No Rumo do Mundo de Regeneração

Divaldo Pereira Franco · Capítulo 4 de 21

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No Rumo do Mundo de Regeneração

3. Adaptação ao Novo Lar

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ADAPTAÇÃO AO NOVO LAR

 

A o chegar, dirigimo-nos de imediato à Instituição que nos serviria de base para as atividades.

Em um local aprazível, próxima ao mar, podíamos beneficiar-nos das emanações do oceano, do brilho do plâncton à noite e a seiva das árvores que muito nos auxiliam na constituição perispiritual.

Jardins bem traçados abriam-se em variadas flores que desatavam perfumes, enquanto miríades de insetos voejavam no sagrado mister da vida, sob a assistência vibratória dos elementais.

Tratava-se de uma Comunidade Espiritista dedicada à iluminação de consciências e edificação moral pelo estudo da Codificação Kardequiana.

A movimentação era muito grande, tanto de trabalhadores conscientes das suas responsabilidades doutrinárias quanto de Espíritos abnegados, responsáveis pelos cometimentos abraçados. Num dos setores havia um edifício especialmente dedicado às reuniões mediúnicas, e o movimento de sofredores de ambos os planos fazia-se significativo.

No mesmo espaço eram realizados o atendimento fraterno aos cansados da labuta física e aos sofredores desencarnados, em meio aos quais podíamos notar adversários perversos de pessoas enfermas, bem como inimigos entre eles em peculiar processo de obsessão recíproca.

A administradora do espaço que nos fora reservado era uma senhora simpática de sessenta anos, mais ou menos, que trabalhava com os visitantes, que frequentemente se hospedavam na Sociedade. Muitos deles vinham com tarefas especiais para atendimento à Comunidade, enquanto outros eram trazidos para treinamento nos labores espirituais, particularmente com os recém-desencarnados.

Fomos conduzidos com muita fraternidade aos cômodos que nos deveriam albergar e preparar-nos para conhecer os labores formosos da Instituição.

Um educandário nobre, um templo de fé, um laboratório de pesquisas, quaisquer lugares onde se observem serviços de edificação da sociedade são abençoados redutos de amor e de construção do bem, preservado por Espíritos gentis que são colocados como guardiões, para evitar a baderna dos ociosos, burlões e perturbadores.

Quando a percepção humana se dilatar mais, penetrando nas diversas faixas vibratórias entre o mundo físico e o espiritual, permitirá o conhecimento de que a vida não para e o espaço vazio é pobreza dos sentidos humanos.

Assim, será mais fácil compreender também a teoria dos universos paralelos e outras conquistas extraordinárias que a Ciência terrestre está constatando.

Respirava-se o ar espiritual do trabalho em que Jesus, na condição de Condutor sublime, era venerado através da ação de todos que ali se encontravam.

Após alguns minutos, Marta nos informou que o mentor da Instituição, discípulo do santo de Assis, aguardava-nos, a fim de oferecer-nos as boas-vindas.

A sala onde fomos recebidos era simples, quase sem adorno de qualquer natureza, tendo na parede uma gravura do beijo que Francisco de Assis dera no irmão leproso, quando ainda era candidato a cavaleiro no mundo.

O irmão Gracindo recebeu-nos com afabilidade e explicou-nos que estava à frente da Instituição por orientação do Pobrezinho, desde a sua fundação. Explicou-nos ainda que a problemática do momento muito o preocupava, em razão dos prognósticos médicos algo alarmantes, assim como das informações espirituais de que tomara conhecimento.

Desde há alguns meses, os benfeitores da Humanidade deram-se conta da guerra terrível com o estranho vírus, que parecia haver sido trabalhado em laboratório, utilizando-se da cepa comum da influenza, e se deveria prolongar, maléfico, na Terra, por mais de dois anos, superando o da gripe espanhola.

Entreteceu considerações sobre a caridade em relação aos pacientes e a todos os sofredores no seu processo de evolução, e dirigiu-se diretamente ao irmão Spinelli, informando-o que podia contar com todos os serviços da Instituição a qualquer momento e sem consulta anterior.

