O Deserto dos Tártaros
Capítulo II
O vale inteiro já estava atulhado de sombras violeta; somente as nuas cristas relvosas, numa altura incrível, continuavam iluminadas pelo sol quando Drogo viu de repente, diante de si, negra e gigantesca contra o puríssimo céu da tarde, uma construção militar que parecia antiga e deserta. Giovanni sentiu o coração bater, pois aquele devia ser o forte, mas tudo, das muralhas à paisagem, transpirava um ar inóspito e sinistro.
Deu uma volta ao redor sem encontrar a entrada. Embora já estivesse escuro, nenhuma janela estava acesa nem se percebiam luzes de guaritas no topo das muralhas. Havia apenas um morcego, que oscilava contra uma nuvem branca. Finalmente Drogo experimentou gritar: "Olá! Há alguém aí?”.
Da sombra acumulada aos pés da muralha surgiu então um homem, uma espécie de vagabundo e mendigo, com uma barba grisalha e um pequeno saco na mão. Na penumbra, contudo, não se distinguia bem, somente o branco de seus olhos emitia reflexos. Drogo fitou-o, reconhecido. — O que está procurando, senhor? — perguntou.
— Procuro o forte. É este?
— Não existe mais forte aqui — disse o desconhecido, com voz afável. — Está tudo fechado, já faz uns dez anos que não há ninguém.
— E onde fica o forte, então? — perguntou Drogo, repentinamente irritado com aquele homem.
— Que forte? Aquele, talvez? — E o desconhecido estendia um braço para indicar alguma coisa.
Numa fenda dos penhascos vizinhos, já encobertos pela escuridão, atrás de uma caótica escadaria de cristas, a uma distância incalculável, imerso ainda no sol vermelho do poente, como que saindo de um encantamento, Giovanni Drogo avistou um morro pelado em cujo topo se via um traçado regular e geométrico, de uma singular cor amarelada: o perfil do forte.
Ah, tão longe ainda! Quem sabe quantas horas de estrada, e seu cavalo já estava esfalfado. Drogo o fitava, fascinado, perguntava-se o que podia haver de desejável naquele casarão solitário, quase inacessível, tão separado do mundo. Que segredos ocultava? Mas eram os últimos instantes. Pois o derradeiro raio de sol destacava-se do longínquo morro, e acima dos torreões amarelos irrompiam as lívidas rajadas da noite nascente.
II
A escuridão alcançou-o ainda a caminho. O vale havia se estreitado, e o forte desaparecera atrás das montanhas sobrestantes. Não havia luzes, nem mesmo pios de pássaros noturnos, apenas, de quando em quando, chegava o som de águas distantes.
Experimentou chamar, mas os ecos rechaçavam sua voz com um timbre inimigo. Amarrou o cavalo num toco de árvore na beira da estrada, onde poderia encontrar capim. Sentou-se ali, de costas para a escarpa, esperou que o sono viesse e, enquanto isso, ficou pensando no caminho que faltava, na gente que encontraria no forte, na vida futura, sem reconhecer motivo algum de contentamento. O cavalo às vezes batia os cascos no chão de modo antipático e esquisito.
Ao amanhecer, quando retomou o caminho, reparou que, acima da vertente oposta do vale, à mesma altura, havia uma outra estrada, e em seguida avistou alguma coisa que se movia. O sol ainda não descera até lá embaixo, e as sombras atulhavam as reentrâncias, não deixando ver bem. Contudo, estugando o passo. Drogo conseguiu chegar à mesma altura e constatou que era um homem: um oficial a cavalo.
Finalmente, um homem como ele; uma criatura amiga, com quem poderia rir e brincar, falar da futura vida comum, de caçadas, de mulheres, da cidade. Da cidade que agora parecia a Drogo relegada a um mundo longínquo.
Estreitando-se o vale, as duas estradas se avizinharam, e Giovanni Drogo viu que o outro era um capitão. Não se atreveu a gritar no primeiro momento, pareceria inútil e desrespeitoso. Em vez disso, cumprimentou-o por diversas vezes, levando a mão direita ao quepe, mas o outro não respondia. Evidentemente não vira Drogo.
— Senhor capitão! — gritou Giovanni finalmente, tomado de impaciência. E cumprimentou mais uma vez.
— O que é? — respondeu uma voz do outro lado. O capitão, detendo-se, havia cumprimentado apropriadamente, e agora perguntava a Drogo a razão daquele grito. Não havia na pergunta nenhum traço de severidade; compreendia-se, porém, que o oficial ficara surpreso.
— O que é? — ecoou ainda a voz do capitão, dessa vez levemente irritada.
Giovanni parou, pôs as mãos em concha e respondeu a plenos pulmões:
— Nada! Queria cumprimentar o senhor!
Era uma explicação tola, quase ofensiva, pois permitia pensar numa brincadeira. Drogo arrependeu-se imediatamente. Em que encrenca ridícula ia se metendo, tudo porque não era capaz de bastar a si próprio.
— Quem é? — gritou em resposta o capitão.
Era a pergunta temida por Drogo. Aquela estranha conversa, de um lado ao outro do vale, assumia desse modo o tom de um interrogatório hierárquico. Desagradável início, pois era provável, se não certo, que o capitão fosse alguém do forte. De qualquer modo, era preciso responder.
— Tenente Drogo! — gritou Giovanni, apresentando-se.
O capitão não o conhecia, e não podia, com toda a probabilidade, captar o nome àquela distância, mas pareceu dar-se por satisfeito, uma vez que retomou o caminho, fazendo um sinal de entendimento, como a dizer que dentro em pouco se encontrariam. De fato, meia hora depois, num estreitamento da garganta, surgiu uma ponte. As duas estradas juntavam-se numa só.
Na ponte, os dois se encontraram. Sempre a cavalo, o capitão aproximou-se de Drogo e estendeu-lhe a mão. Era um homem de seus quarenta anos ou talvez mais, de rosto enxuto e aristocrático. Seu uniforme era mal talhado, mas perfeitamente em ordem. — Capitão Ortiz — apresentou-se.
Ao apertar-lhe a mão, pareceu a Drogo estar entrando finalmente no mundo do forte. Aquele era o primeiro laço, e depois viriam muitos outros, de toda espécie, que o trancariam lá dentro.
O capitão logo retomou o caminho; Drogo seguiu a seu lado, um pouco atrás, por respeito hierárquico, esperando alguma desagradável repreensão pelo embaraçoso colóquio de pouco antes. O capitão, ao contrário, permanecia calado, talvez não tivesse vontade de falar, talvez fosse tímido e não soubesse como começar. Sendo íngreme a estrada e quente o sol, os dois cavalos prosseguiam devagar.
— Não entendi bem o seu nome àquela distância, há pouco. Drogo, não? — disse finalmente o capitão Ortiz.
— Drogo, com g. Drogo, Giovanni. O senhor, aliás, senhor capitão, queira me desculpar, se há pouco o chamei. Sabe — acrescentou, confundindo-se —, através do vale não tinha visto a patente.
— Realmente não dava para ver — concordou Ortiz, renunciando a desmenti-lo, e riu.
Cavalgaram um pouco assim, ambos um tanto embaraçados. Depois Ortiz disse: — E então, para onde está indo?
— Para o Forte Bastiani. Não é esta a estrada?
— É esta, sim.
Calaram-se, fazia calor, sempre montanhas por todos os lados, gigantescos montes relvados e selvagens.
— Então o senhor vai para o forte? Uma mensagem, talvez? — disse Ortiz.
— Não, senhor, vou para servir, fui designado.
— Designado para o quadro?
— Acho que sim, para o quadro, serviço de primeira nomeação.
— Para os quadros, então, certo... Muito bem, muito bem... se quiser, apresento-lhe minhas congratulações.
— Obrigado, senhor capitão.
Calaram-se e avançaram mais um pouco. Giovanni sentia muita sede, um cantil de madeira estava pendurado na sela do capitão e ouvia-se a água lá dentro fazendo choque-choque.
— Por dois anos? — perguntou Ortiz.
— Desculpe, senhor capitão, por dois anos?
— Por dois anos, digo, o senhor fará o turno habitual de dois anos, não é verdade?
— Dois anos? Não sei, não me disseram o período.
— Ah, claro, dois anos, todos vocês, tenentes de primeira nomeação, dois anos, depois vão embora.
— Pelo regulamento, dois anos para todos?
— Dois anos, claro, para a contagem de tempo valem quatro, é exatamente isso o que lhes interessa, senão ninguém pediria um serviço desses. Pois é, para se fazer carreira rapidamente, até ao forte nos adaptamos, não é mesmo?
Drogo nunca soubera disso, mas não quis fazer papel de bobo, esboçou uma frase genérica: — É claro que muitos...
Ortiz não insistiu, o assunto parecia não lhe interessar. Mas agora que o gelo estava quebrado, Giovanni experimentou perguntar:
— Mas para todos, no forte, o tempo de serviço é contado em dobro?
— Para todos quem?
— Queria dizer, para os outros oficiais.
— Pois é: para todos! — caçoou Ortiz. — Imagine só! Para os subalternos apenas, entenda-se, senão quem pediria para vir para cá?
— Eu não fiz o pedido — disse Drogo.
— Não fez o pedido?
— Não, senhor, fiquei sabendo só dois dias atrás que fora designado para o forte.
— Bem, é estranho, realmente.
Calaram-se mais uma vez, cada um parecia pensar em coisas diferentes. Mas Ortiz disse: — A menos que... Giovanni reanimou-se. — Sim, senhor capitão?
— Estava dizendo: a menos que não tenha havido nenhum outro pedido, e então a sua foi designação de gabinete.
— Pode ser que sim, senhor capitão.
— Pois é, deve ser assim, realmente.
Drogo olhava, sobre a poeira da estrada, a sombra nítida dos dois cavalos, as cabeças fazendo sim sim a cada passo; ouvia o quádruplo patear, um ou outro zumbido de mosca e nada mais. Não se via o fim da estrada... De vez em quando, numa curva do vale, deparava-se, altíssimo, talhado em encostas escarpadas, o caminho que subia em ziguezague. Chegava-se, olhava-se então para cima, e lá estava ainda à frente o caminho, cada vez mais alto.
— Por gentileza, senhor capitão... — disse Drogo.
— Diga...
— Está muito longe ainda?
— Não muito, talvez duas horas e meia, ou três, quem sabe, neste passo. Talvez pelo meio-dia estejamos lá, realmente.
Calaram-se por um trecho, os cavalos estavam suados; o do capitão, cansado, arrastava as patas.
— Vem da academia real, não é? — perguntou Ortiz.
— Sim, senhor, da academia.
— Pois é, diga: o coronel Magnus ainda está lá?
— Coronel Magnus? Acho que não, não o conheço. O vale agora se estreitava, fechando o acesso aos raios do sol. Profundas gargantas laterais abriam-se de vez em quando, dali desciam ventos gélidos, acima avistavam-se montes íngremes em formato de cone; dois, três dias, podia-se dizer, não bastariam para atingir o cume, tão altos pareciam.
— Diga-me, tenente, o major Bosco ainda está lá? Dá aulas de tiro ainda? — disse Ortiz.
— Não, senhor, acho que não, há Zimmermann, o major Zimmermann.
— Pois é, Zimmermann, realmente, ouvi falar dele. A questão é que se passaram muitos anos, dos meus tempos até hoje... já devem ter mudado todos.
Ambos agora tinham algo em que pensar. A estrada saíra novamente para o sol, montanhas sucediam montanhas, agora mais íngremes e com alguns paredões de rocha.
— Eu o vi ontem à tarde, ao longe — disse Drogo.
— O quê, o forte?
— Sim, o forte. — Fez uma pausa e depois, para mostrar-se gentil: — Deve ser grandioso, não é? Pareceu-me imenso.
— Grandioso, o forte? Não, não, é um dos menores, uma construção muito velha, só de longe é que causa um certo efeito.
Calou-se um instante, e acrescentou: — Muito velha, completamente superada.
— Mas é um dos principais, não é?
— Não, não, é um forte de segunda categoria — respondeu Ortiz. Parecia sentir prazer em falar mal, mas num tom especial; assim como alguém que se diverte ao notar os defeitos do filho, certo de que serão sempre coisa ridícula diante de seus méritos desmesurados.
— É um trecho de fronteira morta — acrescentou Ortiz. — De modo que nunca o mudaram, permanece como há um século.
— Como fronteira morta?
— Uma fronteira que não dá problemas. Adiante existe um grande deserto.
— Um deserto?
— Um deserto realmente, pedras e terra seca, é chamado de deserto dos tártaros.
Drogo perguntou: — Por que dos tártaros? Havia tártaros ali?
— Antigamente, acho. Porém, mais que tudo, é uma lenda. Ninguém deve ter passado por lá, nem mesmo nas guerras passadas.
— Então o forte nunca serviu para nada?
— Para nada — disse o capitão.
Elevando-se cada vez mais a estrada, as árvores haviam terminado, somente raras moitas restavam aqui e ali; de resto, prados crestados, pedras, desmoronamentos de terra roxa.
— Por gentileza, senhor capitão, há povoados vizinhos?
— Bem, vizinhos, não. Há San Rocco, mas fica a uns trinta quilômetros.
— Pouco com que se divertir então, imagino.
— Pouco com que se divertir, pouco, realmente.
O ar tornara-se mais fresco, os flancos das montanhas arredondavam-se, prenunciando as cristas finais.
— E não se fica entediado, senhor capitão? — perguntou Giovanni, com um tom confidencial, rindo, como a dizer que ele não ligaria para isso.
— A gente se habitua — respondeu Ortiz, e acrescentou, com uma repreensão subentendida: — Estou lá há quase dezoito anos. Pensando melhor, dezoito anos completos.
— Dezoito anos? — disse Giovanni, impressionado.
— Dezoito — respondeu o capitão.
Uma revoada de corvos passou rente aos dois oficiais e abismou-se no funil do vale.
— Corvos — disse o capitão.
Giovanni não respondeu, estava pensando na vida que o aguardava, sentia-se estranho àquele mundo, àquela solidão, àquelas montanhas. Perguntou:
— Mas, dos oficiais que lá vão servir em primeira nomeação, há algum que depois continue?
— Poucos, atualmente — respondeu Ortiz, como que arrependido de ter falado mal do forte, percebendo que o outro exagerava. — Quase nenhum, aliás. Agora todos querem um serviço de guarnição brilhante. Antigamente o Forte Bastiani era uma honra, agora parece quase uma punição.
Giovanni calou-se, mas o outro insistia: — Apesar de tudo, é uma guarnição de fronteira. Nogeral há elementos de primeira ordem. Um posto de fronteira é sempre um posto de fronteira, realmente.
Drogo continuava calado, com o coração repentinamente oprimido. O horizonte alargara-se, no fundo apareciam curiosos perfis de montanhas rochosas, despenhadeiros pontiagudos que se encavalavam no céu.
— Agora, até no exército as concepções mudaram —continuava Ortiz. — Antigamente o Forte Bastiani era umagrande honra. Agora dizem que é uma fronteira morta, nãopensam que uma fronteira é sempre uma fronteira, e nunca se sabe...
Um riacho atravessava a estrada. Pararam para dar de beber aos cavalos e, desmontando da sela, caminharam um pouco de um lado para outro, para desentorpecer.
Ortiz disse:
— Sabe o que há realmente de primeira ordem? — e riu com vontade.
— O quê, senhor capitão?
— A cozinha, verá como se come no forte. E isso explica a frequência das inspeções. A cada quinze dias, um general.
Drogo riu por cortesia. Não chegava a entender se Ortiz era um idiota, se escondia algo ou se estava conversando assim, à toa.
— Ótimo — disse Giovanni. — Estou com uma fome!
— Ah, já não falta muito agora. Está vendo aquela corcova com uma mancha de pedregulhos? Então, é bem atrás dela.
Retomando o caminho, atrás da corcova com uma mancha de pedregulhos, os dois oficiais desembocaram na borda de uma esplanada em leve subida, e o forte surgiu diante deles, a poucas centenas de metros.
Parecia realmente pequeno, comparado à visão da tarde anterior. Do forte central, que no fundo se assemelhava a uma caserna com poucas janelas, saíam duas baixas muralhas em ameias que o ligavam aos redutos laterais, dois de cada lado. As muralhas barravam fragilmente todo o des-filadeiro, de uns quinhentos metros de largura, fechado nos flanços por altos penhascos escarpados.
À direita, exatamente embaixo da parede da montanha, a esplanada enfossava-se numa espécie de sela; lá passava a antiga estrada do desfiladeiro, e terminava de encontro às muralhas.
O forte estava silencioso, imerso em pleno sol meridiano, desprovido de sombras. Suas muralhas (não se via a fachada, por estar virada para o norte) estendiam-se nuas e amareladas. Uma chaminé expelia uma fumaça pálida. Ao longo de toda a orla do edifício central, das muralhas e dos redutos, viam-se dezenas de sentinelas, com o fuzil no ombro, caminharem, metódicas, de um lado ao outro, cada uma por um pequeno trecho. Semelhante a um movimento pen-dular, elas escandiam o caminho do tempo, sem romper o encanto daquela solidão que redundava imensa.
As montanhas, à direita e à esquerda, prolongavam-se a perder de vista em cadeias escarpadas, aparentemente inacessíveis. Elas também, pelo menos àquela hora, tinham uma cor amarelo-queimada.
Instintivamente Giovanni Drogo deteve o cavalo. Passeando lentamente os olhos, fitava as sombrias muralhas sem conseguir decifrar seu sentido. Pensou numa prisão, pensou num paço real abandonado. Um leve sopro de vento fez ondular sobre o forte uma bandeira que antes pendia frouxa, confundindo-se com o mastro. Ouviu-se um vago eco de clarim. As sentinelas caminhavam lentas. No largo, diante da porta de entrada, três ou quatro homens (não se sabia, pela distância, se eram soldados) carregavam sacas para cima de um carro. Mas tudo estagnava num torpor misterioso.
Também o capitão Ortiz detivera-se e fitava o edifício.
— Lá está — disse, embora fosse perfeitamente desnecessário.
Drogo pensou: "Agora vai me perguntar o que me parece", e ficou aborrecido. O capitão, ao contrário, calou-se.
O Forte Bastiani, com suas muralhas baixas, não era imponente, nem mesmo bonito, nem pitoresco por suas torres e bastiões; não havia absolutamente nada que consolasse aquela nudez, que lembrasse as doces coisas da vida.
Entretanto, como na tarde anterior, do fundo da garganta. Drogo o fitava hipnotizado, e uma inexplicável excitação penetrava em seu coração.
E atrás, o que havia? Além daquele inóspito edifício, além das ameias, das casamatas, do paiol, que barravam a vista, que mundo se abria? Como era o reino do norte, o pedregoso deserto por onde ninguém nunca passara? O mapa — lembrava-se Drogo vagamente — assinalava para além da fronteira uma vasta região com pouquíssimos nomes, mas será que do alto do forte se veria pelo menos algum povoado, algum prado, uma casa, ou apenas a desolação de uma terra desabitada?
Sentiu-se repentinamente sozinho, e sua empáfia de soldado, tão desembaraçada até então, enquanto haviam durado as experiências de guarnição, com a cômoda casa, com os amigos alegres sempre ao lado, com as fortuitas aventuras nos jardins noturnos, toda a sua segurança lhe faltava de repente. Parecia-lhe, o forte, um daqueles mundos desconhecidos aos quais nunca pensara seriamente poder pertencer, não porque lhe parecessem odiosos, mas por lhe parecerem infinitamente distantes de sua vida rotineira. Um mundo bem mais exigente, sem nenhum esplendor além daquele de suas geométricas leis.
Ah, voltar! Não ultrapassar sequer a soleira daquele forte e descer à planície, à sua cidade, aos velhos hábitos!
Esse foi o primeiro pensamento de Drogo, e não importava que tamanha fraqueza fosse vergonhosa para um soldado, ele mesmo estava pronto a confessá-la, se preciso, contanto que o deixassem partir logo. Mas uma densa nuvem erguia-se, branca, do invisível horizonte do norte, sobre os bastiões, e imperturbáveis, sob o sol a pino, as senti-nelas caminhavam para lá e para cá como autômatos. O cavalo de Drogo deu um relincho. Depois voltou o silêncio profundo.