No Rumo do Mundo de Regeneração
17. Iluminação de Consciências
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ILUMINAÇÃO DE CONSCIÊNCIAS
O tempo sempre urge e, quando nos encontramos envolvidos por tarefas relevantes, não nos damos conta de como passa com rapidez.
Inúmeros atendimentos foram realizados, especialmente na terapia do passe e no trabalho de inspirar pessoas aflitas que entravam em contato telefônico com a abençoada Instituição Espírita, assim como atendimentos de urgência a pessoas receosas que se encontravam intimidadas pelas comunicações jornalísticas e televisivas mentirosas ou exageradas.
Essas atividades sucediam-se porque a Terra ainda é o hospital-escola de almas em busca da saúde real e do conhecimento das Divinas Leis.
Sempre surgem momentos para a ação fraternal da caridade, que é a luz brilhante à frente, a distância.
Havia sido programada uma reunião mediúnica para aquela noite, em prosseguimento dos compromissos e responsabilidades.
A nossa visita à Cidade da Justiça causara uma verdadeira revolução em outros grupamentos de igual objetivo na Erraticidade inferior. A notícia desse feito espalhara-se e houve uma movimentação para reforçar as entradas e aumentar com rigor as incursões perniciosas às criaturas, alvos essenciais e prioritários dos adversários do bem, especialmente os espiritistas.
A Instituição que nos albergava passou a ser agredida de maneira impiedosa, e pessoas obsidiadas foram conduzidas às suas portas, cerradas por impositivo das circunstâncias, embora sendo atendidas de forma especial por vigilantes diretamente selecionados pela diretoria. Era, porém, impossível evitar-se a balbúrdia e o número de deambulantes em lamentável estado de apresentação, o que constrangia os residentes no bairro, que passaram a demonstrar o seu desagrado e mesmo animosidade.
Por outro lado, as organizações terrestres voltadas à baderna e à agressividade foram reforçadas, aumentando os ataques gerais nos diversos setores da sociedade, piorando a situação vigente.
Grupos constituídos por pessoas desalmadas e destituídas de sentimentos morais e fé religiosa engrossaram as suas fileiras com ira contra Jesus e Seus discípulos, arrebanhando para as suas fileiras os indiferentes e sonhadores do prazer voluptuoso e consumidor.
Os trabalhadores do bem e dos deveres éticos passaram a ser acossados nos seus ideais e mesmo anatematizados pela sua temeridade de os enfrentar.
Muitos membros pertencentes às ideias espúrias que se mantinham discretos foram estimulados, rompendo o seu silêncio e o disfarce sob o qual se ocultavam para cerrarem fileiras com os radicais e agressivos.
Nenhum valor de dignidade ou de dedicação ficou sem os pingos da lama atirada a muitos vultos do passado que amaram e contribuíram para o progresso da Humanidade.
Honrados seareiros, portadores de vida correta, viram seus nomes coroados de epítetos desonrosos, por caluniadores de plantão, que os difamavam, gerando confusão e dúvidas nas demais pessoas sinceras e buscadoras da verdade.
Espíritos desencarnados ociosos e falsos passaram a dar comunicações falsificando os ensinos das doutrinas éticas, e particularmente cristãs, com refinada ironia e zombarias chocantes.
Desnecessário assinalar o zelo dos servidores fiéis que se não permitiram conspurcar pelas suas investidas, nem perderam tempo nas discussões inúteis e portadoras de animosidade com o único propósito de confundir e desequilibrar...
A luz do amor passou a brilhar com mais claridade, e os sofredores encontraram apoio e conforto moral para atenuarem os padecimentos e compreenderem as razões das suas aflições por abnegados seareiros de Jesus.
A luz brilha mais quando a treva é mais densa.
No ardor das batalhas contínuas, apareceram heróis antes anônimos e estoicos, aplicando as suas forças na preservação dos ideais ancestrais que geraram o progresso e facultaram encontrar a harmonia e o Reino dos Céus na Terra.
Desse modo, tivemos horas refertas de trabalho cristão e fraternal.
Portanto, à medida que o tempo passava, anotava em meus sentimentos uma ansiedade crescendo em ondas de ternura pelos sofredores humanos.
À noite, providências haviam sido tomadas para preservar o santuário de trabalhos mediúnicos, impedindo a entrada na sua área física de Espíritos não convidados.
Servidores do Cristo cercaram todo o grupamento de edifícios igualmente envoltos numa claridade que provinha do Alto e o circundava.
Às primeiras horas da madrugada demandamos aos recintos mediúnicos e a movimentação era inusitada.
Mais de uma vintena de Espíritos da cidade visitada ali se encontravam em aturdimento, conduzidos por hábeis amigos espirituais, outros zombeteiros e frívolos observavam o que se passava e aqueles que se deveriam comunicar adormecidos ou semi-inconscientes sob cuidados espirituais.
O irmão Gracindo e outros companheiros da organização física, em parcial desdobramento pelo sono e convidados, encontravam-se conduzidos, alguns sem o saberem, enquanto Malvina e os nossos, após a prece de abertura, colocaram-se em posição de servir mediunicamente. Foi Malvina quem primeiro entrou em transe sob a influência do bispo de M., que já houvera sido atendido antes e fora conduzido a uma câmara de tratamento.
O aspecto lupino em que se apresentava era comovedor.
Despertando e em plena lucidez blasonou:
– Estou de volta inesperadamente para vocês.
Venho em nome do meu deus dar prosseguimento ao debate em que nos encontramos da primeira vez.
Já instalamos o período do ódio entre vocês, os ditos cristãos-espíritas, e assinalamos que estão próximos os dias da nossa vitória com os choques que se multiplicarão entre vocês, os usurpadores da felicidade dos pobres e das camadas esmagadas pela sua desfaçatez e insensibilidade.
Acreditam, por acaso, que nos deixamos atemorizar perlas falsas teologias sobre Deus, imortalidade, justiça?
Não aceitamos esses contos de fadas nem outros mecanismos de fuga da realidade, que são as nossas misérias, soberba e desventura?
Estão equivocados. Tudo se acaba, consome-se com o tempo.
Aqui temos duas correntes filosóficas: a esotérica e a exotérica. Entre nós, os sábios, conhecemos a desagregação do ser e sua consumpção, aniquilamento na poeira da energia, e aos exotéricos ensinamos a imortalidade, na qual nada se extingue e se expressam recompensa e punição.
Só existe o caos em tudo, e nós somos as sucessivas ondas do nada ainda cristalizadas. Vão-se diluindo as mais grosseiras, depois as mentais ainda cristalizadas e assim sucessivamente, até o nada.
Para nós, somente o prazer e o ódio a quem interfere em nossos planos ou tenta criar-nos embaraços, nesta luta sem quartel contra a estupidez que dominou os séculos e a ignorância em que foram mantidos os seres humanos...
Vimos restaurar o nada histórico e preparar-nos para a consumpção. Temos que aproveitar, enquanto permanecem os resíduos da organização mental que tivemos para aguardar a desintegração ou para o esquecimento.
A nada tememos e nos submetemos à força maior que nos encaminha ao máximo da loucura.
Não é qualquer um que lhes fala, mas um príncipe da Igreja decadente.
Despertem, hipnotizados pelos mitos e vitalizados pela esperança de Vida eterna. Para que eterna? Tudo se consome num átimo, para que a sobrevida?
Hoje veremos isso em nosso debate.
Eu na morte, e vocês no equívoco da vida.
Preparem-se para desfrutar e matar esse símbolo de algo que jamais existiu, semelhante a Krishna, Zeus, Atom... Ilusões!
Deu ruidosa gargalhada.
A médium reproduzia os meneios e movimentos do comunicante.
Embora as suas palavras se revestissem sempre de ironia, o rosto estava marcado pela dura expressão lupina.
Era a primeira vez que ouvia tão terrível sentença de aniquilamento da Criação. Embora se encontrasse com as funções mentais, emocionais e dispositivos complexos da vida, a tudo considerava de natureza imaginária.
Compreendi melhor o comportamento de filósofos, artistas, belos cidadãos de ambos os sexos que defendem ideia equivalente de que o acaso reúne moléculas a seu bel-prazer para consumi-las depois em vapor imaginativo.
O nosso Eurípedes era o dialogador que o deixou realizar a catarse que o outro anelava, o que fez com alegria, a fim de poder entretecer considerações, conforme aconteceu.
Embora as defesas de estrutura do recinto dedicado à oração e ao socorro da caridade, as emanações mentais e exsudações dos convidados à comunicação espiritual deixavam o ambiente saturado de energias deletérias.
Com a presença massiva de Entidades interessadas, algumas das quais vinculadas psiquicamente ao comunicante, havia ruídos e ouviam-se gritos e exclamações de alguns doentes em situação mais complicada.
Na pausa que se fez natural, Eurípedes expôs:
– Seria, sem dúvida, uma aberração da lógica e do conhecimento podermos contemplar o Universo e tudo quanto abarca, fosse ele autoedificador que atingiu um estágio de beleza e aperfeiçoamento nos seres humanos, ser resultado do nada, qual se esse nada fosse a força cósmica que lhe deu origem. Mudaríamos somente de designação, substituindo Deus por Natureza, nada ou equivalente. Sempre chegaríamos ao ponto inicial, à grande interrogação que tem estado presente no infinito do tempo.
Esse conceito estúpido não pode viger em mente igual à do Sr. bispo, conhecedor de Santo Agostinho e das suas conclusões a respeito da vida e sobre a sua origem.
Os primeiros cristãos contentavam-se com a Criação realizada pelo Pai de Amor e não a discutiam. Com o tempo e o múltiplo surgimento de teses a respeito do ser humano e do seu destino, os filósofos e teólogos sofisticaram a simplicidade da crença aos padrões da cultura e surgiram as variadas escolas de pensamento, entre as quais está a Criação Divina.
Como o nosso objetivo não é filosofar, porém estabelecer padrões morais de comportamento para a vivência imortal, a sua negligência religiosa enquanto na Terra e conduta reprochável oculta sob o manto da fé transtornaram-lhe a mente, e o senhor optou pela solução mais simples e estúpida, que finge aceitar entre conflitos que o atormentam.
A sua e a perseguição aos discípulos de Jesus, assim como a Ele próprio, demonstram que se trata de uma realidade que os fatos confirmam. Primeiro, veio Jesus anunciar o Seu Reino e vivê-lo, depois os Seus exemplos no cotidiano, culminando com a morte, que seria a consumpção, e Ele ressuscitou com o mesmo corpo, tão igual e comum que se alimentou do peixe assado na sala em que apareceu aos Seus.
Não se trata de uma concepção, de uma fantasia, de um fenômeno asilado, porque a cena se repete inúmeras vezes, naqueles dias, e periodicamente até hoje.
A vida é imperecível e iremos demonstrar-lhe.
Por ocasião do seu ministério religioso, fez voto de castidade e, nada obstante, desrespeitando o compromisso, seduziu diversas criaturas ingênuas ou invigilantes, dentre diversas a jovem Marcela, de pouco mais de 14 anos. E o fez num dos lugares denominados sagrados: o confessionário!
Perturbado pela degradação interior e pelas elucubrações perversas na área do sexo, sentiu-se fascinado pela infanta que se sentiu atraída pelos seus gestos e palavras de hábil sedutor. Com o tempo e as facilidades que a posição eclesiástica lhe concedia, logrou seduzi-la prometendo futuro consórcio matrimonial logo cumprisse determinados regulamentos com os quais a iludiu.
– Não vá adiante, caluniador! – bradou com aspereza.
– Sim, claro que irei – redarguiu-lhe o venerando apóstolo...
– Utilizou-se da infeliz menina – que passou a ser maltratada por algumas das beatas que o vigiavam também com interesse insano –, mas quando inesperadamente ela descobriu que estava em gestação e lhe deu ciência, a sua reação foi covarde e perversa, propondo o aborto imediatamente, antes que os sinais a denunciassem sem alternativa.
Movimentando o seu círculo de desvairados, soube de um médico aborteiro e, quase ao terceiro mês, eliminou a vida em floração que a jovem carregava no ventre.
Ela era frágil e insegura, sabia que estava em pecado e, após confessar-se com o seu algoz, resolveu por suicidar-se, em tentativa louca de livrar-se do clamoroso erro.
O silêncio fez-se na sala, e o presunçoso religioso começou a contorcer-se e a emitir sons terríveis através da médium.
– Mas isso não foi tudo... – prosseguiu o mentor. – O corpo da criança foi despedaçado ainda em formação, mas o Espírito, que já se lhe estava fixando, permaneceu no claustro orgânico e em sua volta, terminando por ligar-se a você. Não se consumiu no nada, mas continuou exatamente como era, agora com propósitos definitivos.
Não raro, o Espírito escamoteia a realidade por detrás das fantasias que lhe comprazem. Por ocasião do autoencontro, além da organização física, a realidade se desveste das desilusões, que ressurgem com as fortes características que foram ocultadas.
Esse reencontro com os acontecimentos arquivados na mente produz choques morais de alta magnitude naquele que desejou escondê-la.
Verdadeiras máscaras postas na fase das atitudes detestadas que se desejou ocultar diluem-se, e o ser é constrangido ao autoenfrentamento com as consequências que se lhe derivam.
Tal ocorrência dá lugar a formações ideoplásticas que passam a vestir o trânsfuga até que uma dor profunda ou algo poderoso destrua a figura plasmada e se inicie outro ciclo correspondente à sua realidade interior.
Muitos Espíritos perversos se travestem de formas horripilantes para esquecer os males executados e ocultar a vilania praticada contra o seu próximo.
Mediante as Leis de Afinidade e Sintonia Vibratória, permanecem nos mesmos níveis de vivência até o momento dos reencontros.
O Sr. bispo optara pela forma lupina, em razão da sua infeliz conduta sexual, usando as regras e exigências da religião, e, qual se fosse um lobo, banqueteava-se até a exaustão, retornando à aparência eclesiástica. No entanto, durante as horas de desprendimento espiritual, era mais o felino cuja forma aditava ao sacerdote de aparência generosa que deveria ser.
Ao entregar-se à lamentável situação na Casa da Justiça, assumiu a vilania que o caracterizava, buscando gerar sofrimentos na Instituição Espírita-cristã, desforçando-se no seu atual presidente.
Profundo conhecedor das misérias humanas, o nobre Eurípedes fê-lo voltar ao cenário de degradação e infâmia em que interrompeu o renascimento do Espírito.
Recordado o desditoso naquele momento, as teses nadaístas pouco ou nada puderam impedir nos dias do passado próximo nas arrepiantes atrocidades.
Estorcegando e debatendo-se nos delicados e vigorosos fluidos da mediunidade, passou a rever na mente, antes obnubilada, a cena terrível da infeliz mãezinha que se atirara da torre alta da igreja matriz onde ambos pareciam cultuar Deus.
Vimos, através das imagens que ele exteriorizava, a criancinha ensanguentada, enquanto a sua voz pedia misericórdia para que não lhe matassem o corpo de que muito necessitava. Simultaneamente, a própria Marcela, enlouquecida e deformada, tentava agredir o insano, igualmente atacado por outros inimigos também desencarnados.
A cena era muito constrangedora e humilhante: a chusma de sofredores, em aspecto indescritível em que se apresentava, blasfemava e o indigitava na condição de bandido confesso.
O triste espetáculo evocava a visão selvagem de chacais sobre vestígios de outros animais vencidos sob uma nuvem carregada de réprobos vingadores em tumulto aterrador.
Nesse comenos, Eurípedes evocou as bênçãos de Maria Santíssima, e uma luz desceu sobre o cenário triste, produzindo um terrível choque visual.
A Senhora de Nazaré em pessoa apareceu a pouco e pouco, ocorrendo um silêncio incomum, quebrado pelo pranto de muitas vozes, e abraçou o demente pervertido incorporado em Malvina.
A médium humilde e sacrificada adquiriu uma peregrina luminosidade nos centros de força e todo o corpo.
Ele uivava e retorcia-se nos braços carinhosos da Mãe Sublime de Jesus.
Ouviu-se-lhe a dúlcida voz com uma tonalidade inolvidável:
– Filho, que fizeste das ovelhas que te foram entregues para pastorear?
Por que as transformaste em vampiros e as levaste à loucura?
Onde estão os teus sentimentos de pastor?
Por que atiraste os cordeiros débeis e inseguros aos cardos, sobre as pedras da desagregação?
Ainda é tempo de voltares ao aprisco.
Agora recolhes o abandono a que atiraste todos que desprezaste e se encontram dilacerados, esfaimados de Jesus e sedentos de paz?
Tua veneranda mãezinha rogou-me teu auxílio desde há tempos e hoje especialmente, vencida pelas lágrimas, suplica que eu interfira com meu Filho em teu favor.
Entrego-te aos seus cuidados, qual aconteceu há bastante tempo.
Liberta-te do mal, no seu doce aconchego.
Surpreendeu-nos uma dama idosa e adornada de luz, que se aproximou e distendeu os braços, recolhendo o filho desditoso que chorava em urros dilacerantes.
– Confia em Deus, meu filho, e saiamos do abismo para outro campo onde reine o amor.
Todos chorávamos discretamente, e houve um silêncio profundo, acalmando os enlouquecidos que se encontravam presentes.
A agressividade geral diminuiu, e as lágrimas pareciam lavar o solo ensanguentado, esmaecendo a ardência dos sofrimentos nos seres dilapidados...
Entraram algumas dezenas de filhos do Calvário,que passaram a conduzir aqueles que se encontravam mais calmos, enquanto o Sr. bispo, quase recuperando a forma humana, abriu desmesuradamente os olhos e a boca, mas não conseguiu dizer nada. A face estava sob a máscara do horror...
Foi então que a Senhora Mãe da Humanidade concluiu:
– Renascerás ainda na Terra, proximamente, assinalado pelas flores negras dos teus delitos, e espinhos transformados em feridas e deformações surgirão no teu corpo e na tua emoção, como flores perversas, a fim de lograres a redenção, até o momento em que o teu coração pulse ao ritmo do amor que destroçaste em outras existências.
Não recalcitres, nem titubeies.
Não há crimes que não possam ser corrigidos, nem amor que se negue a envolver todos os réprobos para a reparação.
Vamos, meu filho, com a tua mãezinha. A vida na Terra sofrida te espera.
As emoções eram superiores às nossas resistências e deixamo-nos dominar pela soberana bênção da Mãe Augusta, enquanto a claridade foi diminuindo até ficarmos com os tons do trabalho normal.
Todos que ali nos encontrávamos éramos a família de Jesus recebendo as Suas santificadoras mercês.
Malvina retornou à lucidez suavemente, havendo recebido passes revigorantes, e Amália começou o seu transe.
A luz divina estava acesa e era necessário arrancar das trevas do Eu enfermo aqueles que ainda não haviam despertado.
A nossa irmã Amália, num transe profundo, apresentava uma fácies atormentada com vários vínculos de dor e sisudez, passando a falar pausadamente num tom masculino:
– Já estive aqui, há pouco tempo, falando através de outra sensitiva, mas isso não é importante.
Naquela ocasião, fui convidado a demorar-me neste reduto de modo a ver a face nova dos dois adversários que mais feriram o meu ser. A contragosto, permaneci, como se uma força insuperável me detivesse... Tentei sair, fugir, debater-me nas grades férreas do ódio, mas me sentia chumbado ao solo e, mesmo sem o querer, passei a assistir às atividades que são desenvolvidas. A princípio julguei serem farsantes e membros de alguma seita de feitiçaria, porém os exemplos de amor e de compaixão que detectei em muitos momentos e encontros de pessoas que se arriscaram a vir buscar socorro fizeram-me alterar o comportamento negativo. Não podia acreditar que o Jesus, cujo nome é anunciado mil vezes e parece agir por intermédio das pessoas, não é o mesmo que me desgraçou no passado. Os infames que me desgraçaram, agora com as suas novas roupas, transformaram-se em samaritanos compadecidos dos judeus que se lhes implicavam e perseguiam, produzindo-me conflitos inenarráveis. “Em que acreditar?”, perguntava-me. Naqueles que me trucidaram ou nestes que levantavam os caídos, às vezes caindo também, porém levantando-se rápido para ajudar?
Falando ofegante e entre soluços, silenciou, embargado.
Utilizando-se do silêncio espontâneo do paciente, Spinelli falou-lhe com imensa ternura, qual paternal:
– Todos nos recordamos do querido irmão. Aliás, gostaríamos de identificá-lo pelo nome que teve naquele difícil período, e não pelo aspecto orgânico...
O Espírito pareceu surpreso e, com os olhos da médium muito abertos, ripostou:
– Isso é importante?
– Não. Sucede que aqui preferimos falar ao ser profundo, e não às características transitórias da sua reencarnação. Mas como o nome, a identidade, remete à melhor evocação da existência, preferimos essa opção, caso seja do agrado do nosso visitante.