Nominado com clareza, o amigo Francisco elucidou que era a primeira vez que participava de um labor desse gênero, porque estava emocionalmente vinculado ao solo gaúcho, nas tarefas de expansão do Espiritismo e suas atividades incomparáveis.

O nobre administrador convidou, para que nos acompanhassem, dois amigos espirituais que se encontravam presentes e fizessem o trabalho de cicerone da bela Instituição.

Saímos em agradável conversação e observamos a colmeia de ação benéfica.

A Instituição, especificamente, dedicava-se à obra de educação, porém, o Santo de Assis havia recomendado que não fossem esquecidos os Filhos do calvário, por Jesus assim denominados, que experimentavam as vicissitudes no declínio da existência física e eram abandonados.

Foram criados setores especiais para idosos, embora sem internamento, oferecendo-se cuidados e terapias preventivas às enfermidades sorrateiras, abrindo-se escolas tradicionais e profissionais, de modo que as novas gerações, melhores educadas, pudessem constituir a futura sociedade.

A higiene, os cuidados domésticos e os setores especializados em diversas áreas – médica, odontológica, farmacêutica, laboratorial, de parto natural – chamavam-nos a atenção, mas também a alegria e a psicosfera ambientais de voluntários e funcionários, perfeitamente conscientes de que o amor é a maior terapêutica preventiva e curativa que existe.

O setor doutrinário, fiel aos princípios do Evangelho e à Codificação Kardequiana, estava em pleno funcionamento, o que nos surpreendeu satisfatoriamente.

À hora da refeição, fomos convidados ao refeitório central, quando fomos apresentados a todos os trabalhadores, pela generosidade do irmão Gracindo.

Posteriormente, fomos informados que esse Espírito abnegado trabalhara com o suave doce Pai Francisco e se encontrava nessa tarefa por amor a alguns daqueles que, reencarnados, faziam parte do grupo que ele pretendia levar a Jesus.

Comoveu-nos também constatar que a mediunidade com Jesus era preservada e vivida naquele lugar com o respeito e a alta consideração que merece, sendo exercida cristãmente, como recomendava o codificador.

Graças ao desenvolvimento intelecto-moral dos seres humanos, à medida que se fazem sensíveis à beleza e à reflexão, mais percepção adquirem em relação aos denominados fenômenos paranormais, por ensejar-se melhor sintonia com as vibrações sutis que os envolvem.

Com o suceder do tempo, mediante o exercício, cada vez maior, das faculdades mediúnicas, os fenômenos tornar-se-ão normais, tornando esse delicado sentido físico mais primoroso e transcendental.

Cada vez mais se constata que a energia espiritual é a portadora de todos os valores que constituem a vida animal e especialmente a humana.

Graças aos estudos da fenomenologia mediúnica, mais ampla gama de ocorrências passa a fazer parte do cardápio existencial, por facultar a penetração em faixas vibratórias ainda pouco conhecidas e vivenciadas.

Ali estávamos em um mundo vibrante, com movimento e recursos poderosos que, no entanto, passavam despercebidos das pessoas que residiam ou se encontravam nos diversos setores em plena atividade. Seriam dois mundos em perfeita sintonia ou apenas um mundo em duas especialidades de percepção?!

A verdade é que em cada momento de reflexão, mais encantado com as descobertas e identificações que faço, reencontrava sempre a vida nas mais diversas expressões.

O dia finava-se lentamente, permitindo-nos ver a distância a linha do oceano confundindo-se com as nuvens coloridas do Sol poente.

Nesse momento, passamos a escutar uma antiga melodia religiosa de Palestrina, o grande compositor sacro, que parecia tangida por mãos e vozes invisíveis.

Observamos e sentimos uma suave brisa agradável que invadia todos os recantos da Instituição.

Nessa ocasião, um dos membros do nosso grupo, que fora médico virologista na sua última investidura física, murmurou, gentil:

– É a Hora doAngelus, das orações de louvor a Maria, a Santíssima, na sala de atividades mediúnicas, para onde devemos rumar.

