O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 29 de 32

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O Deserto dos Tártaros

Capítulo XXVII

— Ouviu? O clarim — disse o velho oficial.

— Não, não ouvi — respondeu Drogo, mentindo, pois sentia vagamente que assim agradava ao amigo.

— Talvez tenha me enganado. Estamos muito longe, realmente — admitiu Ortiz, com a voz tremendo, e depois acrescentou, com dificuldade: — Lembra-se da primeira vez, quando você chegou aqui e ficou assustado? Não queria ficar, você se lembra?

Drogo só conseguiu dizer: — Faz muito tempo... — Um estranho nó apertou-lhe a garganta.

Em seguida Ortiz ainda disse algo, como que correndo atrás de seus pensamentos: — Quem sabe — disse —, talvez numa guerra eu pudesse ser útil. Numa guerra; e para o resto nada, como aliás se viu.

A nuvem passara, já ultrapassava o forte, agora se espalhava através da desolada planície dos tártaros, cada vez mais para o norte, silenciosa. Adeus, adeus. Retornando o sol, os dois homens faziam sombra de novo. Os cavalos de Ortiz e da escolta, uns vinte metros adiante, batiam com os cascos nas pedras, aparentando impaciência.

 

XXVII

Vira-se a página, passam-se meses e anos. Os que foram companheiros de escola de Drogo estão quase cansados de trabalhar, têm barbas aparadas e grisalhas, caminham com elegância pelas cidades, são cumprimentados respeitosamente, seus filhos são homens feitos, alguns já são avôs. Os velhos amigos de Drogo, à soleira da casa que construíram, gostam de se deter por um instante a fim de observar, satisfeitos com a própria carreira, de que maneira corre o rio da vida, e no torvelinho da multidão divertem-se em distinguir os próprios filhos, incitando-os a ser rápidos, ultrapassar os outros, chegar primeiro. Giovanni Drogo, ao contrário, ainda espera, embora a esperança enfraqueça a cada novo minuto.

Agora sim, ele finalmente mudou. Tem cinquenta e quatro anos, a patente de major e o segundo comando da escassa guarnição do forte. Até pouco tempo atrás não havia mudado muito, podia-se dizê-lo ainda jovem. De tempos em tempos, ainda que com dificuldade, dava, como exercício, alguns passeios a cavalo pelo planalto.

Depois, começou a emagrecer, seu rosto cobriu-se de uma triste cor amarela, os músculos se afrouxaram. Distúrbios hepáticos, dizia o dr. Rovina, já então muitíssimo velho, decidido a terminar a vida lá em cima. Mas os pozinhos do dr. Rovina não fizeram efeito: Giovanni, de manhã, acordava com uma desencorajante canseira, que o atacava na nuca. Sentando-se em seguida em seu gabinete, não via a hora que a noite chegasse para poder deixar-se cair numa poltrona ou na cama. Distúrbios hepáticos agravados por exaustão geral, dizia o médico, mas estranha era a exaustão, com a vida que Giovanni levava. "De qualquer modo, é uma coisa passageira, frequente nessa idade", dizia o dr. Rovina, "um tanto demorada, talvez, mas sem nenhum perigo de complicações."

Inseriu-se desse modo na vida de Drogo uma esperança suplementar, a esperança de sarar. De resto, não se mostrava impaciente. O deserto setentrional continuava sempre vazio, nada fazia pressentir uma eventual invasão inimiga.

"Está com uma aparência melhor", diziam-lhe quase todos os dias os colegas, mas na verdade Drogo não sentia a mínima melhora. Haviam desaparecido as dores de cabeça e as penosas diarreias dos primeiros tempos; nenhuma dor específica o atormentava. As energias, no todo, tornavam-se, porém, cada vez mais fracas.

Simeoni, o comandante do forte, dizia-lhe; "Tire uma licença, vá descansar, uma cidade à beira-mar lhe faria bem".

E quando Drogo dizia que não, que já se sentia melhor, que preferia ficar, Simeoni sacudia a cabeça, reprovando, como se Drogo recusasse por ingratidão um conselho precioso, correspondente em tudo ao espírito do regulamento, à eficiência da guarnição e à própria vantagem pessoal. Pois Simeoni conseguia até fazer que se sentisse saudade de Matti, de tanto que fazia pesar sobre os outros sua virtuosa perfeição.

Qualquer que fosse a conversa que mantivesse, suas palavras, bastante cordiais na superfície, tinham sempre um vago sabor de repreensão para todos os demais, como se ele sozinho cumprisse o dever até o fim, ele sozinho fosse a sustentação do forte, ele sozinho conseguisse remediar os infinitos contratempos que de outro modo teriam posto tudo a perder. Mesmo Matti, em seus bons tempos, fora um pouco assim, só que menos hipócrita; Matti não tinha pejo em expor a aridez de seu coração, e algumas das brutais grosserias aos soldados não chegavam de fato a incomodar.

Por sorte Drogo se tornara amigo do dr. Rovina e obtivera sua cumplicidade para poder ficar. Uma obscura superstição dizia-lhe que, se deixasse agora o forte, por doença, nunca mais voltaria. Esse pensamento causava-lhe angústia. Vinte anos antes, sim, gostaria de ter podido partir, meter-se na plácida e brilhante vida de guarnição, com as manobras de verão, os treinamentos de tiro, as corridas a cavalo, os teatros, a sociedade, as belas senhoras. Mas agora o que lhe teria sobrado? Faltavam poucos anos para a sua aposentadoria, a carreira estava terminada, quando muito podiam dar-lhe um posto em algum comando, só para que terminasse o serviço. Restavam-lhe poucos anos, a última reserva, e quem sabe antes do fim pudesse ocorrer o acontecimento esperado. Jogara fora os melhores anos, agora queria ao menos esperar até o último momento.

Rovina, para apressar a cura, aconselhou Drogo a não se cansar, a ficar na cama o dia inteiro e a mandar trazer ao quarto o serviço a ser despachado. Isso acontecia num março frio e chuvoso, acompanhado de inúmeros desmoronamentos nas montanhas; pináculos inteiros desabavam repentinamente, espatifando-se nos abismos, e lúgubres ecos estrondavam na noite, durante horas a fio.

Finalmente, com extrema dificuldade, começou a anunciar-se a boa estação. A neve sobre o desfiladeiro já derretera, mas névoas úmidas demoravam-se sobre o forte. Era necessário um sol intenso para enxotá-las, tão definhado pelo inverno estava o ar dos vales. Porém, certa manhã, ao acordar. Drogo viu brilhar sobre o soalho de madeira uma bela réstia de sol e sentiu que chegara a primavera.

Deixou-se invadir pela esperança de que ao bom tempo correspondesse nele uma semelhante retomada de forças. Até nas velhas vigas ressuscita, na primavera, um resíduo de vida; dali emanam os inumeráveis estalos que povoam aquelas noites. Tudo parece recomeçar, uma golfada de saúde e de alegria derrama-se sobre o mundo.

Drogo pensava nisso com intensidade, invocando de cabeça escritos de ilustres autores sobre o assunto, com o objetivo de convencer-se. Levantando-se da cama, foi cambaleando até a janela. Sentiu um princípio de tontura, mas consolou-se ao pensar que sempre acontece assim quando se levanta após muitos dias de cama, ainda que se tenha sarado. De fato, a tontura passou, e Drogo pôde ver o esplendor do sol.

Uma alegria sem limites parecia espalhar-se pelo mundo. Drogo não podia constatá-la diretamente porque na frente havia o muro, mas a intuía sem dificuldade. Até as velhas paredes, a terra roxa do pátio, as banquetas de madeira desbotada, uma carreta vazia, um soldado que passava lentamente, pareciam contentes. Quem sabe lá fora, além das muralhas!

Ficou tentado a vestir-se, a sentar-se ao ar livre numa poltrona para tomar sol, mas um leve arrepio deu-lhe medo, aconselhando-o a voltar para a cama. "Mas hoje eu me sinto melhor, realmente melhor", pensava, convencido de que não se iludia.

Calmamente avançava a estupenda manhã de primavera, a réstia de sol no soalho ia se deslocando. Drogo a observava de vez em quando, sem nenhuma vontade de examinar a papelada amontoada numa mesa ao lado. Reinava, além disso, um extraordinário silêncio, ao qual não causavam danos os raros toques de clarim nem os baques da cisterna. Mesmo depois da nomeação de major, Drogo não quis absolutamente mudar de quarto, como se temesse que não lhe traria sorte; mas já então os soluços do reservatório haviam se tornado um hábito profundo e não lhe causavam nenhum aborrecimento.

Drogo observava uma mosca parada no chão, justamente sobre a réstia de sol, bicho estranho naquela estação, sabe-se lá como sobrevivera ao inverno. Observava-a andar com sobriedade, quando alguém bateu à porta.

Era uma batida diferente das de sempre, notou Giovanni. Não era decerto o ordenança, nem o capitão Corradi, da secretaria, o qual costumava, ao contrário, pedir licença, nem qualquer outro dos visitantes habituais.

— Entre! — disse Drogo. Abriu-se a porta e entrou o velho chefe dos alfaiates, Prosdocimo, completamente curvo agora, com uma roupa estranha que um dia devia ter sido um uniforme de sargento. Entrou um tanto ofegante, fez um sinal com o indicador direito, referindo-se a algo além das muralhas.

— Vêm vindo! Vêm vindo! — exclamou em surdina, como se fosse um grande segredo.

— Quem vem vindo? — perguntou Drogo, espantado por ver o chefe dos alfaiates tão inquieto. "Estou frito", pensou, "esse aí começa a falar e vai em frente durante uma hora, pelo menos."

— Pela estrada, vêm vindo, se Deus quiser, pela estrada do norte! — Foram todos ao terraço para ver.

— Da estrada do norte? Soldados?

— Aos batalhões, aos batalhões! — gritava, fora de si, o velhinho, fechando os punhos. — Dessa vez não há erro, e além disso chegou uma carta do estado-maior, para avisar que está nos mandando reforços! A guerra, a guerra, a guerra! — gritava, e não era possível entender se estava também um tanto assustado.

— E já são visíveis? — perguntou Drogo. — São visíveis mesmo sem luneta? — Levantara-se para sentar-se na cama, invadido por uma enorme agitação.

— Por Deus, se são visíveis! Os canhões são visíveis, já contaram dezoito!

— E quando poderão atacar, quanto tempo nos darão ainda?

— Ah, com a estrada, chegam rápido, eu digo que dentro de dois dias estarão aqui, dois dias no máximo!

Maldita cama, disse Drogo a si mesmo, estou aqui entrevado pela doença. Nem lhe passou pela cabeça que Prosdocimo tivesse inventado uma história, repentinamente ele sentira que tudo era verdade, dera-se conta de que até o ar de algum modo havia mudado, até mesmo a luz do sol.

— Prosdocimo — disse com ansiedade. — Vá chamar Luca para mim, o meu ordenança, é inútil você tocar a campainha, deve estar lá embaixo na secretaria esperando que lhe deem uns papéis, vá logo, por favor!

— Depressa, senhor major — recomendou Prosdocimo, retirando-se. — Não pense mais em seus achaques, venha o senhor também até as muralhas para ver!

Saiu rapidamente, esquecendo-se de fechar a porta; ouviu-se o som de seus passos se afastando pelo corredor, em seguida retornou o silêncio.

"Deus, faça com que eu melhore, suplico-lhe, pelo menos por seis ou sete dias", sussurrou Drogo sem conseguir dominar a excitação. Queria levantar-se logo, a todo custo, ir imediatamente até as muralhas, mostrar-se a Simeoni, fazê-lo entender que ele não faltava, que estava em seu posto de comando, que assumiria suas responsabilidades como de costume, como se não estivesse doente.

Bam! Uma corrente de vento no corredor fez bater inoportunamente a porta. No vasto silêncio o barulho ecoou forte e maligno, como resposta à prece de Drogo. E por que Luca não vinha, quanto demoraria aquele imbecil para subir dois lances de escada?

Sem esperá-lo. Drogo saiu da cama e foi tomado por uma onda de vertigem que lentamente, porém, se dissolveu. Agora estava diante do espelho e fitava, assustado, o próprio rosto, amarelado e gasto. É a barba que me faz ficar assim, tentou dizer Giovanni a si mesmo; e a passos incertos, ainda com o pijama, andou pelo quarto à procura da navalha. Mas por que Luca não se decidia a vir?

Bam!, fez a porta novamente, agitada pela corrente. "Que o diabo a carregue!", disse Drogo, e foi fechá-la. Nesse instante ouviu os passos do ordenança que se aproximavam.

Barbeado e vestido como manda o regulamento — mas sentindo-se dançar dentro do uniforme demasiado largo —, o major Giovanni Drogo seguiu pelo corredor, que lhe pareceu mais comprido que de costume. Luca estava ao seu lado, um pouco mais atrás, pronto a ampará-lo, pois via que o oficial a custo se mantinha de pé. As ondas de vertigem voltavam aos sobressaltos, a cada vez Drogo precisava parar, apoiando-se à parede. "Estou me agitando demais, o nervosismo de sempre", pensou, "no todo, porém, sinto-me melhor."

Realmente as tonturas passaram, e Drogo chegou ao terraço mais alto do forte, onde vários oficiais perscrutavam com as lunetas o triângulo visível de planície, deixado livre pelas montanhas. Giovanni ficou deslumbrado com o esplendor do sol pleno, a que não estava mais habituado, respondeu confusamente aos cumprimentos dos oficiais presentes. Pareceu-lhe, mas talvez fosse uma interpretação maligna, que os subalternos o cumprimentavam com certo desembaraço, como se ele não fosse mais o seu superior imediato, o árbitro num certo sentido de suas vidas cotidianas. Já o consideravam liquidado?

Esse pensamento desagradável foi breve, voltando a preocupação maior: a ideia da guerra. A primeira coisa que Drogo viu, do beirai do Reduto Novo, foi uma fumacinha se elevando; portanto, fora recolocada a guarda, haviam sido tomadas medidas de exceção, o comando já se pusera em movimento, sem que ninguém tivesse interpelado a ele, o segundo-comandante. Não o tinham sequer avisado, aliás. Se Prosdocimo, por iniciativa própria, não tivesse ido chamá-lo. Drogo ainda estaria na cama, ignorando a ameaça.

Foi tomado de uma ira violenta e amarga, seus olhos se embaciaram, precisou apoiar-se no parapeito do terraço, e o fez controlando-se ao máximo, para que os outros não percebessem a que estado ele se reduzira. Sentia-se horrivelmente sozinho, entre gente inimiga. Havia alguns jovens tenentes, como Moro, que lhe eram afeiçoados, mas de que lhe valia o apoio dos subalternos?

Naquele ínterim ouviu baterem continência. A passos precipitados avançou o tenente-coronel Simeoni, com o rosto vermelho.

— Há meia hora que estou à sua procura por toda parte! — exclamou para Drogo. — Não sabia mais o que fazer. É preciso tomar providências!

Achegou-se com exuberante cordialidade, franzindo as sobrancelhas, como se estivesse preocupadíssimo e ansioso por obter os conselhos de Drogo. Giovanni sentiu-se desarmado, sua ira arrefeceu de repente, embora soubesse muito bem que Simeoni o estava enganando. Simeoni pensara que Drogo não se moveria, não ligara mais para ele, decidira, por sua conta, informá-lo quando tudo tivesse sido executado: depois lhe disseram que Drogo estava andando pelo forte, e correra ao encontro dele, ansioso por mostrar sua boa fé.

— Tenho aqui uma mensagem do general Stazzi — disse Simeoni, prevenindo qualquer pergunta de Drogo e apartando-se com ele para que os outros não pudessem ouvir. — Estão chegando dois regimentos, entende? Onde os coloco?

— Dois regimentos de reforço? — perguntou Drogo, espantado. Simeoni entregou-lhe a mensagem. O general anunciava que, por medida de segurança, temendo-se possíveis provocações inimigas, dois regimentos, o 17.° de Infantaria, mais um segundo de formação, com um grupo de artilharia ligeira, haviam sido enviados para reforçar a guarnição do forte; que fosse restabelecido, logo que possível, o serviço de guarda de acordo com os antigos quadros, quer dizer, com força total, que fossem preparados os acantonamentos para oficiais e soldados. Uma parte, naturalmente, ficaria acampada.

— Enquanto isso mandei um pelotão ao Reduto Novo. Fiz bem, não? — acrescentou Simeoni, sem dar tempo a Drogo para responder. — Já os viu?

— Sim, sim, fez bem — respondeu Drogo com dificuldade. As palavras de Simeoni penetravam-lhe nos ouvidos com um som isolado e irreal, as coisas ao redor oscilavam desagradavelmente. Drogo sentia-se mal, um esgotamento atroz o invadira de repente, toda a sua vontade estava concentrada no esforço único de manter-se de pé. "Ó Deus, ó Deus", suplicou Drogo mentalmente, "ajude-me um pouco!"