No Rumo do Mundo de Regeneração
12. Aprofundando Experiências
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APROFUNDANDO EXPERIÊNCIAS
O irmão Gracindo dedicava-se ao trabalho na Instituição com devotamento invulgar.
Casado e pai, enfrentava dificuldades conjugais na intimidade da família. A esposa, facilmente influenciável pelos Espíritos e rebelde às diretrizes do Espiritismo, criava-lhe muitos problemas, que mais o empurravam para o formoso refúgio espiritual da Instituição. Os filhos, por sua vez, recebiam mais a influência da genitora, porque o pai era funcionário público e o seu tempo era muito dividido entre os deveres remunerados e a obra social de Espiritismo.
A princípio intentara muito em conduzir as crianças à evangelização, mas sempre encontrou resistência e dificuldades com a esposa, que se dizia vinculada a outra religião, embora não a professasse na conduta, como normalmente ocorre.
Pode-se perceber que o quadro para perturbações estava muito bem organizado.
Toda vez que as forças do mal queriam atingir o nosso irmão, utilizavam-se da atormentada mulher ou de algum dos dois jovens e de uma gentil menina.
Muitas vezes ele recebeu ajuda direta dos benfeitores através de Malvina, que o acompanhava com desvelo e amizade.
No período em que nos encontrávamos hospedados na Instituição que ele dirigia, observamos o seu sofrimento silencioso. Nesse ínterim, terrivelmente inspirada por um dos justiceiros,Dona Clementina apresentou uma queixa infame ao esposo, informando-o de que estava segura a respeito da sua fidelidade ao Espiritismo, por causa da médium por quem estaria apaixonado.
Tomado de surpresa ante a suspeita feroz e caluniosa da companheira, ele elucidou-a, demonstrando-lhe a própria nobreza de caráter, assim como da médium missionária e abnegada.
A princípio, o tema era abordado uma vez ou outra, mas recentemente se acentuou a situação, e ela ameaçou-o de provocar um escândalo, indo à Sociedade para desmascarar a farsante e acusá-lo de adultério.
A situação tornou-se grave, porquanto, apesar da quarentena, ele vinha com frequência ao Núcleo, tomando as precauções recomendadas, a fim de poder continuar administrando, agora de forma virtual, portanto, com muito mais trabalho do que anteriormente.
Em a noite anterior, acoimado pela doente obsidiada, ele compreendeu que se tratava de uma urdidura para desmoralizar o trabalho e lançar difamações na Doutrina Espírita. Percebendo tratar-se de uma ação mediúnica perturbadora, evitou a discussão que terminava em desastre verbal e recolheu-se à oração com entrega total da sua existência em favor da divulgação da verdade.
Um escândalo de tal porte refletiria nas milhares de pessoas que se beneficiavam de todos os recursos da Instituição, e ele não sabia como agir com serenidade e em defesa da verdade.
No momento em que orava, atraiu-nos e ao guia espiritual da Casa, que o acompanhamos no conúbio mental com a Espiritualidade e lhe transmitimos forças e coragem para o enfrentamento com o obsessor.
Inspiramo-lo a nada dizer à médium inocente, a fim de evitar mais sofrimento para ela e vinculação pelo pensamento com a fonte criminosa referta de energias destrutivas.
Aplicamos-lhe passes dispersivos, a fim de que a tensão nervosa resultante do diálogo agressivo diminuísse.
Beneficiado com o momento de oração e pelas vibrações decorrentes das energias da terapêutica fluídica, ele experimentou uma forte sudorese e do estado de ânimo exaltado voltou à normalidade habitual, confiante na proteção divina.
Como se fosse um paradoxo, recebeu um telefonema de pessoa amiga em desespero por questão doméstica de natureza idêntica, ciúme doentio e desconcertante.
O amigo ao telefone dizia-lhe já não suportar a situação em tela, porquanto, em casa, todo o tempo, auxiliando a esposa e os dois filhinhos, esta o acusava com ferocidade de infidelidade conjugal.
Narrava o amigo que lhe explicava a impossibilidade de tal acontecimento, em razão de sua conduta inatacável. No entanto, mentalmente violentada por Entidade infeliz, ameaçava-o de suicídio.
O cavalheiro amigo explicava que já não dispunha de argumento para silenciar a esposa em crise.
O ouvinte, que padecia da mesma injunção, buscou na Doutrina a orientação saudável, pedindo-lhe paciência e oração, únicos e valiosos recursos no momento, a fim de sanar a interferência de algum adversário.
Sugeriu-lhe, naquele momento, a leitura do Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, de modo a acalmar-se e, em consequência, gerar tranquilidade na companheira.
Havia tanta sinceridade e espírito de cooperação que o nosso dirigente Spinelli sugeriu-nos a alguns, inclusive ao nosso passista, visitar o lar em angústia naquele momento.
Terminada a comunicação telefônica, o amigo orou em favor do solicitante, e nosso mentor pôde captar-lhe a direção em que residia a família necessitada.
Partimos de imediato e logo chegamos à residência do casal em litígio, encontrando o lar invadido por alguns Espíritos ociosos sob o comando de dois adversários vigorosos que mais tarde compreendemos ser os denominados justiceiros.
A rede cruel de perseguição era mais complexa do que inicialmente eu considerara.
