O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 9 de 32

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O Deserto dos Tártaros

Capítulo VII

Passarão alguns dias antes que Drogo entenda o que aconteceu. Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro. Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. Nas janelas não mais aparecerão figuras risonhas, mas rostos imóveis e indiferentes. E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. Entretanto, os companheiros se perderão de vista, um porque ficou para trás, esgotado, outro porque desapareceu antes e já não passa de um minúsculo ponto no horizonte.

Além daquele rio — dirão as pessoas —, mais dez quilômetros, e terá chegado. Ao contrário, não termina nunca, os dias se tornam cada vez mais curtos, os companheiros de viagem, mais raros, nas janelas estão apáticas figuras pálidas que balançam a cabeça.

Até Drogo ficar completamente sozinho e no horizonte surgir a estria de um imensurável mar parado, cor de chumbo. Então já estará cansado, as casas, ao longo da rua, terão quase todas as janelas fechadas, e as raras pessoas visíveis lhe responderão com um gesto desconsolado: o que era bom ficou para trás, muito para trás, e ele passou adiante, sem dar por isso. Ah, é demasiado tarde para voltar, atrás dele aumenta o fragor da multidão que o segue, impelida pela mesma ilusão, mas ainda invisível, na branca estrada deserta.

Giovanni Drogo agora dorme no interior do terceiro reduto. Ele sonha e sorri. São as últimas vezes que chegarão até ele, na noite, as suaves imagens de um mundo completamente feliz. Ai, se pudesse ver a si mesmo, como estará um dia, lá onde a estrada termina, parado na praia do mar de chumbo, sob um céu cinzento e uniforme, sem nenhuma casa ao redor, nenhum homem, nenhuma árvore, nem mesmo um fio de erva, tudo assim desde um tempo imemorável.

 

VII

Finalmente chegou da cidade a arca com as roupas do tenente Drogo. Entre outras coisas, havia uma capa novíssima, de extraordinária elegância. Drogo vestiu-a e olhou-se, detalhe por detalhe, no pequeno espelho de seu quarto. Pareceu-lhe uma viva ligação com seu mundo distante; pensou com satisfação que todos a teriam admirado, tão esplêndido era o tecido e elegante o seu feitio.

Achou que não devia estragá-la no serviço do forte, nas noites de guarda, entre os muros úmidos. Era também de mau agouro usá-la ali, pela primeira vez, como a admitir que não teria ocasiões melhores. No entanto, sentia não exibi-la, e, ainda que não estivesse fazendo frio, quis vesti-la ao menos para ir até o alfaiate do regimento, de quem compraria uma outra, mais comum.

Deixou então o quarto e desceu as escadas, observando, onde a luz permitia, a elegância da própria sombra. Todavia, à medida que descia ao coração do forte, a capa parecia perder de algum modo seu primeiro esplendor. Drogo percebeu que não conseguia usá-la com naturalidade; parecia-lhe uma coisa estranha, de chamar a atenção. Agradou-lhe, por isso, que as escadas e os corredores estivessem quase desertos. Um capitão, que encontrou, respondeu ao seu cumprimento sem um olhar a mais que o necessário. Nem mesmo os raros soldados viravam os olhos para vê-lo.

Desceu por uma estreita escadinha em espiral, talhada no corpo de uma muralha, e seus passos ressoaram acima e abaixo, como se houvesse outras pessoas. As preciosas faldas da capa batiam, oscilando, no branco bolor dos muros.

Drogo chegou então aos subterrâneos. A oficina do alfaiate Prosdocimo ficava alojada num porão. Um raio de luz descia, nos dias de sol, por uma pequena janela no nível do chão, mas naquela tarde já tinham acendido as luzes.

— Boa tarde, senhor tenente — disse Prosdocimo, o alfaiate do regimento, assim que o viu entrar. No salão, apenas alguns trechos eram iluminados; uma mesa onde um velhinho escrevia, outra onde trabalhavam três jovens ajudantes. Em toda a volta, pendiam, flácidos, com o sinistro abandono de enforcados, dezenas e dezenas de uniformes, capas e capotes.

— Boa tarde — respondeu Drogo. — Queria uma capa, uma capa que não custe muito, basta que dure quatro meses.

— Deixe-me ver — disse o alfaiate, com um sorriso de curiosidade desconfiada, pegando a barra da capa de Drogo e trazendo-a na direção da luz; ele tinha o grau de sargento, mas sua qualificação de alfaiate concedia-lhe o direito a uma certa familiaridade irônica para com os superiores. — Bom tecido, bom . . Deve ter custado os olhos da cara, imagino, lá na cidade não brincam. — Deu uma olhadela profissional, sacudiu a cabeça, fazendo tremer as bochechas cheias e sanguíneas. — Pena que...

— Pena o quê?

— Pena que a gola seja tão baixa, é pouco militar.

— Usa-se assim agora — disse Drogo, com superioridade.

— A moda pode determinar gola baixa — disse o alfaiate —, mas para nós, militares, a moda não importa. A moda tem de ser o regulamento, e o regulamento diz: "gola da capa apertada ao pescoço, como um cinto, com a altura de sete centímetros". O senhor deve pensar, senhor tenente, que sou um alfaiate qualquer, vendo-me neste buraco.

— Por quê? — disse Drogo. — Nada disso, pelo contrário.

— O senhor talvez pense que sou um alfaiate qualquer. Pelo contrário, muitos oficiais me apreciam, até na cidade, e oficiais de respeito. Estou aqui em caráter ab-so-lu-ta-men-te pro-vi-só-rio — e escandiu as duas últimas palavras como uma premissa de grande importância.

Drogo não sabia o que dizer.

— Qualquer dia desses vou-me embora — continuava Prosdocimo. — Se não fosse pelo senhor coronel, que nãoquer deixar-me ir... Do que vocês aí estão rindo?

Na penumbra, de fato, ouvira-se a risada sufocada dos três ajudantes; agora haviam abaixado a cabeça, exageradamente atentos ao trabalho. O velhinho continuava a escrever, como alguém isolado do mundo.

— Do que estavam rindo? — repetiu Prosdocimo. — Vocês são uns tipos espertos demais. Um dia desses vão ver o que acontece...

— Pois é — disse Drogo —, do que estavam rindo?

— São uns tolos — disse o alfaiate. — É melhor não ligar para eles.

Naquele momento ouviram-se passos nas escadas, e surgiu um soldado. Prosdocimo era chamado lá em cima pelo sargento encarregado do depósito do vestuário. — Desculpe-me, senhor tenente — disse o alfaiate. — É um assunto de serviço. Dentro de dois minutos estarei de volta. — E acompanhou o soldado.

Drogo sentou-se, preparando-se para esperar. Os três ajudantes, logo após a saída do chefe, interromperam o trabalho. O velhinho levantou finalmente os olhos de seus papéis, ficou de pé e se aproximou, mancando, de Giovanni.

— Ouviu isso? — perguntou-lhe, com um sotaqueesquisito, fazendo um sinal para indicar o alfaiate que haviasaído. — Ouviu isso? Sabe, senhor tenente, há quantosanos ele está aqui no forte?

— Não sei, não saberia dizer...

— Quinze anos, senhor tenente, quinze malditos anos,e continua a repetir a história de sempre: estou aqui em caráter provisório, qualquer dia desses...

Alguém sussurrou na mesa dos ajudantes; devia ser esse o seu costumeiro objeto de riso. O velhinho sequer ligou.

— E, ao contrário, jamais sairá daqui — disse. — Ele, o senhor coronel comandante e muitos outros ficarão aqui até estourar, é uma espécie de doença, tenha cuidado o senhor, tenente, que é novo, que mal acabou de chegar, tenha cuidado enquanto é tempo...

— Cuidado com o quê?

— Vá embora quando puder, para não pegar a mania deles.

— Estou aqui apenas por quatro meses — disse Drogo —, não tenho a menor intenção de ficar.

— Tenha cuidado assim mesmo, senhor tenente — repetiu o velhinho. — Começou com o senhor coronel Filimore. Preparam-se grandes eventos, começou a dizer, lembro-me muito bem, há uns dezoito anos. Dizia "eventos", exatamente. Essa é a sua frase. Pôs na cabeça que o forte é importantíssimo, muito mais importante que todos os demais, e que na cidade não entendem nada.

Falava devagar, entre uma palavra e outra dava tempo para insinuar-se o silêncio.

— Colocou na cabeça que o forte é importantíssimo,que deve acontecer alguma coisa.

Drogo sorriu: — Que deve acontecer alguma coisa? Quer dizer uma guerra?

— Quem sabe, pode ser até uma guerra.

— Uma guerra do lado do deserto?

— Do lado do deserto, talvez — confirmou o velhinho.

— Mas quem? Quem deveria vir?

— Como quer que eu saiba? Não virá ninguém, é claro. Mas o senhor coronel comandante estudou os mapas, diz que ali há tártaros ainda, diz, um resto do antigo exército que se desloca de cima a baixo.

Na penumbra, ouviu-se a risada idiota dos três ajudantes.

— E estão aqui esperando — prosseguiu o velhinho. — Veja o senhor coronel, o senhor capitão Stizione, o senhor capitão Ortiz, o senhor tenente-coronel, todo ano há de acontecer alguma coisa, é sempre assim, até que sejam reformados. — Interrompeu-se, esticou a cabeça para um lado como para escutar. — Pareceu-me ouvir passos — disse. Mas não se ouvia ninguém.

— Não estou ouvindo nada — disse Drogo.

— Até Prosdocimo — disse o velhinho. — É um simples sargento, alfaiate do regimento, mas pôs-se do lado deles. Também ele espera, há quinze anos... Mas o senhor não está convencido, senhor tenente, estou vendo, o senhor fica calado e acha que são histórias. — Acrescentou, quase suplicante: — Tenha cuidado, estou lhe dizendo, o senhor se deixará sugestionar, também o senhor acabará ficando, basta olhá-lo nos olhos.

Drogo se calava, parecia-lhe indigno de um oficial abrir-se assim com um pobre coitado como aquele.

— Mas o senhor — disse —, o que faz, então?

— Eu? — disse o velhinho. — Eu sou irmão dele, estou aqui trabalhando com ele.

— Irmão dele? Irmão mais velho?

— Pois é — o velhinho sorriu —, irmão mais velho. Eu também era militar antigamente, depois quebrei uma perna, fiquei reduzido a isto.

No silêncio subterrâneo. Drogo ouviu então as pancadas do próprio coração, que se pusera a bater forte. Então também o velhinho, entocado no porão a fazer contas, também aquela obscura e humilde criatura aguardava um destino heroico? Giovanni fitava-o nos olhos, e o outro sacudiu um pouco a cabeça com amarga tristeza, como a dizer que sim, que não havia remédio: assim somos feitos — parecia dizer — e nunca mais ficaremos curados.

Talvez porque em algum lugar das escadas tivesse sido aberta uma porta, agora ouviam-se, filtradas pelas paredes, longínquas vozes humanas de indeterminada procedência; de vez em quando cessavam, deixando um vazio, pouco depois reapareciam, iam e vinham ainda, como lenta respiração do forte.

Agora Drogo finalmente entendia. Fitava as sombras múltiplas dos uniformes pendurados, que tremulavam conforme oscilavam as luzes, e pensou que naquele exato momento o coronel, no recôndito de seu gabinete, abrira a janela para o norte. Estava certo: numa hora tão triste como aquela, pela escuridão e pelo outono, o comandante do forte olhava para o setentrião, para as negras voragens do vale.

Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas.

Não haviam se adaptado à existência comum, às alegrias das pessoas comuns, ao destino medíocre; lado a lado, viviam com a mesma esperança, sem nunca mencioná-la, porque não se davam conta ou simplesmente porque eram soldados, com o pudor ciumento do próprio íntimo.

Até Tronk, talvez. Tronk seguia os itens do regulamento, a disciplina matemática, o orgulho da responsabilidade escrupulosa, e se iludia imaginando que aquilo lhe bastava. Mas, se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viver, tudo igual até o fim, também ele teria acordado. Impossível, teria dito. Alguma coisa de diferente ainda deverá acontecer, alguma coisa de realmente digno, de que se possa dizer: agora, mesmo que tenha acabado, paciência.

Drogo compreendera o fácil segredo deles, e com alívio pensou estar fora disso, espectador não contaminado. Dentro de quatro meses, graças a Deus, ele os deixaria para sempre. Os obscuros fascínios da velha construção tinham-se dissolvido, ridículos. Assim pensava. Mas por que o velhinho continuava a fitá-lo com aquela expressão ambígua? Por que Drogo sentia o desejo de assobiar um pouco, de tomar vinho, de sair ao ar livre? Quem sabe para demonstrar a si mesmo que estava realmente livre e tranquilo?