O Duque e Eu

Julia Quinn · Capítulo 15 de 27

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O Duque e Eu

Capítulo 14

Violet pegou a mão da filha caçula e a apertou.

– O riso é sempre uma coisa boa, Hyacinth. E obrigada por nos lembrar disso.

E assim começaram os rumores de que o duque e a nova duquesa de Hastings eram o casal mais feliz e abençoado que aparecia em décadas. A nal, quem conseguia se lembrar de outro casamento com tantas risadas?

CA P Í T U L O 1 4

Ficamos sabendo que o casamento do duque de Hastings e da ex-Srta.

Bridgerton, embora simples, foi bastante agitado. A Srta. Hyacinth Bridgerton (de 10 anos) contou à Srta. Felicity Featherington (de mesma idade) que a noiva e o noivo deram muitas risadas durante a cerimônia. A Srta. Felicity, então, repetiu a informação para a mãe, a Sra. Featherington, que por sua vez a repetiu para o mundo.

Esta autora terá que confiar no relato da Srta. Hyacinth, já que não foi convidada para o evento.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,

24 DE MAIO DE 1813

Não haveria viagem de lua de mel. A nal, não houvera tempo para planejar algo assim. Em vez disso, Simon sugeriu que eles passassem algumas semanas no castelo de Clyvedon, a sede ancestral dos Bassets. Daphne achou a ideia ótima. Estava ansiosa para se afastar de Londres, assim como dos olhos e ouvidos curiosos da sociedade.

Além disso, estava estranhamente ansiosa para conhecer o lugar onde Simon fora criado.

Ficou imaginando como ele era quando menino. Seria tão incontrolável como era agora, quando estava com ela? Ou será que tinha sido uma criança tranquila, com o comportamento reservado que demonstrava à maior parte das pessoas?

O novo casal deixou a Casa Bridgerton em meio a cumprimentos e abraços, e Simon conduziu Daphne à sua melhor carruagem. Apesar de ser verão, o ar estava fresco e ele colocou cuidadosamente um cobertor sobre as pernas dela. Daphne riu.

– Não é um pouco de exagero? – provocou ela. – Acho muito improvável que eu pegue um resfriado nos poucos quarteirões daqui até sua casa.

Ele olhou para ela com um ar esquisito.

– Nós estamos indo para Clyvedon.

– Hoje?

Ela não conseguiu disfarçar a surpresa. Tinha imaginado que iriam no dia seguinte. A aldeia de Clyvedon cava perto de Hastings, na costa sudeste da Inglaterra. A tarde já estava chegando ao m, de modo que eles só chegariam lá de madrugada.

Não era a noite de núpcias que Daphne havia imaginado.

– Não é melhor passar a noite aqui em Londres e viajar amanhã? – perguntou ela.

– Já está tudo acertado – resmungou ele.

– Sei... – Daphne tentou com a nco esconder a decepção. Ficou em silêncio durante um minuto inteiro enquanto a carruagem entrava em movimento, sacolejando no solo formado por pedregulhos desiguais. Quando viraram na Park Lane, ela indagou: – Vamos parar em alguma hospedaria?

– É claro – respondeu Simon. – Precisamos jantar. Eu não a deixaria faminta em nosso primeiro dia de casados, não é?

– E nós vamos passar a noite nessa hospedaria? – insistiu Daphne.

– Não, nós... – Simon se calou e então seus traços se suavizaram inexplicavelmente. Ele se virou para ela com uma expressão carinhosa. – Estou sendo um bruto, não é?

Ela corou. Sempre corava quando ele a olhava daquela maneira enternecedora.

– Não, não, eu só fiquei surpresa por...

– Claro, você tem razão. Vamos passar a noite na hospedaria. Conheço uma ótima que ca na metade do caminho para Clyvedon. A comida é gostosa e as camas, limpas. – Tocou no queixo dela. – Não vou obrigá-la a fazer toda a viagem em uma noite.

– Não que eu não seja resistente o bastante para isso – argumentou ela, cando ainda mais corada ao pensar nas palavras seguintes. – É só que nos casamos hoje, e se não pararmos numa hospedaria vamos estar na carruagem quando a noite cair, e...

– Não precisa dizer mais nada – falou Simon, pondo um dedo nos lábios dela.

Daphne assentiu, agradecida. Ela realmente não queria discutir a noite de núpcias deles daquela maneira. Além disso, parecia o tipo de assunto que o marido deveria propor, não a mulher. A nal, Simon com certeza era o mais experiente dos dois naquela questão.

Ela não poderia ser menos experiente, pensou com irritação. Sua mãe, apesar de todo o esforço constrangido, não conseguira lhe explicar absolutamente nada. Bem, exceto pela parte sobre a geração dos lhos, mas de qualquer forma Daphne não tinha entendido nada. Por outro lado, talvez...

Ela ficou sem fôlego. E se Simon não pudesse... ou se não quisesse...

Não, ele de nitivamente queria. Acima de tudo, ele a desejava. O ardor em seus olhos ou as batidas mais fortes de seu coração naquela noite nos jardins não haviam sido fruto da imaginação de Daphne.

Ela olhou pela janela, observando a cidade se fundir ao campo. Ficar obcecada com essas coisas iria fazê-la enlouquecer. Tinha que tirar isso da cabeça. De qualquer maneira.

Bem, pelo menos até aquela noite.

 

Sua noite de núpcias.

Esse pensamento a fez estremecer.

Simon olhou para Daphne – sua mulher, lembrou a si mesmo, embora ainda fosse um pouco difícil de acreditar. Ele nunca havia planejado ter uma esposa. Na verdade, sua intenção era justamente não ter uma esposa. E, no entanto, ali estava ele com Daphne Bridgerton. Não, Daphne Basset. A duquesa de Hastings.

Isso talvez fosse o mais estranho de tudo. O ducado que ele herdara não tivera uma só duquesa desde que ele nascera. Logo, a seus ouvidos o título parecia estranho, enferrujado.

Simon deu um longo suspiro e pousou o olhar em Daphne. Então franziu a testa.

– Está com frio? – perguntou.

Ela tremia. Estava prestes a dizer que não, mas por fim respondeu:

– Só um pouquinho. Mas você não precisa...

Simon enrolou o cobertor um pouco mais ao redor dela, perguntando-se por que raios ela mentiria sobre algo tão sem importância.

– Foi um longo dia – murmurou ele, não porque sentisse realmente isso, mas porque parecia o tipo certo de comentário reconfortante a se fazer no momento.

Vinha pensando muito em comentários reconfortantes e considerações gentis. Ele ia tentar ser um bom marido. Daphne merecia ao menos isso. Havia muitas coisas que ele não seria capaz de lhe dar – entre elas, infelizmente, a alegria plena e verdadeira –, mas poderia fazer de tudo para mantê-la segura, protegida e um pouco contente.

A nal, ela o havia escolhido, mesmo sabendo que eles jamais teriam lhos.

Mostrar-se um marido bom e fiel parecia ser o mínimo a lhe oferecer em troca.

– Eu gostei – disse Daphne baixinho.

Ele se virou para ela com o rosto inexpressivo.

– Como?

A sombra de um sorriso perpassou os lábios dela. Era uma bela visão –

calorosa, provocadora e um pouquinho maliciosa, que fez com que o corpo dele fosse tomado por uma onda de desejo que não o deixou se concentrar no que ela dizia.

– Você disse que foi um longo dia. Eu disse que gostei.

A expressão dele continuava indiferente.

O rosto dela foi dominado por uma expressão tão encantadora de frustração que Simon começou a sorrir.

– Você disse que foi um longo dia – repetiu ela –, e eu disse que gostei.

– Sei – murmurou ele, com toda a seriedade.

Sua resposta lacônica a fez soltar um resmungo, o que, é claro, o deixou com

vontade de beijá-la.

Tudo o deixava com vontade de beijá-la.

Aquilo estava começando a ficar bastante doloroso.

– Provavelmente não vamos chegar à hospedaria muito tarde – disse ele, tentando aliviar a própria tensão.

Não adiantou nada, é claro. Só serviu para lembrá-lo que ele adiara sua noite de núpcias por um dia inteiro. Um dia inteiro de desejo, de necessidade, do corpo implorando por alívio. Mas ele não iria possuí-la numa hospedaria de beira de estrada, por mais limpa e arrumada que pudesse ser.

Daphne merecia mais. Aquela seria sua única noite de núpcias, e ele faria com que fosse perfeita.

Ela lançou-lhe um olhar ligeiramente surpreso com a súbita mudança de assunto.

– Que bom.

– Hoje em dia as estradas não são seguras de madrugada – acrescentou Simon, tentando não lembrar a si mesmo que seu plano inicial era ir direto até Clyvedon.

– Não – concordou ela.

– E estaremos com fome.

– Estaremos – disse ela, começando a parecer intrigada com a obsessão dele pela parada recém-planejada.

Simon não podia culpá-la, mas ou ele falava sem parar sobre os planos de viagem ou acabaria agarrando-a e a possuindo ali mesmo na carruagem.

O que não era uma opção, de modo que ele continuou:

– A comida deles é boa.

Ela ficou um pouco pensativa e depois comentou:

– Você já disse isso.

– É verdade. – Ele tossiu. – Acho que vou tirar um cochilo.

Daphne arregalou os olhos escuros, inclinou a cabeça para a frente e perguntou:

– Agora?

Simon assentiu imediatamente.

– Estou sendo repetitivo, mas, como eu mesmo disse, foi um longo dia.

– Tem razão. – Ela observou com curiosidade enquanto ele se remexia no assento, procurando a posição mais confortável. En m, perguntou: – Você vai mesmo conseguir pegar no sono aqui, na carruagem em movimento? Não acha o trajeto um pouco sacolejante?

Ele deu de ombros.

– Consigo pegar no sono sempre que quero. Foi algo que aprendi em minhas viagens.

– Realmente é um talento – murmurou ela.

– Um ótimo talento – concordou ele.

Então fechou os olhos e fingiu dormir durante quase três horas.

 

Daphne o encarou xamente. Ele estava ngindo dormir. Com tantos irmãos, ela conhecia todos os truques do mundo e tinha certeza que Simon não estava dormindo.

O peito dele subia e descia calmamente e o som de sua respiração era calculado para parecer que ele estava quase roncando.

Mas ela não era boba.

Toda vez que ela se mexia ou respirava um pouco mais alto, o queixo dele se mexia também. Mal dava para perceber, mas acontecia. E quando ela bocejou, emitindo um pequeno ruído, viu os globos oculares dele se movimentarem sob as pálpebras.

Mas era admirável que ele tivesse conseguido manter a farsa por mais de duas horas.

Ela nunca havia sido capaz de passar de vinte minutos.

De repente, num surto de generosidade, ela decidiu que, se ele queria ngir que estava dormindo, deixaria que o zesse. Não seria ela a responsável por acabar com desempenho tão exímio.

Com um último bocejo – dessa vez bem alto, apenas para ver os olhos dele carem atentos sob as pálpebras –, ela se virou para a janela, abriu a pesada cortina de veludo e cou admirando a paisagem. O sol estava alaranjado e imenso, e cerca de um terço dele já havia passado da linha do horizonte.

Se a estimativa de Simon a respeito do tempo de viagem estivesse correta – e ela tinha a sensação de que quase sempre ele estava certo sobre esse tipo de coisa, como todos os que gostam de matemática –, eles deviam estar quase no meio do caminho.

Aproximando-se da hospedaria.

E de sua noite de núpcias.

Por Deus, ela precisava deixar de ser tão melodramática. Aquilo estava cando ridículo.

– Simon?

Ele não se mexeu. Isso a deixou irritada.

– Simon? – repetiu ela, um pouco mais alto dessa vez.

O canto de sua boca se mexeu levemente, num pequeno sorriso forçado. Daphne tinha certeza de que ele tentava decidir se ela havia falado alto demais para ele continuar fingindo que estava dormindo.

– Simon!

Ela o cutucou. Com bastante força. Não havia como ele pensar que alguém conseguiria continuar ressonando depois disso.

Os olhos dele se abriram e ele emitiu um ruído do tipo que as pessoas fazem quando acordam.

Que ótimo ator, pensou Daphne com uma admiração relutante.

Simon bocejou.

– Daff?

Ela foi direto ao assunto.

– Falta muito?

Ele esfregou os olhos para afastar o sono fictício.

– Como?

– Falta muito?

– Hã... – Ele olhou de um lado para outro da carruagem, como se isso fosse esclarecer a dúvida. – Ainda estamos andando, não estamos?

– Estamos, mas já está perto?

Simon soltou um suspiro e espiou pela janela.

– Ah – disse ele, parecendo surpreso. – Na verdade, é logo ali na frente.

Daphne fez o possível para não sorrir.

Quando a carruagem parou, Simon desceu. Trocou algumas palavras com o cocheiro, talvez para informá-lo de que haviam mudado de planos e que pretendiam passar a noite ali. Depois, abriu a porta do lado de Daphne, pegou a mão dela e a ajudou a descer.

– E então? O lugar está aprovado? – perguntou ele, indicando a hospedaria com um aceno da cabeça.

Daphne não sabia como dar qualquer opinião sem ver o interior do lugar, mas de qualquer maneira disse que sim. Simon conduziu-a para dentro e a deixou ao lado da porta enquanto ia tratar com o dono da estalagem.

Ela assistiu à movimentação da hospedaria com muito interesse. Naquele instante, um jovem casal se dirigia a uma sala de jantar privativa e uma mãe subia com os quatro lhos pela escada. Simon estava discutindo com o estalajadeiro e havia um cavalheiro alto e magro apoiado num...

Daphne virou a cabeça de novo na direção do marido. Simon estava discutindo com o estalajadeiro? Por que raios ele faria isso? Inclinou a cabeça para o lado. Os dois homens falavam baixo, mas dava para perceber que Simon estava bastante insatisfeito. O dono do lugar, por sua vez, parecia estar morrendo de vergonha por não conseguir agradar ao duque de Hastings.

Daphne franziu a testa. Aquilo não parecia certo.

Será que devia intervir?

Ficou vendo os dois discutirem por mais alguns instantes. Era claro que ela devia intervir.

Com passos que não eram hesitantes mas também não poderiam ser descritos como determinados, ela foi para o lado do marido.

– Algum problema? – perguntou educadamente.

Simon lançou-lhe um olhar furtivo.

– Pensei que você estivesse esperando perto da porta.

– Eu estava. – Sorriu alegremente. – Aí vim aqui.

Simon fez uma careta e se virou de novo para o estalajadeiro.

Daphne deu uma tossidinha, apenas para ver se ele iria voltar a olhar para ela.

Não adiantou. Ela franziu a testa. Não gostava de ser ignorada.

– Simon? – Cutucou-o nas costas. – Simon?

Ele se virou devagar, com uma expressão furiosa.

Daphne sorriu novamente, com ar inocente.

– Qual é o problema? – perguntou ela.

O dono da hospedaria levantou as mãos num gesto de súplica e começou a falar antes que Simon pudesse dizer qualquer coisa.

– Só tenho um quarto vago – explicou. – Não fazia ideia de que o duque de Hastings planejava nos honrar com sua presença hoje. Se soubesse, jamais teria alugado aquele penúltimo quarto à Sra. Weatherby e seus lhos. Posso garantir –

continuou ele, inclinando-se para a frente e olhando para Daphne com um olhar de sofrimento – que teria dito para seguirem caminho!

A última frase foi acompanhada por um dramático aceno de mãos que deixou Daphne um pouco tonta.

– A Sra. Weatherby é aquela senhora que acabou de passar por aqui com quatro crianças?

O homem assentiu.

– Se não fosse pelas crianças, eu...

Daphne o interrompeu, sem querer ouvir o restante de uma frase que com certeza envolveria chutar uma mulher inocente para a rua no meio da noite.

– Não vejo motivo para não carmos com apenas um quarto. Certamente não somos tão arrogantes assim.

A seu lado, Simon tensionou o maxilar com tanta força que Daphne podia jurar que ouvira os dentes dele rangendo.

Quer dizer que ele preferia quartos separados? Era o bastante para fazer uma jovem recém-casada se sentir bastante desprezada.

O estalajadeiro se virou para Simon e esperou sua aprovação. Ele fez um breve sinal a rmativo com a cabeça e o homem juntou as mãos encantado (e provavelmente aliviado, pois poucas coisas eram piores para os negócios do que um duque irado no estabelecimento). Depois, pegou a chave e saiu correndo de trás do balcão.

– Por favor, venham comigo...

Simon fez um sinal para Daphne ir na frente, então ela passou por ele e subiu a escada atrás do dono da hospedaria. Após algumas curvas, foram instalados num quarto grande e confortavelmente mobiliado, com vista para a aldeia.

– Muito bem – disse Daphne depois que o homem os deixou a sós –, parece bastante aceitável.

Simon respondeu com um grunhido.

– Que resposta elaborada – murmurou ela, desaparecendo em seguida atrás do

biombo.

Simon cou olhando na direção dela por vários segundos, até que lhe ocorreu aonde ela fora.

– Daphne? – chamou ele, com a voz já meio estrangulada. – Você está trocando de roupa?

Ela pôs a cabeça para fora.

– Não. Estou só dando uma olhada em tudo.

O coração dele continuou batendo forte, mas agora um pouco menos que antes.

– Que bom – resmungou. – Porque vamos descer para jantar já, já.

– Está bem. – Ela deu um sorriso que foi, na opinião dele, bastante atraente e confiante. – Você está com fome? – perguntou.

– Muita.

O sorriso dela vacilou um pouco com o tom seco dele. Simon repreendeu-se mentalmente. O fato de estar furioso consigo mesmo não signi cava que devia estender a raiva a ela. Daphne não havia feito nada de errado.

– E você? – indagou, tendo o cuidado de manter o tom de voz gentil.

Ela saiu de trás do biombo e se sentou na beirada da cama.

– Um pouco – admitiu. Depois engoliu em seco, nervosa. – Mas não sei se vou conseguir comer alguma coisa.

– Estava tudo ótimo na última vez em que vim aqui. Posso garantir...

– Não é a qualidade da comida que me preocupa – interrompeu ela. – São meus nervos.

Ele a encarou com o rosto inexpressivo.

– Simon – disse ela, evidentemente tentando esconder a impaciência na voz (mas sem conseguir, achava ele) –, nós nos casamos hoje.

Ele enfim compreendeu.

– Daphne, você não precisa se preocupar – respondeu ele gentilmente.

Ela piscou, confusa.

– Não?

Simon respirou fundo. Ser um marido gentil e amoroso não era tão fácil quanto parecia.

– Vamos esperar até chegarmos a Clyvedon para consumarmos o casamento.

– Ah, é?

Simon sentiu os próprios olhos se arregalarem de surpresa. Ela não estava parecendo decepcionada, estava?

– Não vou possuí-la numa hospedaria de beira de estrada – continuou ele. –

Acho que você merece mais respeito do que isso.

– Não vai? É mesmo?

Ele prendeu a respiração. Ela estava parecendo decepcionada.

– Hã, não.

Ela avançou um pouco.

– Por que não?

Simon a analisou por alguns instantes. Simplesmente se sentou na cama e cou observando-a. Daphne o encarou com olhos cheios de carinho e curiosidade, com um toque de hesitação. Passou a língua pelos lábios – mais um sinal claro de nervosismo, mas o corpo frustrado de Simon reagiu ao gesto sedutor com uma ereção instantânea.

Ela deu um sorriso trêmulo e desviou os olhos dele.

– Eu não me importaria.

Simon permaneceu imóvel, curiosamente paralisado, enquanto sua mente gritava

“Agarre-a! Leve-a para a cama! Faça qualquer coisa, mas coloque o corpo dela embaixo do seu!”.

E então, justo quando ele estava quase conseguindo se mover, ela soltou um gritinho e ficou de pé, virando-se de costas para ele e cobrindo a boca com a mão.

Simon, que havia acabado de esticar o braço a m de puxá-la para si, caiu de cara na cama.

– Daphne? – murmurou ele com o rosto colado ao colchão.

– Eu deveria saber – choramingou ela. – Sinto muito.

Ela sentia muito? Ele se levantou. Daphne estava choramingando? Que diabo estava acontecendo? Ela nunca choramingava.

Daphne se virou de novo para ele, olhando-o com uma expressão afetada. Simon não conseguia sequer imaginar o que poderia tê-la perturbado tão de repente. E, se não podia imaginar, tendia a acreditar que não era nada sério.

Arrogante da parte dele, mas era isso que achava.

– Daphne, qual é o problema? – perguntou ele, tentando ser gentil.

Ela se sentou na frente dele e pôs a mão em seu rosto.

– Eu sou tão insensível... – sussurrou ela. – Eu deveria saber. Nunca deveria ter dito nada.

– Deveria saber o quê? – insistiu ele.

– Que você não pode... que não pode...

– Não posso o quê?

Ela olhou para as próprias mãos em seu colo, retorcendo-se de nervoso.

– Por favor, não me faça dizer isso – implorou.

– Deve ser por isso que homens evitam casar... – resmungou Simon.

Tinha dito isso mais para si mesmo do que para ela, mas Daphne escutou e reagiu com outro gemido patético.

– O que está acontecendo, afinal? – quis saber ele.

– Você é incapaz de consumar o casamento – sussurrou ela.

Foi incrível que sua ereção não tenha desaparecido no mesmo instante. Na verdade, foi incrível que ele tenha sequer conseguido dizer:

– O quê?

Ela baixou a cabeça.

– Eu ainda serei uma boa esposa. Promento que nunca direi a ninguém.

Desde a infância, quando sua gagueira praticamente não o deixava se comunicar, Simon não ficava tão sem palavras.

Ela achava que ele era impotente!

– Por que... por que... por quê? – Estava gaguejando? Ou apenas chocado?

Achou que fosse a segunda opção. Seu cérebro não parecia capaz de pensar em nada além dessa pergunta.

– Eu sei que os homens são muito sensíveis em relação a esse tipo de coisa – disse Daphne baixinho.

– Principalmente quando não é verdade! – emendou Simon.

Daphne levantou a cabeça:

– Não é?

Ele estreitou os olhos.

– Foi seu irmão que lhe disse isso?

– Não! – Ela desviou o olhar do rosto dele. – Minha mãe.

– Sua mãe? – Simon cou perplexo. Certamente nenhum homem havia passado por isso em sua noite de núpcias. – Sua mãe lhe disse que eu sou impotente?

– É assim que se chama isso? – perguntou Daphne com curiosidade. E então, diante do olhar furioso dele, acrescentou no mesmo instante: – Não, não, ela não falou isso usando essa palavra.

– E o que exatamente ela disse? – indagou Simon com a voz áspera.

– Bem, não muito – admitiu Daphne. – Foi bastante irritante, na verdade, mas ela me explicou que o ato conjugal...

– Ela chamou de ato?

– Não é assim que todos chamam?

Ele descartou a pergunta dela com um aceno de mão.

– O que mais ela disse?

– Falou que, hã, o que quer que seja que você prefira chamar...

Simon considerou o sarcasmo dela estranhamente admirável diante das circunstâncias.

– ... está relacionado de alguma forma à geração de filhos e...

Simon achou que fosse engasgar com a própria língua.

– De alguma forma?

– Bem, sim. – Daphne franziu a testa. – Ela não me deu nenhum detalhe, na verdade.

– É evidente que não.

– Ela fez o que pôde – observou Daphne, achando que devia tentar defender a mãe. – Foi uma situação muito constrangedora para ela.

– Depois de oito lhos – resmungou ele –, era de esperar que ela já tivesse superado isso.

– Pelo visto não superou – retrucou Daphne, balançando a cabeça. – E então,

quando eu perguntei se ela havia participado desse... – Ela olhou para ele com uma expressão exasperada. – Eu realmente não sei como chamar isso além de ato.

– Vá em frente – pediu ele, com a voz um tanto tensa.

Daphne fez uma cara de preocupação.

– Você está bem?

– Estou ótimo – afirmou ele com a voz sufocada.

– Não parece.

Fez um aceno com a mão, dando a estranha impressão de que não conseguia falar.

– Bem – continuou ela, voltando à história inicial –, eu perguntei se aquilo signi cava que ela havia participado do ato oito vezes, então ela cou muito envergonhada e...

– Você perguntou isso à sua mãe? – conseguiu dizer Simon, cuspindo as palavras.

– Bom, sim. – Ela estreitou os olhos. – Você está rindo?

– Não – respondeu ele, soltando um arquejo.

Os lábios dela se contorceram numa pequena careta.

– Mas parece que está.

Simon apenas balançou a cabeça em negativa.

– Bem – prosseguiu Daphne, claramente irritada. – Acho que minha pergunta fez muito sentido, considerando que ela teve oito filhos. Mas então ela me disse que...

Ele balançou a cabeça mais uma vez e levantou uma das mãos. E agora parecia não saber se ria ou chorava.

– Pare. Eu imploro.

– Ah.

Como não sabia mais o que falar, Daphne apenas juntou as mãos no colo e cou em silêncio.

Finalmente, ouviu Simon respirar fundo e depois dizer:

– Eu sei que vou me arrepender de perguntar isto. Na verdade, já estou arrependido, mas por que exatamente você deduziu que eu era... – ele estremeceu –

incapaz?

– Bem, você disse que não poderia ter filhos.

– Daphne, há outros motivos pelos quais um casal pode não ter filhos.

Ela tentou parecer calma.

– Eu realmente detesto parecer tão burra – resmungou.

Simon se inclinou para a frente e pegou as mãos dela.

– Daphne – começou ele suavemente, massageando os dedos dela –, você tem alguma noção do que acontece entre um homem e uma mulher?

– Não faço a menor ideia – admitiu ela com franqueza. – Era de imaginar que, tendo três irmãos mais velhos, eu soubesse algumas coisas, e achei que nalmente descobriria a verdade ontem à noite, quando minha mãe...

– Não diga mais nada – pediu ele com a voz mais estranha do mundo. – Nem mais uma palavra. Eu não suportaria.

– Mas...

Simon colocou o rosto nas mãos e por um instante Daphne pensou que ele estava chorando. Mas então, enquanto cava ali sentada se maldizendo por fazer o marido chorar no dia do casamento deles, ela notou que os ombros dele estavam se sacudindo por conta de uma gargalhada.

O demônio.

– Você está rindo de mim? – murmurou ela.

Ele balançou a cabeça, mas continuou a olhar para baixo.

– Então do que está rindo?

– Ah, Daphne – falou ele, soltando um arquejo –, você tem muito a aprender.

– Bem, eu nunca discordei disso – reclamou ela.

De fato, se as pessoas não se esforçassem tanto para manter as jovens completamente ignorantes no que dizia respeito às questões do casamento, cenas como essa poderiam ser evitadas.