O Duque e Eu
Capítulo 20
Minha tentativa de concepção, conforme você definiu, foi bem-sucedida. Voltei para Londres a fim de estar perto de minha família e aguardo sua orientação.
Atenciosamente,
Daphne
Simon não soube quanto tempo cou sentado atrás da mesa respirando com di culdade e segurando com as pontas dos dedos o papel cor de mar m. Então nalmente sentiu uma brisa, ou talvez a luz tenha mudado, ou a casa estalado – o fato é que alguma coisa o tirou de seu estado de devaneio e ele deu um salto, cando de pé, foi até o corredor e gritou pelo mordomo.
– Mande aprontar minha carruagem – vociferou quando o empregado apareceu.
– Vou para Londres.
CA P Í T U L O 2 0
Parece que o casamento da temporada azedou. A duquesa de Hastings (ex-Srta. Bridgerton) retornou a Londres há quase dois meses e esta autora não viu nem sinal de seu marido, o duque.
Há boatos de que ele não está em Clyvedon, onde o então feliz casal passou a lua de mel. De fato, esta autora não conseguiu encontrar ninguém que saiba de seu paradeiro. (Se a duquesa sabe, não quer dizer. Além disso, dificilmente alguém tem a oportunidade de lhe perguntar, já que ela evita a companhia de todos, a não ser a de sua enorme família.)
É claro que é papel – até mesmo dever – desta publicação especular sobre a origem de tais cisões, mas esta autora deve confessar que até mesmo ela está desnorteada. Os dois pareciam tão apaixonados...
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
2 DE AGOSTO DE 1813
A viagem levou dois dias, ou seja, 48 horas a mais do que Simon gostaria de car sozinho com seus pensamentos. Levara alguns livros para ler, na esperança de se distrair durante a entediante jornada, mas, sempre que abria um deles, o livro acabava abandonado em seu colo. Era difícil não pensar em Daphne. E mais difícil ainda manter a mente afastada da perspectiva de ter um filho.
Assim que chegou a Londres, ordenou ao cocheiro que o levasse direto à Casa Bridgerton. Estava cansado da viagem e queria trocar de roupa, mas não zera nada nos últimos dois dias além de ensaiar seu confronto iminente com Daphne, então parecia tolice adiá-lo mais do que o necessário.
No entanto, quando chegou lá, descobriu que a esposa não estava.
– Como assim, a duquesa não está aqui? – perguntou Simon com agressividade, sem se preocupar muito com o fato de o mordomo não ter feito nada para merecer sua irritação.
Diante de seu tom hostil, o empregado franziu o lábio superior.
– O que quero dizer, Alteza – explicou ele de forma não muito gentil –, é que ela não está nesta residência.
– Recebi uma carta da minha esposa... – respondeu Simon en ando a mão no bolso, mas sem encontrar o maldito papel. – Bem, eu tenho uma carta dela em algum lugar – resmungou. – E essa carta a rma com todas as letras que ela voltou
para Londres.
– E de fato voltou, Alteza.
– Então onde diabo ela está? – indagou Simon.
O homem apenas ergueu uma sobrancelha.
– Na Casa Hastings, Alteza.
Simon cou perplexo. Havia poucas coisas mais humilhantes do que ser derrotado por um mordomo.
– A nal – continuou o empregado, claramente se divertindo –, ela é casada com o senhor, não é?
Simon o fuzilou com o olhar.
– Você deve estar muito seguro de sua posição.
– Muito.
Simon deu um pequeno aceno com a cabeça (já que não conseguiu se forçar a agradecer ao homem) e saiu, sentindo-se um completo idiota. É claro que Daphne tinha ido para a Casa Hastings. Ela não o havia deixado, afinal. Apenas queria estar perto da família.
Se pudesse chutar o próprio traseiro até chegar à carruagem, teria feito isso.
Já dentro do veículo, começou a xingar a si mesmo. Tinha que atravessar a Grosvenor Square inteira para chegar à sua casa. Se tivesse ido direto, teria chegado na metade do tempo.
Isso acabou não tendo nenhuma importância, porque, assim que entrou em casa, descobriu que a esposa também não estava lá.
– Ela foi andar a cavalo – informou Jeffries.
Simon encarou o mordomo com uma expressão de incredulidade.
– Andar a cavalo? – repetiu.
– Sim, Alteza – respondeu Jeffries. – Andar a cavalo. Cavalgar.
Ele se perguntou qual seria a pena por estrangular um mordomo.
– Onde? – indagou.
– Acho que no Hyde Park.
Simon sentiu o sangue ferver e a respiração car ofegante. Andar a cavalo? Ela tinha cado louca? Pelo amor de Deus, ela estava grávida! Até mesmo ele sabia que gestantes não deveriam cavalgar.
– Mande selarem um cavalo para mim – ordenou Simon. – Imediatamente.
– Algum animal em especial? – quis saber Jeffries.
– Um que seja rápido – retrucou Simon. – Agora. Ou melhor, deixe que eu mesmo faço isso.
Quando disse isso, deu meia-volta e saiu da casa.
Mas na metade do caminho para os estábulos, sentiu o pânico atravessar todos os ossos de seu corpo e começou a correr.
Não era o mesmo que galopar, Daphne pensou, mas ao menos ela estava indo rápido.
Quando era criança e a família ia para o campo, ela sempre pegava emprestadas as calças de Colin e se juntava aos irmãos em suas cavalgadas de aventura. A mãe tinha um ataque toda vez que a lha mais velha aparecia em casa coberta de lama, muitas vezes exibindo uma mancha roxa nova. Daphne não se importava. Não ligava para onde ia ou de onde vinha. O que interessava era a velocidade.
Na cidade, é claro, ela não podia vestir calças, então tinha que montar sentada de lado. Se saísse bem cedo com o cavalo, porém, quando toda a sociedade ainda dormia, e se limitasse às áreas mais remotas do Hyde Park, ela podia se inclinar sobre a sela e fazer o animal galopar. O vento desmanchava seu coque e seus olhos lacrimejavam, mas pelo menos ela esquecia os problemas.
Ao cruzar os campos montada em sua égua preferida, ela se sentia livre. Não havia remédio melhor para um coração partido.
Fazia tempo que deixara seu cavalariço para trás, ngindo não escutar quando ele gritara: “Espere! Alteza! Espere!”
Ela se desculparia com ele mais tarde. Os cavalariços da casa de sua família já tinham se acostumado com suas travessuras e conheciam sua habilidade sobre um cavalo. Mas aquele pobre homem – um dos criados do marido – provavelmente ficaria preocupado com ela.
Daphne sentiu uma pontada de culpa – apenas uma pontada. Precisava car sozinha. Precisava de velocidade.
Diminuiu o ritmo quando chegou a uma área mais arborizada e inspirou o ar fresco do outono. Fechou os olhos por um instante, deixando que os sons e os cheiros do parque a invadissem. Pensou num cego que conhecera certa vez, que lhe dissera que seus outros sentidos haviam cado mais aguçados desde que ele perdera a visão.
Agora, sentada ali aspirando os aromas da floresta, achou que ele tinha razão.
Escutou com atenção, identi cando primeiro o trinado agudo dos pássaros, depois os passos suaves e apressados dos esquilos que juntavam nozes para o inverno. Então...
Franziu a testa e abriu os olhos. Ué... Aquele era, de nitivamente, o som de outro cavaleiro se aproximando.
Daphne não queria companhia. Preferia car a sós com seus pensamentos e sua dor, e com certeza não gostaria de ter que explicar a algum bem-intencionado membro da sociedade por que estava sozinha no parque. Aguçou os ouvidos mais uma vez, para saber de que direção vinha o cavaleiro que se aproximava, e partiu no sentido oposto.
Manteve o cavalo num trote constante, pensando que, se apenas saísse do
caminho, o outro simplesmente passaria por ela. Mas qualquer que fosse o trajeto que escolhia, ele parecia segui-la.
Daphne aumentou o ritmo, chegando a uma velocidade maior do que seria aconselhável naquela área arborizada. Havia muitos galhos baixos e raízes protuberantes. Mas agora ela estava cando assustada. Sentiu uma pressão nos ouvidos enquanto mil perguntas assustadoras passavam por sua cabeça.
E se o cavaleiro não fosse, como ela havia pensado, um membro da sociedade? E
se fosse um criminoso? Ou um bêbado? Era cedo, não havia ninguém por perto... Se ela gritasse, quem a escutaria? Seu cavalariço estava perto o suficiente? Será que tinha cado parado onde ela o deixara ou havia tentado segui-la? E, nesse caso, teria ao menos ido na direção certa?
Seu cavalariço! Quase gritou de alívio. Só podia ser ele. Fez a égua dar meia-volta para tentar ver quem estava atrás dela. O uniforme do rapaz era de um vermelho bastante chamativo, e ela certamente conseguiria ver se...
Pof!
Ficou completamente sem ar ao ser atingida em cheio por um galho. Deixou um gemido estrangulado escapar pelos lábios e sentiu a égua seguindo em frente sem ela.
E então ela estava caindo... caindo...
Aterrissou com uma pancada forte. As folhas secas da estação que estavam espalhadas pelo chão mal amorteceram a queda. Ela se curvou imediatamente em posição fetal, numa tentativa de minimizar a dor.
E que dor. Tudo doía. Fechou bem os olhos e se concentrou em inspirar e expirar.
Sua mente foi tomada por xingamentos que ela jamais ousaria dizer em voz alta.
Até respirar doía.
Mas ela tinha que continuar tentando. Respire, Daphne, disse a si mesma.
Respire. Respire. Você consegue.
– Daphne!
Ela não respondeu. Os únicos sons que conseguia emitir eram choramingos.
– Daphne! Meu Deus, Daphne!
Ouviu alguém saltar de um cavalo e então sentiu as folhas se moverem a seu redor.
– Daphne?
– Simon? – sussurrou ela, incrédula.
Não fazia sentido ele estar ali, mas aquela era sua voz. E embora ela ainda não tivesse aberto os olhos, sabia que era ele. O ar mudava quando Simon estava por perto.
Ele a tocou de leve, em busca de ossos quebrados.
– Diga onde dói – pediu ele.
– Tudo dói – respondeu ela com um arquejo.
Ele disse um palavrão baixinho, mas seu toque continuou extremamente suave e gentil.
– Abra os olhos – pediu ele em voz baixa. – Olhe bem para o meu rosto.
Ela balançou a cabeça.
– Não consigo.
– Consegue, sim.
Ela ouviu Simon tirar as luvas e então os dedos quentes dele massagearam suas têmporas, aliviando a tensão. Ele seguiu até as sobrancelhas e depois aos ossos do nariz.
– Shhhh – sussurrou ele. – Relaxe. Vai passar. Abra os olhos, Daphne.
Lentamente e com muita di culdade, ela obedeceu. O rosto de Simon encheu sua visão e nesse instante ela esqueceu tudo o que havia acontecido entre os dois, a não ser o amor que sentia por ele e sua presença ali, fazendo a dor dela ir embora.
– Olhe para mim – disse ele novamente, com a voz baixa e insistente. – Olhe para mim e não tire os olhos dos meus.
Daphne conseguiu acenar minimamente com a cabeça. Encarou-o, deixando que a intensidade do olhar dele a mantivesse parada.
– Agora, quero que você relaxe – prosseguiu ele.
Continuou falando baixo, mas com rmeza, e isso era exatamente o que ela precisava. Ao mesmo tempo, passava as mãos pelo corpo dela, procurando fraturas ou torções.
Não desviou os olhos dos dela em nenhum momento.
Ela parecia não ter sofrido nada mais grave que alguns hematomas e uma forte falta de ar, mas nenhum cuidado era demais, ainda mais com o bebê...
Simon sentiu o rosto empalidecer. Ficara tão preocupado com Daphne que se esquecera completamente do bebê que ela esperava. O filho dele. O filho deles.
– Daphne – chamou ele lentamente e com toda a cautela. – Você acha que está bem?
Ela assentiu.
– Ainda sente dor?
– Um pouco – admitiu ela, engolindo em seco. – Mas estou melhor.
– Tem certeza?
Ela assentiu de novo.
– Ótimo – disse ele com calma. Ficou em silêncio durante vários segundos e então quase gritou: – Pelo amor de Deus, onde você estava com a cabeça?
Daphne cou de queixo caído e começou a piscar ininterruptamente. Soltou um ruído meio estrangulado que poderia vir a ser uma palavra, mas Simon a interrompeu com seus berros.
– Que diabo você estava fazendo aqui sem um cavalariço? E por que estava galopando neste terreno claramente perigoso? – Franziu a testa. – Por último, o que você estava fazendo em cima de um cavalo?
– Cavalgando... – respondeu ela com a voz fraca.
– Você não se importa com nosso lho? Não pensou um instante sequer na
segurança dele?
– Simon – falou Daphne num sussurro.
– Uma gestante não deveria chegar nem perto de um cavalo! Você deveria saber disso!
Quando ela o encarou, seus olhos pareciam muito cansados.
– O que você tem com isso? – perguntou ela com frieza. – Você nem queria este bebê.
– Não queria, mas agora que ele existe, não quero que você o mate.
– Bem, não se preocupe. – Ela mordeu o lábio inferior. – Ele não existe.
Simon prendeu a respiração.
– Como assim?
– Eu não estou grávida.
– Você... – Ele não conseguiu terminar a frase. Foi dominado por um sentimento muito estranho. Não queria achar que era decepção, mas talvez fosse. – Você mentiu para mim? – murmurou.
Daphne balançou a cabeça com toda a força enquanto se sentava.
– Não! – gritou. – Eu nunca menti, eu juro. Realmente achei que estivesse grávida. Acreditei nisso. Mas... – Ela engasgou num soluço e fechou os olhos cheios de lágrimas. Abraçou as próprias pernas e encostou o rosto nos joelhos.
Simon nunca a vira daquele jeito, sofrendo tanto. Estava se sentindo totalmente impotente. Só queria fazer com que ela casse melhor, e saber que ele era a causa de sua dor não ajudava muito.
– Mas o quê, Daff? – perguntou.
Quando ela enfim levantou a cabeça, seus olhos eram poços de sofrimento.
– Não sei. Acho que eu queria tanto um lho que de alguma forma interrompi meu ciclo menstrual. Fiquei tão feliz no mês passado... – Ela soltou um suspiro trêmulo, que se transformou em um soluço. – Esperei, esperei, até deixei meus panos prontos, mas nada aconteceu.
– Nada?
Simon nunca tinha ouvido nada parecido.
– Nada. – Os lábios dela tremeram num fraco sorriso irônico. – Nunca tinha me sentido tão feliz.
– Você teve algum enjoo?
Ela balançou a cabeça.
– Não tive nada de diferente. A não ser pelo fato de não ter cado menstruada.
Mas então, há dois dias...
Simon pôs a mão sobre a dela.
– Sinto muito, Daphne.
– Não sente, não – disse ela com amargura, puxando a mão. – Não precisa ngir. E, pelo amor de Deus, não minta para mim de novo. Você nunca quis este bebê. – Ela deu uma risada fraca. – Este bebê? Minha nossa, estou falando como se algum dia ele tivesse realmente existido. Como se não fosse fruto da minha imaginação. – Ela olhou para baixo e, quando voltou a falar, sua voz estava extremamente triste. – E dos meus sonhos.
Simon mexeu os lábios muitas vezes antes de conseguir dizer:
– Não gosto de ver você triste.
Ela o encarou com um misto de descrença e tristeza.
– Não sei como você poderia esperar qualquer outra coisa.
– E-e-eu... – Ele engoliu em seco, tentando relaxar a garganta, e en m conseguiu dizer a única coisa que havia em seu coração: – Eu quero que você volte para mim.
Ela não respondeu. Simon implorou internamente que ela dissesse alguma coisa, mas Daphne continuou calada. Ele amaldiçoou os deuses pelo silêncio dela, porque isso significava que ele teria que falar mais alguma coisa.
– Quando nós brigamos – começou ele lentamente –, eu perdi o controle. E-eu não conseguia falar. – Fechou os olhos em agonia, sentindo a mandíbula se fechar.
Por m, depois de dar um suspiro longo e cheio de tensão, ele prosseguiu: – Odeio quando fico daquele jeito.
Daphne inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e franziu a testa.
– Foi por isso que você foi embora?
Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça.
– Não foi por causa... do que eu fiz?
Ele a encarou calmamente.
– Não gostei do que você fez.
– Mas não foi por isso que foi embora? – insistiu ela.
Simon ficou um instante em silêncio, então admitiu:
– Não foi por isso que eu fui embora.
Daphne abraçou os joelhos mais uma vez, pensando no que ele tinha dito.
Durante todo aquele tempo, ela achara que Simon a abandonara porque a odiava, porque odiava o que ela havia feito, mas na verdade a única coisa que ele odiava era a si mesmo.
Ela disse baixinho:
– Quer saber de uma coisa? Eu não ligo quando você gagueja.
– Mas eu ligo.
Ela assentiu devagar. Era claro que ele ligava. Simon era orgulhoso e turrão, e todos na sociedade o admiravam. Os homens queriam agradá-lo e as mulheres o desejavam loucamente. E o tempo todo ele cava apavorado sempre que abria a boca.
Bem, talvez não sempre, Daphne pensou olhando para ele. Quando os dois estavam juntos, ele falava tão livremente que não era possível que se concentrasse em cada palavra antes de pronunciá-la.
Pôs a mão em cima da dele.
– Você não é o menino que seu pai achava que era.
– Eu sei – retrucou ele, sem olhar para ela.
– Simon, olhe para mim – ordenou Daphne com delicadeza.
Quando ele obedeceu, ela repetiu o que tinha dito.
– Eu sei – respondeu ele de novo, parecendo intrigado e talvez um pouco incomodado.
– Tem certeza?
– Droga, Daphne, eu sei... – Ele parou de falar e começou a tremer. Por um instante, ela pensou, surpresa, que ele fosse começar a chorar. Mas as lágrimas que se acumularam em seus olhos não caíram, e quando ele a encarou, com o corpo trêmulo, tudo o que disse foi: – Eu o odeio, Daphne. Eu o od-d-d...
Daphne segurou o rosto dele com as mãos, forçando-o a continuar olhando para ela.
– Eu entendo – falou. – Ele parece ter sido um homem horrível. Mas você precisa deixar isso para trás.
– Não consigo.
– Mas vai conseguir. Não tem problema sentir raiva, mas você não pode viver em função disso. Agora mesmo, você está deixando que ele guie suas escolhas.
Simon quis se desvencilhar das mãos dela para desviar o olhar.
Daphne largou o rosto dele, mas fez com que sua cabeça repousasse em seus joelhos. Ela precisava daquela ligação. De uma forma estranha, temia que, se o soltasse naquele momento, fosse perdê-lo para sempre.
– Você algum dia parou para pensar se queria ter uma família? – perguntou ela.
– Se queria ter um lho? Você seria um pai maravilhoso, Simon, e apesar disso não se permite sequer considerar essa ideia. Você acha que está se vingando, mas na verdade está só permitindo que ele mande em você do túmulo.
– Se eu tiver um filho, ele vencerá – sussurrou Simon.
– Não. Se você tiver um lho, você vencerá. – Ela engoliu em seco. – Nós venceremos.
Ele ficou em silêncio, mas ela podia ver o corpo dele tremendo.
– Se você não quiser ser pai é uma coisa. Mas negar a si mesmo a alegria da paternidade por causa de um morto é covardia da sua parte. – Daphne estremeceu quando o insulto saiu de sua boca, mas aquilo precisava ser dito. – Em algum momento você vai ter que deixá-lo para trás e viver sua própria vida. Vai ter que superar a raiva e...
Simon balançou a cabeça e seus olhos pareceram perdidos e sem esperança.
– Não me peça para fazer isso. Era tudo o que eu tinha. Você não vê que era tudo o que eu tinha?
– Não estou entendendo.
Ele falou num tom mais alto.
– Por que você acha que eu aprendi a falar direito? O que acha que me motivou?
Foi a raiva. A necessidade de esfregar na cara dele que eu era capaz.
– Simon...
Ele deu uma risada sarcástica.
– Não é impressionante? Eu o odeio com todas as minhas forças. Ainda assim, ele foi o motivo do meu sucesso.
Daphne balançou a cabeça com veemência.
– Isso não é verdade. Você teria sido bem-sucedido de qualquer maneira. É