No Rumo do Mundo de Regeneração
1. Os Clarins Anunciadores
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OS CLARINS ANUNCIADORES
D e nossa Comunidade olhávamos o planeta terrestre, que lentamente se envolvia em volumosa cortina de sombras.
Sabíamos que aquele adensar de fluidos sombrios era o resultado da emissão mental doentia dos seus habitantes.
Em volta, a regular distância, podíamos ver as paisagens siderais e o Astro-rei, na pujança da sua luz, tentar vencer a pesada camada que se assemelhava a nuvens anunciadoras de tempestades.
Uma vez ou outra também observávamos tormentas que desabavam entre relâmpagos velozes, em dança macabra, e trovões ensurdecedores, sob o comando de venerandos guias espirituais do amado planeta, em tentativas de diluir as condensações mórbidas acumuladas.
Após verdadeiros vendavais que arrebatavam as massas escuras, podia-se ver algo da Natureza exuberante do orbe terrestre voluteando em torno do seu eixo e do Sol.
Animávamo-nos em nossas conversações, mas logo depois de algum tempo, nuvens carreadas de eletricidade volviam a encobrir o gigante solto no ar.
Naquela noite especial de setembro, após ouvidos os clarins que ecoaram por toda parte, reunimo-nos em um imenso anfiteatro sem teto, que nos permitia ver o turbilhão de astros bailando na luz que emitiam e na sinfonia inimaginável que produziam, como se fosse um mágico espetáculo celestial.
Os grupos de Espíritos reuniam-se nos arredores do majestoso edifício, aguardando a conferência do administrador da nossa Esfera e os visitantes que haviam chegado de uma Colônia congênere.
A suave brisa perfumada pelas flores miúdas que desenhavam maravilhosos conjuntos coloridos nos jardins em volta envolvia-nos em doce paz, embora se pudesse perceber a preocupação geral nos semblantes sérios e um pouco assinalados pelos sulcos típicos da tensão nervosa.
Às 20h todos estávamos sentados nos confortáveis degraus do belo edifício, quando chegou a comissão que acompanhava o nosso administrador-chefe.
Um silêncio especial envolveu a multidão, que se adensava em expectativa.
Ao redor de larga mesa colocada numa face da sala, sobre ligeira elevação que lhe dava destaque com arranjos florais majestosos, sentaram-se os responsáveis pela atividade e os visitantes ilustres, num total de dez Entidades.
Uma suave melodia em tom gregoriano tomou todo o ambiente, no qual brilhavam no ar pequeníssimas estrelas.
Uma unção espontânea envolveu-nos a todos, dominados pelas emoções superiores, e lágrimas inesperadas umedeceram-nos os olhos.
Nosso administrador, o irmão Antúlio, que era responsável pela nossa Comunidade, ergueu-se e, com significativa ponderação, deu início à solenidade.
Saudou os visitantes e a todos nós, logo aduzindo:
– Nesta manhã, embora já esperássemos, todos ouvimos emocionados os clarins anunciadores e a sua música melancólica, informando-nos que o amado planeta se encontra na mais difícil crise espiritual dos últimos séculos.
Iniciava-se com dores infinitas que já vinham assinalando a cultura e a civilização com sucessivas guerras locais devastadoras e alucinados programas de divertimentos extravagantes quanto grosseiros.
A drogadição vinha, há décadas, consumindo a juventude, e vícios degradantes dominavam a sociedade que combatia a família, a educação, a saúde e os meios de dignificação humana. O bafio pestilento exteriorizado pelo materialismo dominador das massas zombava de Deus, na condição de mito superado, e a figura de Jesus e Sua Doutrina, como as personagens dos Seus dias, que O acompanhavam, sendo objeto de escárnio e desdém...
Em nome da arte e da cultura, vivia-se a bacanal em toda parte com anuência das autoridades ou por elas estimulada, e graves transtornos de conduta formavam uma sociedade desarrazoada e venal.
