O Duque e Eu
Capítulo 15
Ele se inclinou para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos. Seu olhar estava eletrizante.
– Eu posso lhe ensinar – sussurrou.
Daphne sentiu um frio na barriga.
Sem tirar os olhos dela por um instante sequer, Simon pegou uma de suas mãos e a levou aos lábios.
– Garanto – continuou ele, passando a língua pelo dedo médio dela – que sou perfeitamente capaz de satisfazê-la na cama.
Daphne de repente se sentiu sem fôlego. E por que o quarto havia cado tão quente?
– Eu... acho que não sei o que você quer dizer.
Ele a segurou em seus braços.
– Mas vai saber.
CA P Í T U L O 1 5
Londres parece terrivelmente calma esta semana, agora que o duque preferido da sociedade partiu com sua duquesa favorita para o campo. Esta autora poderia relatar que o Sr. Nigel Berbrooke foi visto convidando a Srta. Penelope Featherington para dançar, ou que a Srta. Penelope, apesar de ter aceitado a oferta diante da alegre insistência da mãe, não pareceu muito satisfeita com a situação. Mas, francamente, quem quer ler sobre o Sr. Berbrooke ou a Srta.
Penelope? Não vamos nos enganar. Ainda estamos curiosíssimos sobre o duque e a duquesa.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN, 28 DE MAIO DE 1813
Daphne pensou que era como estar no jardim de Lady Trowbridge novamente, a não ser pelo fato de que desta vez não haveria interrupções – nenhum irmão mais velho furioso ou o medo de serem descobertos. Apenas um marido, uma esposa e a promessa da paixão.
Os lábios de Simon encontraram os dela, gentis mas exigentes. A cada toque, a cada movimento da língua dele, ela estremecia com pequenos espasmos de desejo que só faziam crescer.
– Eu já disse que adoro o canto da sua boca? – sussurrou ele.
– N-não – respondeu Daphne com a voz trêmula, impressionada com o fato de ele algum dia ter prestado atenção a isso.
– Pois adoro – murmurou Simon, e então começou a lhe mostrar com que intensidade.
Passou os dentes pelo lábio inferior dela e acompanhou o desenho do canto de sua boca com a língua.
Daphne sentiu cócegas e abriu um amplo sorriso.
– Pare com isso – pediu ela, rindo.
– Nunca – prometeu ele. Afastou-se um pouco, aninhando o rosto dela nas mãos.
– Você tem o sorriso mais lindo que eu já vi.
A reação inicial de Daphne foi dizer “Não seja bobo”, mas então pensou: Por que estragar um momento como este? Então apenas sussurrou:
– Jura?
– Juro. – Ele deu um beijo no nariz dela. – Quando você sorri, sua boca ocupa
metade do seu rosto.
– Simon! – exclamou ela. – Isso parece horrível.
– É lindo.
– Mentiroso.
– Maravilhoso.
Ela fez uma careta, mas começou a rir ao mesmo tempo.
– Obviamente você não sabe nada sobre os padrões de beleza feminina.
Ele levantou uma sobrancelha.
– No que diz respeito a você, meus padrões de beleza são os únicos que importam a partir de agora.
Por um instante ela cou sem fala, então seu corpo se encontrou com o dele e os dois foram tomados pelos espasmos de uma gargalhada.
– Ah, Simon – disse ela, soltando um arquejo –, você é tão impetuoso... Tão inesperadamente impetuoso...
– Inesperadamente ? – repetiu ele. – Está dizendo que não esperava que eu fosse assim?
Os dois apertaram os lábios para evitar outra gargalhada, mas não conseguiram.
– Isso é quase pior que ser chamado de impotente – resmungou ele.
Daphne ficou séria no mesmo instante.
– Ah, Simon, você sabe que eu não... – Desistiu de tentar explicar e disse: – Me desculpe.
– Não precisa se desculpar – a rmou ele, descartando o pedido dela com um aceno de mão. – Talvez eu precise matar sua mãe, mas você não tem por que se lamentar.
Daphne deixou escapar uma risada perplexa.
– Mamãe fez o melhor que pôde, e foi você que me deixou confusa quando disse...
– Ah, então agora a culpa é toda minha? – retrucou ele, fingindo indignação. Mas então sua expressão cou maliciosa e sedutora. Ele se aproximou dela, inclinando o corpo de forma que Daphne teve que arquear as costas para trás. – Pelo visto vou ter que trabalhar em dobro para provar minhas capacidades, então.
Ele deslizou uma das mãos até a nuca de Daphne, apoiando sua cabeça enquanto a deitava na cama. Ela perdeu o fôlego quando viu os intensos olhos azuis dele. O
mundo parecia diferente daquele ângulo. Mais sombrio, mais perigoso. E ainda mais emocionante com Simon acima dela, preenchendo seu campo de visão.
E, naquele instante, com Simon se aproximando cada vez mais dela, ele se tornou seu mundo inteiro.
Dessa vez o beijo não foi suave. Ele não fez cócegas, e sim a devorou. Não a provocou, e sim a possuiu.
Simon estava com as mãos embaixo do corpo dela, acariciando suas nádegas, aproximando-a de sua excitação.
– Hoje – sussurrou ele, com a voz rouca e calorosa –, você será minha.
Daphne arfava cada vez mais alto. Simon estava muito perto dela, cada centímetro de seu corpo cobrindo-a completamente. Ela havia imaginado essa cena mil vezes desde o instante no Regent’s Park em que ele disse que se casaria com ela, mas nunca havia lhe ocorrido que o simples peso dele sobre ela seria tão excitante.
Ele era grande, rme e musculoso. Não havia como fugir de seu ataque sedutor, mesmo que ela quisesse.
Era muito estranho sentir tanta alegria com a própria impotência. Ele poderia fazer o que desejasse com ela – e Daphne queria que ele fizesse.
Mas quando o corpo dele estremeceu e seus lábios tentaram dizer o nome dela sem conseguir ir além de “D...D...Daph...”, ela percebeu que possuía um tipo próprio de controle. Ele a queria tanto que não conseguia respirar, precisava tanto dela que não era capaz de falar.
E, de alguma forma, enquanto comemorava o poder recém-descoberto, Daphne se deu conta de que seu corpo parecia saber o que fazer. Seus quadris se arquearam para ir ao encontro dele, e quando as mãos de Simon levantaram seu vestido até a cintura, as pernas dela se enroscaram nas dele, trazendo-o ainda mais para perto do berço de sua feminilidade.
– Meu Deus, Daphne – arquejou ele, apoiando o corpo trêmulo nos cotovelos. –
Eu quero... eu não posso...
Ela agarrou as costas de Simon, tentando colocá-lo na mesma posição de antes.
O ar parecia frio no espaço que o corpo dele estivera ocupando e que agora estava vazio.
– Não consigo ir devagar – resmungou ele.
– Eu não me importo.
– Mas eu, sim. – Os olhos dele ardiam com intenções maliciosas. – Acho que estamos nos apressando.
Daphne apenas o encarou, tentando recuperar o fôlego. Ele havia se sentado e seus olhos corriam pelo corpo dela enquanto a mão deslizava da perna até o joelho.
– Primeiro – sussurrou ele – precisamos fazer algo a respeito de todas essas roupas.
Daphne arquejou de susto quando ele se levantou, erguendo-a junto. As pernas dela estavam fracas e sem equilíbrio, mas ele a manteve de pé, segurando o vestido ao redor de sua cintura. Então cochichou em seu ouvido:
– É difícil tirar sua roupa com você deitada.
Uma das mãos dele encontrou a curva de suas nádegas e começou a massageá-la com um movimento circular.
– A questão é: devo puxar o vestido para cima ou para baixo? – refletiu ele.
Daphne rezou para que ele não esperasse que ela realmente respondesse à pergunta, porque ela não conseguiria.
– Ou – prosseguiu Simon devagar, deslizando um dedo por debaixo do vestido –
os dois?
E então, antes que ela tivesse tempo para reagir, ele havia puxado a parte de cima do vestido para baixo de tal forma que ele todo cou embolado ao redor da cintura de Daphne. Ela estava com as pernas à mostra e, se não fosse pelo no chemisier de seda, teria ficado completamente nua.
– Ora, eu não esperava por isso – murmurou Simon, tocando um dos seios por cima do tecido delicado. – Não que seja uma surpresa desagradável, é claro. A seda nunca é tão macia quanto a pele, mas tem suas vantagens.
Daphne ofegou enquanto o observava deslizar o chemisier lentamente de um lado a outro, fazendo com que seus mamilos endurecessem com a fricção do tecido.
– Eu não imaginava – sussurrou Daphne, com a respiração saindo quente e úmida pelos lábios.
Simon se concentrou em um dos seios.
– Não imaginava o quê?
– Que você tinha ideias tão pecaminosas.
Ele sorriu, devagar e cheio de malícia. Levou os lábios ao ouvido dela e murmurou:
– Você é irmã do meu melhor amigo. Era absolutamente proibida. O que eu poderia fazer?
Daphne estremeceu de desejo. Os suspiros dele tocaram apenas em sua orelha, mas ela sentiu a pele se arrepiar no corpo todo.
– Eu não podia fazer nada – continuou ele, baixando uma alça do chemisier pelo ombro dela – além de imaginar.
– Você pensava em mim? – perguntou Daphne num arquejo, sentindo o corpo se excitar com essa ideia. – Pensava nisto?
A mão que segurava seus quadris apertou mais.
– Todas as noites. Sempre antes de dormir, até minha pele começar a queimar e meu corpo implorar por alívio.
Daphne sentiu as pernas fraquejarem, mas ele a sustentou.
– E depois, quando eu caía no sono... – Sua boca foi até o pescoço dela, acariciando-o não só com os lábios, mas também com os arquejos. – Era aí que eu ficava realmente safado.
Daphne deixou escapar um gemido estrangulado, incoerente e cheio de desejo.
A segunda alça do chemisier caiu pelo ombro dela justamente quando os lábios de Simon encontraram o espaço irresistível entre seus seios.
– Mas hoje... – prosseguiu ele, empurrando o tecido para baixo até que os dois seios dela estivessem nus. – Hoje, todos os meus sonhos estão se tornando realidade.
Daphne teve tempo apenas de arfar antes que a boca de Simon encontrasse seu seio e abocanhasse o mamilo intumescido.
– Era isso que eu queria fazer no jardim de Lady Trowbridge – disse ele. – Você sabia disso?
Ela balançou a cabeça loucamente, agarrando-se aos ombros dele para se apoiar. O corpo dela se movia de um lado para outro e Daphne mal conseguia manter a cabeça ereta. Estava sendo tomada por espasmos de puro sentimento, que lhe roubavam o fôlego, o equilíbrio e até mesmo os pensamentos.
– É claro que não sabia – murmurou ele. – Você é muito inocente.
Com dedos hábeis e experientes, Simon tirou o restante das roupas de Daphne até deixá-la completamente nua em seus braços. Com delicadeza, porque sabia que ela devia estar quase tão nervosa quanto excitada, deitou-a de novo na cama.
Os movimentos dele foram totalmente descontrolados ao tirar as próprias roupas. Estava com a pele em chamas, com todo o corpo queimando de desejo. Em nenhum momento, no entanto, tirou os olhos dela, esparramada em cima da cama, a maior tentação que ele já havia visto. A pele aveludada de Daphne cintilava à luz bruxuleante das velas, e seus cabelos compridos, agora desgrenhados, caíam sobre seu rosto com uma naturalidade selvagem.
Os dedos de Simon, que haviam tirado as roupas dela com tanta delicadeza e agilidade, agora pareciam rudes e desajeitados enquanto ele tentava se entender com os botões e nós dos próprios trajes.
Quando suas mãos chegaram às calças, ele viu que ela estava se cobrindo com os lençóis.
– Não – pediu ele, mal reconhecendo a própria voz.
Os olhos dela se encontraram com os dele e Simon disse:
– Eu vou ser seu cobertor.
Tirou o resto das roupas e, antes que Daphne pudesse dizer qualquer coisa, foi em direção à cama, cobrindo o corpo dela com o seu. Percebeu que ela arfou de surpresa ao senti-lo, com o corpo se tensionando levemente.
– Shhh – murmurou ele, encostando o rosto no pescoço dela enquanto uma de suas mãos desenhava círculos suaves na coxa. – Confie em mim.
– Eu confio em você – disse Daphne com a voz trêmula. – É só que...
Ele subiu a mão para os quadris dela.
– O quê?
Ele percebeu a irritação em sua voz quando ela disse:
– Eu gostaria de não ser tão inocente.
Uma onda de riso sacudiu o peito de Simon.
– Pare com isso – reclamou ela, batendo no ombro dele.
