O Duque e Eu
Capítulo 9
– Quem vai acreditar nisso?
Anthony não saltou imediatamente em defesa da irmã, o que Daphne considerou um pouco irritante. Mas explicou:
– Não sei por que Hastings se recusa a se casar. Tudo o que sei é que ele tem essa convicção desde que o conheço. – Daphne abriu a boca para falar, mas ele a interrompeu, acrescentando: – E ele diz isso com tanta veemência que não acredito que seja uma decisão leviana de um solteiro assediado.
– E isso quer dizer que...
– Que, ao contrário da maioria dos homens, quando ele a rma que nunca irá se casar, está falando a verdade.
– Sei.
Anthony soltou um suspiro longo e cansado, e Daphne notou, ao redor dos olhos dele, pequenas rugas de preocupação que nunca vira antes.
– Escolha alguém do seu novo grupo de pretendentes – aconselhou ele – e esqueça Hastings. Ele é um bom homem, mas não é para você.
Daphne se agarrou à primeira parte da última frase.
– Mas você acha que ele é um bom...
– Ele não é para você – repetiu seu irmão.
Mas ela não conseguia deixar de pensar que talvez, quem sabe, ele pudesse estar errado.
CA P Í T U L O 9
O duque de Hastings foi visto mais uma vez com a Srta. Bridgerton (para aqueles que, como esta autora, acham difícil diferenciar os inúmeros filhos dos Bridgertons uns dos outros, trata-se no caso, da Srta. Daphne). Fazia muito tempo que não se viam duas pessoas tão claramente dedicadas uma à outra.
Parece curioso, no entanto, que, à exceção do passeio da família até Greenwich, relatado neste jornal há dez dias, os dois sejam vistos juntos apenas em eventos noturnos. A autora sabe de fonte segura que, embora o duque tenha visitado a Srta. Bridgerton em sua casa há duas semanas, essa cortesia não se repetiu e, de fato, os dois não foram vistos juntos no Hyde Park nem uma vez sequer!
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
14 DE MAIO DE 1813
Duas semanas depois, Daphne estava em Hampstead Heath, parada na lateral do salão de baile de Lady Trowbridge, afastada do grupo elegante da festa. Sentia-se bastante satisfeita com sua posição.
Não queria estar no centro dos acontecimentos. Não queria ser encontrada pelas dezenas de pretendentes que agora não paravam de convidá-la para dançar. Na verdade, ela não queria estar no salão de Lady Trowbridge.
Porque Simon não estava lá.
Isso não signi cava que ela estivesse destinada a passar a noite inteira esquecida em um canto. Todas as previsões de Simon quanto à sua crescente popularidade haviam se mostrado corretas. Daphne, que sempre fora a garota que todos viam como amiga, nunca como mulher, foi de repente alçada à posição de moça mais desejável da temporada.
Todos os que emitiam sua opinião sobre essa mudança súbita (e, quando se tratava da sociedade, isso signi cava todo mundo) declaravam que sempre souberam que Daphne era especial e estavam apenas esperando que o restante das pessoas percebesse. Lady Jersey dizia a quem quisesse ouvir que já previa o sucesso da jovem havia meses, e o único mistério era por que ninguém a notara antes.
Isso era bobagem, é claro. Embora Daphne nunca tivesse sido objeto de escárnio de Lady Jersey, nenhum Bridgerton se recordava de tê-la ouvido se referir a Daphne (como vinha fazendo ultimamente) como “tesouro do amanhã”.
Mas, apesar de os rapazes agora fazerem la para tirá-la para dançar assim que ela chegava a qualquer baile e lutarem pelo privilégio de lhe oferecer um copo de limonada (Daphne quase gargalhou na primeira vez em que isso aconteceu), ela descobriu que nenhuma noite era memorável de fato a menos que Simon estivesse a seu lado.
Não importava que ele zesse questão de mencionar ao menos uma vez por noite que era totalmente contra a instituição do casamento (embora se pudesse dizer a favor dele que o duque sempre fazia isso ao mesmo tempo que agradecia a Daphne por livrá-lo das hordas de mães ambiciosas). Também não importava que às vezes ele ficasse calado demais e fosse quase grosseiro com certos membros da sociedade.
Tudo o que parecia ter importância eram aqueles momentos em que eles não estavam exatamente a sós (eles nunca estavam a sós), mas ainda assim podiam desfrutar de certa privacidade. Uma conversa animada num canto, uma valsa ao redor do salão. Daphne encarava os olhos azul-claros dele e esquecia que estava cercada por quinhentos espectadores, todos muito interessados em saber a quantas andava sua vida amorosa.
Nesses momentos, ela praticamente esquecia que tudo não passava de fingimento.
Daphne não tentara conversar de novo com Anthony sobre Simon. A hostilidade do irmão cava evidente toda vez que o nome do duque surgia em uma conversa. E
quando os dois homens se encontravam... bem, Anthony em geral conseguia demonstrar certo nível de cordialidade, mas era tudo.
No entanto, mesmo em meio a toda essa raiva, Daphne podia ver resquícios da antiga amizade entre eles. Torcia para que, quando tudo estivesse terminado – e ela casada com algum conde entediante mas bondoso que nunca tocara seu coração –, os dois voltassem a ser amigos.
Atendendo ao pedido bastante veemente de Anthony, Simon decidira não comparecer a todos os eventos a que Violet e Daphne fossem. Anthony argumentara que o único motivo pelo qual havia concordado com aquele plano ridículo fora a possibilidade de Daphne encontrar um marido entre todos os novos pretendentes.
Infelizmente, em sua opinião (e felizmente na de Daphne), nenhum desses jovens cavalheiros ousava abordá-la quando Simon estava presente.
“Está sendo uma grande perda de tempo” foram as palavras exatas de Anthony.
Na verdade, essa frase veio acompanhada de uma boa quantidade de xingamentos e injúrias, mas Daphne não vira motivo para perder tempo com isso.
Desde o incidente no Tâmisa – dentro do Tâmisa, na verdade –, Anthony dedicava um bom tempo a acrescentar complementos ofensivos ao nome de Simon.
Mas o duque entendera o ponto de vista dele e disse a Daphne que desejava que ela encontrasse um marido adequado.
Então, se afastou.
E Daphne ficou muito infeliz.
Ela imaginava que deveria saber que isso iria acontecer. Deveria ter previsto os
perigos de ser cortejada – ainda que de mentira – pelo homem que a sociedade começara a chamar recentemente de “o duque avassalador”.
O apelido fora criado quando Philipa Featherington o descrevera como
“avassaladoramente bonito”, e como ela não era nada discreta, toda a sociedade testemunhara sua declaração. Em pouco tempo, algum rapazola recém-saído da Universidade de Oxford adaptou a a rmação de Philipa e então surgiu “o duque avassalador”.
Daphne considerava o apelido lamentavelmente irônico. Porque o duque avassalador estava de fato arrasando seu coração.
Não que fosse a intenção dele. Simon a tratava sempre com respeito e bom humor. Até mesmo Anthony era obrigado a admitir que ele não dera nenhum motivo para reclamação naquele período. Nunca tentara car a sós com Daphne e nunca zera nada além de beijar sua mão enluvada (e, para tristeza de Daphne, isso acontecera apenas duas vezes).
Os dois haviam se tornado excelentes companhias um para o outro, e em seus encontros eles se alternavam entre confortáveis períodos de silêncio e diálogos animados. Em todas as festas, dançavam juntos duas vezes – o máximo permitido para não escandalizar a sociedade.
E Daphne sabia, sem sombra de dúvida, que estava se apaixonando.
A ironia era extraordinária. Ela havia começado a passar tanto tempo na companhia de Simon com o objetivo especí co de atrair outros homens. Por sua vez, ele começara a passar tanto tempo com ela para evitar o assédio das mocinhas casamenteiras.
Pensando bem, avaliou Daphne, apoiando-se na parede, a ironia era extraordinariamente dolorosa.
Embora Simon ainda falasse muito sobre a questão do casamento e sua determinação de nunca ingressar nessa condição abençoada, Daphne o agrou olhando para ela algumas vezes de uma forma que a levava a acreditar que ele poderia desejá-la. Nunca repetira nenhum dos comentários maldosos que fizera antes de saber que ela era uma Bridgerton, mas às vezes ela o pegava encarando-a do mesmo jeito faminto e selvagem da noite em que se conheceram. Era claro que ele disfarçava assim que Daphne percebia, mas era sempre o su ciente para deixá-la arrepiada e sem fôlego de desejo.
E os olhos dele! Todos diziam que seus olhos eram de um azul glacial, e quando Daphne o via conversando com outros membros da sociedade, entendia por quê.
Simon não era tão falante com os outros como era com ela. Expressava-se de modo mais sucinto, com o tom mais áspero, e seus olhos apenas re etiam a severidade de seu comportamento.
Mas quando os dois riam juntos, fazendo piada sobre alguma regra tola da sociedade, os olhos dele mudavam. Ficavam mais suaves, mais gentis, mais à vontade. Em seus momentos mais fantasiosos, ela chegava a achar que eles estavam
derretendo.
Daphne suspirou, apoiando-se ainda mais na parede. Sentia que esses
“momentos fantasiosos” estavam cando cada vez mais frequentes nos últimos tempos.
– Ei, Daff, por que você está escondida aqui?
Ela ergueu o olhar e viu Colin se aproximando, com o sorriso convencido de sempre estampado no rosto bonito. Desde seu retorno a Londres, ele estava fazendo um grande sucesso com as garotas da cidade, e Daphne podia, com facilidade, apontar ao menos umas dez delas que certamente estavam apaixonadas por ele e desesperadas por sua atenção. No entanto, não se preocupava com a possibilidade de o irmão corresponder a qualquer dessas afeições. Era evidente que Colin ainda tinha muito que viver antes de sossegar.
– Não estou escondida – corrigiu ela. – Estou tentando evitar.
– Tentando evitar quem? Hastings?
– Não, é claro que não. De qualquer maneira, ele nem está aqui.
– Está, sim.
Como se tratava de Colin, cujo principal objetivo na vida (depois de correr atrás de mulheres e apostar em cavalos, é evidente) era atormentar a irmã, Daphne ngiu não dar importância ao que ele tinha dito, mas ainda assim não conseguiu disfarçar seu interesse ao perguntar:
– Está?
Colin assentiu com uma expressão marota e fez um sinal em direção à entrada do salão.
– Eu o vi chegar há menos de quinze minutos.
Daphne estreitou os olhos.
– Você está brincando comigo? Ele me disse com todas as letras que não viria hoje.
– E mesmo assim você veio? – Colin levou a mão à boca, fingindo surpresa.
– É claro – respondeu ela. – Minha vida não gira em torno de Hastings.
– Não?
Daphne teve a profunda sensação de que ele não estava brincando.
– Não, não gira – insistiu ela, o que era uma mentira. Sua vida podia não girar em torno de Simon, mas seus pensamentos certamente sim.
Os olhos verdes de Colin ficaram estranhamente sérios.
– Você está caidinha, não é?
– Não faço ideia do que você está falando.
Ele sorriu com astúcia.
– Mas vai fazer.
– Colin!
– Enquanto isso – continuou ele, fazendo um sinal na direção da entrada do salão
–, por que não vai falar com ele? Minha maravilhosa companhia obviamente não é
nada comparada com a dele. Posso ver que seus pés já estão até se afastando de mim.
Horrorizada com o fato de seu corpo traí-la de tal maneira, Daphne baixou os olhos.
– Rá! Fiz você olhar – disse ele.
– Colin Bridgerton – resmungou ela –, às vezes parece que você tem 3 anos de idade.
– Interessante – brincou ele. – De acordo com esse raciocínio, você teria a tenra idade de um ano e meio, irmãzinha.
Sem conseguir pensar numa resposta adequada, Daphne apenas o encarou com sua cara mais feia.
Mas o irmão apenas riu.
– É claro que você está linda com essa cara, querida irmã, mas é melhor fazer outra. Sua Avassaladoridade está se aproximando.
Daphne se recusou a morder a isca dessa vez. Ele não a faria olhar.
Colin inclinou-se para a frente e sussurrou de forma conspiratória.
– Desta vez eu não estou brincando, Daff.
Ela manteve a carranca.
Seu irmão começou a rir.
– Daphne! – Era a voz de Simon. Bem em seu ouvido.
Ela girou nos calcanhares.
A risada de Colin ficou mais alta.
– Você realmente devia acreditar mais no seu irmão preferido, Daff querida.
– Ele é seu irmão preferido? – perguntou Simon, com uma sobrancelha erguida e ar de descrença.
– Só porque Gregory pôs um sapo na minha cama ontem à noite – disparou Daphne – e Benedict nunca recuperou a posição desde que decapitou minha boneca preferida.
– Fico me perguntando o que Anthony fez para lhe ser negada até mesmo uma menção honrosa – murmurou Colin.
– Você não estava indo a outro lugar? – indagou Daphne incisivamente.
Colin deu de ombros.
– Na verdade, não.
– Você não acabou de me dizer que prometeu uma dança a Prudence Featherington? – insistiu ela por entre os dentes.
– Nossa, não! Você deve ter ouvido mal.
– Talvez a mamãe esteja procurando por você, então. Aliás, tenho certeza de que a ouvi chamando seu nome.
Colin sorriu com o desconforto da irmã.
– Você não deveria ser tão óbvia – aconselhou ele num sussurro teatral, alto o bastante para que Simon escutasse. – Ele vai descobrir que você gosta dele.
O corpo inteiro do duque estremeceu com uma alegria incontida.
– Não é a companhia dele que estou tentando garantir – disse Daphne acidamente. – É a sua que estou tentando evitar.
Colin levou a mão ao coração.
– Assim você me magoa, Daff. – Virou-se para Simon. – Ah, como ela me magoa...
– Você está desperdiçando sua vocação, meu rapaz – comentou Simon alegremente. – Devia ser ator.
– Observação interessante – respondeu ele –, mas isso com certeza iria arruinar o humor de minha mãe. – Seus olhos se iluminaram. – Ótima ideia! E justamente quando a festa estava começando a car chata. Boa noite aos dois. – Fez uma reverência elegante e se afastou.
Daphne e Simon permaneceram em silêncio enquanto o irmão dela desaparecia no meio dos convidados do baile.
– O próximo grito que você ouvir – disse ela com suavidade – certamente será de minha mãe.
– E o barulho será do corpo dela desmaiado caindo no chão?
Daphne assentiu, com um sorriso hesitante nos lábios.
– Evidente que sim. – Ficou um instante em silêncio e então disse: – Eu não esperava que você viesse hoje.
Ele deu de ombros.
– Eu estava entediado.
– Estava entediado e resolveu vir até Hampstead Heath, para o baile anual de Lady Trowbridge? – Daphne levantou as sobrancelhas. O lugar cava a cerca de 12
quilômetros de Mayfair, um trajeto de mais de uma hora em uma noite como aquela, quando toda a sociedade entupia o caminho. – Perdoe-me se começo a duvidar de sua sanidade.
– Eu mesmo estou começando a duvidar dela – murmurou ele.
– Bem, de qualquer forma – disse ela com um suspiro contente –, co feliz que tenha vindo. A noite está horrível.
– É mesmo?
Ela assentiu.
– As pessoas não param de me atormentar com perguntas sobre você.
– Ora, ora, isto está ficando interessante.
– Interessante? A primeira pessoa a me interrogar foi minha mãe. Ela quer saber por que você nunca vai me visitar à tarde.
Simon franziu a testa.
– Você acha necessário? Pensei que minha atenção exclusiva nos eventos noturnos seria o suficiente para que todos acreditassem na farsa.
Daphne cou surpresa por conseguir conter um resmungo de frustração. Ele não precisava fazer o plano parecer um fardo tão grande.
– Sua atenção exclusiva – disse ela – teria sido su ciente para enganar qualquer um exceto minha mãe. E ela provavelmente não teria dito nada, só que o assunto foi mencionado no Whistledown.
– É mesmo? – perguntou Simon.
– É. Então é melhor você aparecer amanhã, ou todos vão começar a fazer suposições.
– Eu gostaria de saber quem são os espiões dessa mulher – resmungou ele. –
Então os contrataria para trabalhar para mim.
– Por que você precisaria de espiões?
– Por nada. Mas parece uma pena desperdiçar tanto talento.
Daphne duvidava que a ctícia Lady Whistledown concordasse que havia algum talento sendo desperdiçado, mas como não queria entrar numa discussão sobre os méritos e deméritos do jornal, ela apenas ignorou o comentário.
– E depois – continuou ela –, quando minha mãe terminou o interrogatório, foi a vez de todos os demais, e foi ainda pior.
– Nossa senhora!
Ela lançou um olhar insolente para ele.
– Apenas um dos inquiridores não era mulher, e embora todos tenham dito com veemência como se sentiam felizes por mim, estavam claramente tentando insinuar que nós não ficaríamos noivos.
– Você disse a todos eles que eu estou completamente apaixonado por você, imagino.
Daphne sentiu o coração bater mais forte.
– É claro – mentiu ela, dando um sorriso meigo. – A nal, tenho uma reputação a zelar.
Simon riu.
– E então, quem foi o único homem a fazer perguntas?
Daphne fez uma careta.
– Na verdade, era outro duque. Um velho bizarro que disse que foi amigo do seu pai.
O rosto de Simon de repente ficou tenso.
Ela apenas deu de ombros, sem perceber a mudança na expressão dele.
– Ele não parou de falar sobre como seu pai era um bom homem. – Deu uma risadinha ao tentar imitar a voz do velho. – “Não queremos um duque incompetente desonrando o título, a nal.” Eu não fazia ideia de que vocês, duques, se interessavam tanto pela vida uns dos outros.
Simon ficou em silêncio.
Daphne fez uma expressão pensativa.
– Sabe, acho que eu nunca ouvi você falar do seu pai.
– Isso porque eu não quero falar dele – respondeu Simon asperamente.
Ela piscou, preocupada.
– Algum problema?
– Absolutamente nenhum – afirmou ele, com a voz ríspida.
– Ah. – Ela se pegou mordendo o lábio inferior e se obrigou a parar. – Não vou mais falar sobre isso, então.
– Eu disse que não há problema nenhum.
Daphne manteve a expressão impassível.
– Está bem.
Houve um longo e desconfortável silêncio. Ela cou mexendo, sem graça, na saia do vestido antes de finalmente comentar:
– Lindas as flores que Lady Trowbridge usou na decoração, não acha?
Simon acompanhou o movimento da mão dela na direção de um arranjo de botões cor-de-rosa e brancos.
– Acho.
– Será que ela mesma as cultiva?
– Não faço ideia.
Mais um silêncio constrangedor.
– É muito difícil cultivar rosas.
Dessa vez a resposta foi apenas um grunhido.
Daphne pigarreou e então, como ele nem sequer olhou para ela, perguntou:
– Você provou a limonada?
– Não gosto de limonada.
– Bem, eu gosto – reagiu ela, decidindo que cansara daquilo. – E estou com sede.
Então, se me der licença, vou buscar um copo e deixá-lo sozinho com seu mau humor. Tenho certeza de que encontrará uma companhia mais agradável que a minha.
Ela se virou para ir embora, mas antes que pudesse dar o primeiro passo sentiu uma mão pesada em seu braço. Olhou para baixo, momentaneamente hipnotizada pela visão da luva branca dele sobre a seda cor de pêssego de seu vestido. Ficou encarando a mão de Simon, quase esperando que ele a movesse em direção à pele nua de seu cotovelo.
Mas é claro que ele não agiria assim. Ele só fazia esse tipo de coisa em seus sonhos.
– Daphne, por favor – pediu ele –, não vá.
Ele falou em voz baixa e com uma intensidade que a fez estremecer.
Ela se virou, e assim que seus olhos se encontraram com os dele, o duque continuou:
– Por favor, aceite minhas desculpas.
Ela assentiu.
Mas ele claramente sentiu a necessidade de se explicar.
– Eu não... – Simon parou e tossiu baixinho na mão. – Eu não me dava bem com meu pai. Eu... eu não gosto de falar dele.
Daphne o encarou, fascinada. Nunca o vira tão sem palavras.
Ele bufou, irritado. Era estranho, pensou Daphne, porque ele parecia estar irritado consigo mesmo.
– Quando você fala sobre ele... – Simon balançou a cabeça, como se estivesse tentando dizer o que queria de outra forma. – O assunto ca na minha cabeça e eu não consigo parar de pensar nele. E... e... e isso me deixa muito irritado.
– Eu sinto muito – lamentou-se Daphne, sabendo que devia estar demonstrando a própria confusão. Achou que devia falar mais alguma coisa, mas não sabia o quê.
– Não com você – completou ele com rapidez e, ao focar os olhos azuis nela, alguma coisa neles pareceu clarear. O rosto de Simon também pareceu car relaxado, principalmente as linhas tensas que haviam se formado ao redor da boca.
Ele engoliu em seco. – Fico irritado comigo mesmo.
– E aparentemente com seu pai também – observou ela baixinho.
Ele não respondeu. Ela chegou à conclusão de que não esperava que ele respondesse. A mão do duque ainda estava em seu braço, e ela a cobriu com a sua.
– Gostaria de tomar um pouco de ar fresco? – perguntou ela com delicadeza. –
Parece estar precisando.
Ele assentiu.
– É melhor você car aqui. Anthony é capaz de arrancar minha cabeça se eu levá-la ao terraço.
– Por mim, Anthony pode fazer o que quiser. De qualquer forma, estou cansada da vigilância constante dele.
– Ele está apenas tentando ser um bom irmão para você.
Ela entreabriu os lábios, consternada.
– De que lado você está, afinal?
Ignorando habilmente a pergunta de Daphne, Simon disse:
– Então está bem. Mas apenas um passeio rápido. Posso enfrentar Anthony, mas se ele juntar todos os seus irmãos, sou um homem morto.
Havia uma porta que levava ao terraço a alguns metros. Daphne a indicou com a cabeça e Simon posicionou a mão em seu cotovelo.
– Deve haver vários casais no terraço neste momento – comentou ela. – Ele não terá do que reclamar.
Mas, antes que conseguissem sair, ouviram uma voz masculina atrás de si:
– Hastings!
Simon parou e se virou de imediato, percebendo com irritação que havia se acostumado a atender pelo nome do pai. Em pouco tempo, estaria considerando aquele seu próprio nome.
De algum modo, a ideia o deixou incomodado.
Um senhor apoiado numa bengala foi na direção deles.
– Esse é o duque de quem falei – informou Daphne. – De Middlethorpe, acho.
Simon assentiu secamente.
– Hastings! – repetiu o velho, dando tapinhas no braço dele. – Faz muito tempo que quero conhecê-lo. Sou o duque de Middlethorpe. Seu pai era um bom amigo.
Simon apenas balançou a cabeça de novo, num movimento de precisão quase militar.
– Ele sentiu muito sua falta. Quando você estava viajando.
Simon começou a ser tomado pela fúria, um sentimento que fez sua língua inchar e deixou seu rosto rígido e tenso. Ele soube, sem sombra de dúvida, que se tentasse falar soaria exatamente como o menino de 8 anos que tinha sido.
E não iria passar tamanha vergonha na frente de Daphne de jeito nenhum.
De alguma forma – ele jamais saberia como, mas talvez porque nunca houvesse tido muita dificuldade com vogais além da palavra “eu” –, ele conseguiu dizer:
– Ah, é?
Ficou satisfeito por sua voz ter saído clara e condescendente.
Mas, se o velho percebeu o rancor em seu tom, não deu a entender.
– Eu estava com ele na hora de sua morte – prosseguiu Middlethorpe.
Simon não respondeu.
Daphne – graças a Deus – se intrometeu na conversa com um solidário “Minha nossa!”.
– Ele me pediu que lhe entregasse algumas cartas. Tenho várias na minha casa.
– Pode queimá-las.
Daphne soltou um arquejo e agarrou Middlethorpe pelo braço.
– Ah, não, não faça isso. Ele pode não querer lê-las agora, mas com certeza mudará de ideia no futuro.
Simon a fuzilou com os olhos antes de se dirigir novamente a Middlethorpe.
– Eu disse para queimá-las.
– Eu... hã... – Middlethorpe parecia desesperadamente confuso. Devia saber que os dois não se davam bem, mas era óbvio que o nado duque não havia lhe revelado quão profundas eram as diferenças entre eles. O velho duque olhou para Daphne, percebendo uma possível aliada, e disse: – Além das cartas, havia coisas que ele queria que eu falasse ao filho. Eu poderia fazer isso agora.
Mas Simon já havia soltado o braço de Daphne e ido para o terraço.
– Lamento muito – disse Daphne a Middlethorpe, sentindo-se na obrigação de se desculpar pelo péssimo comportamento de Simon. – Tenho certeza de que ele não quis ser grosseiro.
A expressão de Middlethorpe deixou claro que ele sabia que isso não era verdade.
Mas Daphne insistiu:
– Ele é um pouco sensível em relação ao pai.
O velho assentiu.
– O duque me avisou que ele reagiria assim. Mas falou isso rindo e depois fez uma piada sobre o orgulho dos Bassets. Confesso que não achei que ele estivesse realmente falando sério.
Daphne olhou, nervosa, para o terraço.
– Parece que estava, afinal – murmurou ela. – É melhor eu ir falar com ele.
Middlethorpe assentiu.
– Por favor, não queime as cartas – repetiu ela.
– Eu jamais faria isso. Mas...
Ela já tinha dado um passo em direção ao terraço mas voltou, apreensiva com o tom de voz hesitante do velho.
– O quê? – perguntou.
– Não estou bem de saúde – disse Middlethorpe. – Eu... o médico diz que a qualquer momento eu posso... Você permite que eu lhe confie a guarda das cartas?
Daphne encarou o duque com um misto de perplexidade e pavor. Perplexidade por não acreditar que ele entregaria correspondências tão pessoais a uma jovem que mal conhecia. Pavor porque sabia que, se as aceitasse, Simon poderia nunca mais perdoá-la.
– Não sei... – respondeu ela em um tom de voz vacilante. – Não estou certa de ser a pessoa mais indicada para isso.
Os velhos olhos de Middlethorpe se estreitaram com um ar de sabedoria.
– Acho que não existe ninguém melhor – comentou ele baixinho. – E acredito que saberá quando chegar a hora de mostrar as cartas a ele. Posso pedir que sejam entregues a você?
Ela assentiu em silêncio. Não sabia o que mais fazer.
Middlethorpe levantou a bengala e a apontou para o terraço.
– É melhor ir falar com ele.
Daphne encarou-o, balançou a cabeça e saiu apressadamente. O terraço estava iluminado apenas por alguns candeeiros na parede, de modo que só com o reforço da luz da lua ela pôde localizar Simon no canto. Ele parecia tenso e irritado, com os braços cruzados à frente do corpo. Estava de frente para o interminável gramado da casa, mas Daphne duvidava que ele estivesse vendo qualquer coisa além da própria raiva.
Ela se aproximou dele devagar, notando que o ambiente estava bem fresco, ao contrário do salão lotado e abafado. Ouviu alguns murmúrios que indicavam que eles não estavam sozinhos, mas Daphne não conseguiu ver mais ninguém por causa da iluminação fraca. Os outros convidados claramente haviam escolhido se isolar nos cantos escuros. Ou talvez tivessem descido a escada que levava ao jardim e estivessem sentados nos bancos abaixo.
Enquanto se dirigia ao lugar onde estava Simon, pensou em dizer algo como
“Você foi muito grosseiro com o duque” ou “Por que tem tanta raiva do seu pai?”, mas acabou chegando à conclusão de que não era o momento de se intrometer nos sentimentos dele. Assim, quando chegou a seu lado, apenas se apoiou na balaustrada e disse:
– Queria poder ver as estrelas.
Ele olhou para ela, primeiro surpreso e depois com curiosidade.
– Nunca conseguimos vê-las em Londres – continuou ela, mantendo o tom de voz propositalmente baixo. – Ou as luzes são brilhantes demais ou há muita neblina. Ou então o ar está muito poluído para que se consiga ver através dele. – Deu de ombros e olhou para o céu, que estava encoberto. – Estava torcendo para conseguir vê-las aqui em Hampstead Heath. Mas, infelizmente, as nuvens não estão cooperando.
Houve um longo momento de silêncio. Então Simon pigarreou e indagou:
– Você sabia que as estrelas são muito diferentes no hemisfério sul?
Daphne não havia percebido quanto estava tensa até sentir todo o seu corpo relaxar com a pergunta dele. Simon estava claramente tentando recuperar a descontração anterior, e ela cou feliz de permitir que isso acontecesse. Olhou para ele intrigada e falou:
– Sério?
– Sério. Pode pesquisar em qualquer livro de astronomia.
– Hum.
– O interessante – prosseguiu ele, com a voz mais leve – é que, mesmo que você não seja um estudioso de astronomia, e eu não sou...
– E eu também não, obviamente – interrompeu ela com um sorriso autodepreciativo.
Ele deu um tapinha na mão dela e sorriu, e Daphne notou, aliviada, que a felicidade tinha voltado aos olhos dele. Então seu alívio se transformou em algo ainda melhor: alegria. Porque havia sido ela quem expulsara as sombras dos olhos dele. Percebeu que queria fazer isso para sempre.
Se ao menos ele permitisse...
– ... é capaz de notar a diferença – completou ele. – É isso que é estranho. Eu nunca me preocupei em aprender sobre as constelações. E, apesar disso, quando estava na África, certa vez olhei para o céu e a noite estava muito clara. Nunca vi uma noite como aquela.
Daphne o encarou, fascinada.
– Quando olhei para o céu – continuou Simon, balançando a cabeça, espantado
–, ele parecia estar errado.
– Como um céu poderia estar errado?
Ele deu de ombros.
– Simplesmente dava essa impressão. As estrelas pareciam fora de lugar.
– Acho que eu deveria querer ver o céu do hemisfério sul – brincou Daphne. – Se eu fosse exótica e intensa, o tipo de mulher sobre a qual os homens escrevem poesias, imagino que eu iria gostar de viajar.
– Você é o tipo de mulher sobre a qual os homens escrevem poesias – lembrou Simon inclinando a cabeça para o lado de modo ligeiramente sarcástico. – Ainda que fosse poesia ruim.
Daphne riu.
– Ora, não seja implicante. Foi comovente. Meu primeiro dia com seis visitas e Neville Binsby escreveu mesmo uma poesia.
– Sete visitas – corrigiu ele –, incluindo a minha.
– Isso. Mas você não conta, na verdade.
– Assim você me magoa – provocou ele, imitando Colin. – Ah, como magoa...
– Talvez você também devesse pensar em seguir a carreira de ator. Mas o que eu ia dizer era que, sendo uma entediante moça inglesa, não desejo ir a lugar nenhum.
Sou feliz aqui.
Simon balançou a cabeça, com uma luz estranha e eletrizante brilhando em seus olhos.
– Você não é entediante. E – a voz dele se transformou num sussurro cheio de emoção – gosto de saber que é feliz. Não conheço muitas pessoas realmente felizes.
Daphne olhou para Simon e percebeu que ele havia se aproximado dela. De certa forma, duvidava que ele próprio tivesse se dado conta disso, mas o corpo dele estava oscilando na direção do dela. Daphne achava quase impossível desviar os olhos dos dele.
– Simon? – murmurou.
– Tem outras pessoas aqui – disse ele, com a voz estranhamente abafada.
Daphne virou a cabeça para os cantos do terraço. As conversas em voz baixa que ela escutara antes haviam desaparecido, mas isso podia signi car apenas que as pessoas os estavam bisbilhotando.
Diante dela, o jardim convidava a um passeio. Se a festa fosse em Londres, não haveria aonde ir além do terraço, mas Lady Trowbridge se orgulhava de ser diferente, por isso sempre realizava seu baile anual em sua segunda residência, em Hampstead Heath. Não era distante de Mayfair, mas poderia muito bem ser em outro mundo. Casas elegantes pontuavam amplas áreas verdes e no jardim da an triã da noite havia árvores e ores, arbustos e cercas vivas – cantos escuros em que um casal poderia se perder.
Daphne se sentiu dominada por uma sensação louca e irrefreável.
– Vamos dar uma volta pelo jardim – convidou ela baixinho.
– Não podemos.
– Nós precisamos.
– Não podemos.
O desespero na voz de Simon lhe disse tudo o que ela precisava saber. Ele a queria. Desejava. Estava louco por ela.
Daphne sentiu seu coração cantar e bater descontroladamente.
E pensou... e se ela o beijasse? E se o levasse para o jardim, levantasse a cabeça e sentisse os lábios dele tocarem os seus? Será que ele perceberia quanto ela o amava?
Quanto poderia vir a amá-la? Quanto ela poderia fazê-lo feliz?
Se isso acontecesse, talvez ele parasse de falar sobre sua determinação em não se casar.
– Eu vou – anunciou ela. – Você pode vir, se quiser.
Enquanto se afastava – lentamente, para que ele pudesse alcançá-la –, ela o ouviu resmungar um xingamento sincero e logo escutou seus passos encurtando a distância entre os dois.
– Daphne, isto é loucura – disse Simon, mas a rouquidão em sua voz demonstrou que ele estava tentando convencer mais a si mesmo do que a ela.
Ela não respondeu, apenas seguiu em frente.
– Pelo amor de Deus, mulher, quer me ouvir? – Segurou o pulso dela com força, fazendo-a girar. – Prometi ao seu irmão – disse ele desesperadamente. – Fiz uma promessa!
Ela deu o sorriso de uma mulher que sabe que é desejada.
– Então vá embora.
– Você sabe que eu não posso. Não teria coragem de deixá-la desprotegida no jardim. Alguém seria capaz de se aproveitar de você.
Daphne deu de ombros com delicadeza e tentou soltar o pulso da mão dele.
Mas os dedos do duque apenas o apertaram ainda mais.