O Duque e Eu
Capítulo 16
– Quem sabe outra hora – disse baixinho.
Tinha muito em que pensar naquele momento.
Sentindo que a patroa desejava privacidade, a Sra. Colson se levantou, fez uma reverência e deixou o aposento em silêncio.
CA P Í T U L O 1 6
O calor sufocante esta semana prejudicou os eventos sociais em Londres. Esta autora viu a Srta. Prudence Featherington desfalecer no baile Huxley, mas é impossível saber se sua perda temporária de equilíbrio se deveu ao calor ou à presença do Sr. Colin Bridgerton, que tem se divertido bastante desde o retorno de sua viagem pela Europa.
O calor fora de época também vitimou Lady Danbury, que deixou Londres há vários dias, alegando que seu gato (um animal de pelo longo e farto) não suportava o clima. Acredita-se que ela tenha se retirado para sua casa em Surrey.
É provável que o duque e a duquesa de Hastings não estejam sendo afetados pelas altas temperaturas. Eles estão na costa, onde a brisa do mar é sempre um prazer. Mas esta autora não pode ter certeza do bem-estar deles. Ao contrário da crença popular, ela não tem espiões em todas as casas importantes, principalmente fora de Londres!
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
2 DE JUNHO DE 1813
Simon re etiu que era curioso o fato de eles estarem casados havia menos de duas semanas e já terem estabelecido uma confortável rotina. Naquele momento mesmo, ele estava parado descalço na porta de seu quarto de vestir, soltando sua gravata e observando a esposa escovar os cabelos. No dia anterior, havia feito a mesma coisa.
Existia algo estranhamente reconfortante nisso.
Nas duas vezes, pensou, com uma ponta de malícia, estava planejando como seduzi-la e levá-la para a cama. No dia anterior, havia sido muito bem-sucedido.
Agora, largando a gravata no chão, deu um passo à frente. Seria bem-sucedido mais uma vez.
Simon parou ao lado de Daphne e se apoiou na beirada da penteadeira. Ela olhou para cima com uma expressão séria. Ele tocou a mão dela, enroscada no cabo da escova.
– Adoro ver você pentear os cabelos – disse ele –, mas gosto mais ainda de fazer isso com minhas próprias mãos.
Ela continuou olhando para ele. Lentamente, soltou a escova.
– Conseguiu resolver tudo o que precisava com o administrador? Você cou com
ele por um bom tempo.
– Sim, foi bastante entediante, mas necessário. E... – O rosto dele cou paralisado. – O que foi?
Ela desviou o olhar.
– Nada – respondeu, sem muita convicção.
Simon balançou a cabeça, um movimento dirigido mais a si mesmo que a Daphne, e então começou a pentear os cabelos dela. Por um instante, teve a impressão de que a esposa estivera olhando fixamente para sua boca.
Lutou para conter uma tremedeira. Durante toda a sua infância, as pessoas não paravam de olhar para sua boca, sempre com um fascínio horrorizado. Às vezes se esforçavam para o olharem nos olhos, mas em geral voltavam à boca, como se não pudessem acreditar que alguém que parecia tão normal não fosse capaz de emitir as palavras direito.
Mas ele devia estar imaginando coisas. Por que Daphne estaria olhando para sua boca?
Deslizou a escova cuidadosamente pelos cabelos dela, permitindo-se passar também os dedos pelas mechas sedosas.
– A conversa com a Sra. Colson foi boa? – perguntou ele.
Ela hesitou. Foi um movimento mínimo, muito bem disfarçado, mas Simon percebeu mesmo assim.
– Foi – disse Daphne. – Ela sabe de muitas coisas.
– Com certeza. Está aqui desde semp... O que você está olhando?
Daphne praticamente deu um salto na cadeira.
– Estou olhando para o espelho.
Era verdade, mas Simon ainda estava desconfiado. Os olhos dela estavam fixos e atentos, focados num único ponto.
– Como eu estava dizendo – continuou Daphne apressadamente –, tenho certeza que a Sra. Colson será muito útil para me colocar a par da administração de Clyvedon. É uma propriedade grande, e eu tenho muito a aprender.
– Não se esforce demais – aconselhou ele. – Não vamos passar muito tempo aqui.
– Não?
– Pensei em ter Londres como nossa residência principal. – Diante do olhar de surpresa dela, ele acrescentou: – Você estará mais perto de sua família, mesmo quando eles forem para o campo. Achei que gostaria disso.
– Sim, é claro – a rmou ela. – Sinto saudade deles. Nunca tinha cado tanto tempo longe. É claro que eu sempre soube que, quando me casasse, estaria começando minha própria família, e...
Houve um silêncio terrível.
– Bem, você é minha família agora – completou ela, com a voz soando um pouco triste.
Simon suspirou, interrompendo o que estava fazendo e mantendo a escova de prata parada nos cabelos escuros dela.
– Daphne – disse ele –, sua família será sempre sua família. Eu nunca poderei tomar o lugar deles.
– É verdade – concordou ela. Virou-se para encará-lo com olhos calorosos e sussurrou: – Mas você pode ser algo mais.
Nesse momento, Simon percebeu que todos os seus planos de seduzir a esposa seriam inúteis, porque era óbvio que ela pretendia seduzi-lo.
Daphne se levantou, deixando o roupão de seda escorregar pelos ombros. Por baixo, a camisola do conjunto revelava mais do que escondia. Simon colocou a mão no seio dela e viu que seus dedos contrastavam perfeitamente com o tecido verde da peça.
– Você gosta dessa cor, não é? – disse ele com a voz rouca.
Ela sorriu, fazendo-o perder o fôlego.
– Combina com os meus olhos – provocou ela. – Lembra?
Simon conseguiu sorrir, embora não soubesse como. Nunca imaginara ser possível abrir um sorriso quando se estava prestes a car sem oxigênio. Às vezes a necessidade de tocá-la era tão grande que olhar para ela doía.
Ele a puxou para mais perto. Precisava puxá-la para mais perto. Só não faria isso se tivesse ficado maluco.
– Você está dizendo – murmurou ele roçando a boca no pescoço dela – que comprou isto aqui só para mim?
– É claro – respondeu ela, recuperando a voz enquanto ele passava a língua em sua orelha. – Quem mais vai me ver assim?
– Ninguém – a rmou ele, segurando as costas dela e pressionando-a contra ele, para que sentisse sua excitação. – Ninguém. Nunca.
Daphne pareceu ligeiramente confusa pela repentina explosão de possessividade dele.
– Além disso – acrescentou ela –, faz parte do meu enxoval.
Simon gemeu.
– Adoro seu enxoval. Adoro. Já lhe disse isso?
– Não tão claramente – disse ela, soltando um arquejo. – Mas eu já havia imaginado.
– Mas gosto mais ainda – continuou ele, empurrando-a carinhosamente em direção à cama enquanto tirava a camisa – quando você está sem ele.
O que quer que Daphne quisesse dizer – e ele tinha certeza de que ela queria dizer alguma coisa, porque cou com a boca entreaberta de um modo encantador – cou no ar quando desabou sobre a cama.
Em um instante Simon estava em cima dela. Pôs as mãos nos dois lados de seu quadril e as deslizou para o alto, empurrando os braços dela acima da cabeça.
Depois, deu-lhes um apertão suave.
– Você é muito forte – comentou ele. – Mais forte do que a maioria das mulheres.
Daphne arqueou um pouco as sobrancelhas ao olhar para ele.
– Não quero saber da maioria das mulheres.
Sem querer, Simon riu. Então, com um movimento muito rápido, prendeu os pulsos de Daphne acima de sua cabeça.
– Mas não – continuou com a voz sedutora – tão forte como eu.
Ela soltou um arquejo de surpresa, um som que Simon considerou particularmente excitante, então ele segurou os dois pulsos dela com apenas uma das mãos, deixando a outra livre para percorrer o corpo dela.
– Você é perfeita – gemeu ele, levantando a camisola acima dos quadris dela.
– Pare – pediu ela, trêmula. – Você sabe que eu não sou perfeita.
– Eu sei? – Ele deu um sorriso malicioso enquanto passava a mão por baixo de uma das nádegas dela. – Acho que você está enganada, porque isto – ele lhe deu um apertão – é perfeito.
– Simon!
– E estes... – Ele subiu a mão e cobriu um dos seios dela, acariciando o mamilo através da seda. – Bem, não preciso lhe dizer o que acho deles.
– Você é louco.
– Posso até ser – concordou ele. – Mas tenho um gosto excelente. E você – ele abaixou a cabeça de repente e mordeu sua boca – é deliciosa.
Daphne riu, sem conseguir se conter.
Simon arqueou as sobrancelhas.
– Como ousa rir de mim?
– Não estou rindo de você – respondeu ela. – Pelo menos não com você prendendo meus dois braços acima da minha cabeça.
Simon começou a abrir as calças com a mão livre.
– Obviamente eu me casei com uma mulher de muito bom senso.
Daphne olhou para ele com orgulho e amor ao ver as palavras saírem sem esforço de seus lábios. Quem o ouvisse falar agora jamais imaginaria que ele tinha sido gago na infância.
Que homem notável era seu marido. Ter enfrentado tamanho obstáculo e vencido com a pura força de vontade... Ele devia ser o homem mais forte e disciplinado que ela conhecia.
– Estou muito feliz por ter casado com você – disse ela carinhosamente. – Tenho muito orgulho de você ser meu.
Simon parou, surpreendido pela repentina seriedade dela. Sua voz cou baixa e rouca.
– Também tenho orgulho de você ser minha. – Puxou as calças com força. – E
vou lhe mostrar quanto – gemeu ele – assim que conseguir tirar estas malditas calças.
Daphne sentiu uma risada se formar em sua garganta.
– Quem sabe se usar as duas mãos... – sugeriu.
Ele lançou-lhe um olhar que dizia “Está achando que eu sou idiota?”.
– Mas para isso eu teria que soltar você.
Ela inclinou a cabeça para o lado, tímida.
– E se eu prometer que não vou mexer os braços?
– Eu não acreditaria nisso nem por um momento.
O sorriso dela se tornou maliciosamente sugestivo.
– E se eu prometer que vou mexer os braços?
– Bem, isto parece interessante.
Simon saltou da cama de uma forma ao mesmo tempo graciosa e frenética e conseguiu car nu em menos de três segundos. Depois, pulou de volta para a cama e se deitou de lado, perto de Daphne.
– Onde nós estávamos mesmo?
Daphne riu novamente.
– Bem aqui, eu acho.
– Rá! – exclamou ele com uma expressão acusadora bastante cômica. – Você não estava prestando atenção. Nós estávamos – continuou, deslizando para cima dela, pressionando-a contra o colchão – bem aqui.
Os risos dela explodiram numa gargalhada.
– Ninguém nunca lhe disse para não rir de um homem quando ele está tentando seduzir você?
Se ainda havia alguma chance de Daphne parar de rir, agora ela se fora.
– Ah, Simon – arquejou ela –, eu o amo tanto...
Ele ficou absolutamente imóvel.
– O quê?
Daphne apenas sorriu e tocou no rosto dele. Ela o compreendia muito melhor agora. Depois de encarar uma rejeição tão grande quando criança, ele provavelmente não sabia que merecia ser amado. E talvez não soubesse ao certo como corresponder a esse sentimento. Mas ela podia esperar. Podia esperar para sempre por aquele homem.
– Não precisa dizer nada – sussurrou ela. – Apenas saiba que eu amo você.
Os olhos de Simon estavam eufóricos e abatidos ao mesmo tempo. Daphne se perguntou se alguém já tinha dito aquelas palavras para ele antes. Ele havia crescido sem uma família, sem o amor e o carinho que para ela eram tão naturais.
A voz dele, quando enfim conseguiu falar, saiu rouca e quase inaudível:
– D-Daphne, eu...
– Shhh – atalhou ela, pondo um dedo nos lábios dele. – Não diga nada. Espere até parecer certo.
Então ela se perguntou se suas palavras o tinham perturbado. Será que falar alguma vez parecia certo para ele?
– Só me beije – sussurrou Daphne apressadamente, ansiosa por deixar para trás
o que temia que tivesse sido um momento constrangedor. – Por favor, me beije.
E ele a obedeceu. Beijou-a com ferocidade, ardendo com toda a paixão e o desejo que uíam entre eles. Os lábios e as mãos de Simon não deixaram nada por tocar, beijar, apertar e acariciar até que a camisola dela estivesse atirada no chão e os lençóis e cobertores, retorcidos ao pé da cama.
Mas, ao contrário de todas as outras noites, ele não conseguiu tirá-la completamente de si em momento algum. Ela tinha descoberto muitas coisas nesse dia e nada, nem mesmo os anseios mais fortes de seu corpo, conseguia interromper o ritmo frenético de seus pensamentos. Daphne estava morrendo de desejo, cada fragmento de seu corpo levado ao limite da excitação, e ainda assim sua mente não parava.
Quando os olhos dele – tão azuis que cintilavam até mesmo à luz de velas –
cruzaram com os dela, Daphne se perguntou se toda aquela intensidade fora causada pelas emoções que Simon não sabia como expressar em palavras. Quando ele gemeu seu nome, ela não pôde evitar ouvir um minúsculo gaguejo. E quando ele afundou dentro dela, com a cabeça atirada tão para trás que era possível ver as veias de seu pescoço latejando, ela se perguntou por que ele parecia estar sentindo tanta dor.
Dor?
– Simon? – perguntou ela, hesitante, com a preocupação diminuindo um pouco o desejo. – Você está bem?
Ele assentiu, rangendo os dentes. Desabou em cima dela, ainda mexendo o quadril ritmadamente, e sussurrou em seu ouvido:
– Vou fazer você chegar lá.
Isso não seria nada difícil, Daphne pensou, recuperando o fôlego enquanto ele abocanhava a ponta de seu seio. Nunca era difícil. Ele parecia saber exatamente como tocá-la, quando se mexer e quando provocá-la cando parado. Os dedos dele deslizaram entre os dois corpos, fazendo a pele dela se arrepiar e seus quadris rebolarem na mesma cadência que os dele.
Daphne sentiu-se escorregando em direção àquele alheamento que já conhecia tão bem. E era maravilhoso...
– Por favor – implorou ele, passando a outra mão por baixo dela a m de pressioná-la ainda mais contra ele. – Eu preciso que você... Agora, Daphne, agora!
E ela obedeceu. O mundo explodiu a seu redor e seus olhos se fecharam com tanta força que ela viu pontos luminosos. Daphne ouviu uma música – ou talvez fosse apenas o som de sua própria voz quando ela chegou ao clímax, acrescentando uma melodia às fortes batidas de seu coração.
Com um gemido que pareceu ter vindo da alma, Simon saiu de dentro dela e menos de um segundo depois se derramou – como sempre fazia – sobre os lençóis na beirada da cama.
Depois que isso acontecia, em um instante ele se virava para ela e a abraçava.
Era um ritual de que Daphne havia aprendido a gostar. Ele a segurava apertado, de
costas para ele, e en ava o rosto em seus cabelos. E então, depois que a respiração dos dois voltava ao normal, eles caíam no sono.
Só que dessa vez foi diferente. Daphne estava estranhamente inquieta. Sentia o corpo exausto e saciado, mas algo estava errado. Alguma coisa no fundo de sua mente a cutucava, provocando o inconsciente.
Simon deitou-se ao lado dela, empurrando-a para o lado limpo da cama. Ele sempre fazia isso, usando seu corpo como barreira para que ela nunca se deitasse sobre a bagunça que havia feito. Era um gesto atencioso, na verdade, e...
Daphne arregalou os olhos. Quase perdeu o ar.
Não há nada que nasça sem que uma semente forte e saudável seja plantada.
Ela não havia pensado nas palavras da Sra. Colson quando ela as dissera naquela tarde. Estava muito concentrada na história da infância difícil de Simon, preocupada demais em descobrir como poderia dar-lhe amor su ciente para banir as lembranças ruins para sempre.
Daphne sentou-se abruptamente e as cobertas caíram até sua cintura. Com os dedos trêmulos, acendeu a vela que ficava em sua mesa de cabeceira.
Simon abriu um olho sonolento.
– O que houve?
Ela não disse nada, apenas olhou para o ponto molhado no outro lado da cama.
As sementes dele.
– Daff?
Ele lhe dissera que não podia ter filhos. Havia mentido para ela.
– Daphne, o que houve?
Ele se sentou, a preocupação transparecendo no rosto.
Será que aquilo também era uma mentira?
Ela apontou para a área úmida da cama.
– O que é aquilo? – perguntou ela, falando tão baixo que mal dava para escutar.
– O quê? – Os olhos dele seguiram o dedo dela e viram apenas os lençóis. – Do que você está falando?
– Por que você não pode ter filhos, Simon?
Ele fechou os olhos e não disse nada.
– Por quê, Simon? – Ela praticamente gritou.
– Os detalhes não são importantes, Daphne.
O tom de voz dele era suave, apaziguador, com apenas um toque de condescendência. Daphne sentiu algo se quebrar dentro dela.
– Saia daqui – ordenou.
Ele ficou boquiaberto.
– Este é o meu quarto.
– Então eu saio.
Ela desceu da cama furiosamente, enrolada em um dos lençóis.
Um instante depois, Simon estava atrás dela.
– Não ouse sair deste quarto – sibilou ele.
– Você mentiu para mim.
– Eu nunca...
– Você mentiu para mim! – gritou Daphne. – Nunca vou perdoá-lo por isso!
– Daphne...
– Você se aproveitou da minha ignorância. – Ela soltou um suspiro de descrença, do tipo que sai do fundo da garganta quando se está prestes a entrar em choque. –
Deve ter cado maravilhado quando percebeu que eu não sabia quase nada sobre relações conjugais.
– O nome disso é fazer amor, Daphne – disse ele.
– Não entre nós.
Simon cou perplexo com o rancor na voz dela. Tentou desesperadamente pensar em alguma forma de contornar a situação. Ainda não tinha ideia do que ela sabia, ou do que ela achava que sabia.
– Daphne – chamou ele, bem devagar, de modo a não deixar que as emoções o zessem perder a fala. – Talvez se você me disser exatamente o que a está perturbando...
– Ah, então nós vamos fazer este jogo, é? – Ela bufou com ironia. – Muito bem, deixe-me lhe contar uma história. Era uma vez uma...
A raiva penetrante na voz dela parecia uma faca perfurando seu coração.
– Daphne – repetiu ele, fechando os olhos e balançando a cabeça –, não faça isso.
– Era uma vez – voltou a dizer ela, mais alto desta vez – uma moça. Vamos chamá-la de Daphne.
Simon foi até a cômoda e pegou um roupão. Havia coisas que um homem não podia fazer nu.
– Daphne era muito, muito idiota.
– Daphne!
– Ah, muito bem então. – Ela balançou a mão no ar com desdém. – Ignorante, então. Ela era muito, muito ignorante.
Simon cruzou os braços.
– Daphne não sabia nada sobre o que acontecia entre um homem e uma mulher.
Não tinha ideia do que eles faziam, a não ser que faziam numa cama e que, em algum momento, o resultado seria um bebê.
– Já chega, Daphne.
O único sinal de que ela o havia escutado foi a fúria sombria e flamejante em seus olhos.
– Mas ela não sabia realmente como um bebê era feito, então, quando seu marido lhe disse que não podia ter filhos...
– Eu lhe disse isso antes de nos casarmos. Eu lhe dei a opção de desistir. Não se esqueça disso – falou Simon, irritado. – Não ouse se esquecer disso.
– Você me fez sentir pena de você!
– Ah, tudo o que um homem deseja ouvir... – zombou ele.
– Pelo amor de Deus, Simon – retrucou ela. – Você sabe que eu não me casei com você por pena.
– Então por quê?
– Porque eu o amava – respondeu ela, mas a acidez em sua voz tornou difícil acreditar nisso. – E porque eu não queria vê-lo morrer, o que você parecia estupidamente inclinado a fazer.
Como ainda não tinha uma resposta pronta, ele apenas bufou e olhou furioso para ela.
– Mas não tente virar a situação contra mim – continuou ela, irritada. – Não fui eu que menti. Você disse que não pode ter filhos, mas a verdade é que não quer.
Ele não disse nada, mas sabia que a resposta estava em seus olhos.
Daphne deu um passo em sua direção, com uma fúria que mal podia conter.
– Se você realmente não pudesse ter lhos, não importaria o lugar onde sua semente fosse despejada, não é? Você não caria tão ansioso todas as noites para garantir que ela terminasse em qualquer lugar que não dentro de mim.
– Você não sabe nada s-sobre isso, Daphne.
Ele falou baixo e em um tom furioso, gaguejando apenas levemente.
Ela cruzou os braços.
– Então me explique.
– Eu nunca vou ter filhos – sibilou ele. – Nunca. Você entendeu?
– Não.
Simon sentiu a raiva crescer dentro dele, revirando seu estômago, pressionando sua pele até ele achar que ia explodir. Não era raiva de Daphne, nem de si mesmo.
Era, como sempre, dirigida ao homem cuja presença – ou ausência – sempre conseguira ditar sua vida.
– Meu pai – disse ele, lutando desesperadamente para se controlar – não foi um homem amoroso.
Daphne o encarou.
– Eu sei sobre seu pai – afirmou ela.
Isso o pegou de surpresa.
– O que você sabe?
– Que ele magoou você. Que o rejeitou. – Alguma coisa tremeluziu nos olhos escuros dela... Não era exatamente pena, mas algo parecido. – Que ele achava que você era um idiota.
Simon sentiu o coração disparar. Não soube ao certo como conseguiu falar – ou respirar –, mas de alguma forma foi capaz de dizer:
– Então você sabe sobre...
– Sua gagueira? – completou ela.
Ele agradeceu em silêncio por isso. Ironicamente, “gagueira” era uma palavra que ele nunca conseguira dominar.
Ela deu de ombros.
– Ele era um imbecil.
Simon olhou para ela boquiaberto, sem conseguir compreender como ela podia descartar décadas de raiva com uma única declaração despreocupada.
– Você não entende – a rmou ele, balançando a cabeça. – Nem tem como entender. Não com uma família como a sua. A única coisa que importava para ele era o sangue. O sangue e o título. E como eu não nasci perfeito... Daphne, ele disse às pessoas que eu havia morrido!
Ela sentiu o sangue se esvair do rosto.
– Eu não sabia que tinha sido assim – sussurrou.
– Foi pior que isso – disparou Simon. – Eu mandei cartas para ele. Centenas de cartas, implorando que ele viesse me visitar. Ele não respondeu nem uma sequer.
– Simon...
– S-sabia que eu não consegui falar até os quatro anos? Não? Bom, mas é verdade. E quando ele me visitava, me sacudia e ameaçava me bater até eu falar.
Esse era o meu p-pai.
Daphne tentou ignorar que ele estava começando a tropeçar nas palavras. Tentou descartar a sensação de enjoo, a raiva que sentiu ao pensar na forma abominável como Simon fora tratado.
– Mas ele se foi – falou ela, com a voz trêmula. – Ele se foi e você está aqui.
– Ele disse que não conseguia sequer s-suportar olhar para mim. Tinha passado anos rezando por um herdeiro, não por um filho – continuou ele, levantando a voz perigosamente. – Um herdeiro. E p-para quê? Hastings acabaria nas mãos de um débil mental. Seu precioso ducado s-seria administrado por um idiota!
– Mas ele estava errado – sussurrou Daphne.
– Não interessa! – rugiu Simon. – Tudo o que importava para ele era o título. Ele nunca pensou um instante sequer em mim, em como eu devia me sentir, preso a uma b-boca que não f-funcionava!
Daphne recuou, desequilibrada diante de tanta raiva. Aquela era a fúria de décadas de ressentimento.
De repente, Simon deu um passo para a frente e pressionou o rosto contra o dela.
– Mas quer saber de uma coisa? – perguntou com uma voz cruel. – Eu vou rir por último. Ele achava que não poderia haver nada pior do que um débil mental herdar Hastings...
– Simon, você não...
– Você está ao menos ouvindo o que estou dizendo? – berrou ele.
Assustada, Daphne se afastou rapidamente, estendendo a mão em busca da maçaneta, caso tivesse que fugir.
– É claro que eu sei que não sou um idiota – cuspiu ele. – E no m acho que e-ele também sabia. Tenho certeza de que isso o reconfortou m-muito. Hastings estava a salvo. N-não importava que eu não estivesse mais sofrendo. Hastings... era só o que
importava.
Daphne se sentiu mal. Sabia o que viria a seguir.
Subitamente, Simon sorriu. Uma expressão cruel e desagradável, que ela nunca vira no rosto dele antes.
– Mas Hastings vai morrer comigo – concluiu ele. – Todos aqueles primos que ele temia que herdassem... – Deu de ombros e soltou uma risada amarga. – Todos tiveram lhas. Não é incrível? Talvez tenha sido por isso que meu p-pai de repente resolveu que eu não era tão idiota assim. Ele sabia que eu era sua única esperança.
– Ele sabia que estava errado – afirmou Daphne em voz baixa.
De repente, lembrou-se das cartas que o duque de Middlethorpe havia lhe entregado. As correspondências escritas pelo pai dele. Ela as deixara na casa de sua família, em Londres. No fundo, tinha sido melhor assim, já que isso signi cava que ela ainda não precisaria decidir o que fazer com elas.
– Não interessa – disse Simon com petulância. – Quando eu morrer, o título morrerá comigo. E eu não poderia ficar mais f-feliz.
Com isso, ele saiu em disparada, passando pelo quarto de vestir, já que Daphne estava bloqueando a porta.
Ela afundou numa cadeira, ainda enrolada no macio lençol de linho que havia arrancado da cama. O que podia fazer?