O Deserto dos Tártaros
Capítulo XXI
— Desculpe, Excelência, se insisto — ousou Drogo, que sabia o quanto a questão era decisiva. — Mas parece-me que ter prestado serviço por quatro anos ininterruptos devia ter mais peso do que uma simples precedência formal.
— Seus quatro anos não são nada, caro tenente — rebateu o general, frio, quase ofendido —, não são nada em comparação a tantos outros que já estão lá em cima a vida inteira. Posso considerar seu caso com a maior benevolência, posso favorecer uma justa aspiração sua, mas não posso faltar com a justiça. É necessário também calcular os títulos de mérito...
Giovanni empalidecera.
— Mas então, Excelência — perguntou, quase gaguejando —, então estou arriscado a passar a vida inteira lá?
— ...calcular os títulos de mérito — continuou, imperturbável, o outro, folheando sempre os documentos de Drogo.
"E estou vendo aqui, por exemplo, onde meus olhos bateram, uma 'advertência regulamentar'. A 'advertência regulamentar' não é uma coisa grave...", e continuava a ler, "mas aqui está um caso bastante desagradável, acho, uma sentinela morta por engano..."
— Infelizmente, Excelência, eu não...
— Não posso dar ouvidos às suas justificativas, o senhor sabe muito bem, caro tenente — disse o general, interrompendo-o. — Estou lendo apenas o que está escrito em seu relatório e até admito que se trate de pura desgraça, pode perfeitamente acontecer... mas há colegas seus que souberam evitar tais desgraças... Estou disposto a fazer o possível, concordei em recebê-lo pessoalmente, veja o senhor, mas agora... Só se o senhor tivesse feito o pedido há um mês... Estranho que não tenha sido informado... Uma notável desvantagem, realmente.
O tom inicial de boa vontade desaparecera. Agora o general falava com uma leve nuance aborrecida e zombeteira, oscilando catedraticamente a voz. Drogo viu que tinha feito papel de bobo, viu que os companheiros o tinham passado para trás, que o general devia ter dele uma impressão bastante negativa e que não havia mais nada a fazer. A injustiça ardia-lhe no peito, do lado do coração. Poderia até sair, pedir baixa, pensou, de qualquer modo não vou morrer de fome, sou jovem ainda.
O general fez-lhe um aceno familiar com a mão: — Bem, adeus, tenente, e anime-se.
Drogo enrijeceu-se em posição de sentido, bateu os saltos, afastou-se para trás em direção da porta, na soleira fez um derradeiro cumprimento.
XXI
O passo de um cavalo remonta o vale solitário e, no silêncio das gargantas, produz um amplo eco, as moitas em cima dos rochedos não se movem, parados estão os matos amarelados, até as nuvens atravessam o céu com particular lentidão. O passo do cavalo sobe devagar pela estrada branca, é Giovanni Drogo que retorna.
É exatamente ele, agora que se aproximou pode ser reconhecido, e no seu rosto não se vê nenhuma dor especial. Não se revoltou; portanto, não pediu baixa, engoliu as injustiças sem abrir a boca, e está de volta ao posto de sempre. No íntimo, existe até a tímida satisfação de ter evitado bruscas mudanças de vida, de poder entrar de novo tal e qual na velha rotina. Ilude-se com uma gloriosa desforra a longo prazo, acredita possuir ainda uma imensidão de tempo disponível, renuncia desse modo à mesquinha luta pela vida cotidiana. Chegará o dia em que todas as contas serão generosamente ajustadas, pensa.
Mas enquanto isso os outros passam à frente, avidamente apertam o passo para ser os primeiros, ultrapassam Drogo na corrida, sem sequer ligar para ele, deixando-o para trás. Ele os vê desaparecer ao longe, perplexo, tomado de dúvidas insólitas: e se realmente estivesse errado? Se fosse um homem comum, a quem por direito não cabe senão um destino medíocre?
Giovanni Drogo subia ao forte solitário como naquele dia de setembro, um dia distante. Só que agora, do outro lado do vale, não avançava nenhum outro oficial, e na ponte, onde as duas estradas se juntavam, o capitão Ortiz não vinha mais ao seu encontro.
Dessa vez Drogo seguia sozinho, e enquanto isso meditava sobre a vida. Voltava ao forte para ali permanecer sabe-se lá quanto tempo ainda, justamente nos dias em que muitos companheiros o deixavam para sempre. Os companheiros tinham sido mais espertos, pensava Drogo, mas não se excluía que fossem realmente melhores: podia também ser essa a explicação.
Quanto mais passara o tempo, mais o forte perdera importância. Noutros tempos talvez tivesse sido uma guarnição importante, ou, pelo menos, era considerada como tal. Agora, com a força reduzida pela metade, era apenas uma barreira de segurança, estrategicamente excluída de qualquer plano de guerra. Era mantido unicamente para não deixar a fronteira desguarnecida. Da planície do norte não se admitia a eventualidade de nenhuma ameaça, no máximo podia aparecer no desfiladeiro alguma caravana de nômades. O que se tornaria a vida lá em cima?