O Dr. Eudalbo fora-nos apresentado antes de iniciarmos a jornada, e fora, na Terra, um grande e devotado estudioso da virologia.

Diversas vezes, estivera na Instituição e desfrutava de muito respeito dos seus membros, pela contribuição que dava em viroses menos letais, que ocorrera neste século e ainda remanesciam com episódios esporádicos.

Afirmou que poderíamos acercar-nos do local, participar das orações e rápidos comentários realizados pelo irmão Gracindo.

A sala de pequenas proporções estava repleta, com os chefes de departamento e alguns convidados, e nos emocionamos com as dúlcidas vibrações ambientais.

Nada havia de adornos, caracterizando-se pela simplicidade austera dos lugares dedicados à meditação e à prece.

À frente, a mesa em torno da qual, nos dias próprios, sentavam-se os membros da atividade mediúnica e em seguida algumas filas de cadeiras, corretamente colocadas, sem qualquer forma ritualística.

Sobre o móvel encontravam-se as cinco obras da Codificação Espírita.

O diretor enunciou uma emocionada prece e, de imediato, pediu ao irmão Spinelli que abrisse O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e lesse um parágrafo.

A página aberta encontra-se no capítulo sexto do livro referido, e assinala:

Todos os sofrimentos: misérias, decepções, dores físicas, perda de seres amados, encontram consolação em a fé no futuro, em a confiança na Justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens. Sobre aquele que, ao contrário, nada espera após esta vida, ou que simplesmente duvida, as aflições caem com todo o peso e nenhuma esperança lhe mitiga o amargor. Foi isso que levou Jesus a dizer: “Vinde a mim todos vós que estais fatigados, que eu vos aliviarei”.

O mentor solicitou-lhe que comentasse em breves palavras o magnífico texto, o que foi feito com o brilhantismo que lhe é peculiar.

– Paz seja conosco! – iniciou o querido companheiro. – Sempre nos referimos às misérias que nos acontecem no transcurso da evolução, olvidando-nos que elas são os frutos espúrios do nosso comportamento. O Pai Celestial nos proporciona a reencarnação a fim de prepararmo-nos para a glória que nos está reservada. Entretanto, as heranças doentias do processo inicial permanecem dominando as nossas paisagens íntimas e empurrando-nos para os fossos do desequilíbrio e da insensatez.

Compreendêssemos a necessidade da fé no futuro e nos pouparíamos no presente de acumpliciamento com as paixões servis que nos aprisionam nos painéis da inferioridade.

Confiássemos em Deus e adotássemos o comportamento ensinado e vivido por Jesus, e, com certeza, o nosso fardo seria leve, sem qualquer fadiga.

Eis por que o Espiritismo é a Doutrina da consolação, semelhante ao que Jesus fez, ajudando-nos a agir corretamente, sem a vã loucura de desejarmos a solução milagrosa dos problemas através dos mentores, cabendo-nos, a nós próprios, realizá-la.

Que o Senhor nos abençoe!

O seu verbo sempre gentil e suave penetrou-nos o ser e insculpiu-se-nos no âmago do ser.

O mentor considerou a gravidade do momento na Terra e a preocupação de todos em relação à pandemia, que agora se tornava terrivelmente visível, com a agressividade de que se constituía, surpreendendo o mundo dito civilizado, mas ainda algo primitivo.

Referiu-se aos aventureiros que se iriam aproveitar da circunstância dolorosa para ampliar o furto e a desonra, mas que a nós interessavam as preocupações do amor e da caridade, atendendo ao apelo planetário de misericórdia aos Céus compassivos.

Menos de uma hora transcorrida, a reunião foi suspensa e mantivemos algum diálogo com os demais trabalhadores da Comunidade enquanto a Natureza respirava paz e bênçãos.

“Os nossos irmãos enfermos são as heranças do Calvário

de Nosso Senhor Jesus Cristo, que os traz até nós, os

herdeiros do Evangelho, a fim de que, acima de qualquer

labor, amemos como se fossem filhos do nosso coração.”

Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco