O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 19 de 32

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O Deserto dos Tártaros

Capítulo XVII

— Agradeço-lhe — disse Drogo, que não ficara nada impressionado. — Mas no fundo, aqui no forte, pode-se esperar algo de melhor. Parecerá absurdo, no entanto, também o senhor, se está sendo sincero, deve confessar...

— Quem sabe, infelizmente — disse o major. — Todos, uns mais, outros menos, teimamos em esperar. Mas é um absurdo, basta refletir um pouco (e apontava o norte com a mão). Dessas bandas nunca mais poderá vir uma guerra. Agora então, depois da última experiência, quem você quer que ainda acredite nisso seriamente?

Assim dizia, e nesse ínterim pusera-se de pé, sempre olhando para o norte, como naquela longínqua manhã, na borda do planalto, em que Drogo o vira fitar, encantado, as muralhas enigmáticas do forte. Quatro anos haviam passado desde então, uma respeitável fração de vida, e nada, absolutamente nada acontecera que pudesse justificar tantas esperanças. Os dias haviam decorrido um após outro; soldados, que podiam ser inimigos, apareceram nas bordas da planície estrangeira, em seguida retiraram-se após inócuas operações fronteiriças. Reinava a paz no mundo, as sentinelas não davam o alarme, nada deixava pressentir que a existência pudesse vir a mudar. Como nos anos anteriores, com as mesmas formalidades, avançava agora o inverno, e os sopros da tramontana produziam, de encontro às baionetas, um fraco assobio. E lá está o major Ortiz, em pé no terraço do quarto reduto, incrédulo ante a sabedoria das próprias palavras, olhando uma vez mais para a terra do norte, como se apenas ele tivesse realmente direito de olhá-la, apenas ele o direito de continuar lá em cima, não importa com que finalidade, e Drogo, ao contrário, fosse um bom rapaz fora de lugar, que se enganara nos cálculos e teria feito melhor em voltar.

 

XVII

Até que afinal a neve sobre os terraços do forte amoleceu e os pés afundavam como na lama. O suave som das águas chegou repentinamente das montanhas mais próximas; aqui e ali, ao longo dos cumes, percebiam-se tiras brancas verticais que cintilavam ao sol, e os soldados, de vez em quando, surpreendiam-se cantarolando, como há meses não faziam.

O sol não corria mais como antes, ansioso por se esconder, mas começava a se deter um pouco no meio do céu, devorando a neve acumulada, e era inútil que as nuvens se precipitassem dos gelos do norte: não conseguiam mais fazer neve, só chuva, e a chuva só fazia derreter a pouca neve que restava. Voltara a boa estação.

Já se ouviam de manhã vozes de pássaros que todos acreditavam ter esquecido. Em compensação, os corvos não estavam mais reunidos ali no planalto do forte, esperando os refugos das cozinhas, mas espalhavam-se pelos vales à procura de comida fresca.

De noite, nos dormitórios, as traves que sustentam as mochilas, as grades para os fuzis, as próprias portas, até os bonitos móveis de nogueira maciça do quarto do senhor coronel, todas as madeiras do forte, inclusive as mais velhas, estalavam no escuro. Às vezes eram estalos secos como tiros, parecia que algo estava realmente estilhaçando, alguém acordava na cama de lona e ficava à escuta; nada conseguia ouvir, porém, senão outros estalos, que ciciavam na noite.

É o tempo em que nas velhas tábuas ressuscita uma obstinada saudade da vida. Muitíssimos anos antes, nos dias felizes, era um fluxo juvenil de calor e de força, e dos ramos brotavam feixes de rebentos. Depois a planta fora abatida. E agora que é primavera, em cada um de seus fragmentos ainda desperta, infinitamente leve, um sopro de vida. Antes, folhas e flores: agora, uma vaga lembrança, o suficiente para fazer crac, e depois finda até o ano seguinte.

É o tempo em que os homens do forte começam a nutrir curiosos pensamentos que não têm nada de militar. Os muros não são mais um abrigo hospitaleiro, mas dão a impressão de cárcere. Seu aspecto despojado, as estrias enegrecidas dos escoamentos, os cantos oblíquos dos bastiões, sua cor amarela, não correspondem de modo algum aos novos estados de espírito.

Um oficial — de costas não se pode saber quem seja, e poderia ser o próprio Giovanni Drogo — caminha entediado, na manhã de primavera, pelos vastos lavatórios da tropa, a essa hora desertos. Não tem inspeções ou controles a fazer; perambula assim, só para se movimentar; de resto, está tudo em ordem, os tanques limpos, o chão varrido e aquela torneira que vaza não é culpa dos soldados.

O oficial detém-se olhando para cima, para uma das altas janelas. As vidraças estão fechadas, há muitos anos provavelmente não têm sido lavadas e dos cantos pendem teias de aranha. Nada existe que conforte, de algum modo, o ânimo. No entanto, por trás das vidraças é possível enxergar algo que se assemelha a um céu. Aquele mesmo céu, pensa talvez o oficial, aquele mesmo sol ilumina a um só tempo os sórdidos lavatórios e certas pradarias distantes.

As pradarias são verdes, e ali acabaram de nascer pequenas flores de presumível cor branca. Também as árvores, tal como se espera, soltaram novas folhas. Bom seria cavalgar ao léu pelo campo. E se por uma estradinha, em meio às sebes, viesse uma moça bonita, e quando se passasse a cavalo a seu lado ela cumprimentasse com um sorriso? Mas que ridículo: num oficial do Forte Bastiani podem-se admitir pensamentos tão tolos?

Através da janela empoeirada do lavatório, ainda que possa parecer estranho, dá para ver até uma nuvem branca de formato agradável. Nuvens semelhantes navegam nesse momento sobre a cidade distante; pessoas que passeiam calmamente de vez em quando olham para elas, contentes de que o inverno tenha terminado, quase todos estão com roupas novas ou reformadas, as moças usam chapéus com flores e vestidos coloridos. Todos têm o ar satisfeito, como se esperassem coisas boas de um momento para outro. Antigamente pelo menos era assim, quem sabe se agora a moda é outra. E se numa sacada houvesse uma moça bonita e quando se passasse embaixo ela cumprimentasse, sem nenhuma razão especial, cumprimentasse amavelmente com um sorriso? Coisas ridículas, no fundo, bobagens de colegial.

Através dos vidros sujos percebe-se, de esguelha, um pedaço de muro. Também está inundado de sol, mas não há alegria alguma nisso. É a parede de uma caserna, haver sol ou lua no muro é de fato indiferente, basta que não surjam obstáculos ao bom andamento do serviço. O muro de uma caserna e nada mais. No entanto, um dia, num longínquo setembro, o oficial ficara a olhá-lo como que fascinado; naquele tempo essas muralhas pareciam guardar para ele um severo mas invejável destino. Embora não tivesse conseguido achá-las bonitas, ele permanecera imóvel por alguns instantes, como diante de um prodígio.

Um oficial perambula pelos lavatórios desertos, outros estão de serviço nos vários redutos, outros cavalgam na esplanada arenosa, outros ocupam-se nos gabinetes. Ninguém, consegue compreender bem o que aconteceu, mas os rostos dos outros dão nos nervos. Sempre as mesmas caras, pensa instintivamente, sempre as mesmas conversas, o mesmo serviço, os mesmos documentos. No entanto, fermentam tenros desejos, não é fácil estabelecer com exatidão o que se queria, certamente não essas muralhas, esses soldados, esses toques de clarim.

Corra, então, cavalinho, pela estrada da planície, corra antes que seja tarde, não pare, mesmo cansado, antes de ver os prados verdes, as árvores familiares, as habitações dos homens, as igrejas e os campanários.

E então adeus, forte, ficar ainda seria perigoso, seu mistério fácil desmoronou, a planície do norte continuará deserta, nunca mais os inimigos virão, nunca mais ninguém virá assaltar suas pobres muralhas.

Adeus, major Ortiz, melancólico amigo, que não é mais capaz de separar-se desse casarão; e como o senhor, muitos outros, que por demasiado tempo se obstinaram em esperar; o tempo foi mais rápido que vocês, e não podem mais recomeçar.

Giovanni Drogo, ao contrário, sim. Nenhum compromisso mais o retém no forte. Agora volta à planície, entra novamente no convívio dos homens, não será difícil que lhe deem algum encargo especial, talvez uma missão no exterior, na comitiva de um general. Nesses anos, enquanto ele estava no forte, decerto foram perdidas boas oportunidades, mas Giovanni ainda é jovem, resta-lhe todo o tempo possível para remediar.

Adeus, então, forte, com seus absurdos redutos, seus pacientes soldados, seu senhor coronel que toda manhã, sem dar na vista, perscruta com a luneta o deserto do setentrião, mas é inútil, não há mais nada. Um adeus ao túmulo de Angustina, talvez tenha sido o mais afortunado, ele ao menos morreu como verdadeiro soldado, melhor, de qualquer modo, que no provável leito de um hospital. Um adeus ao seu quarto, afinal Drogo dormiu ali honestamente centenas de noites. Um outro adeus ao pátio onde essa tarde também, com as formalidades de sempre, enfileiram-se as guardas escaladas para o serviço. O último adeus à planície do norte, já agora vazia de ilusões.

Não pense mais nisso, Giovanni Drogo, não se vire para trás, agora que chegou à borda do planalto e a estrada está para mergulhar no vale. Seria uma tola fraqueza. Você conhece, pedra por pedra, o Forte Bastiani, certamente não corre o risco de esquecê-lo. O cavalo trota alegremente, o dia está bom, o ar, morno e leve, a vida à frente é longa, como que ainda por começar; que necessidade haveria de dar uma última olhadela nas muralhas, nas casamatas, nas sentinelas de turno na borda dos redutos? Assim uma página lentamente é virada, passada para o outro lado, acrescenta-se a outras já findas, por hora é apenas uma leve camada; as que falta ler são, em comparação, um monte inesgotável. Mas é sempre uma outra página gasta, senhor tenente, uma porção de vida que se foi.

Da beira da pedregosa esplanada, Drogo de fato não se volta para olhar, sem a menor sombra de hesitação esporeia o cavalo pela descida abaixo, não faz menção de virar a cabeça nem mesmo um centímetro, assobia uma canção com alguma desenvoltura, embora isso lhe custe esforço.