitais do organismo.
– O pobre amigo – continuou Spinelli – despertará e passará a viver um verdadeiro pesadelo, pela ignorância da ocorrência do fenômeno que acaba de suceder. Os suicídios indiretos no mundo são em número colossal, porque tudo que atenta contra a saúde, o bem-estar, o equilíbrio do organismo na vilegiatura carnal é uma agressão que culmina por derrotá-lo.
Merece considerar que os vícios e atentados materiais à saúde impregnam o perispírito de miasmas destrutivos, facultando espaço para a instalação de muitas enfermidades ou, simplesmente, por somatização, ensejando enfermidades que não se encontravam na ficha evolutiva do ser.
Igualmente, os hábitos mentais perniciosos, as conversações vulgares e tóxicas, as culturas do pensamento negativo geram vibriões e bactérias psíquicas, que diminuem as forças do equilíbrio e da resistência humana, favorecendo a instalação de muitas enfermidades e transtornos emocionais.
É indispensável que as fontes do pensamento sejam vigiadas, a fim de que das suas nascentes não surjam elementos destrutivos responsáveis por incontáveis males que perturbam os seus cultores.
Nesse momento, deu entrada um paciente em lastimável situação, porquanto a enfermidade já lhe tomara a organização respiratória, com grande prejuízo para a função cardíaca, em disritmias acentuadas.
Nosso mentor convidou-nos a acompanhá-lo à unidade de terapia intensiva, que estava em grande movimentação. Já se encontrava com metade dos leitos ocupados e pairava no ar um tipo de expectativa pessimista.
O novo paciente foi acomodado ao leito e, de imediato, passou a receber o auxílio do respiradouro artificial.
Os danos causados pelo vírus eram muito graves, e a assistência espiritual do enfermo era de péssima qualidade. Algumas Entidades odientas maldiziam-no e o ameaçavam de forma impiedosa, anunciando o seu próximo desenlace para o reencontro além do corpo com as consequências lamentáveis.
O desencarnando, apavorado com a consciência de que chegara o seu momento fatal, inevitável, deixava-se dominar pelo desespero que mais o perturbava. A desencarnação deve ser um momento de serenidade, a fim de que a ruptura dos liames que vinculam o Espírito à matéria densa seja suave, diluindo-se pela falta do fluido vital, que mantém a existência orgânica.
Quando não se tem ideia de como transcorre a existência física, muito difícil faz-se a libertação dos vínculos que unem o Espírito à matéria, havendo a ruptura brusca, que não impede a continuação dos fenômenos de decomposição serem percebidos e sentidos muito tempo depois da morte do corpo. Por isso, morrer não significa desencarnar imediatamente, o que se dá com mais vagar, à semelhança do que ocorre por ocasião da reencarnação, cujo processo é lento e progressivo.
“O conhecimento do Espiritismo auxilia e proporciona
bênçãos de incalculável significado para a existência, por
educar o ser e ajudá-lo a crescer na direção do infinito
sem amarras que o retenham na retaguarda.”
Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco