O Deserto dos Tártaros
Capítulo XXVI
— Nada, queria cumprimentá-lo.
Drogo achou que a explicação era tola, quase ofensiva, que levava a pensar numa brincadeira. Ainda meia hora a cavalo até a ponte e depois as duas estradas se juntavam. Que necessidade havia então daquela excentricidade?
— Quem está aí? — gritou Drogo de volta.
— Tenente Moro! — foi a resposta, ou melhor, foi esse o nome que o capitão pareceu ter ouvido. Tenente Moro?, perguntou a si mesmo. No forte não havia nenhum nome daquela espécie. Quem sabe um novo subalterno que vinha prestar serviço?
Somente então bateu-lhe, com dolorosa ressonância no íntimo, a lembrança do longínquo dia em que, pela primeira vez, subira ao forte, do encontro com o capitão Ortiz, justamente no mesmo ponto do vale, de sua ansiedade em falar com uma pessoa amiga, do embaraçante diálogo através do barranco.
Exatamente como naquele dia, pensou, com a diferença de que os papéis haviam sido trocados e agora era ele. Drogo, o velho capitão que subia pela centésima vez ao Forte Bastiani, enquanto o novo tenente era um certo Moro, uma pessoa desconhecida. Drogo entendeu que transcorrera uma geração inteira nesse ínterim, que ele já ultrapassara o cume da vida para o lado dos velhos, onde naquele dia remoto lhe parecera que se encontrava Ortiz. E com mais de quarenta anos, sem ter feito nada de bom, sem filhos, realmente só no mundo, Giovanni olhava espantado à sua volta, sentindo o próprio destino declinar.
Via rochedos incrustados de touceiras, canais úmidos, longínquas cristas nuas que se amontoavam no céu, a face impassível das montanhas; e do outro lado do vale aquele tenente novo, tímido e desorientado, que se iludia, certo de não permanecer no forte senão poucos meses, e que sonhava com uma carreira brilhante, feitos gloriosos, românticos amores.
Bateu com a mão no pescoço do animal, que virou a cabeça para trás, amigavelmente, mas que decerto não podia entendê-lo. Um nó apertava o coração de Drogo; adeus, sonhos de um tempo distante, adeus, coisas belas da vida. O sol brilhava límpido e benévolo para os homens, um ar revigorante descia do vale, os prados exalavam um bom perfume, cantos de pássaros acompanhavam a música do riacho. Um dia feliz para os homens, pensou Drogo, e ficava espantado de que nada diferisse, na aparência, de certas maravilhosas manhãs de sua juventude. O cavalo retomou a marcha. Meia hora depois. Drogo avistou a ponte em que se uniam as duas estradas, pensou que dentro em breve deveria pôr-se a falar com o novo tenente e sentiu um grande pesar.
XXVI
Por que agora, concluída a estrada, os estrangeiros desapareceram? Por que homens, cavalos e carros haviam subido novamente a grande planície até penetrar as névoas do norte? Todo aquele trabalho para nada?
Realmente, os esquadrões dos cavadores foram vistos se afastando um por um até se tornarem minúsculos pontinhos, visíveis apenas com a luneta, como quinze anos antes.
O caminho estava aberto para os soldados: que avançasse agora o exército para assaltar o Forte Bastiani.
O exército, ao contrário, não foi visto avançando. Através do deserto dos tártaros restava apenas a faixa da estrada, sinal particular de ordem humana no antiquíssimo abandono. O exército não desceu para o assalto, tudo parecia deixado em suspenso, sabe-se lá agora por quantos anos.
Assim, a planície permaneceu imóvel, as névoas setentrionais, paradas, parada a vida regulamentar do forte, as sentinelas repetindo sempre os mesmos passos de um lado para o outro do caminho de ronda, igual à sopa da tropa, um dia idêntico ao outro, repetindo-se ao infinito, como um soldado que marca o
passo. Entretanto o tempo voava; sem reparar nos homens, passava aqui e ali pelo mundo, mortificando as coisas bonitas; e ninguém conseguia escapar-lhe, nem mesmo as crianças recém-nascidas, ainda desprovidas de nome.
Também o rosto de Giovanni começava a ficar coberto de rugas, os cabelos tornavam-se grisalhos, o passo, menos ligeiro; o rio da vida jogara-o agora para um lado, para os sorvedouros periféricos, embora no fundo ele não tivesse ainda nem cinquenta anos. Drogo, naturalmente, não fazia mais o serviço de guarda; tinha um gabinete próprio no comando, contíguo ao do tenente-coronel Ortiz.
Quando desciam as trevas, o escasso número de homens da guarda não era mais suficiente para impedir que a noite se apoderasse do forte. Vastos setores das muralhas não eram guardados, e por lá penetravam os pensamentos da escuridão, a tristeza de estarem sozinhos. O velho forte era de fato como uma ilha perdida, rodeada por territórios vazios: à direita e à esquerda as montanhas, ao sul o longo vale desabitado e, do outro lado, a planície dos tártaros. Rumores estranhos como nunca ecoavam nas horas mais tardias, através dos labirintos das fortificações, e o coração das sentinelas punha-se a bater. De uma extremidade à outra das muralhas corria ainda o grito "Alerta! alerta!", mas os soldados faziam muito esforço para transmiti-lo, tamanha a distância que separava um do outro.
