No Rumo do Mundo de Regeneração

Divaldo Pereira Franco · Capítulo 11 de 21

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No Rumo do Mundo de Regeneração

10. O Amor Não Cessa

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O AMOR NÃO CESSA

 

N o dia seguinte, quando nos reunimos sob a copa de uma velha árvore que esplendia de verdor e a temperatura do amanhecer estava amena, acompanhamos o início dos labores na Comunidade Espírita.

Durante toda a noite a movimentação fazia-se expressiva, em razão do atendimento de Espíritos vinculados ao programa de socorro e de iluminação de consciência da respeitável Instituição terrestre.

Era também um posto de repouso para grupos espirituais que operavam na cidade e ali possuíam os recursos de refazimento, com aparelhagens especiais para a comunicação direta com as organizações do Mais-alto.

A partir das oito horas da manhã, um bom número de servidores espíritas se encontrava nas salas respectivas do atendimento fraterno, dos passes, dos grupos de estudos, bem como de assistência espiritual a desencarnados na sala de que nos utilizáramos há poucas horas.

Tratava-se de uma colmeia de amor sob todos os pontos de vista considerados.

Serviço e orações vibravam no ar, leituras edificantes eram divulgadas por aparelhos de som, e todos se movimentavam em ambos os planos da vida com objetivos elevados para a edificação do bem sem limite.

Utilizando-me de um momento silencioso de reflexões antes de iniciarmos a atividade que nos dizia respeito, interroguei o amigo Gracindo, que confraternizava conosco e demonstrava um bom humor contagiante.

– Fiquei surpreendido – iniciei o diálogo – com o carinho que a médium Malvina recebeu de todos os membros da nossa caravana, mas também dos diretores espirituais da Instituição. Vendo-a frágil, agigantou-se durante o fenômeno mediúnico e, apesar das dores que a martirizam, a mediunidade esplendeu em grandeza durante as comunicações de que fora instrumento, especialmente naquela que envolvia o amigo Ibn.

O diretor sorriu generosamente e explicou:

– Nossa querida irmã foi preparada muito antes da reencarnação para o ministério que vem exercendo com a fidelidade possível. Quando a obra foi planejada, por volta de 1830, em nossa comunidade residencial, ela foi destacada para ser a médium encarregada de todo o planejamento e por um longo tempo da estruturação no plano material.

Não é a primeira vez que exerce a mediunidade, sendo que, desta vez, profundamente vinculada ao Evangelho de Jesus, para o serviço da caridade e da construção do Reino de Deus nos corações de todos nós. A vivência anterior na mediunidade foi uma espécie de adestramento para experienciar nos dois planos da vida naturalidade, adquirindo resistências para as lutas de edificação.

Disciplinada pelos mentores espirituais, foram-lhe traçados os roteiros que deveria percorrer para serem bem executados os programas superiores. Ela própria elegeu a forma feminina, por considerar a mediunidade uma delicada expressão de maternidade temporária e rápida, quando ocorrem os fenômenos de incorporação ou de psicografia, acolhendo os desconhecidos com ternura e mantendo uma alta sensibilidade em razão dos hormônios que tipificam a organização somática da mulher.

Desde cedo, no corpo físico, passou a ver e ouvir, assim como a ser instrumento de Espíritos, especialmente os zombeteiros, embora a proteção dos mentores.

A Misericórdia Divina sempre a protegeu do mal, facultando que tivesse uma infância católica muito acentuada, treinando a mente e o coração na doce Mensagem de Jesus e de alguns santos que a fascinavam.

Depois de muitos incidentes e quase obsessão, aprendeu a dedicar-se à mediunidade, sendo dócil às orientações dos Espíritos. Isso lhe permitiu conviver com alguns médiuns, adquirindo experiências no comportamento, entendendo as ciladas e desafios propostos por adversários do passado e inimigos do bem, que se compraziam em fazê-la sofrer com o objetivo de perturbar-lhe a tarefa e anulá-la nos objetivos para os quais renascera.

Silenciou, pois que, nesse momento, com alguma dificuldade de caminhar, a servidora de Jesus passou em direção à sua sala de atendimentos.

O benfeitor sorriu compassivo e continuou com gentileza:

– A faculdade mediúnica é um tesouro que os ladrões espirituais desejam roubar, de modo que fique ao abandono e se torne instrumento de desequilíbrio humano e social.

Por outro lado, nunca lhe faltaram amigos de ambas as esferas, auxiliando-a a defender-se e a perseverar com ânimo e alegria de servir.

Quando os médiuns sinceros compreenderem o significado da mediunidade como ponte entre os dois lados da existência, muito mais fácil ser-lhes-á o trânsito, porque a sua movimentação estará sempre assegurada pelos valores da sua vida moral e de seus exemplos de abnegação e de caridade.

Podemos asseverar que os seus guias espirituais investiram 120 anos para estarem ao seu lado até o momento de concluído o ministério.

Muitos companheiros no Movimento Espírita ainda não compreenderam qual é a função da mediunidade e o calvário que está reservado aos seus servidores, em razão do seu passado moral, e depois pela elevada razão de servirem de pontes aos benfeitores da Humanidade no seu programa de amor e paz entre os seres humanos.

No começo dos fenômenos organizados, os médiuns eram acusados de enfermos mentais, charlatães e narcisistas, com algumas razões, entre outras o desconhecimento da Doutrina Espírita, que possui as recomendações saudáveis para o seu exercício correto... Mais tarde, em face do respeito com que viveram muitos servidores da mediunidade com Jesus, foram, e continuam sendo, combatidos pelos companheiros, inspirados pelos inimigos da Causa do Senhor e por sentimentos inferiores outros, comuns a todos nós.

Mas aquele que perseverar até o fim, como ensinou o Mestre, terá conseguido o êxito.

Nestes dias, a necessidade da vivência mediúnica à luz sublime do Espiritismo é urgente, mas as distrações e licenças morais têm sido portas abertas na direção do abismo da indisciplina e do fracasso.

Confiamos, porém, em Jesus e naqueles que O amam com dedicação e compreendem o compromisso firmado, dedicando-se-Lhe em caráter de doação sincera.

Havendo-se calado, eu tive ensejo de perguntar-lhe:

– Vejo-a enferma e cansada. Não seria justo que se poupasse um pouco?

– Sim – respondeu afável –, porém o mérito se adquire através do esforço que se envida para cumprir com os deveres, mesmo que “com os joelhos desconjuntados”, como afirmou o Apóstolo das Gentes.

Olhe-a com mais cuidado – solicitou.

Pude perceber que, nos movimentos que lhe causavam dores físicas, ela recebia o prana da Natureza, que lhe era aplicado por generoso amigo espiritual que a acompanhava aos outros deveres…

As lágrimas vieram-me aos olhos.

Em nossa Esfera, várias vezes escutei referências carinhosas à nobre irmã, comentários esses de gratidão e afeto de beneficiários do seu amor.

Era-me uma bênção encontrar e conviver com uma verdadeira cristã, à semelhança daqueles seguidores fiéis de Jesus desde a primeira hora.

Naquele corpo frágil, que se dobrava ao peso das provações vencidas, estava uma heroína que parecia não se ajustar aos padrões de beleza para a performance dos tipos atuais, que chamam a atenção pela aparência e comovem pela maneira de comportar-se nos padrões da modernidade.

O amigo acrescentou, encerrando o tema:

– Ela está assinalada pelos odientos inimigos do Senhor para sofrer perseguições cruéis até a hora final.

Ela tem conhecimento, mas não parece preocupada.

Algo que a embaraça é a fama, essa grande inimiga da humildade, porquanto, conhecida pela fidelidade mediúnica, é consultada para banalidades, elogiada de maneira desagradável, quando preferiria ser ignorada, porém, fiel ao compromisso assumido na Espiritualidade.

