O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 22 de 32

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O Deserto dos Tártaros

Capítulo XX

Quatro anos de forte bastavam para dar, por tradição, o direito a uma nova colocação, mas Drogo, para evitar uma guarnição distante e permanecer em sua cidade, solicitou igualmente uma entrevista em caráter particular com o comandante da divisão. Aliás, fora a mãe quem insistira nessa entrevista; dizia que era preciso mostrar-se para não ser preterido; espontaneamente ninguém cuidaria dele, Giovanni, se ele não se mexesse; e acabaria por lhe caber uma outra triste guarnição de fronteira. Foi a mãe, também, quem cuidou, através de amigos, para que o general recebesse o filho com benevolência.

O general estava num imenso gabinete, sentado atrás de uma mesa, fumando um charuto; e era um dia qualquer, talvez de chuva, talvez apenas

encoberto. O general era um velhote e fitou benignamente o tenente Drogo através do monóculo.

— Desejava vê-lo — disse de imediato, como se tivesse sido ele a querer a entrevista. — Desejava saber como vão as coisas lá em cima. Filimore, sempre bem?

— Quando o deixei, o senhor coronel estava muito bem. Excelência — respondeu Drogo.

O general calou-se por um momento. Depois sacudiu a cabeça paternalmente: — É, vocês lá do forte nos deram umas belas dores de cabeça! Pois é... Pois é... Aquele episódio das fronteiras. A história daquele tenente, agora não me lembro o seu nome, é claro que desagradou muito a Sua Alteza.

Drogo permanecia calado, não sabendo o que dizer.

— Pois é, aquele tenente... — continuava o general, monologando. — Como se chamava? Um nome como Arduino, parece-me.

— Chamava-se Angustina, Excelência.

— Pois é, Angustina, ah, que cabeça-dura! Por uma tola obstinação, comprometer a linha de fronteira... Não sei como... Bem, vamos deixar para lá!... — concluiu bruscamente, para demonstrar a própria generosidade.

— Permita-me, Excelência — ousou observar Drogo.

— Mas Angustina é aquele que morreu.

— Pode ser, deve ser isso, você deve ter razão, agora não me lembro direito — disse o general, como se fosse um detalhe sem a menor importância. — Mas a coisa desagradou muito a Sua Alteza, muito mesmo!

Calou-se e ergueu os olhos interrogativos para Drogo.

— Você veio aqui — disse num tom diplomático, cheio de subentendidos. — Então você veio aqui para ser transferido para a cidade, não é mesmo? Todos vocês têm a mania da cidade, só têm, e não entendem que é justamente nas guarnições distantes que se aprende a ser militar.

— Sim, Excelência — disse Giovanni Drogo, tentando controlar as palavras e o tom. — De fato já completei quatro anos...

— Quatro anos na sua idade! O que quer que sejam? ... — retrucou rindo o general. — De qualquer modo, eu não o reprovo... Dizia que, como tendência genérica, não é talvez a melhor coisa para reforçar o espírito dos elementos de comando...

Interrompeu-se, como se tivesse perdido o fio da meada. Concentrou-se um pouco, recomeçou:

— De qualquer modo, caro tenente, tentaremos satisfazê-lo. Agora vamos pedir sua pasta.

À espera dos documentos, o general recomeçou:

— O forte... — disse — o Forte Bastiani, vamos ver um pouco... Sabe, tenente, qual é o ponto fraco do Forte Bastiani?

— Não saberia dizer, Excelência — disse Drogo. — Talvez seja um pouco isolado demais.

O general deu um benévolo sorriso de compaixão.

— Que ideias estranhas têm vocês, jovens — disse.

— Um pouco isolado demais! Confesso-lhe que isso nunca me passaria pela cabeça. O ponto fraco do forte, quer que lhe diga? É que tem muita gente, gente demais!

— Gente demais?

— E justamente por isso — continuou o general, sem relevar a interrupção do tenente —, justamente por isso decidiu-se mudar o regulamento. A propósito, o que acham disso os do forte?

— Do que, Excelência? Desculpe.

— Mas estamos falando disso! Do novo regulamento, eu lhe disse — repetiu o general, irritado.

— Nunca ouvi dizer, realmente nunca... — respondeu Drogo, atônito.

— Pois é, talvez a comunicação oficial não tenha sido feita — admitiu, mais calmo, o general —, mas pensei que soubesse, do mesmo modo; em geral, os militares são mestres em saber das coisas com antecedência.

— Um novo regulamento, Excelência? — perguntou Drogo, já curioso.

— Um corte nos quadros, a guarnição reduzida quase à metade — disse bruscamente o outro. — Gente demais, eu sempre disse; era preciso agilizar esse forte!

Nesse instante entrou o ajudante-mor trazendo um grosso maço de pastas. Folheou-as em cima de uma mesa, tirou fora uma, a de Giovanni Drogo, entregando-a ao general, que a percorreu com olhos de conhecedor.

— Tudo bem — disse. — Mas falta aqui, parece-me, o pedido de transferência.

— O pedido de transferência? — perguntou Drogo. — Pensei que não fosse preciso, após quatro anos.

— Geralmente, não — disse o general, evidentemente aborrecido de ter que dar explicações a um subalterno. — Mas como desta vez se trata de uma grande redução de pessoal, e todos querem sair, é preciso obedecer à precedência.

— Mas ninguém sabe disso no forte, Excelência, ninguém ainda fez o pedido...

O general virou-se para o ajudante-mor:

— Capitão — perguntou —, já temos pedidos de transferência do Forte Bastiani?

— Uns vinte, acho, Excelência — respondeu o capitão.

Que brincadeira!, pensou Drogo, aniquilado. Os companheiros evidentemente tinham-lhe escondido a coisa para poder passar na frente. Até mesmo Ortiz o enganara tão rasteiramente?