Drogo assistiu naquela época às primeiras angústias do tenente Moro, como a uma fiel reprodução da própria juventude. Também Moro de início ficara assustado, recorrera ao major Simeoni, que de certo modo substituía Matti, fora convencido a ficar quatro meses, e acabara por ficar como que amalgamado ao forte; também Moro pusera-se a olhar com demasiada insistência a planície do norte, com sua estrada nova e inutilizada, de onde desciam as esperanças guerreiras. Drogo gostaria de ter-lhe falado, dizer-lhe para tomar cuidado, para partir enquanto era tempo; tanto mais que Moro era um rapaz simpático e escrupuloso. Mas alguma bobagem sempre intervinha para impedir a conversa, e mesmo assim talvez isso tivesse sido inútil.
Tombando uma sobre a outra as páginas cinzentas dos dias, as páginas negras das noites, aumentava em Drogo e em Ortiz (e talvez também em algum outro velho oficial) o afã de não ter mais tempo. Insensíveis aos estragos dos anos, os estrangeiros nunca se moviam, como se fossem imortais e não lhes importasse esbanjar, por brincadeira, longas estações. O forte, por sua vez, abrigava pobres homens indefesos contra o trabalho do tempo, cujo último limite se aproximava. Datas que antigamente pareciam inverossímeis, de tão remotas, agora se aproximavam repentinamente do horizonte próximo, recordando os duros prazos da vida. Às vezes, para poder continuar, era preciso estabelecer um novo sistema, encontrar novos termos de comparação, consolar-se com aqueles que estavam pior.
Até que também Ortiz precisou ser aposentado (e na planície do norte não se percebia o menor indício de vida, nem mesmo um minúsculo lume). O tenente-coronel Ortiz transmitiu as instruções ao novo comandante, Simeoni, reuniu a tropa no pátio, exceto, naturalmente, os destacamentos em serviço de guarda, fez com dificuldade um discurso, montou em seu cavalo com a ajuda do ordenança e saiu pela porta do forte. Um tenente e dois soldados o escoltavam. Drogo acompanhou-o até a borda da esplanada, onde se despediram. Era a manhã de um longo dia de verão, no céu passavam nuvens cujas sombras manchavam de modo estranho a paisagem. Descendo do cavalo, o tenente-coronel Ortiz ficou apartado com Drogo, e ambos calavam, sem saber como dizer adeus. Depois saíram palavras forçadas e banais, muito diferentes e mais pobres que aquilo que eles tinham no coração.
— Para mim, agora a vida muda — disse Drogo. — Gostaria de ir embora também. Quase tenho vontade de pedir baixa.
— Você ainda é jovem! — disse Ortiz. — Seria uma estupidez, você ainda terá tempo!
— Tempo para quê?
— Tempo para a guerra. Verá, não passarão dois anos — assim dizia, mas no íntimo esperava que não, na realidade ele desejava que Drogo voltasse como ele, sem ter tido a grande sorte; iria parecer-lhe uma injustiça. Embora tivesse grande amizade por Drogo e lhe desejasse o melhor.
Mas Giovanni não disse nada.
— Verá, não passarão dois anos realmente — insistiu Ortiz, esperando ser contrariado.
— Muito mais de dois anos — disse Drogo, finalmente. — Passarão séculos, e não bastarão. A estrada já está abandonada, não virá mais ninguém do norte. — Embora fossem essas as suas palavras, a voz do coração era outra: absurdo, refratário aos anos, conservava-se nele, desde a época da juventude, aquele profundo pressentimento de coisas fatais, uma obscura certeza de que o bom da vida ainda estava para começar.
Calaram-se novamente, percebendo que aquela conversa ia separando um do outro. Mas o que podiam dizer-se, tendo vivido juntos quase trinta anos entre os mesmos muros, com os mesmos sonhos? Suas duas estradas, após tanta marcha, agora se dividiam; uma daqui e outra dali, afastavam-se rumo a lugares desconhecidos.
— Que sol! — disse Ortiz, e olhava, com os olhos um tanto embaciados pela idade, as muralhas de seu forte,que estava prestes a abandonar para sempre. Elas parecia mas mesmas, com a cor amarelada de sempre, seu perfil romanesco. Ortiz as olhava intensamente, e ninguém, afora Drogo, poderia adivinhar o quanto estava sofrendo.
— Está fazendo calor, realmente — respondeu Drogo, lembrando-se de Maria Vescovi, daquele remoto encontro na sala de estar, enquanto pairavam, melancólicos, os acordes do piano.
— Um dia escaldante, realmente — acrescentou Ortiz, e ambos sorriram: um instintivo sinal de entendimento como para dizer que conheciam bem o significado daquelas palavras tolas. Agora uma nuvem os alcançara com sua sombra, por alguns instantes a esplanada inteira tornou-se escura, e reluziu por contraste o sinistro esplendor do forte, ainda imerso no sol. Dois grandes pássaros sobrevoavam o primeiro reduto. Ouviu-se ao longe, quase imperceptível, um toque de clarim.