O Duque e Eu
Capítulo 4
Ela assentiu com hesitação, olhando para Nigel.
– Ele parece muito desconfortável, não acha?
Simon a encarou. Apenas a encarou.
– Está preocupada com o conforto dele? – perguntou, enfim.
Daphne balançou a cabeça nervosamente em uma negativa, depois em uma afirmativa, então em uma nova negativa.
– Talvez eu devesse... quer dizer... pronto, só um instante. – Ela se agachou e destorceu as pernas de Nigel para que ele ficasse deitado de costas. – Não acho que ele mereça ser levado para casa na sua carruagem – explicou ela enquanto arrumava o casaco dele –, mas me parece cruel demais deixá-lo aqui nesta posição. Prontinho, agora acabei. – Ela se levantou e olhou para o duque.
Tudo o que viu foi Simon se afastando, resmungando alguma coisa sobre ela, depois algo sobre mulheres em geral e uma terceira coisa completamente diferente que Daphne não conseguiu escutar. Mas talvez fosse melhor assim. Duvidava muito que tivesse sido um elogio a ela.
Ca p í t u lo 4
Nos últimos dias, Londres foi tomada por mamães ambiciosas. No baile de Lady Worth, semana passada, esta autora viu nada menos que onze solteiros determinados se escondendo pelos cantos e por fim deixando o local com as mamães ambiciosas nos calcanhares.
É difícil determinar quem exatamente é a pior de todas, embora a autora suspeite que a competição possa terminar com uma pequena diferença entre Lady Bridgerton e a Sra. Featherington, com esta última ganhando por um triz.
Afinal, há três solteiras de sobrenome Featherington no mercado no momento, enquanto Lady Bridgerton precisa se preocupar apenas com uma.
É recomendável, no entanto, que todos com alguma sanidade se mantenham bem distantes da safra de solteiros da época quando as meninas E., F. e H. da família Bridgerton chegarem à idade de casar. Lady B. provavelmente não olhará para os dois lados antes de atravessar um salão de baile na companhia de três filhas, e Deus nos ajude se ela decidir usar botas com pontas de metal.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
28 DE ABRIL DE 1813
Simon concluiu que a noite não poderia car muito pior. Não teria acreditado na ocasião, mas seu bizarro encontro com Daphne Bridgerton acabara de nitivamente se revelando o ponto alto do evento. Sim, cara horrorizado ao constatar que cobiçara – ainda que apenas por um breve período – a irmã de seu melhor amigo.
Sim, as ridículas tentativas de sedução de Nigel Berbrooke haviam ofendido sua experiência como libertino. E, sim, Daphne o exasperara além de qualquer limite com sua indecisão quanto a tratar Nigel como um criminoso ou cuidar dele como faria com um grande amigo.
Mas nada disso se comparava minimamente com a tortura que ele estava prestes a enfrentar.
Seu plano brilhante de entrar no salão com discrição, cumprimentar Lady Danbury e sair despercebido foi destruído de imediato. Mal tinha dado dois passos no salão quando foi reconhecido por um velho amigo de Oxford, que, para sua tristeza, casara fazia pouco tempo. A esposa era encantadora, mas infelizmente tinha grandes aspirações sociais. Ela logo decidiu que seu caminho para a felicidade seria apresentar o novo duque à sociedade. E Simon, apesar de se considerar um sujeito cínico e cansado do mundo, descobriu que não era rude o su ciente para se indispor com a mulher de seu velho amigo de faculdade.
Assim, duas horas depois, ele havia sido apresentado a todas as moças solteiras do baile, a todas as mães de moças solteiras do baile e, é claro, a todas as irmãs mais velhas casadas de moças solteiras do baile. Não conseguiu decidir qual grupo de mulheres era o pior. As primeiras eram de nitivamente entediantes, suas mães, irritantemente ambiciosas, e as irmãs... bem, as irmãs eram tão atiradas que Simon começou a se perguntar se havia entrado num bordel e não em um baile. Seis delas zeram comentários bastante sugestivos, duas lhe entregaram bilhetes convidando-o para seus quartos e uma delas chegara a passar a mão em sua coxa.
Comparativamente, Daphne Bridgerton estava começando a parecer muito boa, de fato.
E, por falar em Daphne, onde diabo ela estava? Pensou que a tivesse visto cerca de uma hora antes, rodeada pelos irmãos enormes e ameaçadores. (Não que Simon os considerasse individualmente intimidantes, mas logo concluiu que só um imbecil os provocaria em grupo.)
Mas agora ela parecia ter evaporado. De fato, pensou que ela devia ter sido a única moça solteira da festa a quem ele não havia sido apresentado.
Não estava muito preocupado com a possibilidade de ela estar sendo perturbada por Berbrooke depois de os ter deixado no corredor. Havia aplicado um soco bem forte no queixo do sujeito e ele sem dúvida cara apagado por um bom tempo.
Ainda mais levando-se em consideração a grande quantidade de álcool que consumira mais cedo. E mesmo que Daphne bancasse a boba de coração mole quando se tratava de seu atrapalhado pretendente, não era estúpida a ponto de permanecer com ele no corredor até que acordasse.
Simon olhou de novo para o canto em que os irmãos Bridgertons estavam reunidos, parecendo se divertir muito. Haviam sido interpelados por quase todas as jovens e suas respectivas mães, assim como ele, mas ao menos tinham a vantagem de estar juntos. Simon percebeu que as debutantes não passavam com eles nem metade do tempo que permaneciam na companhia do próprio duque.
Fez uma cara de irritação na direção deles.
Anthony, que estava encostado numa parede, viu a expressão do amigo e sorriu, erguendo uma taça de vinho tinto para ele. Então fez um gesto discreto com a cabeça em direção à esquerda de Simon, que se virou bem a tempo de ser detido por mais uma mãe, essa com três
lhas, todas usando vestidos monstruosamente
espalhafatosos, repletos de pregas e babados e, claro, montes de renda.
Pensou em Daphne, com seu vestido verde simples. Daphne, com seus olhos castanhos sinceros e seu sorriso amplo...
– Alteza! – gritou a mãe. – Alteza!
Simon piscou para enxergar melhor. A família coberta de renda o havia cercado com tanta eficiência que ele não podia sequer fuzilar Anthony com o olhar.
– Alteza – repetiu a mãe –, é uma grande honra conhecê-lo!
Simon conseguiu assentir friamente. Qualquer palavra estava muito além de sua capacidade no momento. Aquelas mulheres o pressionavam de tal forma que ele temia sufocar.
– Georgiana Huxley nos mandou aqui – continuou a mulher. – Ela me disse que apresentasse minhas filhas a você.
Simon não se lembrava de nenhuma Georgiana Huxley, mas pensou que gostaria de esganá-la.
– Em circunstâncias normais eu não seria tão ousada – prosseguiu ela –, mas seu queridíssimo pai era um grande amigo meu.
Simon ficou tenso.
– Ele era um sujeito maravilhoso – continuou, com a voz martelando como pregos no crânio de Simon –, tão zeloso dos deveres de um homem sob seu título...
Deve ter sido um pai exemplar.
– Não sei o que dizer a respeito disso – respondeu Simon secamente.
– Ah! – A mulher pigarreou várias vezes antes de completar: – Entendo. Bem...
Minha nossa...
Ele não disse nada, esperando que seu comportamento indiferente a levasse a se afastar. Mas que droga, onde estava Anthony? Já era bem ruim aquelas mulheres tratarem-no como se ele fosse algum cavalo premiado, mas ter que ouvir aquela senhora lhe dizer o homem sensacional que o velho duque havia sido... Ele não poderia suportar.
– Alteza! Alteza!
Simon forçou os olhos frios de volta para a senhora diante dele e disse a si mesmo que precisava ter mais paciência. A nal, era provável que só estivesse elogiando seu pai por achar que era o que o rapaz gostaria de ouvir.
– Gostaria de lembrar – disse ela – que já fomos apresentados há muitos anos, quando ainda era o conde de Clyvedon.
– Sei – murmurou Simon, procurando alguma brecha na barricada de moças pela qual pudesse fugir.
– Estas são minhas lhas – continuou a senhora, acenando na direção das três jovens.
Duas delas eram bonitas, mas a terceira ainda estava cheia das gordurinhas da infância e usava um vestido laranja que não favorecia em nada seu tom de pele.
Além disso, não parecia estar apreciando a noite.
– Não são encantadoras? – prosseguiu ela. – Minha alegria e meu orgulho. E são muito mansas.
Simon teve a desconfortável sensação de que ouvira as mesmas palavras relacionadas a um cachorro que comprara certa vez.
– Permita que eu lhe apresente Prudence, Philipa e Penelope.
As garotas fizeram uma reverência, mas nenhuma delas ousou encará-lo.
– Tenho mais uma lha em casa – prosseguiu a mulher. – Ela se chama Felicity.
Mas tem apenas 10 anos de idade, de modo que não a trago a eventos como este.
Simon não podia imaginar por que ela sentira a necessidade de dividir essa informação com ele, então manteve o tom de voz cuidadosamente entediado (essa era a melhor maneira de não demonstrar raiva, como já aprendera havia muito tempo) e perguntou:
– E a senhora é...?
– Ah, perdão! Sou a Sra. Featherington. Meu marido faleceu há três anos, mas era um, hã, bom amigo de seu pai. – Seu tom de voz diminuiu no nal da frase, quando ela se lembrou da reação de Simon à menção do velho duque.
O rapaz assentiu secamente.
– Prudence toca piano muito bem – comentou a Sra. Featherington, com uma alegria forçada.
Simon percebeu a expressão a ita da menina mais velha e na mesma hora decidiu nunca aceitar nenhum convite para um sarau na casa dos Featheringtons.
– E minha querida Philipa pinta aquarelas lindíssimas. – Ao ouvir isso, o rosto da garota se iluminou.
– E Penelope? – perguntou Simon, obedecendo a algum diabinho interior.
A Sra. Featherington lançou um olhar cheio de pânico para a lha mais nova, que parecia muito triste. Penelope não era exatamente atraente, e o traje que a mãe escolhera para ela não valorizava seu corpo meio rechonchudo. Mas seus olhos pareciam gentis.
– Penelope? – ecoou a Sra. Featherington, com a voz um pouco estridente. – Ela é... ah... bem, ela é Penelope! – Sua boca estremeceu num sorriso claramente falso.
A menina aparentava querer se en ar embaixo do tapete. Simon decidiu que, se fosse obrigado a dançar, seria ela que convidaria.
– Sra. Featherington – chamou uma voz aguda e imperiosa que devia pertencer a Lady Danbury –, está perturbando o duque?
Simon queria responder que sim, mas a lembrança do rosto morti cado de Penelope fez com que murmurasse:
– Claro que não.
Lady Danbury ergueu uma sobrancelha ao virar a cabeça lentamente para ele.
– Mentiroso.
Então se virou para a Sra. Featherington, que cara vermelha de vergonha. Ela não disse nada. Lady Danbury também não. Finalmente, a primeira resmungou alguma coisa sobre ter visto uma prima, agarrou as três filhas e saiu correndo.
Simon cruzou os braços, mas não conseguiu manter de todo a fisionomia séria.
– Isso não foi muito gentil de sua parte – ralhou ele.
– Ora essa. Ela é uma cabeça de vento, assim como as lhas. Exceto, talvez, pela feiosinha mais jovem. – Lady Danbury balançou a cabeça. – Se ao menos a vestissem numa cor diferente...
Simon tentou conter uma risada, sem sucesso.
– A senhora nunca aprendeu a cuidar da própria vida, não é?
– Nunca. E qual seria a graça? – Ele percebeu que ela queria evitar sorrir, mas não foi capaz. – E quanto a você, meu rapaz – continuou –, é um péssimo convidado. Era de esperar que fosse educado o su ciente para, a essa altura, já ter cumprimentado a anfitriã.
– A senhora estava sempre cercada por seus admiradores para que eu sequer ousasse me aproximar.
– Que lisonjeiro – disse ela.
Simon cou em silêncio, sem saber exatamente como interpretar essas palavras.
Ele sempre suspeitara que ela sabia de seu segredo, mas nunca tivera certeza.
– Aquele Bridgerton seu amigo está vindo aí – informou ela.
Os olhos de Simon acompanharam a direção do olhar dela. Anthony se aproximou deles e não havia se passado nem um segundo quando Lady Danbury o chamou de covarde.
Anthony piscou.
– Como?
– Podia ter vindo até aqui para salvar seu amigo do quarteto Featherington há eras.
– Mas eu estava gostando demais da aflição dele – justificou ele.
– Humpf. – E sem dizer mais nada (ou sem emitir outra bufada), ela se afastou.
– Que velha estranha – comentou Anthony. – Eu não me surpreenderia se fosse ela a maldita Whistledown.
– Você quer dizer a colunista de fofoca?
Anthony assentiu enquanto levava o amigo até perto de um vaso de planta no canto em que seus irmãos o esperavam. No caminho, ele sorriu e disse:
– Vi você conversando com várias moças muito distintas.
Simon resmungou alguma coisa muito obscena e desagradável, mas o outro continuou rindo.
– Não pode dizer que eu não avisei, não é? – disse ele.
– Detesto ser obrigado a admitir que você tem razão sobre qualquer assunto, então, por favor, não me peça para fazer isso.
Anthony riu ainda mais.
– Por causa desse comentário, talvez eu deva começar a apresentá-lo às debutantes pessoalmente.
– Se zer isso – alertou Simon –, em pouco tempo sofrerá uma morte muito lenta e dolorosa.
O rapaz sorriu.
– Espada ou pistola?
– Ah, veneno. Definitivamente, veneno.
– Ai!
Anthony parou na frente de dois outros rapazes da família Bridgerton, com seus característicos cabelos castanhos, altura acima da média e excelente estrutura óssea.
Simon notou que um tinha olhos verdes e o outro, castanhos como os de Anthony, mas, a não ser por essa pequena diferença, a luz pálida da noite tornava os três praticamente iguais.
– Você se lembra dos meus irmãos? – perguntou Anthony. – Benedict e Colin.
Tenho certeza que se recorda de Benedict, de Eton. Foi o que nos seguiu feito um cachorrinho por três meses assim que chegou.
– Não é verdade! – disse Benedict com uma risada.
– E não sei se já foi apresentado a Colin – continuou Anthony. – Acho que ele era jovem demais para ter cruzado seu caminho.
– Muito prazer – cumprimentou o rapaz alegremente.
Simon notou o brilho malicioso nos olhos verdes dele e não pôde evitar sorrir de volta.
– Anthony disse coisas tão insultuosas a seu respeito – continuou Colin, com um sorriso travesso – que tenho certeza que seremos ótimos amigos.
O mais velho revirou os olhos.
– É claro que você pode compreender por que minha mãe está convencida de que Colin será o primeiro dos filhos que a levará à loucura.
– Eu me orgulho disso, na verdade – comentou o rapaz.
– Mamãe felizmente teve um breve descanso dos suaves encantos de seu lho mais novo – prosseguiu Anthony. – Ele acabou de voltar de uma longa viagem pela Europa.
– Hoje mesmo – afirmou Colin com um sorriso infantil.
Ele tinha um ar de jovem imprudente. Simon concluiu que não devia ser muito mais velho que Daphne.
– Eu também acabo de chegar de viagem – disse Simon.
– Sim. A diferença é que as suas atravessaram o planeta, segundo quei sabendo
– respondeu Colin. – Adoraria que me contasse sobre elas um dia desses.
– Certamente – concordou Simon com uma expressão afetuosa.
– Você conheceu Daphne? – perguntou Benedict. – É a única Bridgerton presente que não está por perto.
Simon estava pensando na melhor maneira de responder a isso quando Colin deu uma risada e disse:
– Ah, Daphne está por perto, sim. Infelizmente para ela, está logo ali.
Simon seguiu o olhar dele em direção a outra extremidade do salão, onde a jovem estava parada ao lado de uma mulher que devia ser sua mãe, parecendo bastante infeliz, tal como dissera Colin.
E então lhe ocorreu... Daphne era uma daquelas temidas moças solteiras exibidas pela mãe. Ela lhe parecera sensata e direta demais para fazer parte desse grupo, e, no entanto, não podia ser de outra forma. Ela não devia ter mais de 20 anos e, como
seu sobrenome ainda era Bridgerton, isso signi cava que era uma donzela. E ela estava com a mãe... então é claro que devia estar sendo submetida a uma interminável noite de apresentações.
Ela parecia tão incomodada pela experiência como Simon havia cado. De alguma forma, isso o fez se sentir bem melhor.
– Um de nós deveria ir salvá-la – brincou Benedict.
– Não... – disse Colin, sorrindo. – Ela e mamãe estão ali com Maccles eld apenas há dez minutos.
– Macclesfield? – perguntou Simon.
– O conde – esclareceu Benedict. – Filho de Castleford.
– Dez minutos? – falou Anthony. – Pobre Macclesfield.
Simon lhe lançou um olhar de curiosidade.
– Não que Daphne seja um fardo muito pesado – acrescentou Anthony rapidamente –, mas quando mamãe enfia na cabeça, hã...
– Perseguir... – completou Benedict.
– ... um cavalheiro – prosseguiu Anthony, balançando a cabeça para o irmão em um gesto de agradecimento –, ela sabe ser, bem...
– Implacável – ajudou Colin.
Anthony deu um sorriso fraco.
– É. Exatamente.
Simon olhou para o trio em questão. Era óbvio que Daphne estava infeliz, enquanto Maccles eld percorria o salão com os olhos, provavelmente em busca da saída mais próxima, e o olhar de Lady Bridgerton tinha um brilho tão ambicioso que Simon se solidarizou com o jovem conde.
– Como eu estava dizendo, deveríamos ir salvar nossa irmã – comentou Anthony.
– Também acho – falou Benedict.
– E Macclesfield – acrescentou Anthony.
– Ah, com certeza – concordou Benedict.
Mas Simon notou que ninguém estava entrando em ação.
– Pelo visto você está falando da boca para fora, não é? – perguntou Colin, rindo.
– Também não estou vendo você ir até lá para resgatá-la – respondeu Anthony.
– É claro que não. Eu nunca disse que deveríamos fazer isso. Vocês, por outro lado...
– Que diabo está acontecendo? – perguntou Simon, finalmente.
Os três rapazes olharam para ele com a mesma expressão de culpa.
– Nós deveríamos salvar Daff – repetiu Benedict.
– Deveríamos mesmo – afirmou Anthony.
– O que meus irmãos não têm coragem de lhe dizer – revelou Colin, em tom de ironia – é que eles morrem de medo da minha mãe.
– É verdade – confirmou Anthony, dando de ombros, com ar indefeso.
Benedict assentiu.
– Não tenho nenhum problema em admitir isso.
Simon pensou que nunca vira nada tão ridículo. A nal, aqueles eram os irmãos Bridgertons. Altos, bonitos e atléticos, os três tinham todas as moças do país a seus pés, e lá estavam eles, completamente intimidados por uma simples mulher.
É claro que não era uma mulher qualquer, e sim a mãe deles. Simon pensou que era preciso levar isso em consideração.
– Se eu salvar a Daff – explicou Anthony –, mamãe colocará as garras sobre mim, e então estarei perdido.
Simon riu da imagem de Anthony sendo carregado de um lado para outro pela mãe, de uma moça solteira a outra.
– Agora você entende por que eu fujo desses eventos como o diabo foge da cruz –
disse Anthony, irritado. – Não tenho escapatória. Quando as mães e as lhas debutantes não me encontram, minha mãe se certifica de que eu as encontre.
– Mas diga, Hastings! – exclamou Benedict. – Por que você não a salva?
Simon deu uma olhada para Lady Bridgerton (que a essa altura estava com a mão rmemente enroscada no braço de Maccles eld) e resolveu que preferiria ser visto para sempre como um covarde.
– Como não fomos apresentados, creio que seria inadequado – improvisou ele.
– Tenho certeza que não – retrucou Anthony. – Afinal, você é um duque.
– E?
– E? – ecoou Anthony. – Mamãe perdoaria qualquer coisa se isso signi casse conseguir uma audiência para Daphne com um duque.
– Olhe aqui – disse Simon, exasperado –, eu não sou um cordeiro para ser sacrificado no altar de sua mãe.
– Você passou muito tempo na África, não? – ironizou Colin.
O duque o ignorou.
– Além disso, sua irmã disse...
Todas as três cabeças se viraram para ele. Simon na mesma hora se deu conta de que tinha feito uma bobagem. E das grandes.
– Você a conheceu? – indagou Anthony, com o tom um pouco educado demais para o gosto de Simon.
Antes que ele pudesse responder, Benedict inclinou-se para perto dele e questionou:
– Por que você não mencionou isso antes?
– Sim – completou Colin, extremamente sério pela primeira vez naquela noite. –
Por quê?
Simon olhou de um irmão para outro e cou bastante claro para ele por que Daphne ainda estava solteira. Aquele trio beligerante assustaria até o mais determinado – ou idiota – dos pretendentes. O que provavelmente explicava Nigel Berbrooke.
– Na verdade – confessou Simon –, eu esbarrei com ela no corredor quando
estava vindo para o salão. Como me pareceu – continuou ele, olhando xamente para cada um dos irmãos – bem evidente que ela era da sua família, eu me apresentei.
Anthony se virou para Benedict.
– Deve ter sido quando ela estava fugindo de Berbrooke.
Benedict se virou para Colin.
– O que aconteceu com Berbrooke? Você sabe?
O mais novo deu de ombros.
– Não faço a mínima ideia. Talvez tenha ido embora para cuidar do coração partido.
Ou da cabeça partida, pensou Simon com sarcasmo.
– Bem, creio que isso explique tudo – disse Anthony, abandonando a expressão de irmão mais velho arrogante e voltando a parecer um companheiro de farra e grande amigo.
– A não ser pelo fato de ele não ter mencionado o ocorrido – a rmou Benedict, desconfiado.
– Porque não tive chance de fazer isso – disparou Simon, demonstrando sinais de irritação. – Caso não tenha percebido, Anthony, você tem uma quantidade absurda de irmãos, e leva um tempo absurdo ser apresentado a todos eles.
– Apenas dois de nós estão aqui – argumentou Colin.
– Vou para casa – anunciou o duque. – Vocês três são loucos. Benedict, que parecia ser o mais protetor de todos, de repente sorriu.
– Você não tem uma irmã, tem? – perguntou.
– Não, graças a Deus.
– Se algum dia tiver uma filha, vai entender.
Simon estava bastante certo de que jamais teria uma filha, mas ficou calado.
– Pode ser bem complicado – comentou Anthony.
– Embora Daff seja melhor que a maioria – observou Benedict –, ela na verdade não tem muitos pretendentes.
Simon não podia imaginar o motivo.
– Eu não sei bem por quê – re etiu Anthony. – Acho que é uma moça perfeitamente adequada.
Simon resolveu que não era o momento de mencionar que ele estivera muito perto de encostá-la na parede, pressionar o corpo contra o dela e beijá-la insensatamente. Se não tivesse descoberto que ela era uma Bridgerton, era muito provável que tivesse feito isso.
– A Daff é o máximo – concordou Benedict.
Colin assentiu.
– Uma menina de valor. Muito bem-humorada.
Houve uma pausa constrangida, e então Simon explicou:
– Bem-humorada ou não, o fato é que eu não vou até lá para resgatá-la porque ela me disse claramente que a mãe de vocês a proibiu de ser vista em minha presença.
– Mamãe disse isso? – perguntou Colin. – Você deve ter mesmo uma reputação terrível.
– Boa parte dela, imerecida – resmungou Simon, sem saber exatamente por que estava se defendendo.
– Que pena... – murmurou o rapaz. – Eu havia pensado em pedir para dar umas voltas por aí com você.
Simon previu um futuro infame para o garoto.
Anthony colocou a mão na nuca de Simon e começou a empurrar o amigo para a frente.
– Tenho certeza de que mamãe mudará de ideia se for encorajada de forma apropriada. Vamos lá.
O duque não teve escolha além de ir em direção a Daphne. A alternativa demandaria uma grande cena, e Simon aprendera havia muito tempo que não se saía bem fazendo cenas. Além disso, se estivesse no lugar de Anthony, era provável que fizesse o mesmo.
E depois de uma noite com as irmãs Featheringtons e outras do tipo, Daphne não parecia nada má.
– Mamãe! – chamou Anthony numa voz alegre enquanto os dois se aproximavam da viscondessa. – Não a vi a noite toda!
Simon notou que os olhos azuis de Lady Bridgerton brilharam quando ela viu o lho se aproximando. Ambiciosa ou não, era óbvio que aquela mãe amava seus rebentos.
– Anthony! – respondeu ela. – Que bom ver você! Daphne e eu estávamos aqui conversando com o lorde Macclesfield.
Ele lançou um olhar de comiseração ao rapaz.
– Sim, estou vendo.
Simon encarou Daphne por um instante e fez um aceno minúsculo com a cabeça.
Ela respondeu com um aceno ainda mais discreto, garota sensata que era.
– E quem é esse? – quis saber Lady Bridgerton, com os olhos se iluminando diante do amigo de seu filho.
– O novo duque de Hastings – respondeu Anthony. – A senhora deve se lembrar dele do meu tempo em Eton e em Oxford.
– É claro que sim – disse ela com educação.
Maccles eld, que vinha se mantendo escrupulosamente em silêncio, logo aproveitou a primeira pausa na conversa para sair com um “Acho que vi meu pai”.
Anthony lançou um divertido olhar de cumplicidade ao jovem conde.
– Então, por favor, vá falar com ele.
O rapaz obedeceu com grande entusiasmo.
– Pensei que ele detestasse o pai – comentou Lady Bridgerton com uma expressão
confusa.
– E detesta – confirmou Daphne secamente.
Simon engoliu uma risada. Daphne ergueu as sobrancelhas, desa ando-o a fazer algum comentário.
– Bem, de qualquer forma, ele tem uma reputação terrível – disse Lady Bridgerton.
– Parece haver muitos iguais a ele por aqui ultimamente – murmurou Simon.
Daphne arregalou os olhos, e dessa vez foi Simon quem ergueu as sobrancelhas, desafiando-a a falar alguma coisa a respeito.
Ela não disse nada, é claro, mas a mãe lançou a ele um olhar a ado e Simon teve a clara impressão de que ela tentava decidir se seu ducado recém-adquirido compensava sua má fama.
– Não creio que tenha tido a oportunidade de conhecê-la antes de deixar o país, Lady Bridgerton – disse Simon com delicadeza –, mas sinto grande prazer ao fazê-lo agora.
– Igualmente. – Fez um sinal para Daphne. – Minha filha Daphne.
Simon segurou a mão enluvada da jovem e deu um beijo educado e cheio de escrúpulos em seus dedos.
– É uma honra conhecê-la oficialmente, Srta. Bridgerton.
– Oficialmente? – questionou Lady Bridgerton.
Daphne abriu a boca, mas Simon a interrompeu antes que pudesse dizer qualquer coisa.
– Já contei a seu irmão sobre nosso breve encontro mais cedo.
A cabeça de Lady Bridgerton se virou de repente para a filha.
– Você foi apresentada ao duque hoje? Por que não me disse nada?
Daphne deu um sorriso tenso.
– Estávamos muito ocupadas com o conde. E, antes disso, com o lorde Westborough. E, antes disso, com...
– Entendo o que quer dizer, Daphne – disse a senhora.
Simon imaginou quão grosseiro seria rir nesse momento.
Então Lady Bridgerton sorriu abertamente para ele e o duque logo soube de quem Daphne herdara aquele sorriso largo – e também percebeu que Lady Bridgerton resolvera que sua má reputação poderia ser ignorada.
Uma luz estranha surgiu nos olhos dela, que cou virando a cabeça de um para outro diversas vezes.
Então sorriu de novo.
Simon lutou contra a vontade de sair correndo.
Anthony inclinou-se levemente e sussurrou em seu ouvido:
– Me desculpe.
– Talvez eu precise matar você – respondeu o duque entre os dentes.
O olhar furioso e gelado de Daphne evidenciava que ela ouvira os dois e não
estava achando engraçado.
Mas Lady Bridgerton não percebera nada, provavelmente já imaginando a cena de um casamento grandioso.
Então estreitou os olhos e focou em alguma coisa atrás dos rapazes. Ficou com uma expressão tão incomodada que Simon, Anthony e Daphne viraram a cabeça para ver o que estava acontecendo.
A Sra. Featherington estava marchando decidida na direção deles, com Prudence e Philipa logo atrás. Simon percebeu que Penelope não estava ao alcance da visão.