O Duque e Eu

Julia Quinn · Capítulo 7 de 27

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O Duque e Eu

Capítulo 6

– Menino bobo – murmurou consigo mesma.

Nenhum de seus rebentos parecia perceber seus truques. Bastava matraquear sobre qualquer coisa para conseguir se livrar deles num piscar de olhos.

Suspirou, satisfeita, e voltou a observar a lha, agora do outro lado do salão, com a mão confortavelmente aninhada no cotovelo do duque. Os dois formavam um belo par.

Sim, ela pensou, com os olhos marejados, Daphne daria uma excelente duquesa.

Então por um instante desviou o olhar para Anthony, que estava onde ela desejava: longe da irmã. Permitiu-se sorrir discretamente. Era tão fácil controlar os filhos...

Então sua expressão de alegria deu lugar a uma testa franzida no momento em que viu Daphne voltando para perto dela – segurando o braço de outro homem. Os olhos de Violet na mesma hora varreram o salão até que encontrassem o duque.

Ora, que diabo ele estava fazendo dançando com Penelope Featherington?

CA P Í T U L O 6

Contaram a esta autora que, na noite de ontem, o duque de Hastings mencionou nada menos que seis vezes que não tem planos de se casar. Se sua intenção era desencorajar as mães ambiciosas, ele cometeu um grave erro de avaliação. Elas simplesmente verão seus comentários como os maiores desafios.

E o interessante é que todos os comentários antimatrimônio foram feitos antes que ele fosse apresentado à encantadora e ajuizada Srta. (Daphne) Bridgerton.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN, 30 DE ABRIL DE 1813

Na tarde seguinte, Simon estava parado na entrada da casa de Daphne, com uma das mãos batendo a aldrava de bronze na porta e a outra segurando um grande buquê de tulipas caríssimas. Não lhe ocorrera que sua pequena farsa exigiria sua atenção também à luz do dia, mas durante a volta dos dois pelo salão na noite anterior Daphne observara sabiamente que, se ele não a procurasse no dia seguinte, ninguém – muito menos a mãe dela – acreditaria de fato que ele estava interessado nela.

Simon concordou com a avaliação, admitindo que Daphne com certeza tinha mais conhecimento nessas questões de etiqueta do que ele. Assim, ele a obedecera, comprando ores, e atravessara a Grosvenor Square em direção à Casa Bridgerton.

Como nunca cortejara uma mulher respeitável antes, o ritual lhe era bastante estranho.

A porta foi aberta quase de imediato pelo mordomo dos Bridgertons. Simon entregou-lhe seu cartão. O homem, um sujeito alto e magro com um nariz adunco, olhou para o pequeno pedaço de papel por uma fração de segundo antes de assentir com a cabeça e murmurar:

– Por aqui, Alteza.

Era óbvio, Simon pensou com sarcasmo, que ele estava sendo esperado.

O que não imaginava, no entanto, era a visão que o aguardava quando ele entrou na sala de estar. Daphne parecia uma miragem sentada no sofá de linho verde, com um vestido de seda azul-claro e o rosto adornado por um de seus largos sorrisos.

Teria sido uma imagem encantadora se ela não estivesse cercada por pelo menos meia dúzia de homens, um deles literalmente de joelhos, com versos saindo de seus lábios. A julgar pela natureza oreada da poesia, Simon chegou a achar que uma roseira brotaria da boca do idiota a qualquer momento.

Chegou à conclusão de que toda aquela cena era muito desagradável.

Fixou o olhar em Daphne, que dirigia seu magní co sorriso ao bufão agachado, e esperou que ela notasse sua presença.

Ela não o viu.

Simon olhou para baixo, para sua mão desocupada, e percebeu que estava com o punho cerrado. Esquadrinhou a sala, tentando decidir em que rosto iria cravá-lo.

Daphne sorriu de novo, e mais uma vez não foi para ele.

O poeta idiota. Sem sombra de dúvida, o poeta idiota. O duque inclinou um pouco a cabeça para o lado enquanto analisava o rosto do jovem apaixonado. Seu punho se encaixaria melhor no olho direito ou no esquerdo? Ou isso era violento demais? Talvez um leve corte no queixo fosse mais apropriado. No mínimo, poderia fazê-lo calar a boca.

– Este – anunciou o poeta com grandeza – eu escrevi em sua homenagem ontem à noite.

Simon soltou um gemido. Reconhecera o poema a que o homem se referia como uma versão grandiosa de um soneto de Shakespeare, mas um trabalho original era mais do que poderia suportar.

– Alteza!

Simon ergueu o olhar e percebeu que Daphne enfim havia notado sua presença.

Ele acenou com a cabeça, o ar tranquilo con itando com os olhares de cachorro pidão dos demais pretendentes.

– Srta. Bridgerton.

– Que ótimo vê-lo – disse ela, com um sorriso de satisfação.

Ah, assim estava melhor. Simon ajeitou as ores e começou a caminhar em direção a ela quando percebeu que havia três jovens pretendentes em seu caminho, e nenhum parecia inclinado a arredar o pé. Ele fuzilou o primeiro com seu olhar mais arrogante, que fez com que o garoto – que parecia ter no máximo 20 anos, mal podendo ser chamado de homem – começasse a tossir da maneira menos atraente possível e saísse correndo para um banco desocupado perto da janela.

Simon seguiu em frente, pronto para repetir o procedimento com o próximo pretendente irritante, quando a viscondessa surgiu de repente em seu caminho, com um vestido azul-escuro e um sorriso que poderia rivalizar com o de Daphne.

– Alteza! – saudou ela com entusiasmo. – Que prazer em vê-lo! Sua presença é uma honra para nós.

– Não poderia imaginar estar em nenhum outro lugar – disse Simon ao beijar sua mão enluvada. – Sua filha é uma jovem excepcional.

Violet suspirou, satisfeita.

– E que ores lindas – elogiou ela assim que parou de se deliciar com seu orgulho materno. – São holandesas? Devem ter custado uma fortuna.

– Mamãe! – repreendeu Daphne com a voz estridente. Soltou a mão das garras de um pretendente particularmente enérgico e se aproximou. – Assim a senhora deixa o duque sem saber o que dizer!

– Eu poderia dizer quanto paguei pelas ores – sugeriu ele com um meio sorriso malicioso.

– Você não faria isso.

Ele se inclinou para a frente, baixando o tom de voz para que apenas Daphne pudesse ouvi-lo.

– Você não observou ontem à noite que eu sou um duque? – murmurou ele. –

Pensei que tivesse me dito que posso fazer o que quiser.

– Sim, mas não isso – falou Daphne, descartando o argumento dele com um aceno de mão. – Você jamais seria tão rude.

– É claro que o duque não seria rude! – exclamou Violet, claramente horrorizada por Daphne ter coragem de sequer pronunciar a palavra diante dele. – Sobre o que está falando? Por que ele seria rude?

– As ores – esclareceu Simon. – Quanto custaram. Daphne acha que eu não devo lhe dizer.

– Me diga depois – sussurrou a viscondessa pelo canto da boca –, quando ela não estiver ouvindo.

Então voltou para o sofá verde em que Daphne estivera sentada com os pretendentes e o esvaziou em menos de três segundos. Simon cou admirado com a precisão militar com que ela realizou a manobra.

– Pronto – disse ela. – Não está ótimo assim? Daphne, por que você e o duque não se sentam ali?

– Ali onde o lorde Railmont e o Sr. Crane estavam sentados há apenas alguns instantes? – perguntou Daphne com ar inocente.

– Exatamente – respondeu Violet, com um admirável tom casual, pelo menos na opinião de Simon. – Além disso, o Sr. Crane disse que precisa se encontrar com a mãe no Gunter’s às três.

Daphne olhou para o relógio.

– São duas horas agora, mamãe.

– O trânsito anda terrível ultimamente – disse Violet, torcendo o nariz. – Há cavalos demais nas ruas.

– Um homem não pode deixar a mãe esperando – completou Simon, entrando no espírito da conversa.

– Bem observado, Alteza – concordou Violet, radiante. – Pode ter certeza de que foi essa a educação que dei a meus filhos.

– E, caso tenha alguma dúvida – falou Daphne com um sorriso –, eu con rmo de bom grado.

A viscondessa apenas sorriu.

– Se alguém deveria saber disso é você, Daphne. Agora, se me dão licença, tenho coisas para fazer. Ah, Sr. Crane! Sr. Crane! Sua mãe jamais me perdoaria se eu não o liberasse a tempo. – Ela se apressou, arrastando o pobre homem pelo braço e o levando até a porta, mal lhe dando tempo para se despedir.

Daphne virou-se para Simon com uma expressão divertida.

– Não consigo decidir se ela está sendo excessivamente educada ou extremamente rude.

– Extremamente educada, talvez? – Simon perguntou com suavidade.

Ela balançou a cabeça.

– Ah, definitivamente não.

– A alternativa, é claro, seria...

– Excessivamente rude? – Daphne sorriu enquanto observava a mãe passar o braço por dentro do de lorde Railmont, apontá-lo para Daphne a m de que ela se despedisse com um aceno e levá-lo para fora da sala. E então, como por encanto, o galanteador que restava murmurou uma despedida apressada e saiu.

– Impressionantemente eficiente, não? – murmurou Daphne.

– Sua mãe? Ela é maravilhosa.

– Ela vai voltar, é claro.

– Que pena. E eu pensando que tinha você verdadeiramente nas minhas garras.

Daphne riu.

– Não sei como alguém pode considerá-lo um libertino. Seu senso de humor é excelente.

– E nós, libertinos, acreditávamos ser tão perversamente cômicos...

– O humor de um libertino é essencialmente cruel – afirmou Daphne.

O comentário dela o surpreendeu. Encarou-a com atenção, observando seus olhos castanhos, sem saber, no entanto, o que estava procurando de fato. Havia um círculo verde estreito ao redor de suas pupilas, de uma cor profunda como o musgo.

Então se deu conta de que nunca a vira à luz do dia antes.

– Alteza? – A voz baixa de Daphne o tirou de seu transe.

Simon piscou.

– Perdão, o que disse?

– Você parecia estar a quilômetros de distância – comentou ela, franzindo a testa.

– Eu estava a quilômetros de distância. – Lutou contra a vontade de voltar a encarar seus olhos. – Isto é muito diferente.

Daphne soltou uma risada que soava como música.

– Estava mesmo, não é? E eu nunca fui além de Lancashire. Como devo parecer provinciana...

Ele desconsiderou a observação.

– Perdoe a desatenção. Creio que estávamos falando sobre minha falta de humor.

– Não estávamos, não, e você sabe disso muito bem. – Ela pôs as mãos nos

quadris. – Eu estava dizendo especi camente que tem um senso de humor muito superior ao dos libertinos comuns.

Ele levantou uma sobrancelha com um ar bastante superior.

– E você não classificaria seus irmãos como libertinos?

– Eles apenas acham que são libertinos – corrigiu ela. – Existe uma grande diferença.

Simon riu.

– Se Anthony não é um libertino, tenho pena da mulher que encontrar um homem que seja.

– Ser um libertino é mais do que seduzir muitas mulheres – comentou Daphne em tom casual. – Se um homem não consegue fazer nada além de en ar a língua na boca de uma mulher e beijar...

Simon sentiu a garganta fechando, mas de alguma forma conseguiu dizer:

– Você não deveria estar falando sobre essas coisas.

Ela deu de ombros.

– Você não deveria sequer saber dessas coisas – resmungou ele.

– Quatro irmãos – argumentou ela. – Bem, três. Gregory ainda é jovem demais para entrar na conta.

– Alguém deveria avisá-los para segurar a língua perto de você.

Ela deu de ombros de novo, dessa vez com menos ênfase.

– Metade do tempo eles nem percebem que estou por perto.

Simon não conseguia imaginar isso.

– Mas parece que nós nos desviamos muito do tema original – alertou ela. – O

que eu estava tentando dizer é que o humor de um libertino é baseado em crueldade.

Ele precisa de uma vítima, pois não pode sequer pensar em rir de si mesmo. E você, Alteza, é muito bom com observações de autodepreciação.

– Eu só não sei se agradeço ou esgano você.

– Me esganar? Ué, mas por quê? – Ela riu de novo, uma risada profunda que Simon sentiu no âmago de seu ser.

Ele deu um suspiro profundo, mas o longo sopro de ar foi praticamente inútil para estabilizá-lo. Se ela continuasse rindo daquele jeito, ele não responderia pelas consequências.

Mas ela permaneceu olhando para ele, com a boca larga curvada num daqueles sorrisos que pareciam estar à beira da gargalhada.

– Vou esganá-la pelo princípio geral – resmungou ele.

– E que princípio seria esse?

– O princípio geral do homem – vociferou Simon.

Ela levantou as sobrancelhas em uma expressão de dúvida.

– Em oposição ao princípio geral da mulher?

Ele olhou ao redor.

– Onde está seu irmão? Você é insolente demais. Alguém precisa lhe dar um jeito.

– Ah, estou certa de que você verá Anthony com muito mais frequência. Na verdade, estou bastante surpresa por ele ainda não ter aparecido. Ele cou furioso ontem à noite. Fui obrigada a ouvir um sermão de uma hora sobre seus defeitos e pecados.

– Com certeza os pecados são exagerados.

– E os defeitos?

– Provavelmente verdadeiros – admitiu Simon com certa timidez.

A observação lhe rendeu mais um sorriso de Daphne.

– Bem, verdadeiros ou não – continuou ela –, ele acha que você está planejando alguma coisa.

– Eu estou planejando alguma coisa.

Ela inclinou a cabeça para o lado sarcasticamente enquanto revirava os olhos.

– Ele acha que você está planejando alguma coisa execrável.

– Bem que eu gostaria de estar fazendo isso – resmungou ele.

– O que disse? Não entendi.

– Nada.

Ela franziu a testa.

– Acho que deveríamos contar a Anthony sobre nosso acordo.

– E o que ganharíamos com isso?

Daphne se lembrou da hora inteira de tortura que suportara na noite anterior e disse apenas:

– É, acho melhor que descubra sozinho.

Simon apenas ergueu as sobrancelhas.

– Minha cara Daphne...

Ela entreabriu a boca, surpresa.

– É claro que você não vai me forçar a chamá-la de Srta. Bridgerton. – Ele suspirou de forma dramática. – Depois de tudo o que passamos.

– Não passamos por nada, seu bobo, mas acho que pode me chamar de Daphne mesmo assim.

– Ótimo – comemorou ele de modo condescendente. – Pode me chamar de Alteza.

Ela lhe deu um tapinha.

– Muito bem – respondeu ele, torcendo os lábios. – Se faz tanta questão, pode me chamar de Simon.

– Ah, eu faço questão – disse Daphne, revirando os olhos. – Com certeza eu faço questão.

Ele se inclinou para ela com algo diferente e meio fogoso faiscando nas profundezas de seus olhos claros.

– Faz questão? – murmurou ele. – Fico muito satisfeito por saber disso.

Daphne teve a sensação repentina de que ele estava se referindo a algo muito mais íntimo que a simples menção de seu nome de batismo. Um tipo de quentura estranha

e vibrante tomou conta de seus braços e, sem pensar, ela deu um passo para trás.

– Essas flores são lindas – disse ela de repente.

Ele olhou para o buquê com indiferença, girando-o na mão.

– São mesmo, não são?

– Eu adorei.

– Elas não são para você.

Daphne ficou sem graça, e Simon sorriu.

– São para sua mãe – explicou.

Ela abriu a boca devagar, surpresa, soltando um pouco de ar antes de dizer:

– Ora, você é um homem muito, muito esperto. Com certeza ela irá cair aos seus pés. Mas você sabe que isso voltará para assombrá-lo, não sabe?

Ele lhe lançou um olhar astuto.

– Ah, é mesmo?

– É. Ela se tornará mais determinada do que nunca a arrastá-lo para o altar.

Você vai acabar se vendo tão cercado nas festas como se não tivéssemos elaborado nosso plano.

– Bobagem – zombou ele. – Antes eu precisava suportar dezenas de mães ambiciosas. Agora tenho que lidar apenas com uma.

– Talvez você se surpreenda com a determinação dela – murmurou Daphne.

Então virou a cabeça para olhar pela porta entreaberta. – Ela deve gostar de você –

acrescentou. – Deixou-nos sozinhos por muito mais tempo que o adequado.

Simon refletiu e se inclinou para a frente a fim de sussurrar:

– Ela poderia estar ouvindo atrás da porta?

Daphne balançou a cabeça.

– Não, nós teríamos escutado seus sapatos no corredor.

Alguma coisa nessa declaração o fez sorrir, e Daphne se agrou sorrindo junto com ele.

– Mas eu realmente deveria lhe agradecer antes que ela volte – continuou ela.

– É? Por quê?

– Seu plano está sendo um grande sucesso. Pelo menos para mim. Percebeu quantos pretendentes vieram me ver hoje?

Ele cruzou os braços, deixando as tulipas de cabeça para baixo.

– Percebi, sim.

– É incrível. Nunca tive tantos interessados num único dia. Mamãe estava explodindo de orgulho. Até mesmo Humboldt, nosso mordomo, cou encantado, e eu nunca o vi sequer sorrindo. Ooops! Veja, as ores estão pingando. – Daphne se abaixou e ajeitou as tulipas, roçando o braço de leve na frente do casaco dele. Ela imediatamente deu um salto para trás, surpresa com a quentura e a força dele.

Meu Deus, se ela podia sentir tudo aquilo através da camisa e do casaco, como ele deveria ser...

Daphne ficou vermelha. Muito vermelha.

– Eu daria minha fortuna por seus pensamentos – disse Simon, erguendo as sobrancelhas com curiosidade.

Felizmente, Violet escolheu esse momento para voltar à sala.

– Peço mil desculpas por tê-los abandonado por tanto tempo – falou –, mas o cavalo do Sr. Crane perdeu uma ferradura, então precisei acompanhá-lo até os estábulos para achar um cavalariço que resolvesse o problema.

Durante toda a vida, ela nunca ouvira falar de uma ida da mãe aos estábulos.

– A senhora é realmente uma an triã fora de série – elogiou Simon, estendendo-lhe as flores. – Tome, peço-lhe que aceite estas tulipas.

– Para mim? – Violet cou boquiaberta, deixando um suspiro de surpresa escapar de seus lábios. – Tem certeza? Porque eu... – Olhou para Daphne, depois para Simon e por fim de volta para a filha. – Tem certeza?

– Absoluta.

Violet piscou rapidamente e Daphne percebeu que havia lágrimas nos olhos da mãe. Pensou que ninguém lhe dava ores. Pelo menos não desde a morte de seu pai, dez anos antes. Violet era uma mãe tão boa que a menina esquecera que ela era também uma mulher.

– Não sei nem o que dizer – fungou Violet.

– Tente “obrigada” – sussurrou a lha em seu ouvido, dando um sorriso que deixou o comentário mais caloroso.

– Ah, Daff, você é terrível. – Violet lhe deu um tapinha no braço, parecendo mais jovem do que Daphne jamais tinha visto. – Mas obrigada, Alteza. São lindas, porém o mais importante é que foi um gesto muito gentil. Sempre me lembrarei deste momento com carinho.

Simon parecia prestes a dizer algo, mas acabou apenas sorrindo e inclinando a cabeça para o lado.

Daphne olhou para Violet, viu a inegável alegria em seus olhos azuis e se deu conta, com um lampejo de vergonha, de que nenhum dos lhos dela jamais agira de modo tão gentil como aquele homem a seu lado.

O duque de Hastings. Nesse momento, Daphne entendeu que seria uma tola se não se apaixonasse por ele.

É claro que seria bom se fosse recíproco.

– Mamãe – chamou Daphne –, quer que eu vá pegar um vaso?

– O quê? – Violet ainda estava ocupada demais cheirando alegremente as tulipas para prestar atenção às palavras da lha. – Ah, sim, é claro. Peça que Humboldt traga o vaso de cristal da minha avó.

A jovem lançou um sorriso de gratidão para Simon e se dirigiu à porta. Mas antes que pudesse dar mais do que dois passos, a forma grande e amedrontadora do irmão mais velho se materializou na entrada da sala.

– Daphne – resmungou Anthony. – Exatamente a pessoa com quem eu precisava falar.

Ela decidiu que a melhor estratégia era ignorar o humor grosseiro dele.

– Só um instante, Anthony – disse ela com doçura. – Mamãe pediu que eu buscasse um vaso. Hastings trouxe flores para ela.

– Simon está aqui? – Ele olhou por cima dela, para dentro da sala. – O que está fazendo aqui, Hastings?

– Visitando sua irmã.

Anthony passou por Daphne e entrou na sala parecendo uma nuvem de tempestade.

– Eu não lhe dei permissão para cortejar minha irmã! – berrou.

– Pois eu dei – interferiu Violet. Enfiou as flores no rosto do filho, sacudindo-as de forma a depositar o máximo de pólen no nariz dele. – Não são lindas?

Anthony espirrou e empurrou as tulipas para o lado.

– Mamãe, estou tentando falar com o duque.

Ela olhou para o rapaz.

– Deseja ter essa conversa com meu filho?

– Não faço nenhuma questão, na verdade – respondeu Simon.

– Muito bem, então. Anthony, fique quieto.

Daphne pôs a mão na boca, mas não conseguiu evitar que a risada presa escapasse.

– Você! – gritou Anthony, apontando um dedo na direção da irmã. – Fique quieta!

– Acho melhor ir buscar o vaso – sugeriu Daphne.

– E me deixar à mercê do seu irmão? – disse Simon com a voz suave. – Talvez seja melhor não.

Ela levantou uma sobrancelha.

– Está insinuando que não é homem o bastante para lidar com ele?

– É claro que não. Só acho que ele deveria ser problema seu, não meu, e...

– Que diabo está acontecendo aqui? – rugiu Anthony.

– Meu lho! – exclamou Violet. – Não vou tolerar que você use um linguajar tão impróprio na minha sala de estar.

Daphne sorriu.

Simon apenas inclinou a cabeça para o lado, encarando o amigo com uma expressão curiosa.

Anthony lançou um olhar furioso para ele e sua irmã antes de voltar a atenção para a mãe.

– Ele não é de con ança. A senhora faz ideia do que está acontecendo aqui? –

questionou.

– É óbvio que sim – respondeu Violet. – O duque está fazendo uma visita à sua irmã.

– E trouxe flores para sua mãe – completou Simon, prestativo.

Anthony olhou xamente para o nariz do rapaz, que teve certeza de que o amigo

estava imaginando como seria dar um soco nele.

Depois virou a cabeça a fim de encarar a mãe.

– A senhora conhece a reputação dele?

– Libertinos arrependidos dão os melhores maridos – afirmou Violet.

– Isso é besteira, e a senhora sabe disso.

– De qualquer maneira, ele não é um libertino de verdade – acrescentou Daphne.

O olhar que Anthony lançou à irmã foi tão comicamente malévolo que o duque quase caiu na gargalhada. Conseguiu se conter, mas apenas porque tinha a impressão de que qualquer demonstração de humor de sua parte faria com que o punho de Anthony ganhasse a batalha que estava travando com seu cérebro, e o rosto de Simon seria a primeira vítima do conflito.

– Você não sabe – decretou Anthony, com a voz baixa e quase trêmula de raiva.

– Você não sabe o que ele já fez.

– Nada mais grave do que você mesmo já fez, tenho certeza – comentou Violet com malícia.

– Exatamente! – exclamou Anthony. – Pelo amor de Deus, eu sei muito bem o que está se passando na cabeça dele neste momento, e não tem nada a ver com poesia e rosas.

Simon imaginou Daphne deitada numa cama de pétalas de rosas.

– Bem, talvez rosas – murmurou ele.

– Eu vou matá-lo! – ameaçou Anthony.

– Bem, são apenas tulipas – falou Violet de forma afetada. – Da Holanda. E, Anthony, você realmente precisa controlar suas emoções. Isto é muito inadequado.

– Ele não serve nem para lamber as solas dos sapatos de minha irmã!

A cabeça de Simon se encheu de mais imagens eróticas. Dessa vez, ele lambia os dedos de Daphne. Resolveu não fazer qualquer comentário. Além disso, já havia decidido que não se permitiria pensar nessas coisas. Ela era irmã do amigo dele, pelo amor de Deus. Não poderia seduzi-la.

– Eu me recuso a ouvir mais uma palavra depreciativa sobre o duque – declarou Violet enfaticamente. – E ponto final.

– Mas...

– Não estou gostando do seu tom, Anthony Bridgerton!

Simon pensou ter ouvido Daphne engolir uma risada e se perguntou do que se tratava aquilo.

– Se for do agrado de Vossa Maternidade – disse Anthony à mãe num tom agonizantemente calmo –, gostaria de uma conversa em particular com Simon.

– Dessa vez eu vou mesmo buscar o vaso – anunciou Daphne, saindo da sala.

Violet cruzou os braços e informou ao filho:

– Não vou permitir que trate mal um convidado em minha casa.

– Prometo não encostar um dedo nele – respondeu Anthony. – Dou minha palavra.

Como nunca conhecera a própria mãe, Simon estava achando aquele diálogo fascinante. Tecnicamente, a nal, a Casa Bridgerton era a casa de Anthony, não de Violet, e Simon ficou impressionado que o amigo não fizesse essa observação.

– Está tudo bem, Lady Bridgerton – interrompeu ele. – Estou certo de que Anthony e eu temos muito que conversar.

Anthony estreitou os olhos.

– Muito.

– Está bem – concordou Violet. – De qualquer maneira você fará o que quiser, não importa o que eu diga. Mas não vou sair daqui. – Ela se instalou no sofá. – Esta sala é minha, e estou confortável aqui. Se desejam continuar com isso que chamam de “conversa entre homens”, podem fazê-lo em outro lugar.

Simon piscou, surpreso. Era óbvio que a mãe de Daphne era mais inteligente do que aparentava ser.

Anthony acenou em direção à porta com a cabeça e o duque o seguiu até o corredor.

– Meu escritório fica por aqui – informou Anthony.

– Você tem um escritório aqui?

– Sou o chefe da família, afinal de contas.

– É claro – reconheceu Simon. – Mas você mora em outro lugar.

Anthony fez uma pausa e examinou o amigo.

– Você já deve ter notado que minha posição como chefe da família Bridgerton acarreta sérias responsabilidades.

Simon encarou-o com calma.

– Está se referindo a Daphne?

– Exato.

– Se bem me lembro – comentou o duque –, esta semana você disse que queria nos apresentar.

– Isso foi antes de eu achar que você se interessaria por ela!

Simon segurou a língua enquanto seguia Anthony até seu escritório, e continuou em silêncio até que o amigo fechasse a porta.

– Por que você achava – perguntou ele baixinho – que eu não me interessaria por sua irmã?

– Além do fato de você ter jurado que jamais se casaria? – replicou Anthony.

Ele tinha razão. Simon detestou o fato de que ele estava coberto de razão.

– Sim, além disso – respondeu.

Anthony piscou algumas vezes e então disse:

– Ninguém se interessa por Daphne. Pelo menos ninguém com quem gostaríamos que ela casasse.

O duque cruzou os braços e se encostou na parede.

– Você não a vê com muitos bons olhos, n...

Antes que pudesse sequer terminar a pergunta, Anthony o estava agarrando pelo

pescoço.

– Não ouse insultar minha irmã!

Mas Simon aprendera inúmeras técnicas de autodefesa em suas viagens e levou apenas dois segundos para neutralizar o ataque do amigo.

– Eu não estava insultando sua irmã – explicou ele num tom malévolo. – Estava insultando você.

Anthony só conseguiu emitir estranhos sons gorgolejantes como resposta, então Simon o soltou.

– Acontece – disse o duque, esfregando uma mão na outra – que Daphne me explicou por que não atraiu nenhum pretendente adequado até agora.

– Ah, é? – disse Anthony ironicamente.

– Na minha opinião, acho que tem tudo a ver com esse seu comportamento.

Você e seus irmãos parecem homens das cavernas! Mas, de acordo com ela, é porque todos a veem como amiga, não como uma heroína romântica.

Anthony ficou em silêncio por um longo instante e depois falou:

– Entendo. – Então, após mais uma pausa, acrescentou, pensativo: – Talvez ela tenha razão.

Simon não respondeu, cou apenas observando o amigo enquanto ele re etia sobre tudo aquilo. Por fim, Anthony concluiu:

– Ainda assim, não gosto de ver você farejando ao redor dela.

– Meu Deus, você faz com que eu pareça um cachorro.

Anthony cruzou os braços.

– Não esqueça que nós fomos da mesma matilha quando saímos de Oxford. Sei exatamente o que você fez.

– Ora, por favor, nós tínhamos 20 anos! Todos os homens são idiotas nessa idade. Além disso, você sabe muito bem q-q...

Simon sentiu a língua car estranha e ngiu um ataque de tosse para disfarçar a gagueira. Que droga. Aquilo quase não acontecia mais, a não ser que estivesse chateado ou irritado. Se perdia o controle sobre as emoções, perdia o controle sobre a fala. Era simples assim.

E, infelizmente, episódios como esse só serviam para deixá-lo chateado e irritado, o que, por sua vez, exacerbava a gagueira. Era o pior tipo de círculo vicioso.

Anthony olhou para ele intrigado.

– Você está bem?

Simon assentiu.

– Um pouco de coceira na garganta – mentiu.

– Quer que eu peça um chá?

Simon assentiu mais uma vez. Não é que quisesse realmente um chá, mas pareceu o tipo de coisa que alguém pediria se estivesse mesmo com uma coceira na garganta.

Anthony puxou a campainha, virou-se de novo para Simon e perguntou:

– O que você estava dizendo?

Ele engoliu em seco, esperando que isso o ajudasse a recuperar o domínio sobre suas emoções.

– Eu só queria lembrar que você sabe melhor do que ninguém que metade da minha reputação, se não mais, é imerecida.

– Sim, mas eu vi com meus próprios olhos o que você fez para ganhar a metade merecida, e, embora não me importe que você se encontre com Daphne em algumas ocasiões sociais, não quero que a corteje.

Simon encarou o amigo – ou pelo menos o homem que pensava ser seu amigo –, incrédulo.

– Você acha mesmo que eu seduziria sua irmã?

– Não sei o que achar. O que sei é que você planeja nunca se casar e que minha irmã quer formar uma família. – Anthony deu de ombros. – Francamente, para mim isso basta para manter vocês bem longe um do outro.

Simon respirou fundo. Embora a atitude de Anthony fosse muito irritante, era compreensível e, na verdade, até louvável. A nal, o homem estava apenas agindo em prol dos interesses da irmã. Simon tinha di culdade de se imaginar responsável por qualquer pessoa além de si mesmo, mas pensou que, se tivesse uma irmã, também seria bastante seletivo em relação aos pretendentes dela.

Nesse instante, alguém bateu à porta.

– Pode entrar! – gritou Anthony.

Em vez da empregada, com o chá, quem apareceu foi Daphne.

– Mamãe me contou que os dois estão nervosos e que eu deveria deixá-los a sós, mas achei melhor me certificar de que não se matariam.

– Claro que não – comentou Anthony com um sorriso irritado. – Houve apenas um pequeno estrangulamento.

A jovem nem piscou.

– Quem estrangulou quem?

– Eu o estrangulei primeiro – contou Anthony –, e depois ele retribuiu o gesto.

– Sei – disse ela lentamente. – Que pena eu ter perdido a diversão. Simon não conseguiu conter um sorriso diante da observação dela.

– Daff – começou ele.

Anthony girou nos calcanhares.

– Você a chama de Daff? – Depois se virou para a irmã. – Você lhe deu permissão para chamá-la pelo primeiro nome? E, pior ainda, pelo apelido?

– É claro.

– Mas...

– Talvez seja melhor abrirmos o jogo – interrompeu Simon, dirigindo-se a Daphne.

Ela assentiu sombriamente.

– Acho que você tem razão. Eu inclusive já tinha dito isso.

– Que gentileza sua mencionar isso – murmurou o duque.

Ela sorriu.

– Não pude resistir. A nal, com quatro irmãos, é preciso sempre aproveitar o momento em que se pode dizer “Eu avisei”.

Simon olhou de um para o outro.

– Não sei de qual dos dois tenho mais pena.

– Que diabo está acontecendo? – quis saber Anthony, e depois acrescentou: – E

quanto à sua dúvida, tenha pena de mim, que sou um irmão muito mais agradável que ela.

– Não é verdade! – exclamou Daphne.