O Deserto dos Tártaros
Capítulo XXX
Encontrou-se sentado numa larga poltrona, num quarto de dormir; e era uma tarde magnífica, que deixava entrar pela janela o ar perfumado. Drogo olhava mudo para o céu, que se tornava cada vez mais azul, as sombras violeta do vale, as cristas ainda imersas no sol. O forte estava distante, não se avistavam mais sequer as suas montanhas.
Devia ser uma tarde de felicidade, mesmo para os homens de uma sorte mediana. Giovanni pensou na cidade ao crepúsculo, os doces anseios da nova estação, jovens casais nas alamedas ao longo do rio, os acordes de piano pelas janelas iluminadas, o apito de um trem ao longe. Imaginou os fogos do acampamento inimigo em meio à planície do norte, as lanternas do forte que balançavam ao vento, a noite insone e maravilhosa antes da batalha. Todos, de um modo ou de outro, tinham algum motivo, ainda que mínimo, para esperar, todos menos ele.
Embaixo, na sala, um homem, depois dois juntos puseram-se a cantar uma espécie de canção popular de amor. No alto do céu, lá onde o azul era profundo, brilharam três ou quatro estrelas. Drogo estava sozinho no quarto, o ordenança descera para tomar um trago, nos cantos e embaixo dos móveis acumulavam-se sombras suspeitas. Giovanni por um instante pareceu não resistir (ninguém afinal o via, ninguém saberia que estava vivo), o major Drogo por um instante sentiu que o duro fardo de seu íntimo estava para romper em pranto.
Foi aí então que dos fundos recessos saiu, límpido e tremulante, um novo pensamento; a morte.
Pareceu-lhe que a fuga do tempo havia parado, como se o encanto tivesse se rompido. O vórtice tornara-se cada vez mais intenso nos últimos tempos, em seguida, repentinamente, mais nada, o mundo pairava estagnado numa apatia horizontal e os relógios andavam inutilmente. A estrada de Drogo estava terminada; lá está ele agora sobre a solitária orla de um mar cinzento e
uniforme, e ao redor nem uma casa, nem uma árvore, nem um homem, tudo assim, desde tempos imemoriais.
Dos extremos confins ele sentia avançar para cima de si uma sombra progressiva e concêntrica, seria talvez questão de horas, talvez de semanas ou de meses; mas até os meses e as semanas são pouca coisa quando nos separam da morte. A vida então virará uma espécie de brincadeira, por uma orgulhosa aposta tudo fora perdido.
Lá fora o céu se tornara de um azul intenso, a ocidente havia ainda uma réstia de luz sobre os perfis violeta das montanhas. E no quarto penetrava a escuridão, enxergava-se apenas o vulto ameaçador dos móveis, a brancura da cama, o brilhante sabre de Drogo. Dali — dava-se conta — ele não mais se moveria.
Envolto assim pelas trevas, enquanto lá embaixo prosseguiam as doces canções entre os harpejos de um violão, Giovanni Drogo sentiu então nascer dentro de si uma extrema esperança. Ele, sozinho no mundo e doente, enxotado do forte como peso importuno, ele, que ficara atrás de todos, ele, tímido e fraco, ousava imaginar que nem tudo estava acabado; pois quem sabe tinha realmente chegado a sua grande oportunidade, a definitiva batalha que podia resgatar a vida inteira.
Avançava de fato contra Giovanni Drogo o último inimigo. Não homens iguais a ele, atormentados como ele por desejos e dores, mas um ser onipotente e maligno; não precisava combater no alto das muralhas, entre estrondos e gritos exaltados, sob um céu azul de primavera, nada de amigos ao lado cuja visão reanima o coração, nada do acre cheiro de pólvora e tiros de fuzil nem promessas de glória. Tudo acontecerá no quarto de uma estalagem desconhecida, à luz de um candeeiro, na mais despojada solidão. Não haverá combate do qual voltar coroado de flores, numa manhã de sol, entre os sorrisos de jovens mulheres, não haverá ninguém para olhar, ninguém para elogiá-lo.
Ah, é uma batalha bem mais dura que aquela que ele outrora esperava! Até velhos homens de guerra prefeririam não experimentá-la. Porque pode ser belo morrer ao ar livre, no furor da refrega, com o próprio corpo jovem e são, entre triunfais ecos de clarim; mais triste é certamente morrer de ferimentos, após longas penas, num quarto de hospital; mais melancólico ainda finar na cama de casa, em meio a lamentos afetuosos, luzes mortiças e vidros de remédio. Mas nada é mais difícil do que morrer num lugar estranho e desconhecido, no leito comum de uma estalagem, velho e desfigurado, sem deixar ninguém no mundo.
"Coragem, Drogo, esta é a última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado, e que a sua existência errada pelo menos termine bem. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena. Ultrapasse com pés firmes o limite da sombra, aprumado como num desfile, e sorria, se conseguir. No fim, sua consciência não está demasiado pesada, e Deus saberá perdoar."
Isso Giovanni dizia a si mesmo — uma espécie de prece —, sentindo apertar à sua volta o círculo conclusivo da vida. E do amargo poço das coisas passadas, dos desejos rotos, das desfeitas sofridas, subia uma força que ele nunca teria ousado esperar. Com inexprimível alegria Giovanni Drogo percebeu, de repente, estar absolutamente tranquilo, ansioso quase por recomeçar a provação. Ah, não se podia querer tudo na vida? É assim então, Simeoni? Agora Drogo vai lhe mostrar.
Coragem, Drogo! E ele experimentou fazer força, manter-se firme, brincar com o pensamento terrível. Pôs nisso todo o seu ânimo, num ímpeto desesperado, como se, sozinho, partisse de assalto contra um exército inteiro. E, subitamente, os antigos terrores caíram por terra, os pesadelos afrouxaram-se, a morte perdeu seu vulto enregelante, transformando-se em coisa simples e de acordo com a natureza. O major Giovanni Drogo, consumido pela doença e pelos anos, pobre homem, forçou o imenso portal negro e deu-se conta de que os batentes caíam, abrindo espaço para a luz.
Parca pareceu-lhe então aquela trabalheira nos bastiões do forte, aquele perscrutar a desolada planície do norte, os seus sacrifícios pela carreira, os longos anos de espera. Não sentia necessidade nem mesmo de invejar Angustina. Sim, Angustina morrera no topo de uma montanha, no cerne da tempestade, conforme ele quis, realmente com muita elegância. Mas muito mais ambicioso era finar-se como um bravo nas condições de Drogo, carcomido pelo mal, exilado entre gente desconhecida.
Só lhe desagradava precisar partir dali com aquele mísero corpo, os ossos salientes, a pele esbranquiçada e flácida. Angustina morreu intacto, pensava Giovanni, sua imagem, apesar dos anos, se mantivera a de um jovem alto e delicado, de rosto nobre e agradável às mulheres: esse, o seu privilégio.
Mas quem sabe se, ultrapassando o negro umbral, também ele. Drogo, não poderia voltar a ser como antes, não bonito (pois bonito nunca fora), mas viçoso de juventude. Que alegria!, dizia a si mesmo ao pensar nisso, como uma criança, uma vez que se sentia estranhamente livre e feliz.
Mas depois veio-lhe à mente: e se tudo fosse um engano? E se sua coragem não passasse de embriaguez? Se isso se devesse apenas ao maravilhoso crepúsculo?, ao ar perfumado, à pausa das dores físicas, às canções ao piano lá embaixo? E se dentro de alguns minutos, dentro de uma hora, ele precisasse voltar a ser o Drogo de antes, fraco e vencido?
Não, nem pense nisso. Drogo, agora chega de atormentar-se, o que importa já está feito. Mesmo se o assaltarem as dores, mesmo se não houver mais as músicas para consolá-lo e, ao contrário dessa belíssima noite, vierem névoas fétidas, tudo será o mesmo. O que importa já foi feito, não podem mais enganá-lo.
O quarto está repleto de escuridão, somente com muito custo pode-se enxergar a brancura da cama, todo o resto é negro. Daqui a pouco deverá surgir a lua.
Terá tempo. Drogo, de vê-la, ou terá que partir antes? A porta do quarto palpita com um leve estalo. Quem sabe é um sopro de vento, um simples redemoinho de ar dessas inquietas noites de primavera. Quem sabe, ao contrário, tenha sido ela a entrar, com passo silencioso, e agora esteja se aproximando da poltrona de Drogo. Fazendo força, Giovanni endireita um pouco o peito, ajeita com a mão o colete do uniforme, olha ainda pela janela, um brevíssimo olhar para sua última porção de estrelas. Em seguida, no escuro, embora ninguém o veja, sorri.
FIM
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Dino Buzzati
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