– Era chamado Spanovich, o Monstro... – e sorriu com terrível amargura.
– Preferimos chamá-lo apenas de Spanozito, que nos parece mais familiar e íntimo.
– Sim, era assim que minha mãe me chamava... – e aumentou o pranto, agora mais dorido.
– Muito nos alegra saber que você se sentiu no lar ante os sofredores que também buscavam as bênçãos de Jesus nos dias passados.
– Ninguém lhes perguntava quem eram, mas sim o que desejavam...
– É natural que assim nos comportemos, porque Jesus nos chamou a todos os sofredores como filhos do Calvário, de alguma forma igualando-nos a Ele, o Mártir da Cruz, que foi plantada no alto do Monte do Calvário. Desde então, todos aqueles que padecem injustiças, angústias ou quaisquer tipos de sofrimentos somos Seus filhos do sofrimento, mas também do amor e da solidariedade, necessitando-nos uns dos outros para a descrucificação...
O meu irmão Spanozito já o era mesmo antes de conhecer esse esforço dos homens do caminho que pretendiam manter toda a Humanidade como sua família. Esteja, pois, inteiramente à vontade.
– Não sei o que falar e não tenho como expressar-me, porque sempre fui considerado um monstro e tal sentia-me até o momento em que aqui encontrei dores maiores do que as minhas, em reuniões magistrais de socorro pela madrugada a falecidos alucinados e odientos, passando a compreender que somos responsáveis por muitas das misérias que nos afligem. O ódio que me consumia parece-me agora uma labareda que se vai apagando por falta de combustível. Não que esteja livre de pensamentos arrogantes e vingativos, mas pela oportunidade de saber que me encontro equivocado e, ao invés de vítima, sou um terrível vingador.
Fez uma ligeira pausa nos comentários e prosseguiu:
– A nossa comunidade é ainda amaldiçoada, apesar dos disfarces psicológicos que são estabelecidos, mais como compaixão dos que são sadios e se creem superiores do que mesmo por espírito de compreensão e solidariedade. Por isso, de algum modo formamos nossa sociedade terrena, vinculando-nos a outros grupos odiados, tais os gitanos e demais infelizes. Nossa angústia é tal que aqui, após a morte, mantemos a união e formamos grupos especiais de vingadores, qual ocorre na cidade em que habitamos.
Somos utilizados para hipnotizar mastins e ofídios, principalmente, assim como atormentados sexuais. Somos tidos como viciados em sexo e drogas... Não é verdade. Esse drama não é de determinada faixa de seres, mas de todas as criaturas invigilantes e certamente em nós, por decorrência dos sofrimentos que experimentamos.
O diálogo de ternura prosseguia, quando irmão Eudalbo adentrou-se no recinto e acercou-se dos irmãos, acompanhado por uma senhora envelhecida, mas bela e de sorriso jovial na face enrugada.
Imediatamente, o comunicante exclamou: – Mamãe querida, você está vindo do Céu arrancar o filho das chamas do Inferno? – e atirou-se-lhe nos braços distendidos, chorando mais desesperadamente.
Com afagos e carinhos na cabeça úmida, ela respondeu:
– Venho buscar-te em nome Jesus, de Quem te separaste desde há muito. É somente o que importa no momento. Depois compreenderás.
Com imenso carinho, auxiliada pelo nosso Eudalbo, saiu conduzindo o seu tesouro para novas experiências iluminativas.
A médium recuperou a consciência, recebeu passes espirituais do irmão Cláudio e, antes do seu encerramento, porque houvesse grande número de sofredores em expectativa, Spinelli falou-lhes docemente sobre o amor a Deus, os deveres morais em relação à vida e a si mesmo e, com beleza incomum, sobre o Mestre Incomparável.
Ao término, foi pronunciada com muita emotividade a oração de encerramento pelo chefe do grupo de Templários, cujas vestes brancas passaram a brilhar suavemente no ambiente adornado de pétalas de rosas perfumadas que desciam sobre as nossas cabeças.
“O Núcleo Espírita é, sem dúvida, reduto de socorro de
urgência e emergência para muitas vidas estioladas
mediante o conforto e direções de equilíbrio que propicia
de imediato, evitando, desse modo, emaranhamentos em
situações mais perversas e complexas do que aquelas nas
quais se encontram ao serem atendidas.”
Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco