O Deserto dos Tártaros
Capítulo IX
Fiquei aborrecido ontem à noite, sabe? Nós somos bem diferentes; aquilo que você pensa, no fundo, eu nunca entendi. Parece mania, não sei, mas talvez você tenha razão.
— Nem estava pensando nisso — disse Angustina, apoiando a mão direita no flanco do cavalo e olhando para o chão. — É claro que não fiquei com raiva.
Eram dois homens diferentes, que gostavam de coisas diferentes, distantes pela inteligência e pela cultura. Ficava-se até admirado de vê-los sempre juntos, tamanha era a superioridade de Angustina. No entanto, eram amigos; dentre todos eles, Lagorio era o único que instintivamente o compreendia, somente ele sentia pena do companheiro, envergonhava-se, quase, de partir antes dele, como de uma desagradável ostentação, e não conseguia decidir-se.
— Se vir Claudina — disse ainda Angustina, sem alterar a voz —, cumprimente-a... Aliás não, é melhor que você não diga nada.
— Ah, mas ela irá me perguntar, se eu a vir. Sabe muito bem que você está aqui.
Angustina calou-se.
— Então — disse Lagorio, que terminara de acomodar o saco de viagem, com o ordenança —, é melhor eu ir,senão fica tarde. Até logo.
Apertou a mão do amigo; depois, num elegante movimento, saltou na sela.
— Adeus, Lagorio! — exclamou Angustina. — Boa viagem.
Ereto na sela, Lagorio o fitava; não era muito inteligente, mas uma obscura voz dizia-lhe que talvez não voltassem a se ver.
Uma batida de esporas, e o cavalo pôs-se em movimento. Foi então que Angustina ergueu levemente a mão direita para fazer um aceno, como para chamar o companheiro, para que parasse ainda por um momento, pois precisava dizer-lhe uma última coisa. Lagorio viu o gesto com o canto dos olhos e deteve-se a uns vinte metros.
— O que foi? — perguntou. — Queria alguma coisa?Mas Angustina abaixou a mão, recobrando a postura indiferente de antes. — Nada, nada — respondeu. — Por quê?
— Ah, pareceu-me... — disse Lagorio, perplexo, eafastou-se através da esplanada, balançando sobre a sela.
IX
Os terraços do forte eram brancos, assim como o vale do sul e o deserto do setentrião. A neve cobria inteiramente os bastiões, estendera uma frágil moldura ao longo das ameias, caía com pequenos baques pelas calhas, desprendia-se de vez em quando do flanco dos precipícios, sem nenhuma razão aparente, e horríveis massas retumbavam em grandes sulcos, fumegando.
Não era a primeira neve, mas a terceira ou a quarta, e isso indicava que muitos dias haviam se passado.
— Parece que cheguei ontem ao forte — dizia Drogo, e era assim. Parecia ontem, entretanto o tempo se consumira com seu ritmo imóvel, idêntico para todos os homens, nem mais lento para quem é feliz nem mais veloz para os desventurados.
Nem devagar nem rápido, outros três meses se passaram. O Natal já se dissolvia na distância, também o novo ano viera, trazendo aos homens, por alguns instantes, estranhas esperanças. Giovanni Drogo já se preparava para partir. Era necessária ainda a formalidade do exame médico, como lhe prometera o major Matti, e depois poderia ir embora. Ele continuava a repetir a si mesmo que esse era um acontecimento alegre, que na cidade o aguardava uma vida boa, divertida e talvez feliz, contudo não estava contente.
Na manhã de 10 de janeiro, entrou no gabinete do médico, no último andar do forte. Chamava-se Ferdinando Rovina, tinha mais de cinquenta anos, um rosto flácido e inteligente, mostrava um cansaço resignado, e não vestia o uniforme, mas uma comprida toga escura de juiz. Estava sentado à sua mesa com vários livros e papéis à frente; porém Drogo, entrando quase repentinamente, percebeu que não estava fazendo nada; sentava-se imóvel, pensando sabe-se lá em quê.
A janela dava para o pátio, e dali subia um som de passos cadenciados, pois já era noite e começava a troca da guarda. Pela janela via-se um trecho do muro da frente e o céu extraordinariamente sereno. Os dois se cumprimentaram, e Giovanni notou que o médico estava perfeitamente a par do seu caso.
— Os corvos fazem ninhos e as andorinhas vão embora — disse Rovina, brincando, e puxou de uma gaveta um papel com um formulário impresso.
— O senhor talvez não saiba, doutor, que vim parar aqui por engano — respondeu Drogo.
— Todos, meu filho, vieram parar aqui por engano — disse o médico, numa patética alusão a si mesmo. — Uns mais, outros menos, mesmo os que acabaram ficando.
Drogo não entendeu bem e contentou-se em sorrir.
— Ah, não o reprovo! Fazem bem, vocês, jovens, em não ficar mofando aqui — continuava Rovina. — Na cidade há muitas outras oportunidades. Até eu penso nisso, de vez em quando, se pudesse...
— Por quê? — perguntou Drogo. — Não poderia pedir transferência?
O médico agitou as mãos como se tivesse ouvido um absurdo.
— Pedir transferência? — e riu com gosto. — Depois de vinte e cinco anos que estou aqui? Tarde demais, meu filho, precisava ter pensado nisso antes.
Talvez tivesse gostado que Drogo voltasse a contra-dizê-lo, mas, como o tenente se calou, foi entrando no assunto: convidou Giovanni a sentar-se, fez com que desse o nome e o sobrenome, que escreveu no lugar apropriado, na ficha regulamentar.
— Bem — concluiu. — O senhor sofre de alguns distúrbios do aparelho circulatório, certo? Seu organismo não resiste a esta altitude, não é mesmo? Está bem assim?
— Está bem — concordou Drogo. — O senhor é o melhor juiz para essas coisas.
— Vamos prescrever também um período de convalescença, já que estamos nisso? — disse o médico, fazendo um sinal de entendimento.
— Agradeço-lhe — disse Drogo —, mas não queria exagerar.
— Como queira. Nada de licença, portanto. Eu, na sua idade, não tinha esses escrúpulos.
Giovanni, em vez de sentar-se, aproximou-se da janela e olhava de vez em quando para baixo, para os soldados enfileirados sobre a neve branca. O sol acabara de se pôr, e entre as muralhas difundira-se uma penumbra azul.
— Mais da metade de vocês depois de três ou quatro meses quer ir embora — dizia com uma certa tristeza o médico, ele também já envolto pelas sombras, tanto que era impossível entender como conseguia enxergar para escrever.— Até eu, se pudesse voltar atrás, faria como vocês... Mas pensando bem, depois de tudo, é uma pena.
Drogo ouvia sem interesse, atento que estava a olhar pela janela. E então pareceu-lhe ver os muros amarelados do pátio elevarem-se, altíssimos, para o céu de cristal, e, acima deles, ainda mais altas, solitárias torres, muralhas oblíquas coroadas de neve, aéreos bastiões e fortins, que nunca notara antes. Uma luz clara do ocidente ainda os iluminava, e eles, misteriosamente, resplandeciam de uma vida impenetrável. Nunca Drogo percebera que o forte era tão complicado e imenso. Viu a janela (ou uma fresta?) aberta para o vale, numa altura quase incrível. Lá em cima devia haver homens que ele não conhecia, talvez até algum oficial como ele, de quem poderia ter sigo amigo. Viu sombras geométricas de abismos entre um bastião e outro, viu tênues pontos suspensos entre os telhados, estranhos portões trancados, rentes às muralhas, antigos cadinhos para chumbagem obstruídos, longas quinas encurvadas pelos anos.
Viu entre lanternas e archotes, no fundo lívido do pátio, soldados imensos e altivos desembainhar as baionetas. No clarão da neve, formavam fileiras escuras e imóveis, como que de ferro. Eram belíssimos e estavam petrificados, enquanto um clarim começava a tocar. Os toques se ampliavam pelo ar, vivos e luzidios, e penetravam direto no coração.
— Um por um, vão-se todos — murmurava Rovina na penumbra. — Acabaremos por ficar apenas nós, os velhos.Este ano...
O clarim tocava lá embaixo no pátio, som puro de voz humana e metal. Palpitou ainda com ímpeto guerreiro. Ao silenciar, deixou inexprimível encanto, até no gabinete do médico. O silêncio tornou-se tal que se pôde ouvir um longo passo ranger na neve gelada. O coronel em pessoa descera para saudar a guarda. Três toques de extrema beleza rasgaram o céu.
— Quem sobrou de vocês? — continuava a recriminar o médico. — O tenente Angustina, o único. Até Morei, aposto, no ano que vem precisará descer à cidade para tratar-se. Aposto que ele também acabará por ficar doente...
— Morei? — Drogo não podia deixar de responder para mostrar que estava escutando. — Morei, doente? — perguntou, sem ter apanhado senão as últimas palavras.
— Ah, não — disse o médico. — Uma espécie de metáfora.
No entanto, através da janela fechada, ouviam-se os passos vítreos do coronel. No crepúsculo, as baionetas faziam, alinhadas, muitas estrias de prata. De distâncias improváveis chegavam ecos de clarins, o som de antes, talvez, devolvido pelas muralhas.
O médico calava-se. Depois ergueu-se e disse:
— Aqui está o atestado. Agora vou levá-lo para o comandante assinar. — Dobrou a folha e colocou-a numa pasta, tirou do cabide o capote e um gorro de pele.
— O senhor também vem, tenente? — perguntou.
— O que está olhando, afinal?
As guardas de serviço tinham deposto as armas e se moviam, uma por uma, na direção das diversas portas do forte. Sobre a neve, a cadência de seus passos fazia um rumor surdo, mas por cima voava a música das fanfarras. Depois, mesmo que fosse inverossímil, os muros, já cercados pela noite, ergueram-se lentamente em direção ao zênite, e de seu limite supremo, emoldurado por tiras de neve, começaram a desprender-se nuvens brancas em forma de airão, navegantes dos espaços siderais.
Passou pela cabeça de Drogo a lembrança de sua cidade, uma imagem pálida, ruas fragorosas sob a chuva, estátuas de gesso, umidades de casernas, tristes toques de sinos, rostos cansados e desfeitos, tardes sem fim, tetos cobertos de poeira.
Aqui, ao contrário, avançava a noite grande das montanhas, com as nuvens em fuga sobre o forte, milagrosos presságios. E do norte, do setentrião invisível atrás das muralhas. Drogo sentia a premência do próprio destino.
O médico já estava na soleira.
— Doutor, doutor — disse Drogo, quase sussurrando. — Estou bem.
— Eu sei — respondeu o médico. — Em que estava pensando?
— Estou bem — repetiu Drogo, quase não reconhecendo a própria voz. — Estou bem e quero ficar.
— Ficar aqui no forte? Não quer mais ir embora? O que lhe aconteceu?
— Não sei — disse Giovanni. — Mas não posso ir embora.
— Ah — exclamou Rovina, aproximando-se. — Se não está brincando, juro que fico contente.
— Não estou brincando, não — disse Drogo, que sentia a exaltação transformar-se numa estranha dor, próxima da felicidade. — Doutor, jogue fora aquele papel.