O Duque e Eu
Capítulo 10
Assim, embora ela soubesse que essa não era a intenção dele, deixou-se ir lentamente em sua direção, até estarem a poucos centímetros um do outro.
A respiração de Simon ficou ofegante.
– Não faça isso, Daphne.
Ela tentou dizer algo bem-humorado. Algo sedutor. Mas sua ousadia acabou no último momento. Ela nunca fora beijada, e agora que o havia praticamente convidado a ser o primeiro, não sabia o que fazer.
Os dedos dele se afrouxaram um pouco no pulso dela, mas continuaram segurando, enquanto ele a puxava para junto de si e em direção a uma cerca viva alta e muito bem podada. Então sussurrou seu nome e tocou em seu rosto.
Os olhos dela se fecharam e os lábios se entreabriram.
E, no fim, foi inevitável.
CA P Í T U L O 1 0
Muitas mulheres já foram arruinadas por um único beijo.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
14 DE MAIO DE 1813
Simon não tinha certeza do momento em que soube que iria beijá-la. Provavelmente foi algo que ele nunca soube, mas apenas sentiu.
Até aquele último minuto, havia conseguido convencer a si mesmo de que a estava levando para trás da cerca viva a m de repreendê-la, censurá-la pelo comportamento descuidado que colocaria os dois em apuros.
Mas então algo aconteceu. Ou talvez estivesse acontecendo o tempo todo e ele simplesmente tivesse tentado ao máximo não perceber. O olhar dela mudou. Quase cintilou. E ela abriu a boca – muito pouco, o su ciente apenas para respirar, mas foi o bastante para que Simon não conseguisse desviar os olhos dela.
A mão dele subiu pelo braço de Daphne, por cima do cetim claro da luva, passando pela pele nua e nalmente além da frágil seda da manga de seu vestido.
Seguiu até as costas dela, puxando-a para mais perto, diminuindo a distância entre os dois. Ele a queria mais próxima. Queria-a em volta, em cima e embaixo dele.
Desejava-a com tanta intensidade que isso o assustava.
Simon a encaixou em seu corpo, passando os braços a seu redor. Ele podia sentir todo o corpo dela, cada centímetro. Ela era bem mais baixa que ele, de modo que seus seios se moldaram abaixo das costelas dele e a coxa de Simon encostou...
Ele estremeceu de desejo.
Sua coxa avançou entre as pernas de Daphne e ele sentiu, nos músculos rmes, o calor que emanava da pele dela. Simon gemeu, um som primitivo que era um misto de necessidade e frustração. Ele não poderia tê-la naquela noite – nunca poderia tê-la
– e precisava fazer aquele toque durar uma vida inteira.
A seda do vestido dela era macia e delicada ao toque dos dedos dele, e à medida que Simon passava as mãos pelas costas de Daphne, podia sentir cada curva elegante de seu corpo.
E então, de alguma maneira – até o dia de sua morte, ele nunca saberia como conseguira –, ele se afastou dela. Apenas um centímetro, mas foi o suficiente para que o ar frio da noite passasse por entre seus corpos.
– Não! – protestou ela, e ele se perguntou se Daphne tinha alguma ideia do
convite que fizera com essa simples palavra.
As mãos dele envolveram o rosto dela, segurando rme. Estava escuro demais para ver as nuances daquele rosto inesquecível, mas Simon sabia que os lábios eram suaves e rosados, com um toque de pêssego nos cantos. Sabia que os olhos tinham vários tons de castanho, com aquele único e encantador círculo verde desa ando-o a chegar mais perto para tentar ver se ele era mesmo real ou se era obra de sua imaginação.
Mas o resto – a sensação, o gosto dela –, podia apenas imaginar.
E, por Deus, como ele imaginava. Apesar de seu comportamento irreprensível e de todas as promessas feitas a Anthony, ele ardia de desejo por ela. Quando a via do outro lado de um salão lotado, sentia a pele queimar. Quando a via em seus sonhos, ficava em chamas.
Agora que a tinha em seus braços, com a respiração rápida e ofegante e com os olhos vidrados de uma necessidade que ela não tinha como compreender, ele achava que poderia explodir.
Assim, beijá-la se tornou uma questão de autopreservação. Era simples: se não zesse isso, se não a possuísse, ele morreria. Parecia melodramático, mas naquele instante ele poderia jurar que era verdade. O desejo que se enroscava em suas entranhas acabaria fazendo-o sucumbir.
Era dessa forma sôfrega que ele a desejava.
Quando seus lábios nalmente cobriram os dela, ele não foi gentil. Não agiu com violência, mas sua pulsação estava irregular demais, urgente demais, e seu beijo foi o de um amante ávido, não o de um pretendente delicado.
Ele a teria forçado a entreabrir os lábios, mas Daphne também estava dominada pela paixão, e, quando a língua de Simon tentou abrir caminho, não encontrou resistência.
– Ah, Daphne – gemeu ele, com as mãos avançando pela curva suave das nádegas dela, puxando-a mais para perto, querendo que ela sentisse o latejar de desejo em sua virilha. – Eu nunca pensei... nunca imaginei...
Mas era mentira. Ele havia imaginado. Em detalhes vívidos. Mas não era nada perto da realidade.
Cada toque, cada movimento fazia com que ele a quisesse ainda mais, e conforme os segundos passavam Simon sentia o corpo brigando com a mente pelo controle de seus atos. Não importava mais o que estava certo, o que era adequado.
Tudo o que importava é que ela estava ali, em seus braços.
E que também o queria.
Suas mãos a agarravam e sua boca era insaciável.
A mão enluvada de Daphne percorreu de forma hesitante suas costas e repousou suavemente em sua nuca. Simon sentiu a pele formigar quando ela o tocou.
E não parou por aí. Os lábios dele se afastaram dos dela e desceram por seu pescoço até a cavidade logo acima da clavícula. Ela gemia a cada toque, o que
acendia ainda mais a paixão dele.
Com as mãos trêmulas, ele tocou o decote delicado do vestido dela. Sabia que não precisaria de mais do que um leve puxão para fazer com que a seda suave descesse até a elevação dos seios dela.
Era uma imagem que não tinha direito de ver, um beijo que não merecia dar, mas ele não conseguia se conter.
Deu a Daphne a oportunidade de fazê-lo parar. Seus movimentos eram de uma lentidão agonizante, e ele parou por um segundo antes de tirar a roupa dela, para lhe dar uma última chance de dizer não. Mas, em vez demonstrar o assombro de uma virgem, ela arqueou as costas e soltou um suspiro suave e absolutamente excitante.
Simon estava arruinado.
Ele deixou o tecido do vestido cair e num momento de desejo atordoante, apenas olhou para ela. E então, enquanto sua boca descia em direção à dela para tomá-la, ele ouviu...
– Seu canalha!
Quando reconheceu aquela voz, Daphne gritou e deu um salto para trás.
– Ah, meu Deus – arquejou ela. – Anthony!
O irmão dela se encontrava a apenas 3 metros e se aproximando rapidamente.
Estava com a testa franzida numa expressão de fúria absoluta e, ao se jogar sobre Simon, soltou um grito primitivo diferente de tudo o que Daphne já ouvira na vida.
Mal parecia humano.
Ela quase não teve tempo de se cobrir antes que o corpo de Anthony se chocasse contra o de Simon com tanta força que ela também foi derrubada no chão pelo braço descontrolado de um dos dois.
– Vou matar você, seu maldito... – O xingamento colérico de Anthony se perdeu quando Simon o girou, tirando-lhe o fôlego.
– Anthony, não! Parem! – gritou Daphne, ainda segurando o corpete do vestido, apesar de já o ter puxado para cima e não haver mais o risco de ele cair.
Porém Anthony estava possuído. Ele esmurrou Simon, com a raiva transparecendo no rosto, nos punhos, nos grunhidos furiosos que saíam de sua boca.
E quanto a Simon... Ele estava apenas se defendendo.
Daphne, que assistia à cena imóvel, sentindo-se uma idiota indefesa, de repente se deu conta de que precisava intervir. Caso contrário, seu irmão mataria Simon ali mesmo, no jardim de Lady Trowbridge. Abaixou-se para tentar afastar Anthony do homem que amava, mas nesse instante os dois rolaram pelo chão e acabaram atingindo-a violentamente, fazendo-a se estatelar na cerca viva.
– Aaaaaaiiiiiiii! – berrou ela, sentindo dores em mais partes do corpo do que imaginara possível.
Seu grito deve ter soado mais sofrido do que ela pensara, porque os dois homens ficaram imóveis no mesmo instante.
– Ah, meu Deus! – Simon, que estava em cima de Anthony quando Daphne caiu,
correu para ajudá-la. – Daphne! Você está bem?
Ela apenas gemeu, tentando não se mexer. Os espinhos cortavam sua pele e cada movimento que fazia apenas aumentava os arranhões.
– Acho que ela está ferida – disse Simon a Anthony, com a voz cheia de preocupação. – Precisamos levantá-la de uma vez só. Se não, é provável que ela fique ainda mais emaranhada.
Anthony assentiu de modo sucinto e distante, superando por um momento a fúria contra Simon. Daphne estava sofrendo e isso era mais urgente que tudo.
– Tente car parada, Daff – sussurrou Simon, tentando tranquilizá-la. – Vou passar os braços a seu redor. Então vou levantá-la e tirá-la daí. Entendeu?
Ela balançou a cabeça.
– Você vai se arranhar todo.
– Minhas mangas são compridas. Não se preocupe comigo.
– Deixe que eu faço isso – intrometeu-se Anthony.
Mas Simon o ignorou. Enquanto ele cou parado, com ar indefeso, Simon en ou-se no arbusto enroscado da cerca viva e empurrou devagar as mãos enluvadas em meio à planta, tentando en ar os braços cobertos pelo casaco entre os galhos espinhosos e o corpo de Daphne. Quando chegou às mangas do vestido, no entanto, teve que parar para soltar os espinhos a ados da roupa dela. Vários deles haviam atravessado o tecido e estavam ferindo a pele de Daphne.
– Não vou conseguir libertá-la sem rasgar seu vestido.
Ela assentiu, num movimento tenso.
– Não tem importância – arquejou ela. – Já está estragado.
– Mas... – Embora tivesse tentado abaixar aquele mesmo vestido até a cintura de Daphne havia poucos minutos, Simon ainda se sentia desconfortável para dizer que o tecido provavelmente cairia do corpo dela depois que os galhos terminassem de rasgar a seda. Então, virou-se para Anthony e disse: – Ela vai precisar do seu casaco.
O rapaz já o estava tirando.
Simon virou-se novamente para Daphne e a encarou.
– Está pronta? – perguntou baixinho.
Ela assentiu. Talvez fosse a imaginação de Simon, mas ele teve a impressão de que ela parecia um pouco mais calma agora que estava olhando para o rosto dele.
Depois de se certi car de que não havia mais galhos presos à roupa de Daphne, ele en ou os braços ainda mais fundo no arbusto e ao redor do corpo dela, até conseguir prender uma mão à outra atrás de suas costas.
– Quando eu chegar no três – murmurou ele.
Ela assentiu novamente.
– Um... dois...
Então ele a puxou para cima e para fora da cerca viva, e os dois caíram com a força do impulso.
– Você disse “Quando eu chegar no três”! – berrou Daphne.
– Eu menti! Não queria que você ficasse tensa.
Daphne poderia continuar discutindo, mas nesse instante ela se deu conta de que estava com o vestido em farrapos e soltou um grito enquanto tentava se cobrir com os braços.
– Pegue – disse Anthony, jogando seu casaco para ela.
Ela aceitou com gratidão e se enrolou no belo traje do irmão. Ficava perfeito em Anthony, mas tão largo nela que era facilmente possível se enrolar nele.
– Você está bem? – perguntou ele com a voz áspera.
Ela fez que sim com a cabeça.
– Ótimo. – Em seguida, Anthony se virou para Simon. – Obrigado por tirá-la dali.
Simon não disse nada, mas assentiu.
Anthony olhou de novo para Daphne.
– Tem certeza de que está bem?
– Está ardendo um pouco – admitiu ela –, e com certeza vou ter que passar alguma pomada quando chegar em casa, mas nada que eu não possa suportar.
– Ótimo – repetiu ele.
Então fechou o punho e deu um soco em Simon, que estava desatento e foi derrubado no chão.
– Isto – cuspiu Anthony – é por desonrar minha irmã.
– Anthony! – gritou Daphne. – Pare com essa bobagem imediatamente! Ele não me desonrou.
Ele deu meia-volta e a fuzilou com o olhar, furioso.
– Eu vi os seus...
Daphne sentiu o estômago revirar e por um instante temeu que tivesse mesmo que se explicar. Por Deus, Anthony tinha visto os seus seios! O irmão dela! Não era natural.
– Ponha-se de pé – grunhiu Anthony –, para que eu possa bater em você de novo.
– Você está louco? – berrou Daphne, pulando entre ele e Simon, que ainda estava no chão, com a mão no olho ferido. – Anthony, eu juro que se bater nele de novo eu nunca vou perdoá-lo.
Ele a empurrou para o lado, e de uma forma nada gentil.
– O próximo soco – cuspiu ele – será por ter traído nossa amizade. Lentamente, e para horror de Daphne, Simon se levantou.
– Não! – protestou ela, voltando a se colocar entre eles.
– Saia da frente, Daphne – disse Simon baixinho. – Isto é entre nós dois.
– Não é, não! Caso ninguém se lembre, fui eu que... – Ela parou no meio da frase. Não fazia sentido falar nada. Eles não estavam ouvindo.
– Saia da frente, Daphne – exigiu Anthony, com a voz assustadoramente fria.
Ele nem sequer olhou para ela. Manteve o olhar xo por cima de sua cabeça,
diretamente nos olhos de Simon.
– Isto é ridículo! Não podemos conversar como adultos? – Ela cou alternando o olhar entre os dois homens. – Pelo amor de Deus! Simon! Veja como está seu olho!
Ela correu e pôs a mão sobre o olho dele, que já estava fechando de inchaço.
O duque continuou impassível, sem mexer um músculo sequer sob o toque preocupado de Daphne. Os dedos dela passaram sobre a pele inchada com suavidade, de um modo estranhamente reconfortante. Ele ainda a queria muito, embora nesse momento não fosse por desejo. Era muito bom tê-la a seu lado, honrada e pura.
E apesar disso ele estava prestes a fazer a coisa mais desonrada de sua vida.
Quando Anthony parasse de agredi-lo, saciasse sua fúria e nalmente exigisse que ele se casasse com sua irmã, Simon ia responder que não.
– Saia da frente, Daphne – disse ele, com a voz soando estranha aos próprios ouvidos.
– Não, eu...
– Saia! – rugiu ele.
Ela deu um salto para o lado, ficando de costas para a mesma cerca viva na qual caíra, olhando horrorizada para os dois.
Simon assentiu com irritação para Anthony.
– Vamos lá, me bata!
Ele pareceu perplexo com o pedido.
– Vamos lá! – repetiu Simon. – Termine logo com isso.
O punho de Anthony se abriu. Sem se mexer um milímetro, ele virou os olhos para Daphne.
– Eu não posso – murmurou. – Não com ele parado aí pedindo por isso.
Simon deu um passo à frente, aproximando o rosto de modo provocador.
– Bata agora! Me faça pagar!
– Você vai pagar no altar – respondeu Anthony.
Daphne soltou um arquejo, atraindo a atenção de Simon. Por que ela estava surpresa? Ela certamente compreendia as consequências, se não dos seus atos, da estupidez de serem flagrados.
– Eu não vou obrigá-lo a fazer isso – afirmou ela.
– Mas eu vou – decretou Anthony.
Simon balançou a cabeça.
– Até amanhã eu terei saído do país.
– Você vai embora? – perguntou Daphne.
O som magoado da voz dela cravou uma faca de culpa no coração de Simon.
– Se eu car, você será sempre marcada pela minha presença. O melhor a fazer é partir.
O lábio inferior dela tremia, e isso o deixou arrasado. Uma única palavra saiu da boca de Daphne. Foi o nome dele, cheio de um desejo que o deixou completamente
arrasado.
Simon levou um instante para conseguir dizer:
– Eu não posso me casar com você, Daff.
– Não pode ou não quer? – questionou Anthony.
– Os dois.
Anthony bateu nele de novo.
Simon caiu no chão, impressionado com a força da pancada em seu queixo. Mas ele merecia cada golpe, cada pontada de dor. Não queria olhar para Daphne, não queria ter que encará-la, mas ela se ajoelhou a seu lado e passou a mão suavemente por trás dos ombros dele para ajudá-lo a se levantar.
– Eu sinto muito, Daff – desculpou-se ele, obrigando-se a olhar para o rosto dela.
Sentiu-se estranho e tonto, e seu olho inchado não o deixava enxergar direito, mas ela o estava ajudando mesmo depois que ele a rejeitara, então lhe devia ao menos isso. –
Muito mesmo.
– Poupe suas palavras patéticas – vociferou Anthony. – Vejo você ao amanhecer.
– Não! – gritou Daphne.
Simon olhou para Anthony e assentiu de maneira quase imperceptível. Então se virou mais uma vez para Daphne e murmurou:
– Se p-pudesse ser alguém, Daff, seria você. Eu j-juro.
– Do que você está falando? – indagou ela, com a perplexidade transformando seus olhos escuros em órbitas frenéticas. – O que quer dizer?
Simon se limitou a fechar os olhos e suspirar. No dia seguinte, àquela mesma hora, ele estaria morto, porque certamente não iria levantar uma pistola contra Anthony e duvidava que estivesse calmo o bastante para atirar para cima.
Ainda assim – de uma forma bizarra e patética –, ele conseguiria o que sempre desejara da vida. Teria sua vingança final contra o pai.
Estranho, mas não era dessa forma que ele achara que fosse terminar. Sempre pensara que... bem, ele não sabia o que sempre pensara. A maioria dos homens evita tentar prever a própria morte. Mas não era daquela maneira que ele tinha imaginado que seria. Não com os olhos do melhor amigo ardendo de ódio. Não num campo deserto, ao amanhecer.
Não com desonra.
As mãos de Daphne, que o estavam acariciando tão gentilmente, apertaram seus ombros e o sacudiram. O movimento forçou seu olho a se abrir e ele viu que o rosto dela estava muito perto do dele – com uma expressão furiosa.
– Qual é o seu problema? – perguntou ela. Ele nunca tinha visto Daphne daquele jeito, com os olhos chispando de raiva, angústia e até um pouco de desespero. – Ele vai matar você! Vai se encontrar com você em algum campo deserto e matar você com um tiro. E você age como se quisesse isso!
– Eu n-não q-q-quero m-morrer – disse ele, com a mente e o corpo tão cansados que sequer se importava de estar gaguejando. – M-mas eu não posso me casar com
você.
Ela o soltou e se afastou. A expressão de dor e rejeição em seus olhos era quase impossível de suportar. Daphne parecia desamparada, enrolada no casaco enorme do irmão e com pedaços de galhos e folhas ainda presos nos cabelos escuros.
Quando abriu a boca para falar, parecia que as palavras estavam sendo arrancadas de sua alma.
– Eu... eu sempre soube que não era o tipo de mulher com quem os homens sonham, mas nunca imaginei que alguém fosse preferir morrer a se casar comigo.
– Não! – gritou Simon, esforçando-se para se levantar apesar das dores que tomavam conta de seu corpo. – Daphne, não é isso!
– Você já disse o bastante – decretou Anthony numa voz seca, metendo-se entre os dois.
Pôs as mãos nos ombros da irmã e a tirou de perto do homem que havia partido seu coração e possivelmente destruído sua reputação para sempre.
– Só mais uma coisa – pediu Simon, detestando a expressão patética de súplica que sabia que estava em seus olhos.
Mas precisava falar com Daphne. Tinha que garantir que ela compreendesse.
Porém Anthony fez que não com a cabeça.
– Espere. – Simon puxou a manga da camisa daquele homem que um dia já fora seu melhor amigo. – Não posso consertar isto. Eu z... – Ele soltou um suspiro irregular, tentando organizar os pensamentos. – Eu z uma promessa, Anthony.
Não posso me casar com ela. Não posso corrigir isso. Mas posso dizer a ela...
– Dizer o quê? – perguntou Anthony absolutamente desprovido de emoção.
Simon soltou a blusa dele e passou a mão pelos cabelos. Ele não poderia contar a Daphne. Ela não compreenderia. Ou, pior, compreenderia e então tudo o que sentiria por ele seria piedade. Finalmente, sabendo que Anthony estava olhando para ele com ar impaciente, disse:
– Talvez eu possa melhorar a situação ao menos um pouco.
Anthony não se moveu um centímetro sequer.
– Por favor. – Simon se perguntou se já havia pronunciado essas palavras com tanta intensidade.
Anthony continuou parado por vários segundos, então deu um passo para o lado.
– Obrigado – disse Simon num tom de voz solene, antes de se voltar para Daphne.
Ele pensou que ela talvez se recusasse a olhar para ele, insultando-o com seu desdém, mas, em vez disso, Daphne ergueu a cabeça, com os olhos desa adores e ousados. Nunca a admirou tanto.
– Daff – começou ele, ainda sem ter certeza do que dizer, mas esperando que as palavras de alguma forma saíssem corretas e de uma vez só. – Não... não é você. Se pudesse ser alguém, seria você. Mas casar comigo a destruiria. Eu jamais poderia
lhe dar o que você quer. Você morreria um pouco a cada dia, e assistir a isso me mataria.
– Você nunca poderia me magoar – murmurou ela.
Ele balançou a cabeça.
– Você precisa confiar em mim.
O olhar dela se tornou doce e sincero quando ela sussurrou:
– Eu confio. Mas me pergunto se você confia em mim.
As palavras dela foram como um soco no estômago, e Simon se sentiu impotente e vazio quando afirmou:
– Por favor, saiba que eu nunca quis magoar você.
Daphne permaneceu imóvel por tanto tempo que ele se perguntou se ela havia parado de respirar. Mas então, sem sequer olhar para o irmão, ela pediu:
– Quero ir para casa.
Anthony passou os braços ao redor dela e a virou para si, como se pudesse protegê-la simplesmente ao impedi-la de ver Simon.
– Eu levo você – disse ele em um tom tranquilizador. – Vou colocá-la na cama e lhe dar um pouco de conhaque.