O Deserto dos Tártaros
Apresentação
Autorretrato
O romancista italiano Dino Buzzati, intelectual refinado e cético, sempre cultivou suas próprias idiossincrasias. Impropriamente comparado a escritores como Franz Kafka ou Edgar Allan Poe, foi levado à literatura fantástica e existencial mais por necessidade de expressar suas próprias fantasias do que por mera tentativa de se moldar a uma determinada linha literária. Suas histórias, repletas de alegorias inquietantes, de apontamentos surrealistas, de invenções fantásticas, construídas sob a forma de crônicas ou pseudocrônicas — que fazem ressaltar a possibilidade de uma realidade metafísica —, gravitam em torno de uma atmosfera mágica de profunda angústia. Para ele, a necessidade de buscar o fantástico é a única forma de escapar à realidade pequeno-burguesa e mostrar a impossibilidade de o homem realizar seu próprio destino.
O gosto pelo "gótico" revela extraordinária sensibilidade e uma característica preocupação metafísica. Buzzati nunca se aprofunda no mundo das aparências, dos objetos ou das personagens, para deles extrair símbolos. O que o atrai é a reprodução do macabro e do horror transfigurados em linhas e cores, ou seja, a paisagem formal com todo o seu ambiente, e não o seu significado oculto. Suas narrativas, quase sempre em forma de contraponto, se desenvolvem de forma tranquila, discreta, sem grandes hesitações ou dúvidas. Muito diferente de alguém que tem um terrível segredo, mas que não tem coragem de confessar. Buzzati aborda, antes de tudo, os absurdos da existência com o objetivo quase explícito de mostrar a impossibilidade de se chegar a uma conclusão sobre os problemas da existência humana.
Natural de Belluno, pequena cidade da região de Veneza, Dino Buzzati nasceu a 16 de outubro de 1906. Seus pais, bem-sucedidos representantes da pequena burguesia italiana, simbolizavam a classe social que o próprio autor denunciou anos mais tarde. Depois de se graduar em direito, Buzzati ingressou, em julho de 1928, no "Corriere delia Será", onde colaborou como crítico de arte. Com a publicação do romance "Barnabò delia montagna", em 1933, o escritor iniciou uma intensa carreira literária, sendo logo comparado a Franz Kafka pelo pesado clima de horror e mistério de seu primeiro livro. Suas obras seguintes, "II se-greto dei bosco vecchio", 1935; "O deserto dos târtaros", 1940; e "II sete messageri", 1943, iriam confirmar as qualidades que o tornaram um dos mais originais escritores de sua geração. Depois escreveu mais de uma dezena de romances, dos quais podem ser destacados: "Paura alia scala", 1949; "II grande rittrato", 1960; "Um amor", 1963; e "Le notti difficili", 1971. O prêmio Strega, de 1958, conferido ao seu livro de contos "Sessenta racconti", coroou o talento de um escritor veterano e experimentado.
Mas Buzzati não foi apenas romancista e contista. Escreveu poesias, numerosas peças de teatro, além de libretos de música. De suas novelas, as mais conhecidas fora da Itália são "O deserto dos târtaros" e "Um amor". Enquanto a primeira apresenta a história de um oficial, instalado numa fortaleza de fronteira,
que envelhece à espera de um inimigo que nunca chega e talvez nem exista, "Um amor" narra o pequeno drama de um arquiteto de meia-idade que se apaixona por uma prostituta muito mais jovem do que ele. Nessas duas obras, encontramos a trajetória de um autor que, partindo de um estilo gótico e fantasioso, evoluiu para uma narrativa tranquila e realista, preservando em seus trabalhos uma constante: a angústia da solidão.
Dino Buzzati morreu em Milão, em 1972. Além de escritor, dramaturgo e jornalista, foi também um razoável pintor.
UGO GIORGETTI