Como o queixoso era espiritista e frequentador da mesma Instituição na qual nos encontrávamos, havia interesse dos adversários do bem em afligi-lo também, dentro, naturalmente, da Lei de Causa e Efeito, porém com o objetivo de prejudicar o programa de cristianização da Humanidade ante as soberanas luzes do Espiritismo.
O que me intrigou no momento foi constatar que esses perseguidores não necessitavam de uma questão de dívida entre eles e aqueles que vitimavam. A questão era mais profunda: todos quantos se encontram com necessidade evolutiva de melhorar-se estão automaticamente incluídos entre aqueles que os desagradam e por essa razão devem ser eliminados.
Nesse sofisma, apoia-se a perversidade dos enfermos espirituais para dar prosseguimento ao seu programa de vingança contra a Humanidade que um dia, através de criaturas desassisadas, quais eles neste momento, ferira-os na loucura que os dominava.
Eis uma das razões básicas para a desarmonia que varre o planeta e o desassossego das existências em verdadeiro torvelinho, como consequência das filosofias niilistas e utilitaristas que em todas as épocas se voltaram contra a ordem e o equilíbrio dos seres humanos.
A predominância dos instintos primitivos caracteriza estes dias, porém, defronta os sentimentos de beleza e amor que vicejam, embora muitas vezes asfixiados pela crueza dos atormentados.
É certo que marchamos para a vitória da luz sobre a escuridão, do equilíbrio sobre o destrambelho das emoções, e a Vida está sempre encarregada de perpetuar-se conforme o princípio insuperável da sua origem.
Ele se encontrava na alcova de onde saíra a esposa dominada por um verdugo que a acompanhou à cozinha, onde ela procurou algo fazer para distrair-se.
A indução mental continuava empurrando-a para o prosseguimento da discussão com vista à possível agressão física.
Spinelli solicitou mentalmente a Cláudio para que a socorresse com um passe especial, a fim de afastar o vingador. Ao mesmo tempo que o amigo se lhe acercou da aura carregada de energia escura e pensamentos grosseiros, os fluidos dele começaram a diluir a nuvem mental que a aturdia e conduziu-a ao quarto, onde se encontrava o esposo em lágrimas de agonia, também seviciado por outro perverso vingador, ante a zombaria dos circunstantes de muito baixa vibração moral.
Eurípedes pôs-se a orar em altas vozes, que foram ouvidas pelos circunstantes desencarnados e também ergueu as mãos em apoio ao passista, e luzes rutilantes saíram pelos seus dedos, que passaram a envolver o casal e atingir os seus perseguidores, que logo se deslocaram das vítimas, gritando com ferocidade e ameaçando-nos com expressões vis e coléricas. Os benfeitores continuaram como se nada tivesse acontecido e, alguns minutos após, respirava-se na habitação outra psicosfera, e o casal abraçado em lágrimas de reconciliação.
A senhora, recuperada momentaneamente, procurava justificar-se das demoradas cenas daquela manhã, enquanto o marido, calmo, acariciava-a, rogando-lhe que esquecesse e orasse com ele, agradecendo a Deus o bem-estar que subitamente os acometera, como se fora um milagre.
Tomadas algumas decisões, Eurípedes convocou alguns amigos da sua Comunidade e solicitou-lhes permanecer naquele lar até segunda ordem, evitando, quanto possível, o retorno dos invasores ou a presença de outros do mesmo nível evolutivo.
Asserenados os corações, que dialogavam calmamente estudando a possibilidade de tratar-se de uma perturbação para afligi-los, saímos em direção do nosso abrigo.
O dia transcorreu muito movimentado não somente com o agravamento da doença no país, em face da contaminação volumosa, enquanto se anotavam simultaneamente a dádiva de algumas primeiras recuperações, que trouxeram muita alegria a todos.
Ao cair da tarde, acercamo-nos do mar e ali ficamos na praia, em um recanto de beleza incomum, beneficiando-nos da Natureza e conversando sobre as ocorrências do dia que se apagava...
Foi estabelecido que no próximo amanhecer realizaríamos uma reunião mediúnica especial para o atendimento de algumas dessas Entidades sofredoras que necessitavam de enfrentar a Justiça durante o engodo de serem aqueles que a aplicavam.
Quando a noite chegou coroada de astros refulgentes, fomos convidados a preparar a reunião, isto é, atrair os que se comunicariam, a colocação de aparelhos próprios na prática da desobsessão e cuidados especiais com as duas médiuns, uma de cada plano da vida.
Deixamo-nos conduzir pelas horas que avançavam e nos beneficiávamos com os trabalhos espirituais da Sociedade em que nos encontrávamos e com as ocorrências naturais.
Meditava que silêncio absoluto é somente pobreza dos órgãos auditivos e quietude não é paralisia. Há movimento incessante em toda parte, porque a vida é realmente o milagre da movimentação…
Lentamente e com segurança a noite avançou, e aos primeiros minutos do amanhecer estávamos todos na sala mediúnica, enquanto os trabalhadores espirituais da Instituição, solicitados pelo nosso mentor, organizavam os atendimentos e recebiam os convidados, inclusive os irmãos Gracindo e o confrade que lhe pedira socorro, Dona Clementina, Malvina, que foram despertando suavemente e com a lucidez relativa ao estado evolutivo de cada qual, todos assessorados e bem assistidos.
Aproximadamente a uma hora da madrugada, Spinelli deu início à reunião, solicitando a Eurípedes que procedesse à súplica aos Céus em favor do labor de socorro aos deambulantes da Terra.
O Apóstolo Sacramentano, com a voz doce e mansa que o caracteriza, suplicou ajuda ao Senhor dos Mundos, depois, à Mãe Santíssima e, por fim, a Jesus, o Mestre todo Amor, para que abençoassem o esforço de todos em favor da harmonia e do progresso das almas e da Humanidade.
Ouvíamos suave melodia que bailava no ar entre as vibrações de paz e ternura que nos comoviam, quando escutamos vozes exaltadas e movimentação inusual na sala. Estavam entrando algumas Entidades infelizes, trazidas pelos encarregados de conduzi-las.
Uma delas chamou-me mais a atenção, porque se tratava de um anão cujo semblante estava marcado por um rancor indisfarçável e lutava bravamente para desvencilhar-se dos fluidos que o conduziam na direção de Malvina.
Subitamente, sentindo a presença do Espírito rebelde no seu campo áurico, a médium começou a agitar-se, movendo os braços especialmente e a cabeça em atitude de defesa, quando então explodiu numa voz roufenha e agressiva:
– Trata-se de um ultraje a armadilha com que se pretende esmagar-me. Não estou aqui por vontade própria e não posso admitir essa violência contra o meu livre-arbítrio.
Eurípedes, que se postara ao lado da médium e a vitalizava com o pensamento rico de amor, respondeu ao comunicante:
– Você tem alguma razão em reagir dessa forma, exatamente porque tem sido assim que você se utiliza para afligir aqueles a quem persegue. Não lhes respeita o livre-arbítrio, e, através de artefatos diversificados, crucifica as suas vítimas.
– Não vejo por que você se atreve a tomar a defesa de infelizes cujas existências atuais não dão ideia dos verdugos que são esses indivíduos que estão sob os nossos cuidados.
– Ninguém tem o direito de realizar cobranças espirituais, como se a Vida estivesse sujeita às paixões de cada criatura. O Universo tem as suas leis vigorosas e dispõe de recursos para tudo regularizar sem a intromissão dos sentimentos humanos.
Mas desejo recebê-lo com prazer e explicar que não se trata de uma violência a maneira como o trouxemos para este salutar diálogo. Somente está ocorrendo porque o caro irmão tem sido responsável por graves problemas na Seara de Jesus Cristo, perturbando pessoas abnegadas e dedicadas à construção de um mundo melhor em saúde moral e respeito humano a tudo e a todos.
Gostaria que nos informasse quais são os seus projetos e a razão por que se levanta em nome da Divina Justiça para regularizar questões que pertencem à Vida e que, por si mesmas, na decorrência do tempo passado, já mereceram necessárias correções.
– Você o diz – respondeu iracundo – porque não lhe padeceu a crueza, qual aconteceu entre mim e o seu protegido, esse miserável criminoso. Tenho vivido em situação de onanismo desde há muito e odeio a situação há muitos séculos. Chegou a minha hora de cobrança junto aos infames que me desgraçaram a existência.
À medida que falava, exsudava um odor pútrido que empestava o ambiente e chorava em convulsão de ódio, esmurrando o ar e deixando-se consumir em desespero.
O benfeitor, sumamente compadecido, informou-lhe:
– O sofrimento é um processo de difícil purificação das misérias morais, a fim de que o Espírito consiga recuperar a pureza inicial e para a qual está destinado.
Certamente, razões que o irmão não considera geraram a necessidade do suplício para o seu autoencontro, o despertar do tesouro da consciência. Ninguém pode, no entanto, ser o cobrador das falhas e desgraças alheias, incidindo sempre em gravames para o futuro como no caso em tela.
O casal sob sua aguda perseguição está inscrito nos Códigos Soberanos como devedor, e o tempo dispõe dos instrumentos próprios para o restabelecimento do equilíbrio e a edificação do bem.
Se você pensa que poderá afligi-los e assim vingar-se, passado o momento da derrota de ambos, como você se sentirá? Que fará após vê-los tombar no vale terrível da amargura? A partir de então, você estará incurso na contabilidade como devedor... E essa roda não cessará, enquanto o amor não luarizar, não balsamizar as feridas do padecimento.
– Já vai longe – bradou, revoltado, o infeliz – quando fui hostilizado pelos criminosos que me destruíram.
A Inquisição Espanhola foi instituída por Isabel de Castela e Fernando II de Aragão, com as suas próprias leis estabelecidas no Tribunal do Santo Ofício. Tinham como objetivo essencial as questões religiosas, porém as superstições e a ignorância do povo alargaram a sua chama devoradora a quaisquer situações que lhes pareciam heréticas ou demoníacas, quando não resultantes de feitiçaria... Entre esses itens, surgiram formas de perseguição cruel a ciganos, anões, como aos portadores de demônios ou aos próprios demônios assim nascidos.
Os massacres dessa natureza multiplicaram-se em toda parte e chegaram à Espanha, prolongando-se até o século XIX, quando foram legalmente abolidos, mas não terminados...