Chegando ao hospital, tivemos a atenção voltada para a enfermeira de quando chegamos, a qual atendeu uma paciente que estava sendo maltratada e logrou resolver-lhe a problemática, não apenas a auxiliando, como também a encaminhando para o de que necessitava.

A beneficiária ficara-lhe infinitamente reconhecida e, logo que melhorou a saúde, buscou-a, a fim de agradecer-lhe, o que a felicitou e constrangeu ao mesmo tempo, porque nada fizera além do dever que lhe cabia.

Vive-se uma hora na qual a sociedade surpreende-se com a gentileza, a bondade, a demonstração de reconhecimento. De tal forma o indivíduo humano tem-se brutalizado que aquilo que é normal, digno de ser vivenciado, causa espanto e mesmo surpresa. Acostumou-se tanto aos maus-tratos que o dever parece uma grande virtude em desaparecimento.

A paciente era um Espírito nobre em prova redentora, como muitos outros surpreendidos pela pandemia.

Esse inestimável recurso de que a Divindade se utiliza, a fim de chamar a atenção das criaturas humanas em sua pequenez ante a grandeza da Criação, tem sido um instrumento de reequilíbrio para facilitar o entendimento das Leis Soberanas, trabalhando em benefício da evolução do ser. A transitoriedade do corpo tem que ceder ante a fatalidade imortal, por cujo mecanismo se atinge o ápice da plenitude.

O desprezo dos valores ético-morais em benefício da corrupção interior através dos vícios e mecanismo dos duvidosos prazeres engendrou a proliferação dos vírus que geram as enfermidades diante das quais se dobram as mais perversas convicções incapazes de eliminá-los. Nas mentes viciosas e carregadas de culpa encontram-se as energias mantenedoras dos elementos vitais que destroem ou transformam as construções orgânicas.

O amor, sem dúvida, é o melhor instrumento para facilitar a autodescoberta, o encontro com o Si mesmo, ajudar na aventura grandiosa de conquistar o infinito e plenificar-se. Quando recusado, existe a opção B, por eleição do próprio indivíduo, que é o sofrimento purificador ante cujo impacto nada ele pode, senão submeter-se para despertar para a realidade um pouco mais adiante.

A senhora Francisca, a humilde beneficiária da gentileza feita pela funcionária da saúde pública, é um Espírito nobre revestido na indumentária da pobreza, a fim de melhor servir à Humanidade. Faz parte desse grupo de heróis anônimos sobre os quais se fincam os alicerces da legítima fraternidade sem as aparências mundanas habituais.

Muito sensível às influências espirituais, tornara-se uma benfeitora singela do bairro em que reside, procedendo a curas mediúnicas sem que tivesse noção consciente dos fenômenos que operava.

Agora, sob a ação da Covid-19, pôde detê-lo em razão de haver sido atendida aos primeiros sintomas, logrando a felicidade de ter recebido a medicação muito discutida quanto aos seus efeitos, mais por questões políticas infelizes do que constatadas cientificamente.

Muitas vidas seriam salvas da pandemia se os interesses de muitos indivíduos, desde os laboratórios de pesquisas científicas até as receitas médicas, não sofressem o abuso dos jogos demoníacos das paixões servis.

Esta é uma batalha oculta de efeitos danosos para a sociedade, inclusive pelo desinteresse pelas vidas serem salvas ou não, em razão do dinheiro fácil, dos lucros exorbitantes e criminosos.

A pandemia da Covid-19, no Brasil e em muitos outros países, tem sido vítima da obstinada campanha da exploração das massas e até mesmo de alguns ditos benfeitores que são proprietários dos laboratórios de pesquisa e produção de vacinas e de medicamentos curativos.

Nesse sentido, o ser humano, com as suas nobres exceções, é vítima desditosa do poder a que aspiram e no qual estertoram e desencarnam, vitimados por essa fatalidade para a qual não há exceção.

Vendo a simplória senhora agradecendo à sua benfeitora, quebrando as recomendações de manutenção da máscara e do isolamento, acompanhada de diversos Espíritos amigos e gentis, acerquei-me de um deles, que me parecia muito vinculado ao coração da enferma e perguntei-lhe o porquê de ela sair do leito modesto e correr o risco de ser instrumento de contaminação e mesmo piora do seu quadro?