Os valores éticos, a princípio, surdamente, depois vulgarizando através dos veículos de comunicação tradicional e virtual, eram anulados como castradores da liberdade, e a necessidade de igualdade com as minorias de todos os aspectos favorecia a libertinagem desmedida. Pessoas cultas e aparentemente sensatas de repente sentiam necessidade de quebrar os limites, a que denominavam como tabus, e desnudavam-se em nome da nova ordem, animalizando mais o ser humano e humanizando os animais.
Disparates de toda espécie tornavam-se motivos de brigas intérminas e qualquer postura de equilíbrio era vista como remanescente da chamada decadência do comportamento ultramontano.
Os jogos políticos atingiam as mais chocantes aberrações de furtos e roubos, predominando o cinismo de criaturas declaradas sem honra em face dos crimes cometidos e divulgados.
As universidades negavam a finalidade para a qual foram edificadas pelas civilizações transatas, dominadas pelos revolucionários perversos que os políticos insanos colocavam para desviarem a juventude, seduzindo com programas ateus e depravados, em que os instintos primitivos eram exaltados até a consumpção das energias devoradas pelos interesses de corruptos e de corruptores.
Sentia-se no ar, em toda parte, que algo iria acontecer, porque a decadência moral e intelectual havia chegado à situação insustentável.
Pensou-se que o monstro da guerra seria uma solução para diminuição da população da Terra, como sucedera anteriormente, e os laboratórios de investigação científica, a pretexto de penetrar na vida microbiana para melhor estudar a saúde e resguardá-la, também estabeleceram códigos secretos de se criarem vírus tenebrosos, partindo-se da cepa de algumas enfermidades. E neste século surgiram epidemias, algumas transformadas em pandemias, que continuam devorando vidas aos milhares.
O nobre Espírito fez uma pausa oportuna para reflexões, a fim de continuar, logo depois:
A Divindade, através dos Seus prepostos, providenciou reencarnações de apóstolos da caridade, de missionários do conhecimento, de sábios da tecnologia para melhorar as condições de vida no planeta, de embaixadores da Vida espiritual e proclamadores do amor, do respeito à vida em todas as suas expressões, e eles sensibilizaram milhões de seres que anelavam pelo bem e pela Verdade. Entretanto, suas vozes, exemplos e abnegação não lograram diminuir a força dos arbitrários adversários da Luz Divina, que, abraçando doutrinas perversas, ampliaram o seu campo de obstinação no mal e arrebanharam as mentes jovens, em razão das famílias destruídas, das uniões sexuais imaturas, dos cidadãos inescrupulosos dominadores...
Os enfrentamentos têm sido contínuos e os inimigos do bem, disfarçados em servidores da imortalidade em que se homiziam, para continuarem envenenando as massas com as suas ironias e argumentações odientas, utilizam-se da Imprensa marrom e suspeita, perturbando as mentes dignas com notícias falsas, bem trabalhadas para confundirem. E têm conseguido com facilidade e comportamento feroz.
Perde-se muito tempo com dialética vazia e combates antifraternos, separando as pessoas do mesmo clã por ideologias políticas e criminosas, enquanto os males surgem inesperadamente.
É o que está acontecendo neste momento de provações e expiações individuais e coletivas, que ameaçam a existência humana no planeta confiado a Jesus para o alçar a mundo de regeneração.
Em razão da continuidade de comportamento insano dos seres rebeldes e negligentes, as forças do bem anuem com a grande aflição da peste que varre a Terra em seus quadrantes.
Cenas de horror são ridicularizadas, orientações elevadas são desconsideradas com zombaria, sacrifício e abnegação dos Espíritos dedicados que se encontram na linha de frente não têm recebido o merecido reconhecimento do Estado, em alguns lugares, nem das massas enfermas da alma e ambiciosas da Terra.
Alastra-se a peste, recordando-se a denominada negra do período medieval, em que a Igreja, intolerante e irresponsável através do seu representante máximo, propôs a Inquisição, e mais de um milhão de vidas foram ceifadas cruelmente por serem acusadas como hereges... Logo depois, outro Papa anunciou que os gatos eram portadores da figura satânica, e os felinos foram perseguidos de maneira inclemente e mortos com impiedade... Como efeito natural, os ratos multiplicaram-se terrivelmente e, portadores de pulgas infectadas, contaminaram a Terra, especialmente a Europa, destruindo milhões de existências...
De alguma forma, ocorre hoje o mesmo fenômeno; ao combater-se, ou parecer fazê-lo, as paixões políticas arruínam os países, e os sobreviventes do vírus da Covid-19 serão dizimados pela miséria e pelo abandono.
Novamente, a voz suave e enérgica silenciou por alguns segundos, enquanto o auditório em silêncio e profundamente impressionado, aguardava a continuidade da exposição.
– É certo que nada poderá obstaculizar o progresso do planeta terrestre e da sua sociedade.
Esses acontecimentos e outros de natureza sísmica e cósmica darão lugar a maior soma de sofrimento humano, enquanto facultarão também a presença dos apóstolos da caridade e do amor, da fraternidade e do bem, formando a família da misericórdia em socorro a todas vítimas, sejam aquelas que padeçam a contaminação ou chorem as perdas afetivas e/ou as misérias de outras expressões.
Ninguém conseguirá fugir ao determinismo do sofrimento, embora não tenham diretamente razões, mas por solidariedade e compaixão.
Avizinha-se a hora em que das nossas colônias espirituais descerão ao planeta em desolação as equipes socorristas em nome de Jesus, mergulhando em reencarnações redentores e atendimentos específicos durante a atual e as demais calamidades que venham a acontecer.
Todos estamos convidados ao serviço de amor e de caridade aos nossos irmãos do amado planeta Gaia, na tradição grega.
Somente o sentimento de amor, conforme o expressou Jesus e o viveu, logrará modificar as paisagens humanas neste momento.
Nesse terrível confronto entre o bem e o mal, muitas criaturas sem maturidade psicológica robotizam-se, sem definição, seguindo a trajetória das forças em antagonismo, inimizando-se umas contra outras.
As esperanças cristãs estão centradas no Consolador com a sublime mensagem de Vida imperecível e o comportamento digno na vilegiatura carnal. Benfeitores abnegados recusam-se a ascender, de forma a continuarem auxiliando a Humanidade iluminada pelo Cruzeiro do Sul, mas que prefere as sombras da ignorância e da crueldade, teimando em olvidar que a jornada física é de efêmera duração.
Observemos o que sucedeu às civilizações do passado, cuja glória se transformou em memórias vagas, e suas grandiosas construções ruíram e hoje servem de amparo a serpentes e aracnídeos perigosos, ou foram arrastadas pelas águas oceânicas à sua profundeza.
O tempo terrestre é relativo aos movimentos do planeta no seu giro infindável sobre si mesmo e em torno do Sol, sob a direção do Celeste Governador que o guia desde os dias longínquos de nebulosa de gases incandescentes.
Logo mais, formaremos nossas caravanas de socorro, porquanto já estão tomadas providências para receber os irmãos que desencarnarem sob a trágica tempestade viral.
Ao terminarmos a nossa elucidação, formar-se-ão grupos sob direções especiais adrede programadas, para o trabalho em conjunto com todos os grupos espirituais de comunidades socorristas que operam em favor do planeta.
Recordemos da orientação do Senhor Jesus ao encaminhar os setenta à Galileia: “Eu vos mando como ovelhas brandas para conviver com lobos rapaces”...
Certamente se referia aos irmãos desencarnados, que se comprazem na geração do terror e das lamentáveis obsessões aos deambulantes do corpo físico. Nestes dias de horror, também eles, nossos irmãos infelizes, comprazem-se em atormentar antigos desafetos, desafetos que se dizem do Senhor Jesus, a Quem perseguem tresvariados e odientos.
Eles também estão organizados para os embates do momento, por considerarem-no excelente para os fins desprezíveis a que se dedicam.
Formando uma nuvem espiritual, semeiam a desordem e a incompreensão nas almas já aturdidas em si mesmas, perseguindo-as com tenaz insistência.
Atividades severas nos aguardam em nome do amor, a fim de preservarmos as nossas comunidades dos assaltos perigosos do mal em hordas asselvajadas e dispormos de condições para recebermos os recém-desencarnados que possamos trazer para nossos diversos setores socorristas.