Naquele período infame, o valor do indivíduo era resultado do poder do dinheiro e das ligações entre a Igreja Católica e a Coroa. A cegueira da Justiça era fácil de ser comprovada através dos crimes praticados pelos dominadores das massas estúpidas e subservientes.
Eu e um reduzido grupo de anões descendíamos de David, um dos pais da raça de Judá, e éramos perseguidos sistematicamente, conseguindo sobreviver abjurando a nossa fé. Na condição de marranos, vivíamos fora dos muros das cidades e pagávamos impostos extorsivos. Periodicamente éramos expulsos para Portugal, onde concluíam as matanças, para outras regiões da Ibéria ou outros países que também nos perseguiam.
No período de Carlos II, conhecido como o Enfeitiçado, por causa das suas deformidades, era terrível, e a sua Corte, devassa e cruel. Entre os nobres havia um casal que se comprazia agradando ao monstro, apontando judeus e inimigos de Deus e da Coroa em todo lugar. Infértil, também tinha outros problemas que o maltratavam, inclusive a fala, que não se entendia quase, em razão do queixo projetado para a frente, fruto espúrio de casamentos incestuosos. Numa das perseguições, a esposa, também da nobreza, ficou encantada comigo, miniatura de gente, e conseguiu praticamente fazer-me seu escravo, levando-me, graças aos artifícios demoníacos, pôr-me no seu castelo e tornar-me um animal de exposição, explorado e infeliz, permanentemente acorrentado por ser judeu e maltratado por ser um demônio vivo.
Surrado com frequência, após lutas em que me atiravam para defender-me de indivíduos fortes e saudáveis, resolveu com anuência do marido, Filipe de Castela, submeter-me ao Santo Ofício, e fui queimado vivo em um dia inesquecível de horror. Não ficaram na minha desdita somente as marcas da morte voraz, mas as chamas do ódio que me tem devorado desde esse momento.
O mentor escutava-o repassado de compaixão e deixando-o fazer a sua catarse, que lhe faria muito bem.
– Mas eu não morri... Senti as labaredas em muito tempo me consumindo sem destruir-me. Pensei estar no Inferno, conforme a crença geral. Constatei-o depois de socorrido por um grupo chamado de justiceiros, que me ofereceu socorro na sua comunidade, também uma forma de Inferno, onde seria recuperado e aguardaria a ocasião para a revanche, para a vingança bem amadurecida.
Ele narrava com expressão de angústia e desespero incomuns, gerando um ambiente de espontânea compaixão.
Os nossos irmãos Gracindo e esposa, despertos e acompanhando as narrações, a pouco e pouco, foram retornando aos dias do passado de luxo e de degradação, horrorizados com o que haviam feito.
O desditoso continuou na sua verbalização quase automática:
– Nesse ínterim, tomei conhecimento das reencarnações como mecanismo de justiça e presídio de resgate ou caminho de libertação. Não sei bem o que é, mas existe, e aguardei a ocasião do reencontro, o que se deu há pouco menos de dois anos, quando fui atraído pelo magnetismo dele, a inconsciência e irresponsabilidade dela.
Estavam disfarçados, reencarnados, eram outros, mas interiormente os mesmos. Passei a acompanhá-los e influenciá-los com o meu pensamento de vingança, acolhido vagarosamente nas suas falhas mentais e morais, nela, em particular, no ciúme.
Ele me tem sido mais difícil, em razão das suas preocupações com o falso Jesus a que pretende servir e está gerando dificuldades aos planos da nossa organização, que é expulsá-lO do mundo...
Fez uma pausa, ao mesmo tempo que ululava de dores morais e dos fluidos gentis da médium que o recebia, diminuindo-lhe a carga de angústia.
No silêncio que se fez natural, o nobre Eurípedes falou-lhe com afabilidade:
– A sua história, igual à de muitos outros irmãos nossos, comove-me às lágrimas. Também trago no coração as flechas dos males que pratiquei contra mim mesmo. No entanto, o sublime medicamento para a dor tão profunda é o perdão.
Os irmãos acusados não são mais os mesmos, porquanto, na fileira dos anos do passado, retornaram mais de uma vez a aprender as lições sublimes do amor e da fraternidade. Ficaram no passado aqueles dias hórridos de barbárie e alucinação. Atualmente, o irmão Gracindo está tentando apagar as marcas dos crimes de ontem, consolando as lágrimas de quem hoje chora. A sua esposa, ainda enferma dos sentimentos, necessita de compaixão, a fim de ter forças para a recuperação necessária. Somente Deus sabe as razões do seu sofrimento naquela ocasião. Há uma causa anterior que lhe trouxe como consequência as dores da forma humana e os padecimentos propostos pela ignorância das criaturas naquela época, há mais de 300 anos...
Os seus algozes estão em despertamento para o bem, especialmente o esposo, que administra este lar-escola de muitas vidas, milhares de existências que estariam estioladas ao sol do abandono, na tragédia das ruas, nos escusos caminhos dos crimes, na loucura e tombariam fatalmente no suicídio.
Conceda-lhes o favor da compaixão e, mais tarde, a bênção do perdão, que também iluminará o seu caminho, auxiliando-o na ascensão espiritual.
Recorde-se de Jesus, até hoje perseguido...
Parecendo recuperar a crueldade inicial, reagiu:
– Não me fale esse nome fatídico, que foi a causa da minha e da desgraça de milhares de vítimas. Odeio-O e considero quase tudo que d’Ele se diz uma farsa. Como poderei acreditar que veio libertar Israel do destino inglório da escravidão a Roma, como sucedera com outros povos antes, e não foi capaz de libertar-se a si mesmo.
A sua convivência era com os depravados, os criminosos e viciados em detrimento do que se legislava no Templo dedicado a Salomão e se cultuava nos estudos dos profetas e da Lei Antiga. Caso Ele tivesse vindo com alguma tarefa de honra para Israel, Ele traiu Jeová e o Seu povo.
– Jesus jamais se propôs a salvar Israel pela espada, que sempre gera consequências através de si mesma. Ele veio ensinar-nos a todos que somente existe uma força e um poder no mundo que merecem ser trabalhados, que é o amor, por isso elegeu os desafortunados, os desdenhados, os perseguidos, como você... E os homens que Lhe utilizaram do nome para a prática do crime, esses sim que deslustraram a nobreza do Mestre de misericórdia e perdão.
Ele preferiu ser traído, crucificado, para demonstrar que os Seus ensinamentos não eram somente palavras e conselhos, mas essência de vida, porque a existência terrena, como sabemos, é rápida na sua transitoriedade, mas a imortalidade é a razão pela e para a qual existimos.
As acusações que Lhe são atribuídas por crimes que praticaram em seu nome não são de sua responsabilidade, e note que esse comportamento é comum à criatura humana na sucessão dos tempos. Em todas as obras de amor e de fraternidade aparecem os oportunistas que as destroem com os seus atos alucinados e seus comportamentos infames. No dia em que Jesus for realmente vivido e ensinado, estarão em relevo a caridade e o amor, guiando as vidas na direção do Reino dos Céus, que se edifica no íntimo do coração.
Tomado de revolta, ironizou:
– Então, eu tenho que perdoar os meus algozes, ainda dedicados ao infame da Cruz, eles, que me desgraçaram usando essa mesma cruz? O nosso plano é muito mais vasto. Está em pauta o combate a essa doutrina de fracos e covardes, que trabalham na sombra da traição e do crime, para transformar o planeta numa grande Gomorra ou Sodoma, que o nosso Deus destruirá, aprisionando a todos os seus responsáveis.
Iniciaremos levando a desditada mulher à loucura pelo ciúme, sentindo-se desprezada pela farsante de quem me utilizo para o nosso encontro, e à medida que ele desvaire, irá perdendo o controle das emoções e também será arrebatado pela desdita, demonstrando que o Espiritismo é mais uma façanha mentirosa do que a verdade que se lhe atribui.
Teremos o prazer de produzir escândalos sucessivos, depois com o rebanho de outros que estão cuidando, e o desequilíbrio do grupo terminará sofrendo interferência das autoridades governamentais. Assim, de uma pequena chama poderemos produzir um incêndio em vários pontos, porque o nosso programa de agressividade é coletivo, isto é, em diversos lugares ao mesmo tempo.
Enquanto exprobrava, mudou completamente de aspecto, aquele do infeliz para o do arrogante e triunfador, que se ufanava de estar a caminho da vitória.
Sem qualquer inquietação, o amigo do Educandário Esperança insistiu com o visitante:
– Todos percorremos caminhos mais ou menos semelhantes: o erro em princípio, para a aprendizagem da dignidade e da compostura depois. Deixamos cardos e pedrouços pela estrada percorrida, e somos constrangidos a retornar pela mesma senda, retirando os calhaus e os empecilhos que nos ameaçam o crescimento para Deus. Esse crescimento é uma fatalidade semelhante às Leis Cósmicas: nada pode modificar, porque são os alicerces universais.
Enquanto o amor não vicejar no sentimento humano, a criatura estará mais na faixa primitiva do que na luz sublime da emoção divina. O meu irmão veio trazido para ter diminuídas as suas dores; assim, irá cooperar conosco para que as aflições das suas vítimas atuais também sejam diluídas. Para tanto, contamos com o seu raciocínio. Permaneça aqui na Instituição por alguns dias, especialmente agora que o mundo está em quarentena, recuperando-se moralmente sob o látego de uma pandemia, que é mecanismo das Leis Superiores para equilíbrio moral do planeta, e veja como são úteis e o que fazem sob a inspiração de Jesus.
– Posso asseverar-lhe que, se depender de mim e dos nossos amigos, todos inscritos nesta guerra de libertação, nada você conseguirá com o seu Cordeiro de Deus...
A frase foi exteriorizada com uma grande ironia, método normal de zombaria para perturbar a lucidez do antagonista.
Procurando demonstrar o seu falso poder na comunicação, agitou a médium e ergueu-lhe os braços com os punhos cerrados, em atitude de golpear a mesa para parecer forte. A um sinal do mentor, o irmão Cláudio aproximou-se e aplicou passes dispersivos, eliminando os fluidos pesados que ele expelia em tentativa de prejudicar a aparelhagem delicada da médium.
Enquanto isso, Eurípedes induziu o desditoso ao sono reparador profundo, o que logo aconteceu, sendo desligado e conduzido por auxiliares nossos a uma sala contínua, para nova oportunidade posteriormente.
De imediato, a médium Amália, em transe profundo, foi incorporada pela Entidade que perturbou o casal, agora também presente em desdobramento pelo sono físico.
Tratava-se de um cavalheiro com mais ou menos cinquenta anos de idade, que envergava indumentária religiosa de nível superior.
O orgulho e a prepotência estavam visíveis na sua aparência presunçosa e nos ademanes de aparente distinção. Com ele vieram alguns áulicos, trazidos, sem o saberem, pelos construtores do trabalho. Serviam-no em contínua bajulação, que lhe exaltava a prosápia e o falso poder.
Nada obstante, exteriorizava ondas carregadas de vibrações perniciosas, que lhe denotavam a faixa vibratória típica do seu estado de evolução.
Deveria ter sido religioso de destaque na sua última existência fracassada, em razão da sua face estampada pelas expressões de ressentimento e desgosto.
Logo que houve a perfeita identificação do seu perispírito no de Amália, podíamos ver a união de ambos que se confundiam em contínuas ondas emitidas pelos centros de força, poros perispirituais, tornando notável o fenômeno, demonstrando a supremacia do comunicante sobre o duplo etérico (que se dilui após a desencarnação).
Quase víamos apenas o comunicante em todo o seu apogeu, expressando o alto significado do processo de manifestação, quando se afinam ambos os Espíritos e o comunicante assume o controle da personalidade do instrumento mediúnico...
A voz era tonitruante, muito diferente da médium, e repassada de uma vibração desagradável, como sói acontecer com toda manifestação de orgulho e soberba.
– Tenho a impressão – asseverou com certo desdém – de que me encontro diante de um tribunal de marginais, constrangido por desconhecida força a pronunciar-me como se estivesse sendo julgado pelos meus atos. Posso perceber, pela disposição daqueles que aqui se encontram, que estou sob leis que me submetem e às quais devo obediência compulsória...
– Não se trata disso – elucidou Eurípedes. – O amigo conhece perfeitamente estas leis que regem a vida e se impõem, pela sua força transcendente, à vontade de todos nós.
Estamos, sim, num tribunal de amor para avaliarmos juntos as ocorrências que vêm tendo lugar em nossa Instituição e com os seus membros, ante o plano de subjugação estabelecido pelo amigo e outros, em torno e contra os seus trabalhadores.
Como a sua adesão voluntária não seria possível, apelamos para os desígnios superiores e recorremos a Jesus, que é o nosso amado Comandante, e Ele aquiesceu em trazê-lo até nos.
O visitante, visivelmente contrariado, começou a enunciar textos em latim, à semelhança de mantras que poderiam defendê-lo das nossas energias.
– Sabemos que nos encontramos em guerra – prosseguiu o abençoado terapeuta do amor – e, como somos mensageiros da paz, resolvemos estabelecer um encontro pessoal, a fim de discutirmos os itens que deram lugar a essas batalhas hediondas que vêm sendo tratadas com finalidade hedionda: destruir a ética e semear a desordem em toda parte.
Assim o fazemos pelo grande respeito que temos por aqueles que se nos tornaram adversários sem que o soubéssemos, desde que os nossos objetivos repousam e se reforçam na Lei de Amor ao alcance de todas vidas.
Nesta Instituição vigem as diretrizes do amor aos filhos do Calvário, conforme a expressão de Jesus, de modo a que nos reuníssemos para os ajudar. Afinal, todos necessitamos de apoio e de socorro urgente.
Como o amigo nosso fez-se-nos adversário confesso, aqui nos encontramos para discutir as reais e as falsas razões da injustificada batalha de aflições.
Silenciou, para dar lugar ao diálogo, o que não se fez esperar:
– Realmente, já que você sintetizou muito bem as ocorrências, a mim me cabe dizer que sou diretor de um dos departamentos de justiça de nossa organização.
Estamos já em acirrado combate contra Jesus e os Seus corifeus, desmanchando os bolsões de falsos religiosos, que intimidam a Humanidade com a sua falsa fidelidade e demonstrando que todos são da mesma argamassa dos seus falsos diretores espirituais.
Iremos, a pouco e pouco, apagar as pegadas dos caminhos do Galileu, assim como dos Seus súditos de ontem e de hoje, num mundo moderno, onde não há lugar para comportamentos místicos e éticas falsas, ocultando os conflitos internos de todos os devassos e corrompidos. Apenas lhes despertaremos as próprias viciações e os comandaremos na direção do deboche e do crime bem urdido, desfazendo as impróprias máscaras de pureza e dignidade.
Também eu estive do outro lado, quando enverguei a indumentária e me fiz bispo de M... Mantinha a aparência de altivez e honra, distante da conduta mental e moral fora da sacristia e nos recintos onde podia expressar-me na realidade, longe da farsa que executava, para explorar os estúpidos e atormentados que se me submetiam à autoridade eclesiástica.
Identificado com outros companheiros do mesmo ou de pior naipe, servia-me em nome da fé religiosa, permitindo-me os prazeres para os quais todos nascemos e as religiões nos pretendem castrar, como se fôssemos de especial tecedura orgânica.
Ao morrer, encontrei a vida desregrada a que me permiti e fui muito bem acolhido no Inferno onde trabalho e sou feliz, desfrutando de posição invejável, na administração da nossa comunidade.
Sim, não encontrei o proclamado Céu e tive uma decepção, porquanto somente defrontei misérias e desconfortos. Os centros de padecimento, as regiões de angústia e de recuperação multiplicam-se em toda parte, e, é claro, nós, os justiceiros, resgatamos e conduzimos para os nossos recintos todos aqueles que temos razões para combater o falso amor e a tediosa dignidade, sofrimentos íntimos envoltos nos tecidos da aparência diferente.
Assim sendo, não pense que terá uma vitória fácil sobre nós, aqui trazidos covardemente pelos recursos de que se utilizam os falsos cristãos, generosos e bons, usando forças sutis para alcançarem os seus sórdidos objetivos.
Sem demonstrar pressa ou qualquer enfado após a exposição mais ou menos já conhecida, o dialogador espiritual prosseguiu, com gentileza:
– Admiro-me com a técnica de alcançar o êxito nos seus empreendimentos. Em razão da conduta irretocável dos irmãos agredidos e hoje aqui estudados, você e os seus sequazes utilizam-se das esposas instáveis para desviar os bons trabalhadores dos seus deveres, com ameaças de escândalos que prejudicariam o bom nome da Doutrina de abnegação, levantando dúvidas sobre o comportamento deles e, por extensão, de outros servidores.
Equivale a dizer que “todos os meios justificam os fins”, chavão de doutrinas derrotistas e escravagistas. Para serem alcançados os fins, pouco importam os meios que sejam utilizados.
Somente se olvidam do Amor de nosso Pai pelas Suas criaturas, sempre vigilante e devotado. Esquecem que a tempestade mais tumultuada sempre cede lugar à bonança retificadora, e o mal aparente transforma-se em bem comum. Jamais a traição, a covardia, os meios derrotistas lograrão fecundar-se nos corações afetuosos e nos caracteres nobres. É certo que todos nós ainda temos brechas de fragilidade em nossa conduta, o que lhes permite interferência em nossos destinos, porém, dentro da Lei de Causa e Efeito.
Olhe o nosso irmão diretor da Casa em que você se encontra e o participante das reuniões de estudos e de caridade: não lhe comove ser o instrumento de prejuízo para as vidas às quais eles se dedicam pelo bem, pelo serviço de consolo, por amor a Jesus Cristo?
– Irrita-me ouvir esse nome do engabelador dos séculos de Judaísmo e de Cristianismo, que iremos banir da Terra. Nós somos os guerreiros da luz que saímos das páginas bíblicas para clarear o mundo e demonstrar que a única razão da vida pela qual todos deveremos lutar é o prazer, o gozo infindo, a alucinação da orgia... Será isso que iremos implantar nas suas sagradas instituições! – gritou com refinada ironia. – Vocês estão asfixiando os prazeres que gostam e disfarçam, tornando-se o seu calcanhar de aquiles, o qual saberemos atingir.
– Sem dúvida, somos fracos, mas o Senhor é a nossa fortaleza. Quando vejo um bispo da Igreja Católica perverter-se, inspirado pelos seus pares que se encontravam cá e o infestaram, é porque o seu caráter frágil estava somente vestido de dignidade, e não a tendo vivenciado. Mas nem todas as criaturas somos iguais. A nós Jesus fascina com a Sua mansidão e paz, tão misericordioso que, transcorridos dois milênios desde quando esteve conosco, Sua voz ressoa em nosso íntimo e nos enriquece de paz, essa paz a que você aspira e não consegue em razão das suas vinculações com os erros que o subjugam.
Eurípedes falava com doçura e num timbre de voz que repercutia em todos nós.
Experimentando a força do amor, o senhor bispo deu um sinal algo cabalístico e o seu séquito pareceu enlouquecer, blasfemando, ameaçando incorporação simultânea através de Malvina, desejosos de atacar os Espíritos presentes, usando verdadeiros tacapes e produzindo uma balbúrdia infernal.
Como já estivessem informados dessa possibilidade, os Espíritos que zelavam pela reunião, Templários que foram perseguidos duzentos anos após ser criada a sua ordem, alcançaram os baderneiros e retiraram-nos da sala, envolvendo-os em fluidos que faziam lembrar correntes que os submetiam.
Logo depois, o silêncio voltou a reinar, e o intempestivo ex-sacerdote ululava num desespero que inspirava compaixão.
– Não cederei nunca – blasonava –, mesmo que tenha que ser queimado vivo outra vez pelos miseráveis descendentes do Homem da Cruz. Vingar-nos-emos a qualquer preço. Somos muitas as vítimas desses míseros e piegas religiosos da fé cambaleante e mentirosa.
Eurípedes, em silêncio, tinha lágrimas nos olhos ante a loucura do Espírito em total desalinho.
Acercando-se do atormentado, Cláudio pôs-se a aplicar-lhe passes circulares e calmantes, mantendo-o, entretanto, na comunicação de que se desejava liberar.
