O Deserto dos Tártaros
Capítulo XXVIII
Para disfarçar a crise, pediu que lhe dessem uma luneta (era a famosa luneta do tenente Simeoni) e pôs-se a olhar para o norte, apoiando os cotovelos no parapeito, o que o ajudava a manter-se de pé. Ah, se pelo menos os inimigos tivessem esperado um pouco, uma semana teria sido suficiente para que ele pudesse se recobrar, haviam esperado tantos anos, não podiam ter atrasado mais uns dias, uns dias apenas?
Olhou pela luneta o triângulo visível de deserto, esperou não enxergar nada, que a estrada estivesse vazia, que não houvesse nenhum sinal de vida; era o que Drogo desejava para si mesmo, após ter consumido a vida à espera do inimigo.
Esperava não ver nada, e, ao contrário, uma faixa negra atravessava obliquamente o fundo embranquecido da planície, e essa faixa se mexia, um denso formigueiro de homens e comboios que descia na direção do forte. Diferente das míseras fileiras de soldados no tempo da demarcação da fronteira, era o exército do norte, finalmente, e quem sabe...
Nessa altura Drogo viu a imagem pela luneta pôr-se a rodar num movimento de vórtice, tornar-se cada vez mais escura, tombar na escuridão. Sem sentidos, esmoreceu sobre o parapeito como um fantoche. Simeoni amparou-o a tempo; sustentando o corpo vazio de vida, sentiu, através do pano, a descarnada armação dos ossos.
XXVIII
Passaram-se um dia e uma noite, o major Giovanni Drogo jazia na cama, de vez em quando chegava o rítmico baque da cisterna e nenhum outro ruído, embora no forte inteiro crescesse a cada minuto uma ansiosa efervescência. Isolado de tudo. Drogo estava tenso, escutando o próprio corpo, caso as forças perdidas começassem a voltar. O dr. Rovina dissera-lhe que seria questão de dias. Mas de quantos, na realidade? Poderia, quando chegassem os inimigos, pelo menos ficar de pé, arrastar-se até a cobertura do forte? De vez em quando levantava-se da cama, às vezes parecia-lhe sentir-se um pouco melhor, andava sem se apoiar até a frente do espelho, mas ali a imagem sinistra de seu rosto, terroso e cavado, apagava as novas esperanças. Ofuscado pela tontura, voltava cambaleando para a cama, amaldiçoava o médico que não conseguia curá-lo.
A réstia de sol no chão dera uma ampla volta, seriam pelo menos onze horas, vozes insólitas alçavam-se do pátio, e Drogo jazia imóvel, com os olhos no teto, quando entrou no quarto o tenente-coronel Simeoni, comandante do forte.
— Como vai? — perguntou com vivacidade. — Um pouco melhor? Você está muito pálido, sabe?
— Eu sei — respondeu Drogo, friamente. — E do norte, já avançaram?
— Mais do que isso — disse Simeoni. — Os artilheiros já estão no topo do socalco, e agora estão se colocando... Mas você deve me desculpar se não vim... Isto aqui virou um inferno. À tarde chegam os primeiros reforços, só agora fiquei livre por cinco minutos...
Drogo disse, e espantou-se ao constatar que sua voz tremia: — Espero poder me levantar amanhã, poderei ajudá-lo um pouco.
— Ah, não, não, nem pense nisso, pense em sarar agora, e não acredite que eu o tenha esquecido. Aliás, tenho uma boa notícia: hoje virá uma magnífica carruagem para apanhá-lo. Guerra ou não guerra, os amigos antes de tudo... — ousou dizer.
— Uma carruagem para apanhar-me? Por que para apanhar-me?
— Mas, claro, para vir apanhá-lo. Não vai querer continuar sempre aqui neste quarto, na cidade vai se cuidar melhor, dentro de um mês estará novamente de pé. E não se preocupe com as coisas daqui, agora já está tudo preparado.
Uma terrível ira invadiu o peito de Drogo. Ele, que jogara fora as melhores coisas da vida para esperar os inimigos, que há mais de trinta anos se alimentara daquela única fé, era enxotado justo agora que finalmente a guerra chegava?
— Devia ter-me consultado, pelo menos — respondeu, com a voz trêmula de raiva. — Não saio daqui, quero ficar, estou menos doente do que você imagina, amanhã eu me levanto...
— Não se agite, por favor, não faremos nada disso, se ficar agitado será muito pior — disse Simeoni, com um sorriso forçado. — Eu achava que seria muito melhor; Rovina também recomendou...
— Rovina o quê? Foi Rovina quem lhe disse para mandar vir a carruagem?
— Não, não. Não se falou sobre isso com Rovina. Mas ele diz que lhe faria bem mudar de ares.
Drogo então pensou em falar a Simeoni como a um verdadeiro amigo, em abrir seu coração, como teria feito com Ortiz; até Simeoni, no fundo, era um homem.
— Escute, Simeoni — tentou, mudando de tom. — Você sabe que aqui no forte... todos ficamos na esperança de... É difícil dizer, mas até você sabe muito bem... — Não conseguia explicar-se: como fazer entender certas coisas a um homem daqueles? — Se não fosse por essa possibilidade...
— Não entendo — disse Simeoni com evidente irritação. — Drogo estava se tornando também patético? pensou. A doença o enfraquecera tanto assim?
— Mas claro que deve entender — insistiu Giovanni.
