O Deserto dos Tártaros
Capítulo III
Giovanni destacou finalmente os olhos do forte e olhou ao seu lado, para o capitão, esperando uma palavra amiga. Ortiz também permanecera imóvel e fitava intensamente as muralhas amarelas. Sim, ele, que ali vivia há dezoito anos, as contemplava, quase enfeitiçado, como se revisse um prodígio. Parecia não se cansar de admirá-las, e um vago sorriso, ao mesmo tempo de alegria e de tristeza, iluminava suavemente seu rosto.
III
Mal chegou. Drogo apresentou-se ao major Matti, ajudante-mor de primeira. O tenente de guarda, um jovem desembaraçado e cordial, chamado Cario Morei, acompanhou-o através do coração do forte. Do saguão de entrada — de onde se entrevia um grande pátio deserto —, os dois se dirigiram para um vasto corredor, do qual não se conseguia ver o fim. O teto perdia-se na penumbra, de vez em quando uma pequena réstia de luz penetrava por estreitas frestas.
Somente no andar de cima encontraram um soldado que levava um maço de papéis. As paredes nuas e úmidas, o silêncio, a exiguidade das luzes: todos lá dentro pareciam ter-se esquecido de que em algum lugar do mundo
existiam flores, mulheres sorridentes, casas alegres e hospitaleiras. Tudo ali dentro era uma renúncia, mas para quem, para que misterioso bem? Agora eles se dirigiam ao terceiro andar, através de um corredor, exatamente idêntico ao primeiro. Ouvia-se, por trás de algumas paredes, o distante eco de uma risada, que a Drogo pareceu inverossímil.
O major Matti era gorducho e sorria com excessiva afabilidade. Seu escritório era amplo, e igualmente grande era a escrivaninha, atulhada de papéis. Um retrato do rei e o sabre do major estavam pendurados numa trave de madeira.
Drogo apresentou-se em posição de sentido, mostrou os documentos pessoais, começou a explicar que não fizera nenhum pedido para ser designado para o forte (estava decidido, logo que possível, a pedir transferência), mas Matti o interrompeu.
— Há anos conheci seu pai, tenente. Um cavalheiro exemplar. Decerto o senhor vai querer honrar a sua memória. Presidente da Corte Suprema, se não me engano?
— Não, senhor major — disse Drogo. — O meu pai era médico.
— Ah, pois é, médico, tem razão, ia me confundindo, claro, claro. — Matti pareceu embaraçado por um instante, e Drogo notou que, levando frequentemente a mão esquerda ao colete, tentava esconder uma mancha de gordura, redonda, uma mancha evidentemente recente, no peito do uniforme.
O major recobrou-se rapidamente: — Agrada-me vê-lo aqui em cima — disse. — Sabe o que disse Sua Majestade, Pedro III? "O Forte Bastiani, sentinela de minha coroa." E eu acrescentaria que é uma grande honra pertencer a ele. Não concorda com isso, tenente?
Dizia essas coisas mecanicamente, como uma fórmula aprendida há anos, que precisava desenterrar em determinadas ocasiões.
— Justamente, senhor major — disse Giovanni. — Tem toda a razão, mas, confesso-lhe, para mim foi uma surpresa. Tenho família na cidade, preferia, se possível, ficar por lá...
— Ah, mas então o senhor quer nos deixar antes mesmo de ter chegado, pode-se dizer? Confesso-lhe que é uma pena, sinto muito.
— Não é que eu queira. Eu não me permito discutir... Quero dizer que...
— Entendi — disse o major com um suspiro, como se aquela fosse uma velha história e ele soubesse compreendê-la. — Entendi: o senhor imaginava o forte diferente e agora está um tanto assustado. Mas diga-me sinceramente: como pode julgar honestamente, se chegou há poucos minutos?
— Senhor major — disse Drogo —, eu não tenho propriamente nada contra o forte... Apenas preferia ficar na cidade, ou pelo menos perto. Entende? Falo-lhe confidencialmente, vejo que o senhor entende dessas coisas, confio em sua gentileza...
— Mas claro, claro! — exclamou Matti, com um breve sorriso. — Estamos aqui para isso! Não queremos ninguém aqui de má vontade, nem mesmo a última das sentinelas. Apenas sinto, parece-me um ótimo rapaz...
O major calou-se por um instante, como para meditar sobre a melhor solução. Foi quando Drogo, virando um pouco a cabeça para a esquerda, dirigiu os olhos à janela, aberta para o pátio interno. Via-se a parede em frente, como as outras, amarelada e batida de sol, com os retângulos negros das raras janelas. Havia também um relógio que marcava duas horas, e, no terraço superior, uma sentinela, que caminhava de um lado para o outro, com o fuzil no ombro. Acima do beirai do edifício, distante, em meio aos revérberos meridianos, despontava um cume rochoso. Via-se apenas sua ponta extrema, e ele em si não tinha nada de especial. Entretanto, havia naquele trecho de despenhadeiro, para Giovanni Drogo, o primeiro chamado visível da terra do norte, do legendário reino que pairava sobre o forte. E o resto, como seria? Uma luz sonolenta provinha daquele lado, por entre lentas nuvens de caligem. Então o major começou a falar:
— Diga-me — perguntou a Drogo. — O senhor gostaria de voltar imediatamente ou não se importa de esperar alguns meses? Para nós, repito-lhe, é indiferente... do ponto de vista formal, claro — acrescentou, para que a frase não parecesse descortês.
— Já que devo voltar — disse Giovanni, agradavelmente surpreso com a falta de dificuldades —, já que devo voltar, acho melhor que seja imediatamente.
— De acordo — tranquilizou-o o major. — Mas tenho de lhe explicar: se o senhor quiser partir logo, então é melhor que passe por doente. O senhor vai para a enfermaria, fica em observação por alguns dias, e o médico lhe dá um atestado. Há muitos, de fato, que não resistem a esta altitude...
— É mesmo necessário que eu passe por doente? — perguntou Drogo, que não gostava de fingimentos.
— Necessário, não, mas simplifica tudo. Caso contrário, o senhor precisaria fazer um pedido de transferência por escrito, é necessário enviar esse pedido ao comando supremo, é preciso que o comando supremo responda, são necessárias pelo menos duas semanas. Sobretudo é necessário que o coronel se ocupe dele, e é isso o que eu gostaria de evitar. Essas coisas no fundo lhe desagradam, ele fica magoado, é a palavra certa, magoado, como se fizessem uma injustiça ao seu forte. Bem, se eu fosse o senhor, se quer que eu seja sincero, preferiria evitar...
— Desculpe, senhor major — observou Drogo —, isso eu não sabia. Se ir embora pode me prejudicar, então é outra coisa.
— Longe disso, tenente, o senhor não me entendeu. Em nenhum dos casos sua carreira será afetada. Trata-se apenas, como dizer?, de uma nuance...
Claro, é como lhe disse no começo, a coisa não agrada ao senhor coronel. Mas se o senhor está mesmo decidido...
— Não, não — disse Drogo. — Se as coisas são como o senhor diz, talvez seja melhor o atestado médico.
— A menos que... — disse Matti com um sorriso in-sinuante, deixando a frase em suspenso.
— A menos quê?
— A menos que o senhor se conforme em ficar quatro meses aqui, o que seria a melhor solução.
— Quatro meses? — perguntou Drogo, já um tanto desiludido, após a perspectiva de poder ir embora logo.
— Quatro meses — confirmou Matti. — O procedimento é muito mais regular. Explico-lhe: duas vezes por ano é feito um exame médico para todos, está prescrito formalmente. O próximo será daqui a quatro meses. Para o senhor, parece-me a melhor ocasião. E o atestado será negativo; se quiser, eu mesmo me encarrego disso. O senhor pode ficar absolutamente tranquilo.
"Além disso", continuou o major após uma pausa, "além disso, quatro meses são quatro meses, e bastam para um relatório pessoal. Pode ficar certo de que o senhor coronel o fará. E o senhor sabe que valor pode ter para sua carreira. Mas entendamo-nos, entendamo-nos bem: esse é um simples conselho, o senhor é completamente livre..."
— Sim, senhor — disse Drogo —, entendo perfeitamente.
— O serviço aqui não é cansativo — sublinhou o major —, quase sempre serviço de guarda. E o Reduto Novo, que exige um pouco mais, no começo não lhe será decerto confiado. Canseira nenhuma, não tenha medo, terá mais ocasião é de ficar entediado...
Mas Drogo mal ouvia as explicações de Matti, estranhamente atraído pelo quadrado da janela, com aquele pedacinho de despenhadeiro que despontava por cima da parede da frente. Um vago sentimento que não conseguia decifrar insinuava-se em sua alma; talvez algo tolo e absurdo, uma sugestão sem nexo. Ao mesmo tempo sentia-se tranquilizado. Ainda queria ir embora, mas sem a ansiedade de antes. Quase se envergonhava das apreensões que tivera ao chegar. Acaso não estaria ele à altura dos demais? Uma partida imediata podia equivaler a uma confissão de inferioridade. Assim, o amor-próprio lutava contra o desejo de retomar a velha existência familiar.
— Senhor major — disse Drogo —, agradeço-lhe pelos seus conselhos, mas deixe-me pensar até amanhã.
— Perfeitamente — disse Matti, com evidente satisfação. — E esta noite? Não se importa que o coronel o veja no refeitório, ou prefere se resguardar?
— Não sei — respondeu Giovanni. — Seria inútil ficar escondido, tanto mais se devo permanecer aqui durante quatro meses.
— Melhor — disse o major. — Assim vai se sentir encorajado. Verá que gente simpática, todos oficiais de primeira ordem.
Matti sorriu, e Drogo entendeu que chegara o momento de retirar-se. Mas antes perguntou:
— Senhor major — pediu, com voz aparentemente calma —, posso dar uma olhada ao norte, para ver o que existe além das muralhas?
— Além das muralhas? Não sabia que o senhor se interessava por paisagens — respondeu o major.
— Só uma olhadela, senhor major, apenas por curiosidade. Ouvi dizer que existe um deserto, e eu nunca vi nenhum.
— Não vale a pena, tenente. Uma paisagem monótona, não há nada de bonito. Acredite em mim, não pense nisso!
— Não insistirei, senhor major — disse Drogo —, pensei que não houvesse empecilhos.
O major Matti uniu, como num ato de reza, as pontas de seus dedos gorduchos:
— O senhor me pediu — disse — justamente a única coisa que não posso lhe conceder. Sobre as muralhas e nos corpos de guarda podem andar somente os militares de serviço, é preciso saber a senha.
— Mas nem por exceção, nem um oficial?
— Nem um oficial. Ah, entendo bem: para vocês da cidade essas minúcias parecem ridículas. Lá a senha não é um grande segredo. Aqui, no entanto, é outra coisa.
— Desculpe se insisto, senhor major...
— Diga, diga, tenente.
— Queria dizer: não há nenhuma seteira, uma janela, por onde se possa olhar?
— Só uma. Uma única, no gabinete do senhor coronel. Infelizmente ninguém pensou num mirante para os curiosos. Mas não vale a pena, repito-lhe, uma paisagem que não vale nada. Ah, acabará por se aborrecer com aquele panorama, se decidir ficar.
— Obrigado, senhor major, alguma ordem? — e bateu continência.
Matti abanou amigavelmente a mão.
— Até logo, tenente. Mas não pense nisso; uma paisagem que não vale nada, garanto-lhe, uma paisagem idiota.
Naquela mesma noite, porém, o tenente Morei, liberado do serviço do dia, conduziu Drogo às escondidas até o beirai das muralhas, para que pudesse ver.
Um longo corredor, iluminado por raras lanternas, acompanhava todo o alinhamento das muralhas, de um limite ao outro do desfiladeiro. De vez em quando havia uma porta; depósitos, laboratórios, corpos de guarda. Caminharam por cerca de cento e cinquenta metros até a entrada do terceiro
reduto. Uma sentinela armada estava à soleira. Morei pediu para falar com o tenente Grotta, que comandava a guarda.
Assim, a despeito do regulamento, puderam entrar. Giovanni achou-se num pequeno corredor de passagem; numa parede, sob uma luz, havia uma tabela com os nomes dos soldados de serviço.
— Venha, venha cá — disse Morei a Drogo. — É melhor irmos depressa.
Drogo seguiu-o por uma estreita escada que desembocava ao ar livre, nos bastiões do reduto. O tenente Morei fez um sinal à sentinela com quem cruzaram, como para dizer que as formalidades eram inúteis.
Giovanni encontrou-se de repente diante das ameias perimetrais: à sua frente, inundado pela luz do poente, aprofundava-se o vale, revelavam-se aos seus olhos os segredos do setentrião.
Uma leve palidez tomou conta do rosto de Drogo, petrificado, que mirava. A sentinela vizinha detivera-se, e um silêncio desmedido parecia ter descido por entre os halos do crepúsculo. Depois Drogo perguntou, sem mover os olhos:
— E atrás? Atrás daquelas rochas como é? Tudo assim, até o fim?
— Nunca vi — respondeu Morei. — É preciso ir até o Reduto Novo, aquela lá longe, em cima daquele cone. Dali enxerga-se toda a planície dianteira. Dizem... — e então calou-se.
— Dizem... O que dizem? — perguntou Drogo, e uma insólita inquietação tremia em sua voz.
— Dizem que é toda de pedras, uma espécie de deserto, seixos brancos, dizem, como se fosse neve.
— Só pedras? Mais nada?
— É o que dizem, e alguns charcos.
— Mas no fundo, ao norte, será que não se vê alguma coisa?
— No horizonte quase sempre há névoas — disse Morei, sem a cordial exuberância de antes. — Há as névoas do norte que não permitem ver.
— As névoas! — exclamou Drogo, incrédulo. — É impossível que fiquem ali para sempre, algum dia o horizonte deverá estar limpo.
— Raramente está limpo, nem mesmo no inverno. Mas há os que dizem ter visto.
— Dizem ter visto o quê?
— Andaram sonhando, isso, sim. Veja lá se dá para acreditar nos soldados. Um diz uma coisa, outro diz outra. Alguns dizem ter visto torres brancas, ou então dizem que há um vulcão fumegante e que de lá saem as névoas. Mesmo Ortiz, o capitão, garante ter visto, vai fazer uns cinco anos agora. Pelo que disse, há uma longa mancha escura, deveriam ser florestas.
Calaram-se. Onde, afinal. Drogo já vira aquele mundo? Talvez o tivesse vivido em sonho, ou quem sabe o construíra lendo uma antiga fábula? Parecia-
lhe reconhecer os baixos despenhadeiros em ruínas, o vale tortuoso sem plantas nem verdes, aqueles precipícios a pique e, finalmente, aquele triângulo de desolada planície que as rochas à frente não conseguiam esconder. Profundos ecos de sua alma haviam despertado, e ele não sabia decifrá-los.
Agora Drogo descortinava o mundo do setentrião, a terra desabitada através da qual os homens, diziam, nunca haviam passado. De lá nunca haviam chegado inimigos, nunca houvera combates, nunca acontecera nada.