Eurípedes prosseguiu suave na terapia do perdão e enfatizou:
– O irmão e amigo refere-se ao seu momento no sacrifício, vítima da Inquisição, e crê-se injustiçado. Como poderiam os seus confrades comportar-se ante a sua inditosa conduta, sendo membro do Santo Ofício e mantendo uma existência de luxúria, ao aproveitar as suas vítimas para lucrar prazeres a que muitos fiéis às suas convicções se negavam e o acusavam publicamente? Permitindo-se transformar o seu palácio episcopal, onde desfrutava de injustas regalias, na falsa postura de ser representante de Jesus, era apenas um usurpador dos favores vigentes, em um pântano de indignidades. O mais imoral nessa trama sórdida é que foi denunciado por um colega de aberrações, que desejava desfrutar o quinhão que lhe era concedido por cada acusação de novas vítimas, hoje reencarnado no amigo que vem perseguir por sua vez.
Ninguém foge de si mesmo nem das próprias construções íntimas. Você teria sido justiçado nos instrumentos que usava contra aqueles que lhe caíam nas mãos, e como não acreditava na fé religiosa, que lhe era uma profissão vantajosa, como para muitos tem sido, os demais criminosos davam uma demonstração de coragem e de honra, eliminando um devasso que deveria ser exemplo de honra e comportamento saudável.
Naqueles já longevos dias, a religião era mais uma arma política nas mãos criminosas de bandidos a soldo de governantes de igual conduta do que aquilo que pretendia demonstrar a Mensagem do Nazareno crucificado injustamente. Esse, sim, que foi julgado conforme os interesses pessoais e deu-nos o exemplo da mansidão e da irrestrita confiança em Deus.
Não são tribunais de homens e mulheres imperfeitos que espalharão na Terra a honradez dos deveres a que eles próprios não correspondem.
O indigitado parecia atoleimado ante as informações que lhe eram apresentadas, que faziam parte da sua existência vulgar e perniciosa. Pela memória, começou a repassar a hediondez e os crimes que perpetrara às escondidas e alguns publicamente... Sempre acobertados pelas vestes religiosas, que deveriam significar zelo real e devotamento ao bem, com infinitas demonstrações de misericórdia e de compaixão, conforme prometera ao concluir o seminário e as promoções com que fora beneficiado, mais pela crueldade na maneira de agir do que pelo mérito da renúncia e da abnegação.
Buscando parecer indiferente ao que se lhe punha à vista, tentou informar que a situação do passado nada tinha a ver com os acontecimentos históricos daquela vida que degradara a sua, destruindo-a na forma orgânica.
Eurípedes não titubeou e ripostou:
– De igual maneira, os seus argumentos e o dos seus cômpares não podem servir de motivo para combater aqueles que, desarvorados pela época infeliz e atrasada, utilizaram-se do poder para comprometer-se no desvario e na criminalidade.
– Eu sou inocente das acusações e fui queimado vivo...
– O irmão apenas experimentou a punição que aplicava naqueles que tombaram na sua insânia. Mas você sabe que o motivo era real e a sua uma conduta reprochável, que se encontra marcada a fogo na sua engrenagem espiritual, nos tecidos mais delicados do seu corpo perispiritual. Lembre-se das celas que você visitava antes da punição final e das suas propostas indecorosas quão cínicas com aqueles indivíduos derrotados e sem alternativa. Mergulhe o pensamento nas lembranças e as reviva agora.
Com a voz monótona, como numa hipnose verbal, sugeria:
– Pense, reviva, volte àqueles momentos que estão vivos dentro de você.
Começamos a perceber que a aparência do Espírito começou a sofrer alteração na face, na cabeça e em todo o corpo que se destacava no perispírito da médium. Diante de nós encontrava-se um ser com aspecto lupino, babando copiosamente e tentando falar sem o conseguir. Contorcia-se e uivava, agitava-se, e os olhos brilhantes assustavam...
Alguns dos Espíritos que vieram na sua companhia e ainda estavam na sala foram tomados de pânico e começaram a gritar apavorados, sendo assistidos pelos amigos Templários que os amparavam, retirando-os da sala mediúnica.
– Isto – falou o benfeitor ao atormentado comunicante – é o que você tem cultivado e periodicamente assume no reduto infame em que se homizia com outros servidores do mal.
A partir de agora será essa a sua forma física, fruto dos seus atos, e, à medida que for beneficiado em nossa Comunidade, irá recuperando a compleição humana, da qual abdicou pelos sucessivos disparates que se permitiu, até que a bênção da reencarnação o conduza de volta ao proscênio terrestre para a necessária recuperação.
Novamente Cláudio acercou-se e deu prosseguimento aos passes de desligamento da Entidade infeliz, que chorava copiosamente.
– Você receberá o Amor – afirmou Eurípedes – d’Aquele a Quem subestimou e aviltou com a sua conduta rebelde e contínua, demonstrando-lhe a grandeza da Sua Mensagem e sua veracidade para os seres humanos amargurados e tristes destes dias de sofrimento inominável e intransferível.
Agradeçamos em silêncio ao Pai de Misericórdia esta oportunidade de revermos o próprio comportamento, estabelecendo linhas de renovação e de trabalho edificante em favor do nosso futuro.
“O amor ilumina
a alma que deseja amar.”
Manoel Philomeno de Miranda • Divaldo Franco