— Há mais de trinta anos estou aqui à espera... Deixei passar muitas oportunidades. Trinta anos são alguma coisa,tudo para esperar os inimigos. Não pode querer agora que eu parta, não pode querer, tenho o direito de permanecer aqui, acho...
— Bem — replicou Simeoni, irritado. — Acreditava estar lhe prestando um favor, e você me responde desse jeito. Não valia a pena mesmo. Enviei dois mensageiros para isso, atrasei a marcha de uma bateria para deixar passar a carruagem.
— Mas não estou reclamando de você — disse Drogo.
— Antes, fico-lhe reconhecido, você o fez por bem, eu entendo... — Ah, que sofrimento, pensava, ter de aguentar aquele infame! — Depois, a carruagem pode ficar aqui, agora não estou nem em condições de fazer semelhante viagem — acrescentou incautamente.
— Há pouco você dizia que se levantaria amanhã,agora diz não poder nem mesmo subir na carruagem, desculpe-me, mas nem você sabe o que quer...
Drogo tentou consertar: — Ah, não, é bem diferente, uma coisa é fazer uma viagem dessas e outra é ir até o caminho de ronda, posso até levar um banquinho e me sentar, se me sentir fraco — pensara em dizer "uma cadeira", mas a coisa podia parecer ridícula. — De lá posso controlar o serviço, posso pelo menos ver.
— Fique, fique então! — disse Simeoni, como para concluir. — Mas não sei onde colocarei os oficiais que chegam para dormir, não posso colocá-los nos corredores, não posso colocá-los no porão! Neste quarto podiam caber três camas...
Drogo fitou-o, enregelado. Então Simeoni chegava a tanto? Queria despachá-lo para ter um quarto livre? Unicamente por isso? Coisa diferente de cuidado e amizade. Devia tê-lo compreendido desde o começo, pensou Drogo, só isso se podia esperar de um canalha daqueles.
Uma vez que Drogo se calava, Simeoni, encorajado, insistiu:
— Aqui cabem muito bem três camas. Duas ao longo daquela parede e a terceira naquele canto. Está vendo? Drogo, se você me der ouvidos — especificou, sem o mínimo respeito humano —, se você me der ouvidos, facilita o meu trabalho, ao passo que, se ficar aqui, desculpe, sabe, se lhe digo, não sei o que você pode fazer de útil, nas condições em que está.
— Bem — interrompeu-o Giovanni. — Entendi, agora chega, peço-lhe, estou com dor de cabeça.
— Desculpe-me — disse o outro —, desculpe-me se insisto, mas quero resolver logo este assunto. Além disso, a carruagem já está a caminho. Rovina é favorável à partida, um quarto ficaria livre, você sara mais depressa, e no fundo eu também, se o mantiver aqui doente, assumo uma grande responsabilidade, se por acaso acontecer uma desgraça. Você me obriga a assumir uma grande responsabilidade, digo-lhe com sinceridade.
— Escute — respondeu Drogo, mas sabia o quanto era absurdo lutar; entretanto fitava a réstia de sol que subia pela parede de madeira, alongando-se obliquamente. — Desculpe-me se lhe digo que não, que prefiro ficar. Você não terá nenhuma amolação, garanto-lhe; se quiser, faço-lhe uma declaração por escrito. Vá, Simeoni, deixe-me em paz, talvez me reste pouco tempo de vida, deixe-me ficar aqui, há mais de trinta anos que durmo neste quarto...
O outro calou-se por um instante, fitou com desprezo o colega doente, deu um sorriso perverso, depois perguntou com a voz alterada: — E se eu lhe pedisse como superior? Se fosse uma ordem, o que você poderia dizer? — e aqui fez uma pausa, saboreando a impressão causada. — Desta vez, caro Drogo, não está demonstrando o seu habitual espírito militar, desagrada-me precisar dizê-lo, mas no final das contas você vai embora com certeza, sabe-se lá quantos não trocariam de lugar com você. Admito até que lhe desagrade, mas não se pode ter tudo nesta vida, é preciso ser razoável. . , Agora mando-lhe o seu ordenança para que arrume suas coisas, às duas a carruagem deverá estar aqui. A gente se vê mais tarde, então...
Assim disse e saiu depressa, deliberadamente, para não dar tempo a Drogo para novas objeções. Fechou a porta precipitadamente, afastou-se pelo corredor a passos rápidos, de pessoa satisfeita consigo mesmo, que domina perfeitamente a situação.
Sobrou um pesado silêncio. Ploc!, fez atrás do muro a água da cisterna. Depois só se ouviu no quarto o ofegar de Drogo, parecido com soluços. E lá fora o dia estava em seu maior esplendor, até as pedras começavam a se aquecer, distante e igual ouvia-se o som da água nos paredões escar-pados, os inimigos se amontoavam embaixo do último socal-co diante do forte, pela estrada da planície desciam ainda tropas e carros. Nos bastiões do forte tudo está pronto, as munições em regra, os soldados bem-dispostos, as armas passadas em revista. Todos os olhares estão voltados para o norte, ainda que não se enxergue nada por causa das montanhas fronteiriças (somente do Reduto Novo pode-se avistar tudo aquilo). Assim como nos dias longínquos, quando vieram os estrangeiros para demarcar as fronteiras, há uma suspensão de ânimos, entre alternados sopros de medo e de alegria. Por isso ninguém tem tempo para se lembrar de Drogo, que está se vestindo, ajudado por Luca, e prepara-se para ir embora.