À semelhança dos dias de guerras hediondas, estamos diante de uma ainda mais perigosa, em face da sua singularidade, como ocorreu nos dias do passado...
Novamente silenciou. Pudemos ver os seus olhos brilhantes com lágrimas que os aureolavam. A tonalidade da voz nos produzia sentimento de ternura e solidariedade pelos sofredores do mundo, de alguma forma também somos quase todos sofredores.
O auditório emocionado pôde, então, acompanhar a peroração final coroada por emocionada prece de súplica a Jesus.
Senhor!
Envolve-nos, os Teus servidores fiéis, nas dulcíssimas vibrações do amor, a fim de podermos corresponder à Tua expectativa, no convite que nos fazes para atender a Humanidade sob as sevícias necessárias à sua evolução.
Desde priscas eras convidas-nos todos a compreender o destino que nos está reservado sob as bênçãos do Supremo Pai.
Nas brumas da ignorância em que transitávamos, enviaste-nos, de outro astro celeste, luminosos mensageiros que semearam os pensamentos de libertação das paixões destrutivas, na formação das culturas do passado.
Corporificados na matéria carnal, eles submeteram-se às injunções grotescas do planeta para nos ensinarem a crescer na Tua direção, modelando os equipamentos delicados para que o Espírito melhor se utilizasse, empreendendo o processo de purificação do vaso para tornar-se capaz de alimentar-se de luz.
Depois que eles construíram algumas raças na Eurásia, vieram sob o Teu comando os nobres edificadores da sabedoria para colocarem em nosso íntimo as sementes poderosas do amor e da fraternidade, auxiliando o planeta a diminuir as sombras que o envolviam.
Periodicamente, mesmo durante as conflagrações que se permitiam alguns desses povos, eles a todos convocaram ao respeito a Deus, à Vida, a si mesmos e ao seu próximo.
Com desvarios coletivos ergueram-se impérios monumentais que foram transformados em escombros, narrando em silêncio a dor da tragédia que os devastaram.
Sucessivamente, enviaste Espíritos temerários e insensíveis para submeter e domar as más inclinações, e nada quase conseguiram.
Depois de devastações aparvalhantes, vieste, Tu próprio, aureolado pelas estrelas do amor e da caridade, acompanhado de luminares que se encarregaram de imortalizar Teu nome, e a civilização cristã poderia ter modificado o mundo.
Não foram poucos os Teus discípulos fiéis que vieram alertar e viver com os réprobos morais e os dominadores de mentira, sem que restaurassem a união das almas num banquete de fraternidade.
...E quando o mundo entrou nos nobres segredos da ciência, da razão, da ética e da igualdade como recurso de vitória, enviaste Allan Kardec e as estrelas que estavam no Céu, para que descessem à Terra e a iluminassem com as claridades do Teu Evangelho.
A nova sementeira espraiou-se, mas a colheita está pífia, e, não tendo alternativa, envias a peste, para que sejam revistos os códigos dos valores humanos e o amor seja a grande luz que embale as vidas nos próximos dias de regeneração.
Eis-nos às Tuas ordens, Senhor dos Espíritos e do planeta terrestre sob o Teu comando, repetindo:
Glória a Deus nas alturas e Jesus entre os homens de boa vontade!
O recolhimento era silencioso, geral, ouvindo-se suave-doce melodia passeando no ar entre pingentes de luz azul e níveo brilhante.
Antes do encerramento, um dos convidados à mesa, elucidou:
– Agora cada qual busque o responsável pelo seu grupo que descerá à Terra, para receber as instruções de que necessitam.
Começamos a sair, seguindo em direção a um outro edifício térreo, dividido em grande número de salas.
O zimbório celeste palpitava de estrelas brilhantes que produziam singular claridade à noite especial.
Uma grande expectativa pulsava no meu peito e certamente em todos que estivemos presentes ao significativo encontro.
“Quando os seres humanos compreenderem que o mundo
é feito de ressonâncias, os seus pensamentos e condutas
obedecerão a diferente critério seletivo.”
Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco