O Duque e Eu

Julia Quinn · Capítulo 14 de 27

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O Duque e Eu

Capítulo 13

E que diabo ele iria fazer com Daphne? Não queria magoá-la – não suportava a ideia de magoá-la, na verdade – e, no entanto, estava condenado a fazer isso simplesmente ao se casar com ela. Simon a desejava com ardor, ansiava pelo dia em que poderia cobri-la com seu corpo, penetrando-a bem devagar até que ela gemesse seu nome...

Estremeceu. Pensamentos como aqueles não podiam ser bons para sua saúde.

– Alteza?

Jeffries de novo. Como estava cansado demais até para olhar para cima, Simon apenas fez um gesto com a mão.

– Não gostaria de se recolher, Alteza?

Simon conseguiu olhar para o relógio, mas só porque não precisou mexer a cabeça para isso. Eram apenas sete da noite. Longe do horário em que costumava ir para a cama.

– Ainda é cedo – resmungou ele.

– Mesmo assim – contestou o mordomo –, talvez o senhor queira se recolher.

Simon fechou os olhos. Jeffries tinha razão. Precisava mesmo de um longo encontro com o colchão de penas e os nos lençóis de linho. Podia fugir para seu quarto, onde talvez estivesse livre de ver um Bridgerton durante uma noite inteira.

Droga, da forma como estava se sentindo, ele seria capaz de car en ado lá durante dias.

CA P Í T U L O 1 3

O duque de Hastings e a Srta. Bridgerton vão se casar!

Esta autora precisa aproveitar a oportunidade para lembrar ao querido leitor que o casamento foi previsto pela coluna. Não nos passou despercebido que sempre que este jornal noticia uma nova ligação entre um cavalheiro qualificado e uma dama solteira, as apostas nos círculos da sociedade mudam em poucas horas, e sempre a favor do casamento.

Embora esta autora não seja aceita no White’s, ela tem motivos para acreditar que as apostas oficiais sobre a união do duque e da Srta. Daphne Bridgerton eram de duas para uma.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,

21 DE MAIO DE 1813

O restante da semana passou voando. Daphne não viu Simon por vários dias.

Poderia pensar que ele fora embora da cidade, mas Anthony lhe dissera que tinha ido à Casa Hastings para acertar os detalhes do contrato matrimonial.

Para surpresa de Anthony, Simon se recusara a aceitar um centavo sequer de dote. Finalmente, os dois decidiram que Anthony aplicaria o dinheiro que o pai havia deixado para o casamento de Daphne numa propriedade que ele mesmo administraria. O dinheiro seria dela para que gastasse ou guardasse como preferisse.

“Você pode deixar para seus filhos”, sugeriu Anthony.

Daphne apenas sorriu. Era isso ou chorar.

Alguns dias depois, Simon apareceu na Casa Bridgerton à tarde. Faltavam dois dias para o casamento.

Daphne cou esperando na sala de estar depois que o mordomo anunciou a chegada dele. Sentou-se recatadamente na beira do sofá de linho, com as costas eretas e as mãos juntas, no colo. Estava segura de que era o modelo da re nada feminilidade inglesa.

Sentia-se uma pilha de nervos.

Olhou para as mãos e percebeu que suas unhas estavam deixando marcas avermelhadas nas palmas.

Sentia uma vontade de rir tão avassaladora quanto inadequada. Nunca havia cado nervosa ao ver Simon. Na verdade, talvez esse fosse o aspecto mais admirável de sua amizade com o duque. Mesmo quando o agrava olhando para ela com

urgência – e tinha certeza de que os próprios olhos re etiam o mesmo sentimento –, sentia-se absolutamente confortável em sua companhia. Sim, o estômago revirava e a pele se arrepiava, mas eram sintomas de desejo, não de desconforto. Antes e acima de tudo, Simon era amigo dela, e Daphne sabia que a sensação tranquila e alegre que tinha sempre que ele estava por perto era algo raro.

Estava con ante de que conseguiriam voltar àquele estado de conforto e companheirismo, mas depois do que ocorrera no Regent’s Park ela temia que isso não fosse acontecer tão cedo.

– Bom dia, Daphne.

Simon apareceu na porta da sala e encheu o ambiente com sua maravilhosa presença. Tudo bem, talvez sua presença não estivesse tão maravilhosa como de costume. Seus olhos ainda exibiam hematomas e a marca em seu queixo estava começando a ganhar um impressionante tom esverdeado.

Ainda assim, aquilo era melhor do que um tiro no peito.

– Simon – respondeu Daphne. – Que bom ver você. O que o traz à Casa Bridgerton?

Ele olhou para ela com uma expressão surpresa.

– Não estamos noivos?

Ela corou.

– Sim, é verdade.

– Eu achava que os homens deveriam visitar suas noivas. – Sentou-se na frente dela. – Lady Whistledown não disse algo nesse sentido?

– Acho que não – murmurou Daphne. – Mas tenho certeza de que minha mãe deve ter dito.

Os dois sorriram e por um instante Daphne pensou que tudo ficaria bem de novo.

Mas, assim que os sorrisos se apagaram, um silêncio desconfortável tomou conta do ambiente.

– Você está melhor? – perguntou ela nalmente. – Seus olhos não estão muito inchados.

– Você acha? – Simon se virou para um grande espelho de moldura dourada. –

Acho que os ferimentos ganharam um tom de azul espetacular.

– Roxo.

Ele se inclinou para a frente, como se para ver melhor seu reflexo.

– Roxo, então. Mas acho que isso pode ser discutível.

– Eles estão doendo?

Ele sorriu com desânimo.

– Apenas quando alguém toca neles.

– Vou evitar fazer isso, então – murmurou Daphne. – Vai ser difícil, é claro, mas serei perseverante.

– Sim – disse ele, com o rosto totalmente inexpressivo –, todos dizem que faço as mulheres terem vontade de furar meus olhos.

Daphne sorriu com alívio. Se os dois conseguiam brincar com esse tipo de coisa, era claro que tudo voltaria a ser como antes.

Simon pigarreou.

– Vim vê-la por um motivo específico.

Daphne olhou para ele com expectativa.

Ele estendeu-lhe uma caixa de joia.

– Para você.

Ela quase engasgou ao estender a mão para a caixinha coberta de veludo.

– Tem certeza? – perguntou.

– Imagino que anéis de noivado sejam obrigatórios – disse ele em voz baixa.

– Ah, como sou burra... Não me dei conta...

– De que era um anel de noivado? O que pensou que fosse?

– Não pensei em nada, na verdade – admitiu ela, encabulada.

Ele nunca havia lhe dado um presente. Daphne cara tão surpresa com o gesto que se esquecera completamente de que Simon lhe devia um anel de noivado.

“Devia.” Não gostava dessa palavra. Não gostava nem de ter pensado nela. Mas tinha certeza absoluta de que era nisso que ele estava pensando quando escolheu o anel.

Isso a entristeceu.

Daphne forçou um sorriso.

– É uma joia de família?

– Não! – retrucou ele, com veemência suficiente para fazê-la pestanejar.

– Ah.

Mais um silêncio constrangedor.

Ele tossiu de leve e então explicou:

– Achei que você preferiria algo seu mesmo. Todas as joias da família Hastings foram escolhidas para outra pessoa. Esta eu escolhi para você.

Daphne quase derreteu ali mesmo.

– Que coisa mais gentil – disse ela, mal conseguindo segurar uma fungada de emoção.

Simon se contorceu na poltrona, o que não a surpreendeu. Homens detestavam essas manifestações femininas.

– Não vai abrir? – resmungou ele.

– Ah, sim, é claro. – Daphne balançou a cabeça de leve ao ser chamada à atenção. – Que tolice a minha.

Seus olhos caram meio vidrados quando ela olhou para o presente. Depois de piscar algumas vezes para clarear a visão, ela soltou cuidadosamente o fecho da caixa e a abriu.

Não conseguiu dizer nada além de “Ah, meu Deus”, e mesmo essa frase foi mais um suspiro que qualquer outra coisa.

Aninhado lá dentro estava um impressionante anel de ouro branco adornado

com uma grande esmeralda lapidada, ladeada por dois diamantes perfeitos. Era a joia mais maravilhosa que Daphne já vira, brilhante mas requintada, claramente valiosa mas não ostensiva em excesso.

– É lindo – murmurou ela. – Eu amei.

– Tem certeza? – Simon tirou as luvas, então se inclinou para a frente e tirou o anel da caixa. – Porque é sua aliança de noivado. É você quem irá usá-la, e ela deve refletir seu gosto, não o meu.

A voz de Daphne estava um tanto embargada quando ela disse:

– Parece que nós temos o mesmo gosto.

Simon deu um breve suspiro de alívio e segurou a mão dela. Até aquele instante, não havia se dado conta de quão importante era para ele o fato de Daphne gostar do presente. Detestava estar tão nervoso perto dela depois da amizade que os dois tinham desenvolvido nas últimas semanas. Odiava os silêncios em suas conversas, quando ela tinha sido a única pessoa com quem ele não sentia necessidade de fazer uma pausa para juntar um estoque de palavras antes de falar.

Não que estivesse tendo algum problema com isso naquele momento. A única questão era que ele parecia não saber o que dizer.

– Posso pôr no seu dedo? – perguntou ele em voz baixa.

Ela assentiu e começou a tirar a luva.

Mas Simon interrompeu o movimento dela e assumiu a tarefa. Deu um pequeno puxão na ponta de cada dedo e então, devagar, tirou a luva da mão de Daphne. O

gesto foi descaradamente erótico, uma versão abreviada do que ele queria fazer: remover cada peça de roupa do corpo dela.

Daphne soltou um arquejo quando a bainha da luva passou pelas pontas de seus dedos. O som de sua respiração passando pelos lábios fez com que Simon a quisesse ainda mais.

Com as mãos trêmulas, ele colocou o anel no dedo dela, ajeitando-o no lugar.

– Serviu direitinho – disse ela, mexendo a mão de um lado para outro a m de ver como a joia refletia a luz.

Simon, no entanto, não a soltou. Com os movimentos que Daphne fazia, sua pele deslizava na dele, criando um calor estranhamente reconfortante. Então ele levou a mão dela até a boca e deu um beijo suave nos nós de seus dedos.

– Que bom que coube – murmurou ele.

Os lábios dela se curvaram – uma insinuação daquele amplo sorriso que ele aprendera a adorar. Talvez fosse um sinal de que tudo ficaria bem entre eles.

– Como você sabia que eu gosto de esmeraldas? – perguntou Daphne.

– Eu não sabia – admitiu ele. – Elas me lembram seus olhos.

– Meus... – Daphne inclinou a cabeça levemente para o lado e retorceu os lábios em um sorriso irritado. – Simon, meus olhos são castanhos.

– A maior parte deles é castanha – corrigiu ele.

Ela se virou para o mesmo espelho em que ele avaliara os próprios ferimentos

mais cedo e piscou algumas vezes.

– Não – disse ela devagar, como se estivesse falando com uma pessoa de intelecto limitado –, são castanhos.

Ele estendeu o braço e passou, com delicadeza, um dedo embaixo do olho dela.

– Não nas bordas.

Ela lhe lançou um olhar de dúvida, mas um pouco esperançoso, então soltou um suspiro estranho e se levantou.

– Agora faço questão de ver.

Simon observou, divertido, enquanto ela aproximava o rosto do espelho. Daphne piscou várias vezes, então arregalou bem os olhos e piscou um pouco mais.

– Ah, meu Deus! – exclamou ela. – Eu nunca tinha reparado nisso!

Ele também se levantou, foi até o lado dela e se apoiou na mesa de mogno em frente ao espelho.

– Logo você vai aprender que eu tenho sempre razão.

Ela o encarou com uma expressão sarcástica.

– Mas como você percebeu isso?

Ele deu de ombros.

– Prestei bastante atenção.

– Você... – começou ela, então decidiu não terminar o que ia dizer e voltou a se encostar na mesa, arregalando bem os olhos para inspecioná-los mais uma vez. –

Quem diria – murmurou –, eu tenho olhos verdes.

– Bem, eu não iria tão longe...

– Hoje – interrompeu ela – eu me recuso a acreditar que sejam de qualquer cor que não verde.

Simon sorriu.

– Como queira.

Ela suspirou.

– Sempre tive tanta inveja de Colin... Acho um desperdício aqueles olhos tão lindos em um homem.

– Com certeza as jovens apaixonadas por ele discordariam disso.

Daphne lançou-lhe um olhar divertido.

– Sim, mas elas não têm importância nenhuma, não é?

Simon sentiu vontade de rir.

– Se você diz...

– Logo você vai aprender que eu tenho sempre razão – disse ela num tom brincalhão.

Desta vez ele riu. Não conseguiu segurar. Quando percebeu que ela estava em silêncio, acabou cando sério, mas ela estava olhando para ele com carinho, com um sorriso nostálgico nos lábios.

– Isso foi bom – comentou ela, pondo a mão sobre a dele. – Quase como costumava ser, não acha?

 

Ele assentiu, virando a palma da mão para cima de forma a segurar a mão dela.

– Vamos voltar a ser como antes, não vamos? – perguntou Daphne, um pouco apreensiva. – Vai ficar tudo exatamente igual, certo?

– Vai – concordou ele, embora não tivesse certeza. Eles poderiam se divertir juntos, mas talvez nunca fosse como costumava ser.

Ela sorriu, fechou os olhos e apoiou a cabeça no ombro dele.

– Que bom.

Simon cou olhando para o re exo dos dois no espelho durante vários minutos.

E quase acreditou que conseguiria fazê-la feliz.

Na noite seguinte – a última de Daphne como Srta. Bridgerton –, Violet bateu na porta de seu quarto.

Ela estava sentada na cama, com lembranças de infância espalhadas à sua frente, quando ouviu uma batida na porta.

– Pode entrar! – gritou.

Violet enfiou a cabeça pela porta com um sorriso constrangido no rosto.

– Daphne – disse ela, parecendo desconfortável –, posso falar com você um instante?

Ela olhou para a mãe com preocupação.

– É claro.

Quando Violet entrou no quarto, Daphne se levantou. O vestido amarelo da mãe combinava perfeitamente com seu tom de pele.

– Está tudo certo, mamãe? – perguntou ela. – Você não parece muito bem.

– Estou ótima. Eu só... – Violet pigarreou e se empertigou. – Acho que chegou a hora de termos uma conversa.

– Ahhhhhh – suspirou Daphne, com o coração batendo forte de expectativa.

Estava esperando por aquilo. Todas as amigas haviam lhe dito que, um dia antes do casamento, a mãe de uma moça lhe contava todos os segredos da noite de núpcias. A noiva era, então, admitida no mundo feminino e cava sabendo de todos os fatos pecaminosos e deliciosos que eram mantidos longe dos ouvidos das moças solteiras. Algumas das jovens próximas a ela já haviam se casado, é claro, e Daphne e as amigas tinham tentado fazê-las revelar esses segredos proibidos, mas as jovens senhoras apenas riam, dizendo: “Vocês logo descobrirão.”

“Logo” havia se tornado “agora”, e Daphne mal podia esperar.

Violet, por outro lado, parecia que ia vomitar a qualquer momento.

Daphne apontou para sua cama.

– Gostaria de se sentar, mamãe?

A viscondessa assentiu distraidamente.

– Sim, sim, seria ótimo – falou, ocupando um espaço na ponta do colchão.

Ela não parecia muito confortável.

Daphne resolveu ajudá-la e deu início à conversa.

– É sobre o casamento? – perguntou com delicadeza.

Violet fez um sinal afirmativo quase imperceptível com a cabeça.

Daphne se esforçou para não transparecer a alegria que sentia.

– Sobre a noite de núpcias? – continuou.

Dessa vez, Violet só conseguiu mexer o queixo um centímetro para cima e outro para baixo.

– Eu realmente não sei como falar sobre isso com você. É muito constrangedor.

Daphne tentou ter paciência. A mãe acabaria chegando ao ponto.

– Sabe – começou Violet, hesitante –, há coisas que você precisa saber. Coisas que vão acontecer amanhã à noite. Coisas – tossiu – que têm a ver com o seu marido.

Daphne se inclinou para a frente, arregalando os olhos.

Violet recuou, claramente desconfortável com o interesse evidente da filha.

– Sabe, o seu marido... quer dizer, Simon, é claro, já que ele será seu marido...

Como a mãe não deu mostras de que ia concluir o pensamento, Daphne murmurou:

– Sim, Simon será meu marido.

Violet soltou um gemido, sem conseguir encarar a filha.

– Isto é muito difícil para mim.

– Estou vendo – resmungou Daphne.

Violet respirou fundo e se endireitou, como se estivesse se preparando para a tarefa mais desagradável do mundo.

– Na sua noite de núpcias – falou –, seu marido irá esperar que você cumpra os seus deveres conjugais.

Até aí, nada que Daphne já não soubesse.

– Seu casamento terá que ser consumado.

– É claro – assentiu Daphne.

– Ele irá se juntar a você na cama.

Ela fez que sim com a cabeça. Sabia disso também.

– E ele irá realizar algumas... – Violet cou pensando na melhor forma de se expressar enquanto agitava as mãos no ar – intimidades com você.

Daphne entreabriu os lábios e sua respiração curta era o único som no quarto.

Finalmente aquilo estava ficando interessante.

– Estou aqui para lhe dizer – prosseguiu Violet, com a voz um pouco mais animada – que seus deveres conjugais não precisam ser desagradáveis.

Mas o que eram deveres conjugais?

O rosto de Violet estava vermelho.

– Sei que algumas mulheres consideram o... hã... ato... ruim, mas...

– É mesmo? – quis saber Daphne, curiosa. – Então por que vejo tantas criadas saindo às escondidas com os lacaios?

Violet no mesmo instante assumiu uma postura de patroa ultrajada.

– Qual das criadas fez isso? – questionou.

– Não tente mudar de assunto – alertou Daphne. – Esperei por esta conversa a semana toda.

Parte da fúria de sua mãe se foi.

– Esperou?

Daphne fez uma cara de “o que você acha?”.

– Bem, é claro.

Violet deu um suspiro e murmurou:

– Está certo. Onde eu estava?

– A senhora dizia que algumas mulheres consideram os deveres conjugais desagradáveis.

– Ah, sim. Bem... Hã...

Daphne olhou para as mãos da mãe e percebeu que ela já havia praticamente destruído um lenço.

– Só quero que você saiba – prosseguiu Violet, tropeçando nas palavras, desejando que aquela conversa terminasse logo – que não precisa ser nem um pouco desagradável. Se duas pessoas se gostam... e eu acredito que o duque gosta muito de você...

– E eu dele – interrompeu Daphne com delicadeza.

– É claro. Sim. Bem, considerando que vocês dois se gostam, provavelmente será um momento encantador e muito especial. – Violet começou a alisar o vestido, estendendo a seda amarela sobre a colcha. – E você não deve car nervosa. Tenho certeza de que o duque será muito gentil.

Daphne pensou no beijo ardente de Simon. “Gentil” não parecia ser o caso.

– Mas...