Ele respondeu-me gentilmente:

– Em a noite passada, embora a aparente melhora que se lhe observa, ela é cardíaca e o ignora, deverá desencarnar em poucos dias, sendo vítima de agravamento do seu estado de um para outro momento, por complicação no órgão com problema.

Ela percebeu que algo vai acontecer-lhe e veio despedir-se, sem o dizer, da moça bondosa, neste momento com problema afetivo muito grave, ao lado da desencarnação do pai e do irmão, o que a vem desequilibrando emocionalmente. O seu sentimento de gratidão, expresso nesse contato, tem objetivos futuros, após a sua desencarnação: auxiliar a enfermeira na prática da caridade, tendo-a como inspiradora.

Tudo está ocorrendo de maneira inconsciente, mas que nos é do conhecimento, e a inspiramos na decisão.

O seu gesto terá um grande efeito na moça que, uma ou outra vez, tem pensado em suicídio, pela solidão que experimenta, vítima também da perseguição de cruéis adversários do passado, alguns dos quais foram atendidos recentemente.

Ela ficará tão impregnada desse amor singelo que nos facilitará ajudá-la e preparar-lhe campo para ações futuras.

Sorrindo, ele concluiu:

– “Nada se perde neste mundo de meu Deus”, conforme uma forma popular de expressar a Sabedoria do Pai.

Observei que a jovem conversava animadamente com a paciente, mantendo uma regular distância e agradecendo com emoção maior do que o fato impunha.

Era compreensível, porque naquele momento ela encontrava alguém que a valorizava, superando o impacto do abandono de que fora vítima pelo afeto a que se vinculava.

Aproximei-me, numa tentativa e interesse de aprendizagem, e ouvi a enfermeira dizer-lhe:

– A senhora não sabe do significado da sua visita neste momento de exaustão e dor...

A visitante respondeu-lhe, calmamente:

– Eu sinto que vou morrer, mas do Céu eu virei cuidar da senhora... Tenho certeza...

A jovem tentou dissuadi-la com palavras amigas e despediu-se bastante comovida.

No diálogo rápido, observei como o Espírito com quem eu falara inspirava a paciente com ternura paternal.

Por sua vez, notei que o seu genitor, que houvera desencarnado fazia poucas semanas, encontrava-se enleado dos fluidos da perturbação, pedindo socorro à filha, que, não sabendo o de que se tratava, experimentava uma significativa angústia. Atribuía esse estado ao drama pessoal que a martirizava. Em realidade eram várias condições conjuntas que se somavam, afligindo-a e roubando-lhe as forças.

Quando a senhora Francisca saiu, a jovem buscou a sombra de velha mangueira no jardim, necessitando do ar puro da Natureza, e sentou-se num banco de marmorite que a circundava. Recordou-se do genitor nos seus momentos finais e começou a orar, rogando a proteção divina.

O nosso Cláudio, que comigo acompanhava a cena, acercou-se carinhosamente e pôs-se a aplicar-lhe passes longitudinais, culminando por retirar o pai em perturbação, e solicitou a dois auxiliares que estavam em nosso grupo que o conduzissem ao lugar de recolhimento.

A prece é sempre o recurso precioso para ser utilizado em qualquer situação, porque, ninguém estando a sós, aquele que ora facilita a comunhão com a transcendência, proporcionando aos bons Espíritos ajudá-lo e afastando os maus, que sempre são beneficiados pelas vibrações que emanam da prece.

Tudo é vinculação do amor nas suas múltiplas manifestações.

“O espírita verdadeiro é discreto nas suas atividades,

sempre vigilante com as suas más inclinações.

Faz questão de ser simples e gentil, poupando-se aos

comentários elogiosos e nem sempre edificantes.

Tal ocorrência, no entanto, somente é possível quando se

tem convicção da imortalidade da alma e do destino que

cada qual está construindo para amanhã.”

Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco