O Duque e Eu

Julia Quinn · Capítulo 18 de 27

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O Duque e Eu

Capítulo 17

Sentiu tremores se espalhando pelo corpo, uma sensação que não conseguia controlar. Então se deu conta de que estava chorando. Sem fazer som algum, sem sequer soluçar, ela estava chorando.

Por Deus, o que ela ia fazer?

CA P Í T U L O 1 7

Dizer que os homens podem ser teimosos como mulas seria um insulto às mulas.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,

2 DE JUNHO DE 1813

No m, Daphne fez a única coisa que sabia. Os Bridgertons sempre foram uma família barulhenta e agitada. Nenhum deles mantinha segredos nem guardava rancores.

Então ela tentou conversar com Simon. Argumentar com ele.

Na manhã seguinte (ela não fazia ideia de onde ele havia passado a noite; onde quer que tivesse sido, não fora na cama dos dois), ela o encontrou no escritório dele.

Era um ambiente escuro e masculino em todos os detalhes, provavelmente decorado pelo velho duque. Daphne cou surpresa que Simon se sentisse confortável naquele lugar. Ele detestava lembranças do pai.

Mas Simon claramente não estava desconfortável. Ela o viu sentado atrás da mesa, com os pés apoiados de forma insolente sobre o mata-borrão de couro que protegia a bela cerejeira do tampo da mesa. Segurava uma pedra muito bem polida, que revirava entre os dedos. Havia uma garrafa de uísque na mesinha ao lado.

Daphne teve a sensação de que a bebida tinha passado a noite toda ali.

Mas ele não havia consumido muito de seu conteúdo. Daphne cou grata por isso.

Como a porta estava entreaberta, ela não bateu. No entanto, não teve coragem suficiente para fazer mais do que enfiar a cabeça na sala.

Ele olhou para ela e levantou uma sobrancelha.

– Está ocupado? – perguntou Daphne.

Simon largou a pedra.

– Evidentemente, não.

Ela gesticulou em direção ao objeto.

– É de alguma de suas viagens?

– Do Caribe. Uma lembrança dos meus tempos na praia.

Daphne percebeu que ele falava com a dicção perfeita. Não havia nem sinal da gagueira que cara evidente na noite anterior. Ele estava calmo. Irritantemente calmo.

– As praias lá são muito diferentes das daqui? – perguntou ela.

Ele levantou uma sobrancelha de forma arrogante.

– É mais quente.

– Ah. Bem, eu imaginava.

Ele a encarou com um olhar penetrante e resoluto.

– Daphne, eu sei que você não veio até aqui para falar sobre os trópicos.

Ele tinha razão, é claro, mas aquela não ia ser uma conversa fácil, e Daphne não se achou tão covarde assim por querer adiá-la por alguns minutos.

Respirou fundo.

– Precisamos falar sobre o que aconteceu ontem à noite.

– Tenho certeza que você acha isso.

Ela conteve a vontade de se inclinar para a frente e desfazer a expressão afável do rosto dele com um tapa.

– Eu não acho isso. Eu sei disso.

Simon ficou em silêncio por um instante e depois disse:

– Sinto muito se você sente que eu a traí...

– Não é exatamente isso.

– ... mas você precisa lembrar que eu tentei não casar com você.

– Com certeza essa é uma ótima forma de tratar a questão – murmurou ela.

Ele falou como se estivesse dando uma palestra:

– Você sabe que minha intenção era jamais me casar.

– A questão não é essa, Simon.

– É exatamente essa. – Ele tirou as pernas de cima da mesa e as largou no chão violentamente, fazendo com que a cadeira, que estava apoiada apenas nas pernas de trás, batesse no chão com um estrondo. – Por que você acha que eu não queria casar de jeito nenhum? Era porque não queria ter uma esposa que acabaria ferindo por me negar a ter filhos.

– Você nunca pensou na sua esposa potencial – respondeu ela. – Sempre pensou só em si mesmo.

– Talvez – concordou ele –, mas quando você se tornou a esposa potencial, Daphne, tudo mudou.

– Obviamente, nada mudou – disse ela com amargura na voz.

Ele deu de ombros.

– Você sabe que tenho a mais alta estima por você. Nunca quis magoá-la.

– Está magoando agora – sussurrou ela.

Um lampejo de arrependimento passou pelos olhos dele, mas logo foi substituído por uma determinação de aço.

– Não sei se você lembra, mas eu me neguei a casar com você mesmo quando seu irmão exigiu. Mesmo – acrescentou ele enfaticamente – quando isso poderia significar minha própria morte.

Daphne não disse nada. Os dois sabiam que Simon teria morrido naquele duelo.

 

Não importava o que ela pensava sobre ele agora, quanto desprezava o ódio que o consumia – Simon era honrado demais para algum dia atirar em Anthony.

E Anthony valorizava demais a honra da irmã para ter mirado em qualquer coisa que não o coração de Simon.

– Eu z aquilo – disse Simon – porque tinha consciência de que nunca seria um bom marido para você. Eu sabia que você queria lhos. Você me dissera muitas vezes, e é claro que eu não a culpo por isso, porque você vem de uma família grande e amorosa.

– Você também poderia ter uma família assim.

Ele continuou como se não a tivesse escutado.

– Então, quando você interrompeu o duelo e implorou que eu a pedisse em casamento, eu a avisei. Falei que não teria filhos...

– Você disse que não podia ter lhos – interrompeu ela, com os olhos faiscando de raiva. – Existe uma grande diferença.

– Não para mim – decretou Simon friamente. – Eu não posso ter lhos. Minha alma não permite.

– Sei.

Alguma coisa murchou dentro de Daphne nesse momento, e ela cou com muito medo de que tivesse sido o coração. Não soube como argumentar diante do que ele falou. O ódio que Simon nutria pelo pai era claramente muito mais forte do que qualquer amor que pudesse vir a sentir por ela.

– Muito bem – disse ela com a voz seca. – Está bastante claro que este não é um assunto aberto a discussão para você.

Ele deu um único aceno de cabeça.

Ela deu outro em resposta.

– Bom dia, então.

E saiu da sala.

Simon cou sozinho a maior parte do dia. Não queria ver Daphne. Isso apenas o faria se sentir culpado. Não que ele tivesse algo por que se culpar, lembrou a si mesmo. Ele dissera antes do casamento que não podia ter lhos. Dera-lhe todas as oportunidades de desistir, e ela escolhera se casar com ele mesmo assim. Não a tinha forçado a fazer nada. Não era responsabilidade sua se ela havia interpretado mal suas palavras e acreditado que ele era fisicamente incapaz de gerar filhos.

Ainda assim, embora ele fosse atormentado por uma torturante sensação de culpa cada vez que pensava nela (o que queria dizer basicamente o dia todo) e sentisse o estômago revirar sempre que via o rosto magoado dela em sua mente (o que signi cava basicamente que ele passava o dia inteiro com o estômago

embrulhado), ele achava que um grande peso tinha sido tirado de seus ombros agora que tudo estava às claras.

Segredos podiam ser mortais, e agora não havia mais nenhum entre eles. Isso tinha que ser uma coisa boa.

Quando a noite caiu, ele já estava quase convencido de que não zera nada de errado. Quase. Ele tinha casado com Daphne sabendo que iria partir seu coração, e isso nunca o agradara. Ele gostava dela. Ora, era provável que gostasse mais dela do que de qualquer outro ser humano que conhecera, e justamente por isso havia relutado tanto em relação ao casamento. Não queria destruir os sonhos dela. Não queria privá-la da família que ela desejava com tanto ardor. Tinha se preparado para recuar e deixá-la se casar com outra pessoa, alguém que pudesse lhe dar uma casa cheia de crianças.

Simon estremeceu de repente. A imagem de Daphne com outro homem não era nem de perto tão tolerável quanto um mês antes.

É claro que não, pensou, tentando ser racional. Ela era sua esposa agora. Era dele.

Agora tudo era diferente.

Ele sabia que ela morria de vontade de ter lhos e havia se casado com ela sabendo muito bem que não lhe daria nenhum.

Mas, disse a si mesmo, você a avisou. Ela sabia exatamente no que estava se metendo.

Simon, que estava sentado no gabinete com aquela pedra nas mãos desde o jantar, de repente se endireitou. Ele não a enganara. Não realmente. Ele dissera que eles não teriam lhos e ela havia concordado em se casar com ele de qualquer maneira. Simon entendia o fato de ela ter se sentido um pouco perturbada ao conhecer os motivos dele, mas Daphne não podia dizer que havia entrado na história sem saber as consequências.

Ele se levantou. Chegara a hora de os dois terem outra conversa, desta vez por iniciativa dele. Daphne não fora jantar, deixando-o à mesa sozinho, com o silêncio da noite quebrado apenas pelos ruídos de seu garfo no prato. Ele não via a esposa desde aquela manhã. Estava na hora de mudar isso.

Ela era mulher dele, lembrou a si mesmo. Devia poder vê-la sempre que desejasse.

Percorreu o corredor e abriu a porta que levava ao quarto deles totalmente preparado para engrenar algum assunto com ela (estava certo de que na hora o tema surgiria), mas Daphne não estava lá.

Simon piscou, sem conseguir acreditar nos próprios olhos. Onde diabo ela tinha se metido? Era quase meia-noite. Ela deveria estar na cama.

No quarto de vestir. Só podia ser isso. A tolinha insistia em vestir a camisola todas as noites, apesar de Simon sempre tirá-la em poucos minutos.

– Daphne? – gritou ele, a caminho de lá. – Daphne?

Sem resposta. Nenhuma luz brilhando pelas frestas da porta. Ela certamente não se vestiria no escuro, mas de qualquer forma ele escancarou a porta. Como era de esperar, ela não estava lá.

Simon tocou o sino violentamente para chamar um criado. Então foi até o corredor e esperou o azarado que responderia a seu chamado.

Quem apareceu foi uma das camareiras do andar de cima, uma lourinha cujo nome não lembrava. Ela olhou para o rosto dele e empalideceu.

– Onde está minha esposa? – berrou Simon.

– Sua esposa, Alteza?

– Sim – respondeu ele com impaciência –, minha esposa.

Ela o encarou inexpressivamente.

– Imagino que saiba de quem estou falando. Ela tem mais ou menos a sua altura, cabelos longos e escuros... – Simon teria continuado, mas a expressão aterrorizada da camareira fez com que ele se sentisse bastante envergonhado do próprio sarcasmo. Soltou um suspiro longo e tenso. – Você sabe onde ela está? –

perguntou com o tom mais suave, embora ainda longe de ser gentil.

– Não está na cama, Alteza?

Simon fez um gesto com a cabeça na direção do quarto vazio.

– Obviamente, não.

– Mas não é aí que ela dorme, Alteza.

Ele franziu a testa.

– Como?

– Ela não...

A camareira cou apavorada e começou a olhar para os dois lados do corredor.

Simon não teve dúvidas de que ela estava em busca de uma rota de fuga. Ou então de alguém que pudesse salvá-la do péssimo humor dele.

– Diga logo! – exigiu ele.

A voz da criada saiu quase inaudível:

– Ela não costuma passar a noite nos aposentos da duquesa?

– Nos aposentos... – Tentou lutar contra um estranho acesso de raiva. – Desde quando?

– Acho que desde hoje, Alteza. Todos nós imaginamos que dormiriam em quartos separados depois que a lua de mel acabasse.

– Imaginaram, é? – resmungou ele.

A camareira começou a tremer.

– Seus pais tinham esse costume, Alteza, e...

– Nós não somos meus pais! – berrou Simon.

A criada deu um salto para trás.

– E – acrescentou ele com uma voz gutural – eu não sou meu pai.

– É-é claro, Alteza.

– Você poderia me dizer que quarto minha esposa escolheu para aposento?

Ela apontou um dedo trêmulo para uma porta no fim do corredor.

– Obrigado. – Ele deu quatro passos e então se virou. – Você está dispensada.

Com a saída de Daphne do quarto deles, os criados teriam muito sobre o que falar no dia seguinte. Simon não precisava lhes dar mais um assunto ao permitir que aquela camareira testemunhasse a discussão colossal que eles provavelmente teriam.

Esperou até que a mulher tivesse descido as escadas e percorreu, furioso, o corredor até o novo quarto de sua esposa. Parou em frente à porta, pensou no que diria, percebeu que não fazia ideia e bateu.

Nenhuma resposta.

Bateu de novo, com força.

Ainda sem resposta.

Ergueu o punho para bater de novo quando lhe ocorreu que talvez a porta nem estivesse trancada. Ele se sentiria um idiota se...

Girou a maçaneta.

Estava fechada à chave. Simon praguejou em voz baixa. Era curioso como em toda a sua vida ele nunca havia gaguejado ao dizer um palavrão.

– Daphne! Daphne! – Estava praticamente gritando. – Daphne!

Finalmente, ouviu passos do lado de dentro.

– Sim? – falou ela.

– Abra a porta.

Um instante de silêncio, e então:

– Não.

Simon cou olhando xamente para o chão, chocado. Nunca lhe ocorrera que ela pudesse desobedecer a uma ordem direta dele.

Ela era sua esposa, afinal. Não havia prometido obedecer-lhe?

– Daphne – repetiu ele com irritação –, abra imediatamente!

Ela devia estar perto da porta, porque ele chegou a ouvi-la suspirar antes de dizer:

– Simon, eu só permitiria sua entrada neste quarto se pretendesse deixá-lo se deitar em minha cama, o que não vou fazer, de modo que eu agradeceria... na verdade, acredito que toda a casa agradeceria... se você se recolhesse e fosse dormir.

Ele cou boquiaberto. Começou a imaginar quão pesada a porta seria e de quanta força precisaria para derrubá-la.

– Daphne – chamou ele, com a voz tão calma que até mesmo ele se assustou –, se você não abrir esta porta agora, eu vou arrombá-la.

– Você não seria capaz.

Ele não disse nada, apenas cruzou os braços e esperou, furioso, con ante de que ela saberia exatamente o tipo de expressão que estava em seu rosto.

– Seria?

Mais uma vez, Simon decidiu que o silêncio era a resposta mais eficiente.

– Espero que você não faça isso – acrescentou Daphne com um tom de voz vagamente suplicante.

Ele continuou olhando para a porta, incrédulo.

– Você vai se machucar – completou ela.

– Então abra esta maldita porta – resmungou ele.

Primeiro ela cou em silêncio, depois girou a chave na fechadura. Simon teve presença de espírito su ciente para não irromper no quarto, porque era quase certo que Daphne estava exatamente do outro lado. Forçou a entrada e a viu a cerca de 5

metros dele, com os braços cruzados e as pernas em posição de sentido.

– Nunca mais tranque uma porta para mim – exigiu.

Ela deu de ombros. Deu de ombros!

– Eu queria ficar sozinha.

Simon avançou vários passos.

– Quero suas coisas de volta ao nosso quarto pela manhã. E você vai voltar para lá hoje.

– Não.

– Que diabo você quer dizer com não?

– Que diabo você acha que eu quero dizer com não? – rebateu ela.

Simon não sabia o que o deixava mais chocado e furioso: estar sendo desa ado ou vê-la arremedá-lo em voz alta.

– Não – continuou Daphne num tom de voz mais alto – quer dizer não.

– Você é minha esposa! – rugiu ele. – Vai dormir comigo! Na minha cama.

– Não.

– Daphne, eu estou avisando...

Os olhos dela se estreitaram até quase se fecharem.

– Você escolheu me negar algo. Bem, eu resolvi negar algo a você também: eu.

Ele ficou sem palavras.

Mas ela, não. Daphne marchou até a porta e fez um sinal bastante rude para que ele se retirasse.

– Saia do meu quarto.

Simon começou a tremer de raiva.

– Este quarto é meu – resmungou ele. – Você é minha.

– Você só tem o título de seu pai – retrucou ela. – Não é dono nem de si mesmo.

Simon ouviu um rugido baixo – o rugido da fúria. Recuou um passo, temendo que, do contrário, pudesse realmente fazer algo capaz de feri-la.

– Que diabo você quer d-dizer? – quis saber ele.

Ela deu de ombros de novo.

– Descubra você – desafiou.

Todas as boas intenções de Simon evaporaram e ele a agarrou pelos braços.

Sabia que estava apertando forte, mas se sentiu impotente diante da intensa onda de raiva que inundou suas veias.

– Explique-se – exigiu ele, sem conseguir abrir a boca porque seus dentes estavam trincados. – Agora.

Ela o encarou com uma expressão tão calma e astuta que quase o arruinou.

– Você não é dono de si mesmo – disse ela simplesmente. – Seu pai ainda manda em você, do túmulo.

Simon tremeu com uma fúria intensa e silenciosa.

– Todas as suas ações, suas escolhas... – continuou Daphne, agora com uma tristeza perpassando o olhar. – Elas não têm nada a ver com você, com o que você quer ou precisa. Tudo o que você faz, Simon, cada movimento, cada palavra que diz... é tudo apenas para se opor a ele. – A voz dela cou embargada quando concluiu: – E ele nem sequer está vivo.

Simon avançou com um estranho e ao mesmo tempo gracioso olhar de predador.

– Nem todo movimento – falou ele baixinho. – Nem toda palavra.

Daphne recuou, desconcertada pela expressão selvagem dele.

– Simon? – disse com hesitação, de repente destituída da coragem e da ousadia que lhe permitiram enfrentá-lo, um homem com o dobro do tamanho e possivelmente o triplo da força dela.

A ponta do indicador dele percorreu o braço dela. Daphne usava um robe de seda, mas o calor e a força de Simon atravessaram o tecido. Ele se aproximou e acariciou as nádegas dela, dando um aperto leve.

– Quando toco em você assim – sussurrou ele, com a voz perigosamente perto do ouvido dela –, não tem nada a ver com ele.

Ela estremeceu, detestando a si mesma por desejá-lo. E odiando-o por fazer com que o desejasse.

– Quando meus lábios tocam sua orelha – murmurou ele, segurando o lóbulo entre os dentes –, não tem nada a ver com ele.

Ela tentou afastá-lo, mas quando suas mãos encontraram os ombros dele, tudo o que Daphne conseguiu fazer foi agarrá-los.

Simon começou a empurrá-la lenta e implacavelmente na direção da cama.

– E quando eu a levo para a cama – acrescentou ele, sussurrando no pescoço dela

– e nossos corpos se unem, somos apenas nós...

– Não! – gritou Daphne, empurrando-o com toda a força.

Ele recuou, surpreso.

– Quando você me leva para a cama – disse ela, com a voz engasgada –, nunca somos só nós dois. Seu pai está sempre lá.

Os dedos dele, que estavam por dentro da ampla manga da camisola de Daphne, se cravaram na carne dela. Simon não falou nada, mas nem precisava. A raiva em seus frios olhos azul-claros disse tudo.

– Você consegue olhar nos meus olhos – murmurou ela – e a rmar que quando sai de dentro do meu corpo e se libera na cama, é em mim que está pensando?

O rosto dele estava contraído e tenso, e seus olhos encaravam a boca de Daphne.

Ela balançou a cabeça e afastou a mão dele, que havia se afrouxado.

– É, eu achei mesmo que não – comentou baixinho.

Distanciou-se dele, assim como da cama. Não tinha dúvida de que ele conseguiria seduzi-la se quisesse. Poderia beijá-la, acariciá-la e levá-la ao êxtase, e ela o odiaria na manhã seguinte.

E odiaria ainda mais a si mesma.

Os dois caram em silêncio absoluto, um diante do outro. Simon estava de pé com os braços estendidos ao longo do corpo e seu rosto era uma mistura dolorosa de choque, mágoa e fúria. Mas, principalmente, confusão, o que fez o coração de Daphne amolecer um pouco quando seus olhos cruzaram com os dele.

– Acho que é melhor você sair – pediu ela em voz baixa.

Ele ergueu a cabeça, assombrado.

– Você é minha esposa.

Ela não disse nada.

– Legalmente, eu sou seu dono.

Daphne apenas o encarou e disse:

– É verdade.

Ele se aproximou dela de novo em uma fração de segundo e segurou os seus ombros.

– Posso fazer você me querer – sussurrou.

– Eu sei.

A voz dele ficou ainda mais baixa, rouca e urgente.

– E, mesmo se eu não pudesse, você é minha. Você me pertence. Eu poderia forçá-la a me deixar ficar.

Daphne sentiu-se muito cansada ao dizer:

– Você jamais faria isso.