O Deserto dos Tártaros
Capítulo IV
— E então? — perguntou Morei, buscando um tom jovial. — Como é, gostou?
— Não sei... — Drogo só soube dizer isso. Desejos turbilhonavam dentro dele, juntamente com medos insensatos. Ouviu-se um clarim, um rápido toque de clarim, sabe-se lá vindo de onde.
— É melhor você ir agora — aconselhou Morei. Mas Giovanni pareceu não escutar, absorto em procurar alguma coisa entre os próprios pensamentos. Os clarões da tarde se enfraqueciam, e o vento, despertado pelas sombras, roncava ao longo da arquitetura geométrica do forte. Para esquentar-se, a sentinela recomeçava a caminhar, fitando de vez em quando Giovanni Drogo, que lhe era desconhecido. — É melhor ir agora — repetiu Morei, pegando o colega por um braço.
IV
Muitas vezes já lhe havia acontecido ficar sozinho: em alguns casos, quando ainda menino, vagando pelo campo; outras vezes, na cidade noturna, nas ruas habituadas aos crimes, e até mesmo na noite anterior, quando dormira na estrada. Mas agora era bem diferente, agora passara a excita-ção da viagem, seus novos colegas já dormiam, e ele estava sentado em seu quarto, à luz do lampião, na beira da cama, triste e perdido. Agora, sim, conhecia a sério o que era a solidão (um quarto não muito feio, todo forrado de madeira, com uma grande cama, uma mesa, um incômodo diva, um guarda-roupa). Todos tinham sido gentis, à mesa abriram uma garrafa em sua honra, mas agora não ligavam para ele, já o haviam esquecido completamente (acima da cama um crucifixo de madeira, do outro lado uma velha gravura com uma longa inscrição, da qual se liam as primeiras palavras: "Humanissimi viri Francisci angloisi virtutibus"). Ninguém entraria durante a noite inteira para falar com ele; ninguém, em todo o forte, pensava nele, e não apenas no forte, talvez no mundo inteiro não haveria vivalma que estivesse pensando em Drogo; cada um tem suas próprias ocupações, cada um mal basta a si mesmo, talvez até sua mãe, podia ser que até ela, nesse momento, tivesse outras coisas em mente, não era ele o seu único filho, pensara em Giovanni o dia inteiro, agora precisava pensar um pouco nos outros também. Mais do que justo, admitia Giovanni Drogo, sem sombra de reprovação; no entanto ele estava sentado na beira da cama, no quarto do forte (gravado na madeira da parede, agora notava, colorido com extraordinária paciência, um sabre em tamanho natural, que podia à primeira vista parecer de verdade, meticuloso trabalho de algum oficial, quem sabe há quantos anos passados), estava sentado na beira da cama, com a cabeça um tanto inclinada para a frente, as costas curvadas, os olhos mudos e pesados, e sentia-se sozinho como nunca.
Drogo levantou-se com esforço, foi abrir a janela, olhou para fora. A janela dava para o pátio e não se enxergava nada além. Visto que estava olhando para o sul, Giovanni tentou em vão distinguir, na noite, as montanhas que atravessara para chegar ao forte; elas pareciam mais baixas, ocultas pela parede dianteira.
Apenas três janelas estavam iluminadas, mas pertenciam à mesma fachada que a sua, de modo que não se enxergava seu interior; seus feixes de luz, e o do quarto de Drogo, estampavam-se agigantados na parede oposta, e num deles agitava-se uma sombra, talvez um oficial despindo-se. Fechou a janela, despiu-se, deitou-se, ficou alguns minutos pensando, fitando o teto, também recoberto de madeira. Esquecera-se de trazer algo para ler, mas naquela noite isso não lhe importava, pois estava com muito sono. Apagou a luz, da escuridão emergiu pouco a pouco o retângulo claro da janela, e Drogo viu brilhar as estrelas.
Pareceu-lhe que um torpor repentino o arrastava para o sono. Mas tinha demasiada consciência disso. Uma confusão de imagens, quase de sonho, passaram-lhe pela frente, começavam mesmo a formar uma história; mas depois de alguns instantes percebeu que ainda estava acordado.
