O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 31 de 32

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O Deserto dos Tártaros

Capítulo XXIX

Era realmente uma magnífica carruagem, exagerada até, para aquelas estradas toscas. Podia parecer a de um rico senhor, se não houvesse nas portinholas o emblema do regimento. Na boleia estavam dois soldados, o cocheiro e o ordenança de Drogo.

Ninguém, em meio ao alvoroço do forte, aonde já chegavam os primeiros escalões de reforços, prestou muita atenção num oficial magro, de rosto descarnado e amarelo, que descia lentamente as escadas, dirigindo-se ao saguão de entrada, e saía para onde estava parada a carruagem.

Na esplanada, inundada de sol, via-se avançar naquele momento uma longa fileira de soldados, de cavalos e de jumentos, provenientes do vale. Embora cansados pela marcha forçada, os militares aceleravam o passo à medida que se aproximavam do forte, e os músicos, à frente, foram vistos tirando os forros de pano cinza dos instrumentos, como se se preparassem para tocar.

Alguns, entretanto, cumprimentavam Drogo, mas poucos, e não mais como antes. Todos sabiam, parecia, que ele estava indo embora e que agora já não representava mais nada na hierarquia do forte. O tenente Moro e alguns outros vieram desejar-lhe boa viagem; foi, porém, uma despedida curtíssima, com aquela afeição genérica que é própria dos jovens para com as velhas gerações. Um disse a Drogo que o senhor comandante Simeoni lhe pedia para esperar, naquele momento estava ocupadíssimo, o senhor major Drogo tivesse a bondade de aguardar alguns minutos, o senhor comandante viria sem falta.

Logo que subiu à carruagem, Drogo, ao contrário, deu ordem para partir imediatamente. Mandara baixar a capota para respirar melhor, envolvera as pernas com duas ou três cobertas escuras, sobre as quais se destacava o brilho do sabre.

Andando aos solavancos sobre os calhaus, a carruagem distanciou-se pela esplanada pedregosa, conduzindo Drogo ao termo final de seu caminho. Virado de lado no assento, com a cabeça balançando a cada salto das rodas. Drogo fitava os muros amarelos do forte, que se tornavam cada vez mais baixos.

Lá em cima decorrera sua existência segregada do mundo, à espera do inimigo ele se atormentara por mais de trinta anos, e agora que os estrangeiros chegavam, mandavam-no embora. Mas seus companheiros, os outros que lá na cidade haviam levado uma vida fácil e alegre, ei-los agora chegando ao desfiladeiro, com sorrisos superiores de desdém, para colher os lauréis da glória.

Os olhos de Drogo fitavam, intensos como nunca, as paredes amareladas do forte, os perfis das casamatas e dos paióis. Lentas lágrimas amargas rolavam por sua pele enrugada, tudo terminava miseravelmente e não restava nada a dizer.

Nada, realmente nada ficava disponível para Drogo, ele estava só no mundo, doente, e o haviam enxotado como a um leproso. Malditos, malditos, dizia. Mas depois preferiu abandonar-se, não pensar em mais nada, de qualquer modo um insuportável transbordamento de raiva enchia-lhe o peito.

O sol já caminhava para o poente, faltava no entanto muita estrada a percorrer, os dois soldados na boleia tagarelavam tranquilamente, indiferentes à partida. Eles haviam aceito a vida como ela era, sem se angustiar com pensamentos absurdos. A carruagem, de excelente construção, uma verdadeira carruagem de doente, oscilava a cada buraco do terreno como uma delicada balança. E o forte, no conjunto do panorama, tornava-se cada vez menor e achatado, se bem que suas muralhas brilhassem estranhamente naquela tarde de primavera.

A última vez, provavelmente, pensou Drogo, quando a carruagem atingiu a borda da esplanada, lá onde a estrada começava a mergulhar no vale. Adeus, forte, disse a si mesmo. Mas Drogo estava entontecido e não teve sequer a coragem de mandar parar os cavalos para olhar mais uma vez o velho casarão, que só agora, após séculos, estava prestes a começar uma vida justa.

Por um instante ainda ficou nos olhos de Drogo a imagem das muralhas amareladas, dos bastiões oblíquos, dos misteriosos redutos, dos penhascos laterais, negros por causa do degelo. Pareceu a Giovanni — mas foi por um milionésimo de segundo — que as muralhas se alongavam repentinamente para o céu, rebrilhando de luz, depois toda a visão foi cortada brutalmente pelas rochas relvosas, entre as quais se aprofundava a estrada.

Chegou por volta das cinco a uma pequena estalagem, lá onde a estrada corria sobre o flanco da garganta. No alto, como uma miragem, elevavam-se caóticas cristas de vegetação e de terra roxa, morros desolados onde talvez o homem nunca tivesse estado. No fundo corria o rio.

A carruagem parou no pequeno pátio diante da estalagem justamente quando passava um batalhão de mosqueteiros. Drogo viu passarem ao seu redor rostos juvenis, vermelhos de suor e de cansaço, olhos que o fitavam, admirados. Apenas os oficiais o cumprimentaram. Ouviu uma voz dentre os que haviam se afastado: "Vai bem instalado, o velhinho!" Ninguém riu, porém. Enquanto eles iam à batalha, ele descia à insignificante planície. Que oficial ridículo!, pensavam provavelmente os soldados, a menos que não tivessem lido em seu rosto que ele também ia para a morte.

Não conseguia livrar-se daquela vaga tontura semelhante à névoa: talvez tivesse sido o balanço da carruagem, talvez a doença, talvez simplesmente a dor de ver terminar miseravelmente a vida. Nada mais lhe interessava, absolutamente. A ideia de retornar à sua cidade, de perambular a passos arrastados pela velha casa deserta ou de jazer numa cama durante longos meses de tédio e solidão dava-lhe medo. Não tinha nenhuma pressa de chegar. Decidiu passar a noite na estalagem.

Esperou que o batalhão acabasse de passar, que a poeira levantada pelos soldados recaísse sobre seus passos, que o estrondo de seus carros fosse coberto pela voz do rio.

Depois desceu devagar da carruagem, apoiando-se nos ombros de Luca.

A soleira estava sentada uma mulher, ocupada em tricotar uma meia, e a seus pés dormia, num rústico berço, uma criança. Drogo fitou espantado aquele

sono maravilhoso, tão diferente do dos homens grandes, tão delicado e profundo. Não haviam nascido ainda naquele ser os sonhos turvos, a pequena alma vagava despreocupada, sem desejos ou remorsos, por um ar puro e calmo. Drogo permaneceu parado, admirando a criança adormecida, e uma aguda tristeza penetrava em seu coração. Tentou imaginar a si mesmo mergulhado no sono, um Drogo estranho que ele nunca pudera conhecer. Imaginou o aspecto do próprio corpo, bestialmente adormecido, sacudido por arquejos obscuros, com a respiração pesada, a boca entreaberta e caída. Entretanto, também ele, um dia, dormira como aquela criança, também ele fora gracioso e inocente, e, quem sabe, um velho oficial doente parará para vê-lo, com amarga estupefação. "Pobre Drogo", disse a si mesmo, e compreendia como isso era frágil, mas no fim ele estava só no mundo, e, além dele mesmo, ninguém mais o amava.