O Duque e Eu

Julia Quinn · Capítulo 12 de 27

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O Duque e Eu

Capítulo 11

– Não quero beber nada – retrucou Daphne enfaticamente. – Quero pensar.

Simon achou que Anthony cou um pouco perplexo com a a rmação dela, mas, justiça seja feita, tudo o que fez foi dar um aperto suave no braço da irmã e dizer:

– Tudo bem, então.

E Simon cou ali parado, espancado e ensanguentado, até os dois desaparecerem na noite.

CA P Í T U L O 1 1

O baile anual de Lady Trowbridge em Hampstead Heath, sábado à noite, foi, como sempre, um dos pontos altos da temporada de fofocas. Esta autora viu Colin Bridgerton dançar com todas as três irmãs Featheringtons (não ao mesmo tempo, é claro), embora deva se dizer que o mais espirituoso dos Bridgertons não parecia encantado com seu destino. Além disso, Nigel Berbrooke foi flagrado cortejando uma moça que não era a Srta. Daphne Bridgerton – talvez ele tenha finalmente percebido a inutilidade de sua perseguição.

E, por falar na Srta. Bridgerton, ela deixou o evento cedo. O irmão Benedict informou aos curiosos que ela estava com dor de cabeça, mas esta autora a viu no começo da noite, enquanto ela conversava com o velho duque de Middlethorpe, e ela aparentava estar em perfeito estado de saúde.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,

17 DE MAIO DE 1813

Foi impossível dormir. Daphne cou andando de um lado para outro, deixando um rastro no tapete azul e branco que havia em seu quarto desde que ela era criança. Sua mente era um turbilhão de pensamentos, mas uma coisa estava clara: ela precisava impedir aquele duelo.

No entanto, Daphne não subestimava as di culdades que essa tarefa envolvia.

Em primeiro lugar, porque os homens em geral eram idiotas teimosos quando se tratava de coisas como honra e duelos, e ela realmente duvidava que Anthony ou Simon fossem gostar de sua interferência.

Em segundo lugar, ela nem sabia onde ocorreria a luta. Os dois não tinham falado sobre isso no jardim de Lady Trowbridge. Daphne imaginou que Anthony mandaria uma mensagem a Simon por um criado. Ou talvez, na posição de desa ado, Simon tivesse o direito de escolher o local. Daphne estava certa de que devia haver algum tipo de etiqueta a ser seguida, mas ela não a conhecia.

Parou diante da janela e abriu a cortina para espiar lá fora. A noite ainda estava no começo segundo os padrões da sociedade. Ela e Anthony tinham saído bem cedo da festa e chegado em casa havia duas horas. Até onde Daphne sabia, Benedict, Colin e a mãe ainda estavam na casa de Lady Trowbridge. Ela encarou o fato de ainda não terem retornado como um bom sinal. Se a cena com Simon tivesse tido

testemunhas, a fofoca certamente teria corrido o salão em segundos, fazendo com que a mãe corresse para casa, envergonhada.

Então talvez Daphne pudesse passar por aquela noite apenas com o vestido em farrapos – e não sua reputação.

Mas a preocupação com a honra era o menor de seus problemas. Ela queria que sua família chegasse logo em casa por outro motivo. Não havia como impedir o duelo sozinha. Só se fosse imbecil para atravessar Londres de madrugada e tentar argumentar com dois homens em guerra. Ela precisaria de ajuda.

Daphne achava que Benedict caria imediatamente do lado de Anthony na história. Na verdade, era capaz até de agir como ajudante dele.

Mas Colin... Colin poderia concordar com sua forma de pensar. Era provável que reclamasse e dissesse que Simon merecia ser morto ao amanhecer, mas se Daphne implorasse ele a ajudaria.

O duelo precisava ser impedido. Ela não entendia o que se passava pela cabeça de Simon, mas era óbvio que ele estava angustiado com alguma coisa, provavelmente algo relacionado a seu pai. Daphne já tinha percebido que ele era atormentado por um demônio interior. Ele disfarçava bem, sobretudo quando estava em sua companhia, mas ela já o tinha visto várias vezes com uma lúgubre expressão de desespero nos olhos. Tinha que haver um motivo que o fazia car assim com tanta frequência. Às vezes Daphne achava que era a única pessoa com quem ele cava relaxado o bastante para rir, brincar e conversar amenidades. E talvez Anthony.

Bem, principalmente Anthony, antes de tudo aquilo acontecer.

Mas, apesar da postura fatalista de Simon no jardim de Lady Trowbridge, ela não achava que ele queria morrer.

Daphne ouviu o barulho de rodas nos cascalhos e correu para abrir a janela bem a tempo de ver a carruagem da família passar pela casa a caminho do estábulo.

Contorcendo as mãos, ela atravessou o quarto correndo e colou o ouvido na porta. Não podia descer. Anthony achava que ela estava dormindo, ou pelo menos deitada remoendo os acontecimentos da noite.

Ele prometera que não diria nada a Violet. Pelo menos não até saber o que tinha chegado aos ouvidos dela.

A volta de todos tarde da noite deu a entender a Daphne que não houvera qualquer boato grave circulando a seu respeito, mas isso não signi cava que ela tivesse escapado sã e salva. Devia ter havido rumores. Sempre havia. E rumores fora de controle podiam rapidamente se transformar em uma grande confusão.

Ela sabia que acabaria tendo de encarar a mãe. Mais cedo ou mais tarde, Violet caria sabendo de alguma coisa. A sociedade garantiria isso. Daphne apenas esperava que, quando as fofocas chegassem aos ouvidos de Violet – a maioria delas, infelizmente, verdadeira –, a filha já estivesse noiva de algum duque.

Todos perdoariam qualquer coisa de uma pessoa comprometida com um duque.

E este seria o ponto crucial de sua estratégia para salvar a vida de Simon. Ele não

 

salvaria a si mesmo, mas poderia salvar Daphne.

Colin Bridgerton atravessou o corredor na ponta dos pés, pisando silenciosamente na passadeira estendida no chão. A mãe tinha ido se deitar e Benedict estava reunido com Anthony no escritório dele. Mas Colin não estava interessado em nenhum deles.

Era Daphne que ele queria ver.

Bateu de leve na porta da irmã, encorajado pelo fraco feixe de luz que escapava por baixo dela. Com certeza Daphne havia deixado várias velas acesas. Como era sensata demais para cair no sono sem apagá-las, ainda devia estar acordada.

E, nesse caso, teria que falar com ele.

Levantou a mão para bater novamente, mas a porta se abriu sem qualquer barulho e ela fez sinal para que ele entrasse.

– Preciso falar com você – sussurrou.

– Eu também preciso falar com você – disse Colin.

Depois que ele entrou, Daphne olhou rapidamente para os dois lados do corredor e fechou a porta.

– Estou em apuros – começou ela.

– Eu sei.

O sangue se esvaiu de seu rosto.

– Sabe?

Colin assentiu, com os olhos verdes sérios de uma forma um tanto incomum.

– Você se lembra do meu amigo Macclesfield?

Ela assentiu. Era o jovem conde que a mãe insistira em lhe apresentar três semanas antes. A mesma noite em que conhecera Simon.

– Bem, ele a viu hoje desaparecendo nos jardins com Hastings.

Daphne sentiu a garganta se fechar, mas conseguiu perguntar:

– Viu?

Colin assentiu, irritado.

– Com certeza ele não vai dizer nada. Somos amigos há quase dez anos. Mas, se ele viu vocês, outra pessoa também pode ter visto. Lady Danbury cou olhando para nós com uma cara bem esquisita enquanto ele me contava sobre vocês.

– Lady Danbury também viu? – indagou Daphne.

– Não sei – respondeu Colin com um leve estremecimento. – Só sei que ela me encarou como se soubesse de tudo o que já fiz de errado na vida.

Daphne balançou a cabeça ligeiramente.

– É o jeito dela. E, mesmo que ela tenha visto algo, não dirá nada.

– Lady Danbury? – disse Colin, desconfiado.

– Ela é uma cobra, e sabe ser bastante sarcástica, mas não é o tipo de pessoa

capaz de destruir alguém apenas por diversão. Se souber de alguma coisa, irá me confrontar diretamente.

Colin não pareceu convencido.

Daphne pigarreou várias vezes enquanto tentava elaborar a próxima pergunta:

– O que exatamente ele viu?

O rapaz olhou para ela com desconfiança.

– Como assim?

– O que exatamente... – repetiu ela quase explodindo, com os nervos à flor da pele por conta da noite longa e estressante. – O que ele viu?

Colin se empertigou e olhou para ela com uma expressão defensiva.

– O que eu já disse – respondeu ele. – Viu você desaparecer nos jardins com Hastings.

– Mas foi só isso?

– Só isso? – falou Colin. Seus olhos se arregalaram e então se estreitaram. – Que diabo aconteceu lá?

Daphne se atirou numa poltrona e enterrou o rosto nas mãos.

– Ah, Colin, estou muito enrolada.

Ele não disse nada. Daphne secou os olhos, que estavam estranhamente molhados apesar de ela não estar chorando, e olhou para cima. O irmão parecia mais velho – e mais severo – do que ela jamais o vira. Estava com os braços cruzados, as pernas abertas numa posição imponente e implacável, e seus olhos, em geral tão alegres e travessos, mostravam-se bem sérios. Com certeza ele estava esperando que ela olhasse para cima antes de falar.

– Agora que sua demonstração de autopiedade acabou – disse ele enfaticamente

–, que tal me contar o que você e Hastings zeram hoje no jardim de Lady Trowbridge?

– Não use esse tom de voz comigo – respondeu Daphne. – E não me acuse de autopiedade. Pelo amor de Deus, um homem vai morrer amanhã! Eu tenho o direito de estar chateada.

Colin sentou-se numa cadeira de frente para ela, com o rosto suavizado por uma expressão de extrema preocupação.

– É melhor você me contar tudo.

Daphne assentiu e relatou os eventos. Porém não explicou a extensão precisa de sua desgraça. Colin não precisava saber exatamente o que Anthony via. Dizer que fora flagrada numa posição comprometedora teria que bastar.

Enfim, ela concluiu:

– E agora vai haver um duelo e Simon vai morrer!

– Você não tem certeza disso, Daphne.

Ela balançou a cabeça tristemente.

– Ele não vai atirar em Anthony. Eu apostaria minha vida nisso. E Anthony... –

Sua voz cou embargada e ela precisou engolir em seco antes de prosseguir. –

Anthony está tão furioso que duvido que vá desistir.

– O que você quer fazer?

– Não sei. Não sei nem onde o duelo vai acontecer. Só sei de uma coisa: preciso impedi-lo!

Colin disse um palavrão em voz baixa e então continuou de forma gentil:

– Não sei se você pode fazer isso, Daphne.

– Eu preciso! – gritou ela. – Colin, não posso car aqui sentada olhando para o teto esperando que Simon morra. – Sua voz cou embargada e ela acrescentou: – Eu o amo.

Ele empalideceu.

– Mesmo depois de ele tê-la rejeitado?

Ela assentiu com desânimo.

– Não me importo se isso faz com que eu pareça uma idiota patética, mas não posso evitar. Eu ainda o amo. Ele precisa de mim.

– Se isso fosse verdade – falou Colin, baixinho –, não acha que ele teria concordado em se casar com você quando Anthony exigiu?

Daphne balançou a cabeça.

– Não. Tem alguma outra coisa que eu não sei. Não consigo explicar direito, mas é como se uma parte dele quisesse se casar comigo. – Ela estava cando agitada, com a respiração ofegante, mas mesmo assim prosseguiu: – Não sei, Colin... Se você tivesse visto a expressão dele, entenderia o que estou dizendo. Ele estava tentando me proteger de alguma coisa. Tenho certeza.

– Não conheço Hastings tão bem como Anthony – disse Colin – nem mesmo tão bem como você, mas nunca ouvi nada sobre algum segredo profundo e grave relacionado a ele. Tem certeza... – Parou no meio da frase e segurou o rosto entre as mãos por um instante antes de olhar de novo para ela. Quando voltou a falar, sua voz estava dolorosamente suave. – Tem certeza de que os sentimentos dele por você não são fruto de sua imaginação?

Daphne não se ofendeu. Sabia que a história parecia fantástica, mas seu coração lhe dizia que estava certa.

– Eu não quero que ele morra – resumiu ela em voz baixa. – No m, é só isso que importa.

Colin assentiu, mas então fez uma última pergunta:

– Você não quer que ele morra ou não quer que ele morra por sua causa?

Daphne se levantou, trêmula.

– Acho melhor você sair – pediu ela, usando o que lhe restava de energia para manter a voz firme. – Não acredito que me perguntou isso.

Mas Colin não obedeceu. Apenas estendeu o braço e apertou a mão da irmã.

– Vou ajudá-la, Daff. Você sabe que eu faço qualquer coisa por você.

Então ela caiu em seus braços e deixou rolarem todas as lágrimas que vinha segurando tão bravamente.

Meia hora depois, estava com os olhos secos e a mente clara. Precisava ter chorado.

Havia muita coisa presa dentro dela – muitos sentimentos, muita confusão, mágoa e raiva. Ela precisava liberar tudo aquilo. Mas agora não havia mais tempo para emoção. Tinha que manter a cabeça fria e se concentrar em seu objetivo.

Colin fora sondar Anthony e Benedict, que estavam, segundo ele, conversando em voz baixa e de forma frenética no escritório de Anthony. Assim como Daphne, Colin achava que Anthony devia ter pedido que Benedict o acompanhasse. Sua missão era descobrir onde o duelo seria realizado. Daphne não tinha dúvida de que ele conseguiria. Colin sempre conseguia que todos lhe contassem tudo.

Daphne vestira sua roupa de montaria mais surrada e confortável. Não fazia ideia de como a manhã acabaria, mas a última coisa que queria era ficar tropeçando em rendas e anáguas.

Alguém bateu à porta e, antes que ela girasse a maçaneta, Colin entrou no quarto. Ele também havia trocado de roupa.

– Descobriu tudo? – perguntou Daphne com ansiedade.

Ele assentiu rapidamente.

– Não temos tempo a perder. Imagino que você queira chegar lá antes de todo mundo, certo?

– Se Simon aparecer antes de Anthony, talvez eu possa convencê-lo a casar comigo antes do duelo.

Colin soltou um suspiro tenso.

– Daff – disse ele –, você considerou a possibilidade de não conseguir o que quer?

Ela engoliu em seco, sentindo um nó na garganta.

– Estou tentando não pensar nisso.

– Mas...

Daphne o interrompeu.

– Se eu pensar nisso, corro o risco de perder o foco, a coragem – argumentou com a voz tensa. – E não posso fazer isso. Pelo bem de Simon, não posso fazer isso.

– Espero que ele saiba o seu valor – comentou Colin baixinho. – Porque, se não souber, talvez eu mesmo tenha que matá-lo.

Daphne respondeu apenas:

– É melhor irmos logo.

Ele assentiu e os dois partiram.

Simon guiou o cavalo ao longo da trilha em direção ao canto mais distante do novo Regent’s Park. Anthony sugerira – e ele concordara – que resolvessem o assunto longe de Mayfair. Seriam as primeiras horas do amanhecer, é claro, e provavelmente as pessoas ainda não teriam saído de casa, mas não havia motivo para alardear um duelo em Hyde Park.

Não que Simon se importasse muito com o fato de duelos serem ilegais. A nal, não estaria por perto para sofrer as consequências.

Mas era um jeito muito desagradável de morrer. No entanto, Simon não via alternativa. Havia desonrado uma dama de família com quem não podia se casar e agora devia pagar por isso. Não era nada que Simon não soubesse antes de beijá-la.

Quando se encaminhava ao ponto de encontro, viu que Anthony e Benedict já haviam chegado e esperavam por ele. Estavam com os cabelos castanhos despenteados pela brisa e uma expressão severa no rosto.

Quase tão severa como os sentimentos de Simon.

Parou a alguns metros dos dois e desceu do cavalo.

– Onde está seu assistente? – perguntou Benedict.

– Não me dei o trabalho de arranjar um – respondeu Simon.

– Mas você precisa de um assistente! Não existe duelo sem isso.

Simon apenas deu de ombros.

– Não achei necessário. Você trouxe as armas. Confio em você.

Anthony foi até ele.

– Eu não quero fazer isso – disse ele.

– Você não tem escolha.

– Mas você tem – insistiu Anthony. – Poderia se casar com ela. Talvez não a ame, mas sei que gosta dela o suficiente. Por que continua se negando?

Simon pensou em ser sincero, em contar todos os motivos pelos quais jurara jamais se casar e perpetuar sua linhagem. Mas eles não entenderiam. Não os Bridgertons, para quem a família era algo bom e verdadeiro. Não sabiam nada a respeito de palavras cruéis e sonhos destruídos. Não conheciam a rejeição.

Ele considerou, então, a possibilidade de dizer alguma coisa cruel, algo que zesse Anthony e Benedict desprezarem-no e que acabasse mais rápido com aquele suposto duelo. Mas isso exigiria que ele difamasse Daphne, e Simon simplesmente não poderia fazer isso.

Assim, tudo o que ele fez foi encarar Anthony Bridgerton, o homem que havia sido seu amigo desde os primeiros dias de escola, e dizer:

– Apenas saiba que não tem nada a ver com Daphne. Sua irmã é a melhor mulher que tive o privilégio de conhecer.

E então, fazendo um sinal com a cabeça para os dois, Simon pegou uma das duas pistolas do estojo que Benedict havia colocado no chão e começou sua longa caminhada até a parte norte do campo.

– Espeeeeeeereeeeeem!

Simon soltou um arquejo e se virou. Meu Deus, era Daphne!

Ela estava montada em sua égua, atravessando o campo a galope, e por um instante de perplexidade Simon se esqueceu de car absolutamente furioso com ela por interferir no duelo e apenas se maravilhou com a imagem magní ca da moça sentada na sela.

Quando Daphne puxou as rédeas e fez o animal parar diante dele, no entanto, sua raiva já tinha voltado com toda a força.

– Que diabo você pensa que está fazendo? – perguntou.

– Salvando sua vida miserável! – Ela o fuzilou com os olhos e Simon se deu conta de que nunca a vira tão furiosa.

Quase tão furiosa quanto ele.

– Daphne, sua maluca! Você percebe como essa sua façanha é perigosa? – Sem perceber o que estava fazendo, ele passou as mãos ao redor dos ombros dela e começou a tremer. – Um de nós poderia ter atirado em você.

– Ah, por favor – zombou ela. – Você ainda não tinha nem chegado à sua ponta do campo.

Ela tinha razão, mas ele estava irado demais para reconhecer isso.

– E cavalgar até aqui sozinha! De madrugada! – gritou ele. – Você devia saber os riscos que correria.

– Eu sei muito bem dos riscos – respondeu ela. – Colin veio comigo.

– Colin? – Simon virou a cabeça de um lado para outro enquanto procurava por ele. – Eu vou matá-lo!

– Antes ou depois que Anthony atirar no seu peito?

– Ah, de nitivamente antes – resmungou Simon. – Onde está ele? Bridgerton! –

gritou.

Três cabeças muito parecidas se viraram para ele. Simon saiu pisando rme pela grama, com olhos mortais.

– Eu estava me referindo ao Bridgerton idiota.

– Acho que deve ser você – disse Anthony suavemente, acenando com a cabeça na direção de Colin.

O rapaz lançou um olhar letal para o irmão.

– E eu devia deixá-la em casa se esgoelando de tanto chorar?

– Devia! – responderam três vozes diferentes.

– Simon! – gritou Daphne, tropeçando na grama atrás dele. – Volte aqui!

O duque se virou para Benedict.

– Tire sua irmã daqui.

Ele pareceu indeciso.

– Vá! – ordenou Anthony.

Benedict permaneceu imóvel, alternando o olhar entre os irmãos, a irmã e o homem que a tinha desonrado.

– Pelo amor de Deus... – disse Anthony.

– Ela merece uma chance de falar – afirmou Benedict, cruzando os braços.

– Qual é o problema de vocês? – rugiu Anthony, olhando furioso para os dois irmãos mais jovens.

– Simon – chamou Daphne, ofegante depois de correr pelo campo –, você precisa me ouvir.

Ele tentou ignorar os puxões dela na manga de sua camisa.

– Daphne, desista. Não há nada que você possa fazer.

Ela encarou os irmãos com olhos suplicantes. Colin e Benedict estavam evidentemente solidários, mas não tinham muito como ajudá-la. Anthony ainda parecia um deus irado.

Finalmente, ela fez a única coisa em que pôde pensar para atrasar o duelo. Deu um soco em Simon. No olho bom.

Ele gritou de dor enquanto cambaleava para trás.

– Por que diabo você fez isso?

– Caia, seu idiota – sussurrou ela.

Se ele estivesse prostrado no chão, Anthony não poderia atirar nele. – Com toda a certeza não vou cair! – resmungou ele com a mão no olho. – Pelo amor de Deus, ser derrubado por uma mulher. Isso é inaceitável.

– Homens... – murmurou Daphne. – Todos idiotas. – Ela se virou para os irmãos, que a encaravam com expressões idênticas de perplexidade. – O que estão olhando? – desafiou.

Colin começou a aplaudir. Anthony bateu no ombro dele.

– Poderiam me deixar a sós por um pequeno, brevíssimo momento com Sua Alteza? – pediu ela, praticamente sussurrando.

Colin e Benedict assentiram e se afastaram. Anthony não se mexeu.

Daphne o fuzilou com o olhar.

– Vou dar um soco em você também.

E ela teria cumprido a ameaça se Benedict não tivesse voltado e quase arrancado o braço do irmão enquanto o puxava para longe.

Daphne encarou Simon, que pressionava o supercílio com os dedos, como se isso pudesse diminuir a dor em seu olho.

– Não acredito que você me deu um soco – disse ele.

Ela olhou mais uma vez para os irmãos a m de se certi car de que eles não podiam escutar.

– Pareceu uma boa ideia no momento.

– Não sei o que você pretendia conseguir aqui – comentou ele. – Pensei que eu tivesse sido bem claro. – Ele suspirou. Nesse momento, pareceu cansado e infinitamente velho. – Já falei que não posso me casar com você.

– Você tem que se casar comigo.

As palavras dela foram tão intensas que ele a encarou com olhos atentos.

– Como assim? – perguntou ele, com a voz ainda sob controle.

– Nós fomos vistos.

– Por quem?

– Macclesfield.

Simon relaxou visivelmente.

– Ele não dirá nada.

– Mas outras pessoas também viram!

Daphne mordeu o lábio inferior. Não era necessariamente uma mentira. Devia ter havido mesmo outras pessoas.

– Quem?

– Não sei – admitiu ela. – Mas ouvi rumores. Até amanhã todos em Londres terão ouvido também.

Simon praguejou com tanta fúria que Daphne chegou a dar um passo para trás.

– Se não se casar comigo – comentou ela em voz baixa –, vou estar acabada.

– Isso não é verdade – contestou ele, sem muita convicção.

– É, sim, e você sabe disso. – Ela se obrigou a encará-lo. Todo o futuro dela (e a vida dele!) dependia daquele momento. Daphne não podia vacilar. – Ninguém vai me querer. Serei mandada para algum canto esquecido do país...

– Sua mãe jamais faria isso.