Meditando nessas coisas, Drogo atingiu, à tarde, a beira do último planalto e deu com o forte à sua frente. Ele não mais encerrava, como da primeira vez, inquietantes segredos. Não passava realmente de uma caserna fronteiriça, um casarão ridículo; as muralhas não resistiriam a não ser por poucas horas aos canhões de modelo recente. Com o passar do tempo seria
abandonado à ruína, algumas ameias já haviam caído e um terrapleno desfazia-se em escombros, sem que ninguém mandasse consertá-lo.
Assim pensava Drogo, parado na borda do planalto, observando as sentinelas de sempre andarem de um lado para outro, no beirai das muralhas. A bandeira sobre o telhado pendia frouxa, nenhuma chaminé fumegava, não havia vivalma sobre a esplanada nua.
Que tédio de vida, agora... Provavelmente o alegre Morei teria partido entre os primeiros, praticamente não sobraria nenhum amigo para Drogo. E depois, sempre o mesmo serviço de guarda, as habituais partidas de baralho, as habituais escapadelas ao povoado mais próximo para beber um trago e fazer amor mediocremente. Que miséria!, pensava Drogo.
No entanto, um resto de encanto vagava ao longo dos perfis dos redutos amarelos, um mistério teimava em reinar nos cantos dos fossos, à sombra das casamatas, uma sensação inexprimível de coisas futuras.
No forte topou com muitas mudanças. Na iminência de tantas partidas, reinava por toda parte grande animação. Não se sabia ainda quem eram os destinados a partir, e os oficiais, que haviam quase todos pedido transferência, viviam em ansiosa espera, esquecendo os cuidados de antigamente. Até Filimore — dava-se como certo — devia deixar o forte, e isso contribuía para perturbar o ritmo do serviço. A inquietação estendera-se até os soldados, devendo uma grande parte das companhias, ainda não fixada, descer à planície. Os turnos de guarda eram cumpridos a contragosto, frequentemente na hora da mudança os destacamentos não estavam prontos, em todos havia a convicção de que tantas precauções eram tolas e inúteis.
Era evidente que as esperanças de outrora, as ilusões guerreiras, a espera do inimigo do norte não passavam de um pretexto para dar um sentido à vida. Agora que havia a possibilidade de regressar ao convívio civil, aquelas histórias pareciam brincadeiras de criança, ninguém queria admitir ter acreditado naquilo nem se hesitava em rir de tudo. O que importava era partir. Cada um dos colegas de Drogo pusera em movimento influentes amizades para obter a preferência; no íntimo, cada um estava convencido de que ia conseguir.
— E você? — perguntavam a Giovanni, com vaga simpatia, os companheiros que lhe haviam ocultado a grande novidade para passar à sua frente e ter um concorrente a menos. — E você? — perguntavam.
— Eu provavelmente deverei permanecer aqui mais alguns meses — respondia Drogo. E os outros se apressavam a encorajá-lo: também ele, puxa vida, seria transferido, era mais do que justo, não devia ser tão pessimista, e coisas desse gênero.
Somente Ortiz, entre todos, não parecia mudado. Ortiz não pedira para partir, havia vários anos não se interessava mais pelo assunto, a notícia de que a guarnição seria reduzida chegara a ele depois dos outros e por isso não tivera tempo de avisar Drogo. Ortiz assistia, indiferente, à nova efervescência, ocupava-se com o zelo de sempre dos serviços do forte.
Até que as partidas começaram realmente. No pátio houve um contínuo rodar de carros que embarcavam material de quartel, e, por turnos, enfileiravam-se as companhias para a despedida. O coronel, a cada vez, descia do gabinete para passá-las em revista, dizia aos soldados palavras de adeus, sua voz era imóvel e apagada.
Oficiais que ali tinham vivido muitos anos, que por centenas de dias haviam perscrutado as solidões do norte pelos bastiões dos redutos, que costumavam travar intermináveis discussões sobre a probabilidade ou não de um ataque repentino do inimigo, muitos desses oficiais partiam com a cara alegre, piscando de modo insolente aos companheiros que ficavam, afastavam-se rumo ao vale, ousadamente retos na sela, no comando de seus destacamentos, e sequer viravam a cabeça para olhar pela última vez seu forte.
Somente Morei, quando numa manhã de sol, no centro do pátio, apresentou seu pelotão que partia ao coronel comandante, e abaixou o sabre como despedida, somente seus olhos brilharam, e sua voz, ao dar as ordens, tremeu. Drogo, encostado a um muro, observava a cena, e sorriu amigavelmente quando o companheiro a cavalo atravessou-lhe a frente, dirigindo-se à saída. Talvez fosse a última vez que se viam. Giovanni levou a mão direita à viseira do quepe, fazendo a saudação regulamentar.
Em seguida entrou nos saguões do forte, frios mesmo no verão, que dia após dia se tornavam mais desertos. Ao pensar que Morei partira, a ferida da injustiça sofrida reabrira de repente e doía-lhe. Giovanni foi à procura de Ortiz e o encontrou saindo de seu gabinete, com um maço de papéis. Alcançou-o, pôs-se ao lado dele; — Bom dia, senhor major.
— Bom dia. Drogo — respondeu Ortiz, detendo-se.— Algo de novo? Deseja alguma coisa de mim?
De fato, Drogo queria perguntar-lhe algo. Era um assunto vago, sem a menor urgência, mas que apertava seu coração havia alguns dias.
— Desculpe, senhor major — disse. — O senhor se lembra de que quando cheguei ao forte, há quatro anos e meio, o major Matti me disse que aqui ficavam apenas os voluntários? Que se alguém quisesse partir teria toda a liberdade para isso? O senhor se lembra do que lhe contei? De acordo com Matti, bastava que eu pedisse um exame médico, somente para ter um pretexto formal, só dizia que isso aborreceria um pouco o coronel.
— Sim, lembro-me vagamente — disse Ortiz, com uma levíssima sombra de enfado. — Mas desculpe-me, caro Drogo, eu agora...
— Um minuto, senhor major... Lembra-se de que, para não fazer algo importuno, sujeitei-me a ficar quatro meses? Mas que, se quisesse, podia partir, não é verdade?
Ortiz disse: — Compreendo, caro Drogo, mas você não é o único...
— Então — interrompeu-o Giovanni, exaltado —, então tudo aquilo era conversa fiada? Então não era verdade que, se eu quisesse, podia partir? Tudo conversa fiada para manter-me quieto?
— Ah — disse o major. — Não acredito... Tire isso da cabeça!
— Não me diga que não, senhor major — replicou Giovanni. — Está querendo dizer que Matti dizia a verdade?
— Também a mim aconteceu o mesmo, mais ou menos — disse Ortiz, baixando os olhos, embaraçado. — Eu também pensava numa carreira brilhante, então...
Haviam parado num dos grandes corredores, e suas vozes ressoavam tristemente entre as paredes, pois o local estava vazio e desabitado.
— Então não é verdade que todos os oficiais vieram a pedido? Todos obrigados a ficar como eu, não é assim?
Ortiz calava-se, cutucando com a ponta do sabre uma fresta do pavimento de pedra.
— E os que diziam que eram eles que queriam ficar aqui, tudo conversa, então? — insistia Drogo. — E por que nunca ninguém teve coragem de dizer?
— Talvez não seja bem como você está dizendo — respondeu Ortiz. — Há quem tenha realmente preferido ficar, poucos, concordo, mas há quem...
— Quem? Vamos, diga-me quem! — disse Drogo, com vivacidade; em seguida conteve-se repentinamente: — Ah, desculpe, senhor major — acrescentou —, eu naturalmente não estava pensando no senhor, sabe como acontece quando se fala!
Ortiz sorriu; — Ah, não estava falando de mim? Provavelmente eu também fiquei aqui por designação!
Os dois se puseram em movimento, caminhando juntos, e passaram diante das pequenas janelas oblongas, gradeadas; de lá se enxergavam o planalto desnudo atrás do forte, os morros do sul, a neblina densa do vale.
— E então — retomou Drogo, após uma pausa. — Então todos aqueles entusiasmos, aquelas histórias dos tártaros? Não eram esperados de verdade, então?
— Não há dúvida de que eram esperados! — disse Ortiz. — Acreditávamos nisso, realmente.
Drogo sacudiu a cabeça: — Não estou entendendo, palavra...
— O que quer que lhe diga? — disse o major. — São histórias um tanto complicadas... Aqui é um pouco como no exílio, é preciso achar uma espécie de desafogo, é preciso ter esperança em alguma coisa. Alguém pôs na cabeça, começaram a falar dos tártaros, sabe-se lá quem foi o primeiro...
— Quem sabe também pelo lugar — disse Drogo —, de tanto ver aquele deserto...
— Decerto, o lugar também... O deserto, as névoas no fundo, as montanhas, não se pode negar... Também o lugar contribui, realmente.
Calou-se por um instante, pensando; em seguida continuou, como que falando a si próprio:
— Os tártaros... os tártaros... No princípio parece uma bobagem, naturalmente, depois acaba-se acreditando, apesar disso; pelo menos para muitos aconteceu assim, realmente.
— Mas o senhor, major, perdoe, o senhor...
— Comigo é outra história — disse Ortiz. — Tenho outra idade. Não possuo mais veleidades de carreira, basta-me um lugar tranquilo... Você, tenente, ao contrário, tem a vida inteira pela frente. Dentro de um ano, um ano e meio no máximo, você será transferido...
— Lá vai Morei, que sorte a dele! — exclamou Drogo, detendo-se numa janelinha. Através da esplanada, via-se, de fato, o pelotão se afastar. No terreno árido e batido de sol, os soldados sobressaíam com nitidez. Embora carregassem pesadíssimas mochilas, marchavam empertigados.