Violet levantou-se num salto.

– Muito bem. Foi só isso que eu vim dizer. Tenha uma boa noite.

– É só isso?

Violet acelerou a caminho da porta.

– Hã, sim. – Encarou a lha com um olhar culpado. – Você estava esperando outra coisa?

– Estava! – Daphne correu atrás da mãe e se atirou contra a porta para que ela não pudesse escapar. – Você não pode ir embora depois de me dizer só isso!

Violet olhou pela janela com um ar melancólico. Daphne deu graças a Deus pelo fato de seu quarto car no segundo andar, senão não descartaria a possibilidade de a mãe tentar sair por ela.

– Daphne... – falou Violet, com a voz engasgada.

– Mas o que eu devo fazer?

– O seu marido saberá – respondeu Violet de forma recatada.

– Não quero fazer papel de boba, mamãe.

Violet soltou um gemido.

– Você não vai fazer papel de boba. Confie em mim. Os homens são...

– São o quê, mamãe?

A essa altura, não só o rosto de Violet estava vermelho, mas também o pescoço e as orelhas.

– Os homens são fáceis de agradar – murmurou ela. – Ele não vai se decepcionar.

– Mas...

– Mas chega! – retrucou Violet com rmeza. – Eu já lhe disse tudo o que minha mãe me disse. Não seja uma boba nervosa e faça o possível para ter um filho.

Daphne ficou boquiaberta.

– O quê?

Violet soltou uma risada nervosa.

– Eu me esqueci de mencionar a parte sobre o bebê?

– Mamãe!

– Muito bem. Os seus deveres conjugais... quer dizer, a consumação... é como se fazem os bebês.

Daphne se apoiou na parede.

– Então a senhora fez isso oito vezes?

– Não!

Daphne cou confusa. As explicações da mãe estavam sendo vagas demais, e ela ainda não sabia exatamente o que eram os tais deveres conjugais, mas alguma coisa não estava batendo.

– Mas para ter oito filhos a senhora não teria que ter feito oito vezes?

Violet começou a se abanar furiosamente.

– Sim. Não! Daphne, isso é muito pessoal.

– Mas como a senhora poderia ter tido oito filhos se...

– Eu z mais do que oito vezes – admitiu Violet em uma voz muito baixa, com uma expressão de quem queria atravessar a parede. Daphne encarou a mãe com incredulidade.

– Fez?

– Às vezes as pessoas só fazem porque gostam – explicou Violet, mal movendo os lábios e olhando para um ponto fixo no chão.

Daphne ficou perplexa.

– É mesmo? – perguntou ela, num sussurro.

– Hã... é.

– Como quando homens e mulheres se beijam?

– Sim, exatamente – concordou Violet, suspirando aliviada. – Muito parecido... –

Ela estreitou os olhos. – Daphne – falou, com a voz repentinamente estridente –, você

 

beijou o duque?

Ela sentiu a pele assumir uma coloração semelhante à da mãe.

– Posso ter beijado – murmurou ela.

Violet sacudiu um dedo para a filha.

– Daphne Bridgerton, eu não acredito que você tenha sido capaz de fazer uma coisa dessas. A senhorita sabe muito bem o que eu lhe disse sobre permitir tais liberdades!

– Isso não tem nenhuma importância agora que estamos prestes a nos casar!

– Ainda assim... – suspirou Violet. – Bem, deixe para lá. Você tem razão. Não tem importância. Você está para casar, e ainda por cima com um duque. E se ele a beijou, bem, então isso era de esperar.

Daphne apenas encarou a mãe com uma expressão incrédula. A fala nervosa e hesitante dela lhe era muito estranha.

– Então – anunciou Violet –, como não tem mais perguntas, vou deixá-la, hã –

ela olhou distraidamente para as lembranças em que Daphne estava remexendo –, continuar o que quer que estivesse fazendo.

– Mas eu tenho mais perguntas, sim!

Sua mãe, no entanto, já havia conseguido escapar.

E, por mais que quisesse aprender os segredos do ato conjugal, Daphne não iria perseguir a mãe pelo corredor – à vista de toda a família e dos criados – para descobrir.

Além disso, a conversa com Violet suscitara diversas novas preocupações. Ela dissera que as obrigações matrimoniais eram um requisito para gerar bebês. Se Simon não podia ter filhos, será que isso queria dizer que não era capaz de realizar as intimidades que a mãe havia mencionado?

E o que eram essas intimidades? Daphne suspeitava que tivessem alguma coisa a ver com o ato de beijar, já que toda a sociedade parecia tão determinada a garantir que as jovens mantivessem os lábios puros e castos. E também, pensou, com as bochechas cando rubras ao se lembrar do que havia acontecido nos jardins com Simon, deviam ter a ver com os seios.

Daphne suspirou. A mãe quase ordenara que não casse nervosa, mas era impossível. Principalmente quando se esperava que ela cumprisse seus deveres sem ter a menor ideia de como fazer isso.

E quanto a Simon? Se ele não pudesse consumar o casamento, algum dia seria um casamento?

Tudo isso era mais que suficiente para deixar uma noiva muito apreensiva.

No m, foram os pequenos detalhes da cerimônia que Daphne guardou na

memória. Sua mãe chorava e Anthony estava com a voz estranhamente rouca quando a entregou a Simon. Hyacinth atirou as pétalas de rosa rápido demais e não sobrou nenhuma para o momento em que Daphne chegou ao altar. Gregory espirrou três vezes antes de começarem os votos nupciais.

Ela se lembrava também do olhar de concentração de Simon na hora em que ele fez seus votos. Cada sílaba foi pronunciada devagar e com cuidado. Os olhos dele ardiam de desejo, e sua voz baixa era sincera. Para Daphne, era como se nada no mundo pudesse ser tão importante como as palavras que ele falou quando os dois estavam diante do arcebispo.

Seu coração se confortou com isso. Nenhum homem que fazia os votos com tanta intensidade poderia ver o casamento como uma mera conveniência.

O que Deus uniu, o homem não separa.

Daphne sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha e deixando-a tonta. Em apenas um instante, ela pertenceria àquele homem para sempre.

Simon virou levemente a cabeça para ela e a encarou. Você está bem?, perguntava seu olhar.

Ela assentiu com um movimento tão discreto da cabeça que apenas ele pôde notar. Algo brilhou nos olhos dele – seria alívio?

E agora eu vos declaro...

Gregory espirrou uma quarta vez, depois uma quinta e uma sexta, encobrindo por completo o “marido e mulher” do arcebispo. Daphne sentiu uma risada subindo por sua garganta. Apertou os lábios, determinada a car adequadamente séria.

A nal, o casamento era uma instituição solene que não podia ser tratada como uma piada.

Ela virou a cabeça para Simon e percebeu que ele a encarava com uma expressão divertida. Estava com os olhos azul-claros focados em sua boca e os cantos dos lábios dele de repente começaram a se retorcer.

Daphne sentiu a risada ficar ainda mais difícil de segurar.

Pode beijar a noiva.

Simon a agarrou com braços quase desesperados, encostando a boca nos lábios dela com tanto desejo que chegou a arrancar um suspiro coletivo do pequeno grupo de convidados.

Então os dois, ainda abraçados, explodiram em uma gargalhada.

Mais tarde, Violet disse que fora o beijo mais estranho que ela tivera o privilégio de testemunhar.

Quando parou de espirrar, Gregory disse que foi nojento.

O arcebispo, que já tinha uma idade bastante avançada, pareceu perplexo.

Mas Hyacinth, que aos 10 anos não devia saber nada sobre beijos, cou com uma expressão pensativa e depois disse:

– Acho que foi ótimo. Se eles estão rindo agora, provavelmente vão rir para sempre. – Virou-se para a mãe. – Isso não é bom?