O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 13 de 32

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O Deserto dos Tártaros

Capítulo XI

A sentinela percebeu logo a postura ameaçadora de Drogo e, apesar de a formalidade da senha, por antiquíssimo e mudo acordo, não ser praticada entre os soldados e o comandante da guarda, foi tomada de um excesso de escrúpulo. Sobraçando o fuzil, perguntou, com o sotaque muito particular usado no forte: "Quem vem lá? Quem vem lá?"

Drogo se deteve de repente, desorientado. A menos de cinco metros de distância, à luz límpida da lua, ele enxergava muito bem o rosto do militar, e sua boca estava fechada. Mas a nênia não tinha parado.

De onde vinha a voz, então?

Pensando nesse estranho fato, uma vez que o soldado continuava à espera, Giovanni disse mecanicamente a senha: "Milagre". "Miséria", respondeu a sentinela, e repôs a arma em posição de descanso.

Seguiu-se um silêncio imenso, no qual, mais forte que antes, navegava um sussurro de palavras e de canto.

Finalmente Drogo entendeu, e um lento arrepio percorreu-lhe a espinha. Era a água, era uma longínqua cascata rumorejante, a pique nos despenhadeiros próximos. O vento que fazia oscilar o longo jorro, o misterioso jogo dos ecos, o diferente som das pedras em percussão, formavam uma voz humana, que falava, falava: palavras de nossa vida, que se estava sempre prestes a entender, mas que na verdade nunca se entendia.

Não era então o soldado que cantarolava, não era um homem sensível ao frio, às punições e ao amor, mas a montanha hostil. Que triste engano, pensou Drogo, talvez tudo seja assim; acreditamos que ao redor haja criaturas semelhantes a nós e, ao contrário, só há gelo, pedras que falam uma língua estrangeira; preparamo-nos para cumprimentar o amigo, mas o braço recai inerte, o sorriso se apaga, porque percebemos que estamos completamente sós.

O vento bate contra a esplêndida capa do oficial e até a sombra azul sobre a neve se agita como bandeira. A sentinela está imóvel. A lua caminha, caminha lenta, mas sem perder um único instante, impaciente pela aurora. Toque-toque, pulsa o coração no peito de Giovanni Drogo.

 

XI

Quase dois anos depois, Giovanni Drogo dormia uma noite em seu quarto, no forte. Vinte e dois meses haviam passado sem trazer nada de novo, e ele permanecera firme, esperando, como se a vida devesse ter para com ele uma particular indulgência. Entretanto, vinte e dois meses são longos, e podem acontecer muitas coisas: dá tempo para que se formem novas famílias, crianças nasçam e comecem até a falar, para que uma grande casa surja onde antes havia apenas um prado, para que uma mulher bonita envelheça e ninguém mais a deseje, para que uma doença, mesmo das mais demoradas, tome alento (enquanto isso o homem continua a viver despreocupado), consuma lentamente o corpo, desapareça para deixar lugar a breves aparências de cura, recomece mais fundo, sugando as últimas esperanças, sobre ainda tempo para que o morto seja sepultado e esquecido, para que o filho seja de novo capaz de rir e, à noite, leve moças ingênuas às alamedas, ao longo das grades do cemitério.

A existência de Drogo, ao contrário, tinha como que parado. Dias iguais, com as mesmas coisas de sempre, repetiam-se centenas de vezes sem dar um

passo adiante. O rio do tempo passava sobre o forte, rachava os muros, arrastava para baixo poeira e fragmentos de pedra, limava os degraus e as correntes, mas sobre Drogo passava à toa; não conseguira enganchá-lo ainda em sua fuga.

Aquela noite também teria sido igual a todas as demais se Drogo não tivesse um sonho. Ele voltara a ser criança e encontrava-se, de noite, no parapeito de uma janela.

Além de uma profunda reentrância da casa, via a fachada de um palácio opulento, iluminado pela lua. E a atenção de Drogo menino era totalmente atraída por uma janela alta e estreita, coroada por um baldaquim de mármore. O luar, penetrando pelas vidraças, batia em cima de uma mesa onde havia uma toalha, um vaso e algumas estatuetas de marfim. E esses poucos objetos visíveis levavam a imaginar que na escuridão, atrás, se abria a intimidade de um vasto salão, o primeiro de uma série interminável, cheio de objetos valiosos, e que o palácio inteiro estava adormecido, mergulhado naquele sono absoluto e provocante que as moradias de gente rica e feliz conhecem. "Que delícia", pensou Drogo, "poder viver nesses salões, perambular durante horas, descobrindo sempre novos tesouros!"

Entre a janela da qual se aproximara e o maravilhoso palácio — um espaço de uns vinte metros — começavam a flutuar frágeis aparições, semelhantes a fadas talvez, que arrastavam atrás de si caudas de véu, reluzentes ao luar.

No sonho, a presença de semelhantes criaturas, nunca vistas no mundo real, não espantava Giovanni. Elas ondeavam no ar em lentos vórtices, roçando, insistentes, a estreita janela.

Por sua natureza, pareciam lógicos pertences do palácio, mas o fato de não repararem absolutamente em Drogo, e de não se aproximarem de sua casa, o mortificava. Será que nem as fadas, então, gostavam das crianças comuns, cuidavam apenas da gente rica, que nem se dava ao trabalho de reparar nelas e dormia, indiferente, sob os baldaquins de seda?

"Psiu... psiu...", fez Drogo duas ou três vezes, timidamente, para atrair a atenção dos fantasmas, sabendo de antemão, porém, no íntimo, que seria inútil. Nenhum deles na verdade pareceu ouvir, nenhum se aproximou sequer um metro do seu parapeito.

Mas eis que uma daquelas mágicas criaturas agarra-se à borda da janela oposta com uma espécie de braço e bate na vidraça, discretamente, como para chamar alguém.

Não precisou muito tempo para que uma figura franzina, ah, como era pequena em comparação com a monumental janela, aparecesse atrás das vidraças, e Drogo reconheceu Angustina, ele também criança.

Angustina, com uma palidez impressionante, vestia uma roupa de veludo com gola de renda branca, e não parecia absolutamente satisfeito com aquela silenciosa serenata.

Drogo achou que o companheiro, nem que fosse só por cortesia, o convidaria para brincar com os fantasmas. Mas não foi o que aconteceu. Angustina não pareceu reparar no amigo, e nem mesmo quando Giovanni o chamou, "Angustina! Angustina!", volveu os olhos para ele.

Com um gesto cansado, o amigo abriu a janela e inclinou-se em direção ao espírito pendurado no parapeito, como se tivesse intimidade com ele e quisesse dizer-lhe algo. O espírito fez um sinal, e, acompanhando com o olhar a direção daquele gesto, Drogo deu com uma grande praça, absolutamente deserta, que se estendia diante das casas. Acima da praça, a uns dez metros do solo, avançava pelo ar um pequeno cortejo de outros espíritos arrastando uma liteira.

Feita aparentemente da mesma substância que eles, a liteira transbordava de véus e penachos. Angustina, com sua característica expressão de indiferença e enfado, olhava para ela; era evidente que vinha por sua causa.

A injustiça feria o coração de Drogo. Por que tudo para Angustina e nada para ele? Se fosse qualquer outro! Mas justamente Angustina, sempre tão soberbo e arrogante! Drogo olhou as outras janelas para ver se havia alguém que pudesse eventualmente intervir por ele, mas não conseguiu enxergar ninguém.

Finalmente a liteira se deteve, balançando bem na frente da janela, e todos os fantasmas, num salto, empoleiraram-se à sua volta, formando uma palpitante coroa; todos se debruçavam para Angustina, não propriamente obsequiosos, mas com uma curiosidade ávida e quase maligna. Abandonada a si mesma, a liteira sustinha-se no ar como que suspensa por fios invisíveis.

Imediatamente Drogo despiu-se de toda inveja, pois entendeu o que estava acontecendo. Via Angustina, em pé no parapeito da janela, e seus olhos fitavam a liteira. Sim, os mensageiros das fadas, naquela noite, tinham vindo por causa dele, mas para que tipo de encargo! Para uma longa viagem, então, devia servir a liteira, e não regressaria antes da aurora, nem mesmo na noite seguinte, nem na terceira noite, nem nunca. Os salões do palácio esperariam em vão pelo patrãozinho, duas mãos de mulher fechariam cautelosamente a janela deixada aberta pelo fugitivo e todas as outras seriam trancadas para aninhar no escuro o pranto e a desolação.

Os fantasmas, antes tão amáveis, não tinham vindo então para brincar com os raios de lua, não haviam saído, inocentes criaturas, de jardins perfumados, mas tinham vindo do abismo.

As outras crianças teriam chorado, chamado pela mãe; Angustina, ao contrário, não tinha medo, e confabulava tranquilamente com os espíritos, como para estabelecer certos procedimentos que era necessário esclarecer. Apertados em torno da janela, semelhantes a um panejamento de espuma, amontoavam-se uns sobre os outros, aconchegando-se ao menino, e ele fazia que sim com a cabeça, como a dizer: está bem, está bem, perfeitamente de acordo. Por fim, o espírito que primeiro se agarrara ao parapeito, talvez o chefe, fez um pequeno gesto imperioso. Angustina, com seu ar entediado de sempre, saltou do parapeito (parecia ter ficado tão leve quanto os fantasmas) e sentou-se na liteira, como um fidalgo, cruzando as pernas. O cacho de fantasmas dissolveu-se num ondeamento de véus, a carruagem encantada pôs-se suavemente em movimento para partir.

Formou-se um cortejo, as aparições empreenderam uma evolução semicircular na reentrância das casas, para dali subirem ao céu, rumo à lua. Ao descrever o semicírculo, a liteira passou a poucos metros da janela de Drogo, que, agitando os braços, tentou gritar "Angustina! Angustina!", numa suprema despedida.

O amigo morto voltou então a cabeça em direção a Giovanni, fitando-o por alguns instantes, e pareceu a Drogo ver nele uma seriedade absolutamente excessiva para um menino tão novo. Mas o rosto de Angustina abria-se lentamente num sorriso de cumplicidade, como se Drogo e ele pudessem compreender muitas coisas desconhecidas para os fantasmas; uma vontade muito grande de brincar, a última ocasião para fazer ver que ele, Angustina, não precisava da piedade de ninguém: um episódio como outro qualquer, parecia dizer; seria bobagem ficar admirado.

Levado pela liteira, Angustina desviou os olhos de Drogo e virou a cabeça para a frente, na direção do cortejo, com uma espécie de curiosidade divertida e desconfiada. Parecia estar experimentando pela primeira vez um brinquedo de que não fazia nenhuma questão, mas que por conveniência não pudera recusar.

Assim afastou-se na noite, com nobreza quase inumana. Não olhou para o seu palácio, nem para a praça ali embaixo, sequer para as outras casas, ou para a cidade em que vivera.

O cortejo seguiu serpenteando lentamente no céu, cada vez mais alto, tornou-se uma confusa esteira, depois um minúsculo tufo de névoa e depois mais nada.

A janela permanecera aberta, os raios da lua ainda iluminavam a mesa, o vaso, as estatuetas de marfim, que continuavam a dormir. Lá dentro, num outro aposento, estirado na cama, à luz trêmula das velas, talvez estivesse deitado um pequeno corpo humano sem vida, cujo rosto se parecia com o de Angustina; e devia vestir um traje de veludo, uma grande gola de renda, com um sorriso gelado sobre os lábios brancos.