O Deserto dos Tártaros
Capítulo XIV
Tronk faz um sinal com a cabeça. Os soldados erguem a maça.
— Podemos ir, senhor major? — perguntam.
— E querem esperar por quem? — responde Matti com dureza; agora, com sincero estupor, sentiu o ódio de Tronk e quer devolvê-lo multiplicado, com seu desprezo de superior.
— A frente — ordena Tronk. "À frente, marche", deveria ter dito, mas parece-lhe quase uma profanação. Só agora ele via as muralhas do forte, a sentinela no beirai, vagamente iluminada pelos reflexos das lanternas. Atrás daqueles muros, num dormitório, fica a cama de campanha de Lazzari, sua caixinha com as coisas de casa: uma imagem santa, duas espigas de milho, um isqueiro de pedra, lenços coloridos, quatro botões de prata, para a roupa de gala, que tinham sido do avô e que no forte nunca tiveram serventia.
O travesseiro tem ainda a marca de sua cabeça, exatamente como há dois dias atrás, quando ele acordara. E há talvez um vidrinho de tinta — acrescenta mentalmente Tronk, meticuloso também nos pensamentos solitários —, um vidrinho de tinta e uma caneta. Tudo isso será colocado num pequeno pacote e enviado à sua casa, com uma carta do senhor coronel. As outras coisas, fornecidas pelo governo, passarão naturalmente a um outro soldado, inclusive a muda de camisa. O belo uniforme não, nem o fuzil: o fuzil e o uniforme serão enterrados com ele, pois essa é a antiga regra do forte.
XIV
E no começo da manhã viram, pelo Reduto Novo, na planície setentrional, uma pequena faixa negra. Um sinal fino que se movia, e não podia ser alucinação. Viu-a antes de todos a sentinela Andronico, depois a sentinela Pietri, depois o sargento Batta, que de início pusera-se a rir, depois também o tenente Maderna, comandante do reduto.
Uma pequena faixa negra avançava do norte, através da terra desabitada, e pareceu um prodígio absurdo, embora já desde a noite certo pressentimento rondasse o forte. Por volta das seis horas a sentinela Andronico foi a primeira a dar o grito de alarme. Algo se aproximava vindo do norte, como nunca acontecera antes, pelo menos ninguém tinha lembrança disso. Depois que a luz aumentou, sobre o fundo branco do deserto destacou-se, nítida, a fileira de homens que avançava.
Alguns minutos após, como fazia a cada manhã desde um tempo imemorial (um dia fora pura esperança, depois apenas escrúpulo, agora quase unicamente hábito), o chefe dos alfaiates, Prosdocimo, subiu para dar uma olhada no telhado do forte. Nos postos de guarda, deixavam-no passar por tradição, ele se aproximava do caminho de ronda, tagarelava com o sargento, depois descia de novo para o subterrâneo.
Aproximou-se naquela manhã, dirigindo os olhos para o triângulo visível de deserto, e acreditou estar morto. Não pensou que pudesse ser um sonho. No sonho sempre há alguma . oisa de absurdo e confuso, nunca se fica livre da vaga sensação de que tudo é falso, de que, num repente, teremos de acordar. No sonho, as coisas não são nunca límpidas e materiais como aquela desolada planície sobre a qual avançavam fileiras de homens desconhecidos.
Mas era coisa tão estranha, tão idêntica a certos devaneios seus de quando era moço, que Prosdocimo sequer pensou que pudesse ser verdade e acreditou estar morto.
Acreditou estar morto e que Deus o perdoara. Pensou estar no mundo do além, aparentemente idêntico ao nosso, só que lá as boas coisas se realizam segundo os desejos justos, e, após estes terem sido satisfeitos, fica-se com o ânimo sereno, não como aqui, onde há sempre alguma coisa que envenena até os melhores dias.
Prosdocimo acreditou estar morto, e não se movia, supondo que não lhe cabia mais mexer-se, como defunto, mas que uma secreta intervenção o sacudiria. Em vez disso, foi um sargento-mor que respeitosamente lhe tocou o braço: "Sargento", disse-lhe. "O que foi? Não se sente bem?" Só então Prosdocimo começou a compreender.
Quase como nos sonhos, porém melhor, descia do reino do norte uma gente misteriosa. O tempo passava rapidamente, as pálpebras nem chegavam mais a piscar, fitando a insólita imagem, o sol já brilhava sobre a borda vermelha do horizonte, pouco a pouco os estrangeiros se tornavam mais próximos, ainda que com imensa lentidão. Alguém dizia que estavam a pé e a cavalo, que avançavam em fila indiana, que havia até uma bandeira. Assim dizia alguém, e os outros também se iludiam de ver, todos metiam na cabeça que estavam vendo infantes e cavaleiros, o pano de um estandarte, a fila indiana, embora, na realidade, distinguissem apenas uma fina faixa negra que se movia lentamente.
— Os tártaros — atreveu-se a dizer a sentinela An-dronico, como por uma brincadeira ousada, com seu rosto branco como a morte. Meia hora depois, o tenente Maderna, no Reduto Novo, ordenou um tiro de canhão, tiro de advertência, como estava prescrito no caso em que vissem se aproximar destacamentos estrangeiros armados.
Há muitos anos não se ouviam canhões. Os muros sofreram um pequeno tremor. O tiro ampliou-se num lento estrondo, funesto som de ruína entre os despenhadeiros. E os olhos do tenente Maderna voltaram-se para o perfil achatado do forte, esperando ver nele sinais de agitação. O tiro de canhão, ao contrário, não provocou assombro, pois os estrangeiros avançavam justamente naquele triângulo de planície visível do forte central, e todos já estavam informados. Até ao cunículo mais periférico, onde os bastiões à esquerda terminavam contra as rochas, até no plantão feito pela guarda no armazém subterrâneo das lanternas e dos instrumentos de construção, a ele que não podia ver nada, fechado no escuro porão, chegara a notícia. E queria que o tempo corresse, que seu turno terminasse, para ir ele também ao caminho de ronda a fim de dar uma olhada.
Tudo continuava como antes, as sentinelas permaneciam em seus postos, andando para cima e para baixo no espaço prescrito, os escrivães copiavam os relatórios, fazendo ranger as canetas e molhando-as no tinteiro com o ritmo habitual, mas do norte chegavam homens desconhecidos, sendo viável presumi-los inimigos. Nas escuderias, os homens almofaçavam as cavalgaduras, a chaminé das cozinhas fumegava fleumaticamente, três soldados varriam o pátio, mas já pairava um sentimento agudo e solene, uma imensa suspensão de ânimos, como se a grande hora tivesse chegado e nada mais pudesse detê-la.
Oficiais e soldados respiraram profundamente o ar da manhã para sentir dentro de si a nova vida. Os artilheiros puseram-se a preparar os canhões, brincando entre si e lidando com eles como se estivessem tratando com animais que precisavam ser amansados, e olhavam para eles com uma certa apreensão: talvez, após tanto tempo, as peças não fossem mais capazes de disparar, talvez no passado a limpeza não tivesse sido feita com o cuidado suficiente, era preciso remediar, num certo sentido, porque dentro em pouco tudo seria decidido. E nunca os estafetas tinham corrido tão velozes pelas escadas, nunca os uniformes estiveram tão em ordem, as baionetas tão reluzentes, os toques de clarim tão militares. Não se tinha, portanto, esperado em vão, os anos não haviam sido desperdiçados, o velho forte, afinal, serviria para alguma coisa.
Esperava-se agora um toque especial de clarim, o sinal de "grande alarme" que os soldados nunca haviam tido ocasião de ouvir. Em seus treinamentos, feitos fora do forte, num vale isolado — para que o som não atingisse o forte e não surgissem mal-entendidos —, os corneteiros, durante as plácidas tardes de verão, haviam ensaiado o famoso sinal, mais por excesso de zelo que por outra coisa (ninguém, decerto, pensava que poderia ser útil). Agora arrependiam-se de não terem estudado o suficiente; era um longuíssimo harpejo e subia a um extremo agudo, havendo talvez alguma dissonância.
Somente o comandante do forte poderia ordenar o sinal, e todos pensavam nele: os soldados já o esperavam para que viesse inspecionar as muralhas de uma ponta à outra, já o viam avançar com um sorriso altivo, fitando todos bem nos olhos. Devia ser para ele um grande dia, pois acaso não gastara sua vida esperando por essa ocasião?
O senhor coronel Filimore estava em seu gabinete, e pela janela olhava, para o norte, o pequeno triângulo de deserta planície que os despenhadeiros não ocultavam, vendo uma faixa de pontinhos pretos que se moviam como formigas, justamente em sua direção, na do forte, e pareciam realmente soldados.
De vez em quando entrava algum oficial, ou o tenente-coronel Nicolosi, ou o capitão de inspeção, ou oficiais de serviço. Entravam sob vários pretextos, na impaciente espera de suas ordens, anunciando-lhe novidades insignificantes: que da cidade chegara um novo carregamento de víveres, que se iniciavam naquela manhã os trabalhos de reparo no forno, que chegara a época de saída para uma dezena de soldados, que no terraço do forte central fora preparada a luneta, para o caso de o senhor coronel querer usá-la.
Transmitiam essas notícias, saudavam batendo os saltos e não entendiam por que o coronel ficava ali, mudo, sem dar as ordens que todos esperavam como certas. Não mandara ainda reforçar as guardas, nem redobrar as cotas individuais de munição, nem havia decidido nada quanto ao sinal de "grande alarme".
Como que por misteriosa atonia, ele observava friamente a chegada dos estrangeiros, nem triste nem contente, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito.
No mais, era um esplêndido dia de outubro, o sol límpido, o ar leve, o tempo mais desejável para uma batalha. O vento agitava a bandeira hasteada no telhado do forte, a terra amarela do pátio brilhava, e os soldados, ao atravessá-lo, deixavam ali nítidas sombras. Uma bela manhã, senhor coronel.
Mas o comandante dava claramente a entender que preferia permanecer sozinho e, quando não havia mais ninguém no gabinete, ia da escrivaninha à janela, da janela à escrivaninha, sem saber decidir-se, cofiava sem motivo os bigodes grisalhos, soltava longos suspiros exclusivamente físicos, como é próprio dos velhos.
Já não mais se percebia a tira negra dos estrangeiros no pequeno triângulo de planície visível pela janela, sinal de que eles estavam chegando, cada vez mais próximos da fronteira. Em três ou quatro horas, talvez, estariam aos pés das montanhas.
Mas o senhor coronel continuava a limpar com o lenço, sem motivo, as lentes de seus óculos, folheava os relatórios empilhados sobre a mesa: a ordem do dia para assinar, um pedido de licença, o boletim diário do oficial médico, uma autorização para descarregar objetos de selaria.
O que está esperando, senhor coronel? O sol já está alto, até o major Matti, entrando há pouco, não escondia uma certa apreensão, até ele, que nunca acredita em nada. Deixe-se ao menos ver pelas sentinelas, numa breve volta pelas muralhas. Os estrangeiros, disse o capitão Forze, que foi inspecionar o Reduto Novo, são visíveis um por um, já se distinguem agora, e vê-se que estão armados, trazem fuzis nos ombros, não há tempo a perder.
Filimore, ao contrário, quer esperar. Aqueles estrangeiros são soldados, ele não nega, mas quantos serão? Alguém falou em duzentos, outro, em duzentos e cinquenta; além disso, deixaram patente que, se aquela é a vanguarda, o grosso será de no mínimo dois mil homens. Mas o grosso ainda não foi visto, pode ser que nem exista.
O grosso do exército ainda não foi visto, senhor coronel, somente por causa das névoas do norte. Essa manhã elas estão muito adiantadas, a tramontana impeliu-as para baixo, de modo que cobrem uma vasta zona da planície. Aqueles duzentos homens não teriam sentido, se atrás deles não viesse um forte exército; antes do meio-dia terão de aparecer também os outros. Há uma sentinela, aliás, que diz ter visto, há pouco, algo mover-se nos limites das névoas.
Mas o comandante vai e vem da janela à escrivaninha e vice-versa, folheia apaticamente os relatórios. Por que os estrangeiros deveriam assaltar o forte?, pensa. Talvez sejam manobras normais para experimentar as dificuldades do deserto. O tempo dos tártaros já se foi, eles não passam de uma lenda
remota. E quem mais teria interesse em forçar a fronteira? Há nessa história toda alguma coisa que não convence.
Não serão os tártaros, senhor coronel, mas são soldados, com certeza. Há vários anos existem profundos rancores no reino do norte, não é mistério para ninguém, mais de uma vez falou-se em guerra. São soldados, com certeza. Estão a cavalo e a pé, provavelmente logo chegarão também os artilheiros. Antes do anoitecer, sem exagero, teriam tempo suficiente para atacar, e as muralhas do forte são velhas, velhos são os fuzis, velhos, os canhões, tudo absolutamente ultrapassado, menos o coração dos soldados. Não confie demais, senhor coronel.
Confiar! Ah, ele bem que gostaria de não poder confiar, por isso gastou a vida, restam-lhe ainda poucos anos, e, se esta não for a vez propícia, tudo estará talvez exaurido! Não é o medo o que o retarda, não é o pensamento de poder morrer. Isso sequer lhe passa pela cabeça.
O fato é que, no fim da vida, Filimore via repentinamente chegar a sorte com a armadura de prata e a espada tingida de sangue; ele (que quase já não pensava mais nisso) a via aproximar-se estranhamente, com rosto amigo. E Filimore, esta é a verdade, não ousava mover-se em sua direção e responder ao seu sorriso, enganara-se muitas vezes, agora basta.
Os outros, os oficiais do forte, tinham-lhe logo acorrido ao encontro, fazendo-lhe festa.
À diferença dele, tinham ido adiante e antegozavam, como se já o tivessem provado antes, o acre e poderoso odor da batalha. Ao contrário, o coronel esperava. Até que a bela aparição não o tivesse tocado com as mãos, ele não se moveria, como que por superstição. Talvez bastasse uma ninharia, um simples gesto de saudação, uma admissão de desejo, para que a imagem se dissolvesse no nada.
Por isso ele se limitava a balançar a cabeça, fazendo sinal que não, que a sorte devia estar enganada. E, incrédulo, olhava à sua volta, atrás de si, onde era presumível estarem outras pessoas, aquelas que a sorte realmente procurava. Entretanto não via mais ninguém, não podia haver um erro de pessoa, devia convir que justamente a ele estivesse destinada a invejável sorte.
Houvera um momento, às primeiras luzes da aurora, quando na brancura do deserto lhe aparecera a misteriosa tira negra, um momento em que seu coração ofegara de alegria. Depois, a imagem encouraçada de prata e com a espada ensanguentada fora tornando-se um tanto mais vaga, e caminhava em direção a ele, mas na realidade não conseguia mais se aproximar, encurtar a breve e no entanto infinita distância.
A razão é que Filimore já esperara demais, e a uma certa idade esperar dá muito trabalho, não se reencontra mais a fé de quando se tinha vinte anos. Esperara em vão, durante tempo demasiado, seus olhos leram demasiadas ordens do dia, por muitas manhãs seus olhos viram aquela maldita planície sempre deserta.
E agora que apareceram os estrangeiros, ele tem a nítida impressão de que deve haver um engano (bonito demais para ser verdade), deve haver por trás disso tudo um colossal engano.
Enquanto isso, o pêndulo diante da escrivaninha continuava a moer a vida, e os dedos magros do coronel, afilados pelos anos, teimavam em limpar, com o auxílio do lenço, as lentes dos óculos, ainda que isso não fosse necessário.
Os ponteiros do relógio se aproximavam das dez e meia, e então entrou na sala o major Matti, para lembrar ao comandante que havia o relatório dos oficiais. Filimore havia se esquecido e ficou desagradavelmente surpreso: cabia-lhe falar dos estrangeiros na planície, não poderia mais adiar a decisão, deveria defini-los oficialmente como inimigos, ou brincar com isso, ou manter uma atitude intermediária, ordenar medidas de segurança e ao mesmo tempo mostrar-se cético, como se não houvesse motivo para se iludir. Mas uma decisão devia ser tomada, e isso lhe desagradava. Ele teria preferido continuar à espera, permanecer absolutamente imóvel, como que provocando o destino para que este se desencadeasse de uma vez.
O major Matti disse-lhe com um de seus sorrisos ambíguos:
— Parece que desta vez é para valer! — O coronel Filimore não respondeu. O major disse: — Veem-se chegar outros, agora. São três fileiras, podem ser vistas também daqui.
O coronel fitou-o nos olhos e chegou, por um momento, quase a querer-lhe bem. — Estão chegando mais, o senhor diz?
— Até daqui são visíveis, senhor coronel, já são muitos agora.
Foram à janela e, no triângulo visível da planície setentrional, viram novas pequenas tiras negras em movimento; não mais uma, como ao amanhecer, mas três, alinhadas, e não se distinguia o seu fim.
A guerra, a guerra, pensou o coronel, e em vão tentava repelir o pensamento, como se fosse um desejo proibido. A esperança acordara às palavras de Matti e o enchia de excitação.
Com a mente assim revolta, o coronel encontrou-se de repente na sala de reuniões, diante de todos os oficiais alinhados (exceto aqueles em serviço de guarda). Acima da mancha azul dos uniformes, resplandeciam de palidez rostos curiosos, que ele custava a reconhecer; jovens ou murchos, todos lhe diziam a mesma coisa, com os olhos acesos de febre pediam-lhe avidamente o anúncio formal de que haviam chegado os inimigos. Em posição de sentido, todos o fitavam, com a pretensão de não serem espoliados.
No grande silêncio da sala, ouvia-se apenas a respiração profunda dos oficiais. E o coronel compreendeu que precisava falar. Foi naquele instante que se sentiu invadir por um sentimento novo e desenfreado. Com admiração, sem perceber as razões, Filimore teve a repentina certeza de que os estrangeiros eram realmente inimigos, determinados a violar a fronteira. Não entendia realmente como acontecera, ele que até um momento atrás soubera vencer a tentação de crer. Sentia-se como que arrastado pela tensão comum dos ânimos, compreendia que ia falar sem reservas. "Senhores oficiais", diria, "chegou finalmente a hora que esperamos há muitos anos." Diria isso, ou alguma coisa semelhante, e os oficiais escutariam com gratidão suas palavras, autorizada promessa de glória.
Ele estava prestes a falar; porém, dos recessos de sua alma, ainda teimava uma voz contrária. É impossível, coronel, dizia essa voz, cuide-se enquanto é tempo, é um engano (bonito demais para ser verdade), cuidado, deve haver por trás disso tudo um engano colossal.
Na comoção que o invadia, aflorava de vez em quando essa voz inimiga. Mas era tarde, sua demora começava a ficar embaraçosa.
E o coronel deu um passo adiante, ergueu a cabeça como era seu hábito quando começava a falar, e os oficiais viram que seu rosto se tornara repentinamente vermelho: sim, o senhor coronel corava como uma criança, pois estava prestes a confessar o bem-guardado segredo de toda a sua vida.
Estava levemente corado, como uma criança, e seus lábios iam emitir o primeiro som, quando a voz hostil ressurgiu no fundo da alma, e Filimore teve um tremor de suspensão. Pareceu-lhe então ouvir um passo precipitado que subia as escadas, que se aproximava da sala onde eles estavam reunidos. Nenhum dos oficiais, atentos a seu comandante, percebeu, mas os ouvidos de Filimore, depois de tantos anos, estavam treinados para distinguir os mínimos sons do forte.
O passo se aproximava, não havia dúvida, com insólita precipitação. Tinha um som esquisito e despojado, um som de inspeção administrativa; como se chegasse diretamente do mundo da planície. O rumor agora chegava distintamente também aos outros oficiais e feriu-os grosseiramente no íntimo, sem que se pudesse dizer por quê. Abriu-se finalmente a porta e apareceu um oficial desconhecido, dos Dragões, ofegante de cansaço, coberto de poeira.
Bateu continência.
— Tenente Fernandez — disse —, do 7° dos Dragões. Trago esta mensagem da cidade, da parte de Sua Excelência, o chefe do estado-maior. — Segurando com elegância o seu comprido quepe com o braço esquerdo dobrado em arco, aproximou-se do coronel e entregou-lhe um envelope lacrado.
Filimore apertou-lhe a mão.
— Obrigado, tenente — disse —, deve ter dado uma boa corrida, acho. O colega Santi vai levá-lo para descansar um pouco. — Sem deixar transparecer a menor sombra de inquietação, o coronel fez um sinal ao tenente Santi, o primeiro que lhe caiu diante dos olhos, convidando-o a fazer as honras da casa. Os dois oficiais saíram, e a porta foi fechada. — Permitem? — perguntou Filimore com um sorriso sutil, mostrando o envelope, para indicar que preferia lê-lo imediatamente. Suas mãos arrancaram os lacres, rasgaram uma ponta, puxaram uma folha dupla, completamente coberta de escrita.
Os oficiais fitavam-no enquanto lia, tentando flagrar alguma coisa refletida em seu rosto. Porém, nada. Como se estivesse dando uma lida num jornal, depois do jantar, sentado junto à lareira, numa letárgica noite de inverno. Somente o rubor desaparecera do rosto seco do comandante.
Quando terminou de ler, o coronel dobrou a folha dupla, introduziu-a novamente no envelope, enfiou-o no bolso e levantou a cabeça, dando a entender que estava prestes a falar. Sentia-se no ar que algo acontecera, que o encanto de pouco antes fora quebrado.
— Senhores oficiais — disse, e a voz custava muito a sair. — Houve esta manhã, entre os soldados, se não me engano, uma certa excitação, e mesmo entre vocês, se não me engano, em razão de terem sido avistados destacamentos na assim chamada planície dos tártaros.
Suas palavras abriam, com dificuldade, um rombo no profundo silêncio. Uma mosca esvoaçava pela sala.
— Trata-se — continuou —, trata-se de destacamentos do Estado do norte, encarregados de demarcar a linha de fronteira, como foi feito por nós, há muitos anos. Por isso eles não passarão pelo forte, provavelmente se espalharão em grupos, escalonando-se pelas montanhas. É o que me comunica nesta carta Sua Excelência, o chefe do estado-maior.
Filimore, ao falar, soltava longos suspiros, não motivados por impaciência ou dor, mas suspiros exclusivamente físicos, como é próprio dos velhos; e igual à dos velhos parecia ter ficado de repente a sua voz, por certas frouxidões cavernosas, e do mesmo modo seus olhos, amarelados e opacos.
O coronel Filimore já pressentira tudo, desde o princípio.
Não podiam ser inimigos, bem que ele sabia: não nascera para a glória, inúmeras vezes se iludira tolamente. Por que — perguntava-se com raiva —, por que se deixara enganar, se pressentira desde o princípio que devia terminar assim?
— Como vocês sabem — continuou, num tom bastante apático, para não parecer extremamente amargo —, os marcos de fronteira e os outros sinais de demarcação já foram fixados por nós, há muitos anos. Falta, porém, como informa Sua Excelência, um trecho ainda não definido. Enviarei para completar o serviço um certo número de homens comandados por um capitão e um subalterno. É uma zona montanhosa, com duas ou três cadeias paralelas. É supérfluo acrescentar que seria bom avançar o mais adiante possível, para garantirmos a borda setentrional. Não que estrategicamente seja essencial, se me compreendem, pois ali uma guerra nunca poderá ter desenvolvimento, nem oferecer possibilidades de manobra... — interrompeu-se por um instante, perdido em pensamentos. — Possibilidades de manobra, onde eu parei mesmo?
— Dizia que é preciso ir adiante o máximo possível... — sugeriu o major Matti, com suspeita compunção.
— Ah, pois é: estava dizendo que seria preciso ir adiante o máximo possível. Infelizmente a coisa não é fácil: já estamos atrasados em relação aos do norte. De qualquer modo... Bem, falaremos disso mais tarde — concluiu, voltando-se para o tenente-coronel Nicolosi.
Calou-se e parecia cansado. Vira descer sobre os rostos dos oficiais, enquanto falava, um véu de desilusão, vira-os, de guerreiros ansiosos por luta, tornarem-se incolores oficiais de guarnição. Mas eram jovens, pensava, e para eles ainda haveria tempo.
— Bem — prosseguiu o coronel —, dói-me agora precisar fazer uma observação que se refere a vários dos senhores. Notei mais de uma vez que na hora de render a guarda alguns pelotões se apresentam no pátio desacompanhados de seus respectivos oficiais. Esses oficiais evidentemente se consideram autorizados a chegar mais tarde...
A mosca esvoaçava pela sala, a bandeira em cima do telhado do forte se afrouxara, o coronel falava em disciplina e regulamentos, na planície do norte avançavam fileiras de soldados, não mais inimigos ávidos de batalha, mas soldados inócuos como eles, não impelidos ao extermínio, porém enviados numa operação cadastral, e seus fuzis estavam descarregados, as adagas, sem fio. Pela planície do norte abaixo alastra-se aquele inofensivo simulacro de exército, e no forte tudo se estagna de novo ao ritmo dos dias de sempre.