Mais acordado do que antes, pois a vastidão do silêncio o feriu. De muito longe — mas era verdade então? —, ouviu-se alguém tossir. Em seguida, perto, um flácido "ploc" de água, que se propagou pelos muros. Uma pequena estrela verde (ele a enxergava, permanecendo imóvel), em sua viagem noturna, atingia o limite superior da janela, dentro em pouco desapareceria; cintilou um instante justamente sobre a beirada escura e depois sumiu. Drogo quis acompanhá-la mais um pouco, esticando a cabeça para a frente. Naquele momento ouviu-se um segundo "ploc", igual ao baque de um objeto na água. Ainda se repetiria? Esperou de tocaia o som, um rumor subterrâneo, de águas paradas, de casas mortas. Passaram minutos imóveis, o silêncio absoluto parecia, finalmente, o incontrastável senhor do forte. E de novo giravam ao redor de Drogo insensatas imagens da vida distante.
Ploc! De novo o som odioso. Drogo sentou-se. Aquele era então um ruído repetitivo; os últimos baques não tinham sido menores que o primeiro, não podia, portanto, ser uma goteira que fosse parar. Como era possível dormir? Drogo lembrou-se de que ao lado da cama pendia um cordão, talvez de uma campainha. Experimentou puxar, o cordão cedeu, e, num remoto meandro do edifício, respondeu, quase imperceptível, um breve tilintar. Que tolice, pensou, chamar alguém por uma bobagem dessas. Além disso, quem é que viria?
No corredor, fora, pouco depois ressoaram passos, que se tornaram cada vez mais próximos, e alguém bateu na porta.
— Entre! — disse Drogo. Surgiu um soldado com uma lanterna na mão: — Às ordens, senhor tenente.
— Aqui não se pode dormir, raios! — disse Drogo, esforçando-se para ficar com raiva. — O que é esse barulho nojento? Algum cano pingando, tente fazê-lo parar, não se pode absolutamente dormir; às vezes basta pôr um trapo embaixo.
— É a cisterna — respondeu imediatamente o soldado, como se tivesse prática do assunto. — E a cisterna, senhor tenente, não há nada a fazer.
— A cisterna?
— Sim, senhor — explicou o soldado. — A cisterna da água, bem atrás daquele muro. Todos se queixam, mas não se pode fazer nada. Não é só daqui que se ouve. Também o capitão Fonzaso às vezes reclama, mas não há nada a fazer.
— Vá, pode ir, então — disse Drogo. A porta fechou-se, os passos se afastaram, aumentou novamente o silêncio, brilharam as estrelas na janela. Giovanni agora pensava nas sentinelas que a poucos metros dele caminhavam como autômatos de um lado para o outro, sem um instante de pausa. Dezenas e dezenas eram os homens despertos, enquanto ele jazia na cama, enquanto tudo parecia imerso no sono. Dezenas e dezenas, pensava Drogo. Mas para quem, para quê? O formalismo militar, naquele forte, parecia ter criado uma insana obra de arte. Centenas de homens guardando um desfiladeiro por onde ninguém passaria. Partir, partir sem demora, pensava Giovanni. Sair desse ar, desse mistério nevoento. Ah, a sua boa casa; a essa hora sua mãe certamente estaria dormindo, e as luzes, todas apagadas; a menos que pensasse nele por um momento ainda, era aliás muito provável, ele a conhecia bem, por uma coisa de nada ficava aflita e à noite revirava-se na cama sem encontrar repouso.
Ainda a regurgitação da cisterna, ainda uma outra estrela que ultrapassou a moldura da janela, e sua luz continuava atingindo o mundo, os bastiões do forte, os olhos febris das sentinelas, porém não mais Giovanni Drogo, que aguardava o sono, atormentado por sinistros pensamentos.
E se as sutilezas de Matti fossem todas uma comédia? Se na realidade, mesmo depois dos quatro meses, não o deixassem mais partir? Se com falsos pretextos regulamentares o impedissem de rever a cidade? Se precisasse ficar ali em cima por anos a fio, e naquele quarto, naquela cama solitária, devesse consumir sua juventude? Que hipóteses absurdas, dizia-se Drogo, dando-se conta de sua tolice; entretanto não conseguia expulsá-las, elas voltavam a tentá-lo logo em seguida, protegidas pela solidão da noite.
Parecia-lhe desse modo sentir crescer à sua volta uma obscura trama que queria prendê-lo. Provavelmente não se tratava nem mesmo de Matti. Nem ele, nem o coronel, nem outro oficial qualquer se importava com ele: que ficasse ou partisse, era sem dúvida para eles completamente indiferente; todavia, uma força desconhecida trabalhava contra a sua volta à cidade, talvez emanasse de sua própria alma, sem que ele se apercebesse disso.
Depois viu um átrio, um cavalo numa estrada branca; pareceu-lhe que o chamavam pelo nome, e foi invadido pelo sono.