O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 18 de 32

Páginas do PDF

O Deserto dos Tártaros

Capítulo XVI

Duas palavras, e a cabeça de Angustina tombou para a frente, abandonada a si mesma. Uma de suas mãos largou-se, branca e rígida, dentro da prega da capa, a boca conseguiu fechar-se, novamente nos lábios foi se esboçando um sorriso débil. (Levado pela liteira, ele desviou os olhos do amigo e virou a cabeça para a frente, na direção do cortejo, com uma espécie de curiosidade divertida e desconfiada. Afastou-se assim, na noite, com nobreza quase inumana. O cortejo mágico seguiu serpenteando lentamente no céu, cada vez mais para o alto, tornou-se uma confusa esteira, depois um minúsculo tufo de névoa e depois mais nada.)

— O que você queria dizer, Angustina? Amanhã o quê? — O capitão Monti, saindo finalmente de seu abrigo, sacode o tenente com força, pelos ombros, para fazê-lo reanimar-se; mas consegue apenas descompor as nobres pregas do sudário militaresco, e é uma pena. Nenhum dos soldados ainda viu o que aconteceu.

Às imprecações de Monti responde o precipício negro, e é somente a voz do vento. — O que você queria dizer, Angustina? Você se foi sem terminar a frase; talvez fosse uma tolice qualquer, talvez uma esperança absurda, talvez até mesmo nada.

 

XVI

Depois do enterro do tenente Angustina, o tempo recomeçou a passar no forte exatamente como antes. O major Ortiz perguntava a Drogo:

— Há quanto tempo?

Drogo respondia:

— Estou aqui há quatro anos.

Chegara inopinadamente o inverno, a longa estação. Não demoraria a cair neve, no começo quatro ou cinco centímetros; em seguida, após uma pausa, uma camada mais alta, e depois outras vezes mais, parecia impossível calcular, havia tanto tempo à frente antes que a primavera voltasse. (Contudo um dia, muito antes do previsto, muito antes, ouvir-se-ão das bordas dos terraços rios de água despencando, e o inverno terá inexplicavelmente acabado.)

O ataúde do tenente Angustina, envolto na bandeira, jazia enterrado num pequeno recinto, de um dos lados do forte. Em cima havia uma cruz de pedra branca com seu nome escrito. Para o soldado Lazzari, mais adiante, uma cruz menor, de madeira.

Disse Ortiz: — Eu às vezes fico pensando: nós desejamos a guerra, esperamos a ocasião propícia, reclamamos porque nunca acontece nada. No entanto, você viu? Angustina...

— Quer dizer — disse Giovanni Drogo —, quer dizer que Angustina não precisou da sorte? Que ele foi capaz assim mesmo?

— Ele era fraco e acho que doente também — disse o major Ortiz. — Estava pior que todos nós, realmente. Ele, como nós, não encontrou o inimigo, para ele também não houve guerra. No entanto, morreu como numa batalha. Sabe, tenente, como foi que morreu?

Drogo disse: — Sim, eu também estava lá quando o capitão Monti contou.

Chegara o inverno, e os estrangeiros haviam ido embora. Os belos estandartes da esperança, de reflexos cor de sangue, lentamente baixaram, e o ânimo estava de novo tranquilo; mas o céu ficara vazio, os olhos ainda buscavam inutilmente alguma coisa nas fronteiras extremas do horizonte.

— Soube morrer no momento exato, realmente — disse o major Ortiz. — Como se uma bala o tivesse apanhado. Um herói, sem dúvida alguma. Contudo, não houve tiros. Para todos os outros que naquele dia estavam com ele, as probabilidades eram idênticas, ele não tinha nenhuma vantagem, a não ser talvez a de poder morrer mais facilmente. Mas, no fundo, o que fizeram os outros? Para os outros foi um dia mais ou menos como todos os demais.

— É, apenas um pouco mais frio — disse Drogo.

— Sim, um pouco mais frio — disse Ortiz. — Você também, tenente, podia ter ido com eles, bastava pedir.

Estavam sentados num banco de madeira, no terraço mais alto do quarto reduto. Ortiz fora procurar o tenente Drogo, que estava de serviço. A amizade entre os dois aumentava dia a dia.

Estavam sentados num banco, embrulhados nas capas, com os olhares perdidos em direção do norte, onde se acumulavam grandes nuvens informes, carregadas de neve.

Soprava de vez em quando o vento setentrional, gelando a roupa no corpo. Os altos cumes rochosos, à direita e à esquerda de desfiladeiro, haviam se tornado negros.

— Acho que amanhã nevará até aqui, no forte — disse Drogo.

— E provável — respondeu o major, sem qualquer interesse, e calou-se.

— Vai nevar. Os corvos continuam passando — disse ainda Drogo.

— A culpa também é nossa — disse Ortiz, que perseguia um pensamento obstinado. — No fim, cabe-nos sempre aquilo que merecemos. Angustina, por exemplo, estava disposto a pagar caro; nós, ao contrário, não. Talvez a questão esteja toda nisso. Talvez nós pretendamos demasiado. Cabe-nos sempre o que merecemos, realmente.

— E então? — perguntou Drogo. — E então, o que deveríamos fazer?

— Ah, eu, nada — disse Ortiz, com um sorriso. — Esperei demais, mas você...

— Eu o quê?

— Vá enquanto é tempo, volte à cidade, adapte-se à guarnição. No fundo você não me parece o tipo que despreza os prazeres da vida. Fará melhor carreira que aqui, certamente. Nem todos nascemos para heróis.

Drogo calava-se.

— Você já deixou passar quatro anos — dizia Ortiz.— Obteve uma certa vantagem para contar tempo de carreira, vamos admitir, mas pense no quanto não lhe teria sido útil ficar na cidade. Foi arrancado do mundo, ninguém se lembra mais de você, volte enquanto é tempo.

De olhos fixos no chão, Giovanni escutava, emudecido.

— Já vi outros assim — continuou o major. — Aos poucos foram adquirindo os hábitos do forte, ficaram aprisionados aqui dentro, não foram mais capazes de se mexer. Velhos aos trinta anos, realmente.

— Acredito, senhor major, mas na minha idade... — disse Drogo.

— Você é jovem — prosseguiu Ortiz —, e continuará sendo por um bom tempo, é verdade. Mas eu não me fiaria nisso. Basta deixar passar mais dois anos, só mais dois anos, e voltar atrás lhe custará demasiado esforço.