O Deserto dos Tártaros

Dino Buzzati · Capítulo 12 de 32

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O Deserto dos Tártaros

Capítulo X

Assim devia acontecer, e isso, quem sabe, já estivesse estabelecido há muito tempo, desde aquele dia distante em que Drogo surgiu pela primeira vez, com Ortiz, à beira do planalto e o forte apareceu-lhe no pesado esplendor meridiano.

Drogo decidiu permanecer, retido por um desejo, mas não apenas por isso: o pensamento heroico talvez não fosse suficiente para tanto. Por ora ele acredita ter feito algo nobre, e de boa fé se orgulha disso, descobrindo-se melhor do que supunha. Só muitos meses mais tarde, olhando para trás, reconhecerá as míseras coisas que o ligam ao forte.

Mesmo que tivessem tocado os clarins, que fossem ouvidas as canções de guerra, que do norte chegassem mensagens inquietantes, se fosse somente por isso, Drogo teria igualmente ido embora; mas já havia nele o torpor dos hábitos, a vaidade militar, o amor doméstico pelos muros cotidianos. Quatro meses haviam bastado para amalgamá-lo ao monótono ritmo do serviço.

Tornara-se hábito para ele o turno da guarda, que das primeiras vezes parecia um peso insuportável; pouco a pouco, aprendeu as regras, os modos de falar, as manias dos superiores, a topografia dos redutos, os postos das sentinelas, os recantos onde não soprava o vento, a linguagem dos clarins. Do fato de dominar o serviço, tirava um prazer especial, avaliando a crescente estima dos soldados e dos suboficiais; até Tronk percebera como Drogo era sério e escrupuloso, quase se afeiçoara a ele.

Tornaram-se hábitos para ele os colegas, agora já os conhecia tão bem, que mesmo seus mais sutis subentendidos não o pegavam desprevenido; e por bastante tempo, à noite, ficavam juntos, conversando sobre os acontecimentos da cidade, que, pela distância, adquiriam um interesse desmedido. Hábito, a mesa sempre pronta e farta, a acolhedora lareira do lugar de encontro dos oficiais, dia e noite sempre acesa; o zelo do ordenança, um bom homem chamado Geronimo, que pouco a pouco ficou conhecendo seus menores desejos.

Hábitos, os passeios realizados de vez em quando com Morei ao povoado menos distante: duas horas inteiras a cavalo através de um estreito vale que já conhecia de cor, uma taverna onde se via alguma cara nova, preparavam-se jantares suntuosos e se ouviam frescas risadas de moças com quem se podia fazer amor.

Hábitos, as desenfreadas corridas a cavalo, de ponta a ponta através da esplanada atrás do forte, em competição de bravura com os companheiros, nas tardes de folga, e as pacientes partidas de xadrez, à noite, que terminavam em voz alta, frequentemente ganhas por Drogo (o capitão Ortiz lhe dissera: "É sempre assim, os recém-chegados no começo ganham sempre. Com todos acontece o mesmo, iludimo-nos de ser realmente valentes, só que, ao contrário, é apenas questão da novidade, os outros também acabam por aprender o nosso sistema, e um belo dia não se consegue mais nada").

Eram hábitos para Drogo o quarto, as plácidas leituras noturnas, a fenda no teto, em cima da cama, que parecia a cabeça de um turco, os baques da cisterna, que com o tempo se tornaram íntimos, a cova escavada pelo seu corpo no colchão, as cobertas, tão inóspitas nos primeiros dias e agora documente acolhedoras, o movimento, agora executado instintivamente na distância exata, para apagar o lampião de querosene ou depositar o livro sobre o criado-mudo. Já sabia agora como devia postar-se de manhã, quando fazia a barba diante do espelho, para que a luz iluminasse seu rosto no ângulo exato, como devia verter a água da bilha no alguidar sem derramar fora, como destrancar a fechadura rebelde de uma arca, mantendo a chave um pouco torcida para baixo.

Hábito, o rangido da porta nas épocas de chuva, o ponto onde costumava bater o luar que entrava pela janela e seu lento deslocar-se com o passar das horas, a agitação no quarto embaixo do seu, todas as noites, à uma e meia em ponto, quando a antiga ferida da perna direita do tenente-coronel Nicolosi despertava misteriosamente, interrompendo-lhe o sono.

Todas essas coisas já haviam se tornado suas, e abandoná-las seria doloroso. Drogo porém não sabia, não suspeitava que a partida lhe daria trabalho, nem que a vida do forte engolia os dias um após outro, todos iguais, numa velocidade vertiginosa. Ontem e anteontem eram iguais, ele não mais sabia distingui-los; um acontecimento de três dias antes ou de vinte acabava por parecer-lhe igualmente distante. Assim se dava, à sua revelia, a fuga do tempo. Mas por enquanto ei-lo, audacioso e despreocupado, sobre os bastiões do quarto reduto, numa noite pura e gélida. Devido ao frio, as sentinelas continuavam a caminhar sem pausa, e seus passos rangiam na neve gelada. Uma lua cheia e alvíssima iluminava o mundo. O forte, os despenhadeiros, o vale pedregoso, ao norte, estavam inundados de luz maravilhosa, até a cortina das névoas estagnadas no extremo setentrião brilhava.

Embaixo, na sala do oficial de serviço, no interior do reduto, o lampião permanecera aceso, a chama oscilava levemente, fazendo balançar as sombras. Drogo, pouco antes, começara a escrever uma carta, precisava responder a Maria, irmã de Vescovi, seu amigo, que um dia talvez seria sua esposa. Porém, após duas linhas, levantara-se, sem saber por quê, e subira ao telhado para olhar.

Era aquela a parte mais baixa da fortificação, correspondente à concavidade máxima do desfiladeiro. Naquele ponto da muralha ficava a porta que punha em comunicação os dois Estados. Os maciços batentes de ferro não mais se abriam havia um tempo imemorável. E a guarda para o Reduto Novo saía e entrava todos os dias por uma portinhola secundária, da largura de apenas um homem e vigiada por uma sentinela. Pela primeira vez. Drogo fazia a guarda no quarto reduto. Mal se encontrou ao ar livre, olhou os penhascos proeminentes à direita, todos incrustados de gelo e resplendentes sob a lua.

Lufadas de vento começavam a transportar pequenas nuvens brancas através do céu e sacudiam a capa de Drogo, a capa nova, que significava tantas coisas para ele.

Imóvel, ele fitava as barreiras dos desfiladeiros fronteiriços, as impenetráveis distâncias do norte, e as abas da capa crepitavam como uma bandeira, drapejando tempestuosas ao vento. Drogo sentia possuir, naquela noite, uma beleza altaneira e militar, ereto na orla do terraço, com a esplêndida capa agitada pelo vento. A seu lado, Tronk, embrulhado num enorme capote, nem parecia um soldado.

— Diga-me uma coisa, Tronk — perguntou Giovanni, com fingido ar de preocupação. — É impressão minha ou esta noite a lua está maior do que de costume?

— Não creio, senhor tenente — disse Tronk. — Aqui no forte dá sempre essa impressão.

As vozes ressoaram fortemente, como se o ar fosse de vidro. Tronk, visto que o tenente não tinha outra coisa a lhe dizer, foi andando ao longo do parapeito do terraço, movido por sua perene necessidade de verificar o serviço.

Drogo ficou sozinho e sentiu-se praticamente feliz. Saboreava com orgulho sua decisão de ficar, o amargo gosto de abandonar as pequenas e certas alegrias por um grande bem a longo e incerto prazo (e talvez houvesse por trás disso o pensamento consolador de que estaria sempre em tempo de partir).

Um pressentimento — ou era apenas esperança? — de coisas nobres e grandes fizera-o permanecer ali, mas podia também ser apenas um adiamento, e nada, no fundo, ficava prejudicado. Ele tinha muito tempo à frente.

O bom da vida parecia estar à sua espera. Que necessidade havia de apressar-se? Também as mulheres, amáveis e estranhas criaturas, ele as antevia como uma felicidade certa, formalmente prometida pela ordem normal da vida.

Quanto tempo à frente! Muito longo parecia-lhe até mesmo um único ano, e os anos bons apenas haviam começado; pareciam formar uma série muito longa, da qual era impossível perceber o fim, um tesouro ainda intacto e tão grande, capaz até de enjoar.

Não havia ninguém que lhe dissesse: "Cuidado, Giovanni Drogo!" A vida parecia-lhe uma inesgotável, obstinada ilusão, embora a juventude já tivesse começado a perder o viço. Mas Drogo não conhecia o tempo. Ainda que tivesse diante de si uma mocidade de centenas e centenas de anos, como os deuses, isso também teria sido pouca coisa. E, em vez disso, ele dispunha de uma vida simples e normal, uma pequena juventude humana, avaro dom, que os dedos das mãos eram suficientes para contar e que se dissolveria antes de se dar a conhecer.

Quanto tempo à frente, pensava. Entretanto existiam homens — ouvira falar — que a uma certa altura (estranho de dizer) se punham a esperar a morte, essa coisa conhecida e absurda que não podia ter nada a ver com ele.

Drogo sorria, pensando nisso, e ao mesmo tempo, solicitado pelo frio, pusera-se a caminhar.

As muralhas naquele ponto seguiam o declive do desfiladeiro, formando uma complicada escada de terraços e varandas. Embaixo dele, escuríssimas contra a neve. Drogo via, à luz do luar, as sucessivas sentinelas, seus passos metódicos fazendo cric-cric sobre a camada de gelo.

A mais próxima, num terraço abaixo, a uma dezena de metros, menos friorenta que as demais, permanecia imóvel, com as costas apoiadas a um muro, e parecia adormecida. Drogo ouviu-a cantarolar uma nênia com voz profunda.

Era uma sucessão de palavras (que Drogo não conseguia distinguir), ligadas entre si por uma ária monótona e sem fim. Falar e, pior, cantar em serviço era severamente proibido. Giovanni deveria puni-la, mas teve dó, pensando no frio e na solidão da noite. Começou então a descer uma curta escada que conduzia ao terraço e deu uma pequena tossida, para pôr de sobreaviso o soldado.

A sentinela virou a cabeça e, quando viu o oficial, retificou a posição, mas não interrompeu a nênia.

Drogo ficou enfurecido: aqueles soldados achavam que podiam zombar dele? Iam ver só a dureza que lhes imporia.