– Eu não estou rindo de você.
– Obviamente, está rindo – resmungou Daphne. – E não me diga que está rindo comigo, porque essa desculpa nunca funciona.
– Eu estava rindo – explicou ele baixinho, apoiando-se nos cotovelos a m de olhar para o rosto dela – porque pensei que estou morrendo de felicidade com sua inocência. – Roçou os lábios dela com os seus numa carícia suave. – Estou honrado de ser o único homem a tocar em você assim.
Os olhos dela brilharam com tanta pureza que Simon quase se desmanchou.
– Tem certeza? – sussurrou ela.
– Absoluta – disse ele, surpreso com o som áspero da própria voz. – Embora esse seja apenas um dos inúmeros sentimentos que estou experimentando neste momento.
Ela não disse nada, mas seus olhos expressavam uma curiosidade encantadora.
– Acho que sou capaz de matar qualquer homem que se atreva a olhar para você com segundas intenções – resmungou ele.
Para grande surpresa de Simon, ela explodiu numa gargalhada.
– Ah, Simon – arquejou ela –, é maravilhoso ser objeto de um ciúme tão irracional. Obrigada.
– Você ainda vai me agradecer por isso – prometeu ele.
– E talvez – murmurou ela, com os olhos mais sedutores que ele já tinha visto –
você me agradeça também.
Simon sentiu as coxas de Daphne se abrirem quando ele encaixou o corpo no dela, com sua virilidade quente pressionando sua barriga.
– Eu já agradeço – sussurrou ele, beijando o ombro dela. – Acredite, eu já agradeço.
Ele nunca se sentira tão grato pelo controle que havia aprendido a exercer sobre si mesmo. Todo o seu corpo ansiava por mergulhar em Daphne e nalmente possuí-la, mas ele sabia que aquela noite – as núpcias deles – pertencia a ela, não a ele.
Era a primeira vez dela. Simon era seu primeiro amante – seu único amante, ele pensou com uma ferocidade atípica –, e tinha a responsabilidade de garantir que aquela noite fosse mais que prazerosa para ela.
Ele sabia que ela o queria. Daphne estava com a respiração irregular e os olhos vidrados de desejo. Mal podia suportar olhar para o rosto dela, pois cada vez que via seus lábios entreabertos e ofegantes era quase vencido pela vontade de penetrá-la.
Então, em vez de fazer isso, ele a beijou. Beijou-a em todos os lugares e ignorou o desespero que sentia toda vez que a ouvia arfar. Depois, nalmente, quando ela se contorceu e gemeu embaixo dele, deixando claro que estava louca por ele, Simon deslizou a mão para o meio das pernas dela e a tocou.
O único som que conseguiu emitir foi o nome dela, que saiu na forma de um gemido. Ela estava mais do que pronta, mais quente e molhada do que ele jamais sonhara. Ainda assim, apenas para garantir – ou talvez por não conseguir resistir ao perverso impulso de torturar a si mesmo –, deslizou um dedo para dentro dela, testando seu calor, tocando-a intimamente.
– Ah, Simon! – arquejou Daphne, remexendo-se embaixo dele.
Os músculos dela já estavam apertando-o e ele soube que ela estava quase no clímax. Retirou abruptamente a mão, ignorando o lamento dela.
Usou as próprias pernas para abrir ainda mais as dela e, com um gemido trêmulo, posicionou-se para penetrá-la.
– Isto p-pode doer um pouco – sussurrou ele com a voz rouca. – Mas eu p-prometo...
– Só venha logo – implorou ela, jogando a cabeça loucamente de um lado para outro.
E ele foi. Com um impulso forte, penetrou-a por completo. Sentiu o hímen se romper, mas ela pareceu não sentir dor.
– Está tudo bem? – murmurou ele, tensionando todos os músculos para evitar se mover dentro dela.
Ela assentiu com a cabeça, a respiração totalmente ofegante.
– A sensação é bem estranha – admitiu.
– Mas é ruim? – perguntou ele, quase envergonhado pelo leve tom de desespero em sua voz.
Daphne balançou a cabeça, com um sorriso discreto nos lábios.
– Nem um pouco – sussurrou ela. – Mas antes... quando você... com os dedos...
Mesmo sob a luz fraca das velas, ele viu que o rosto dela queimava de vergonha.
– É isso que você quer? – perguntou ele, começando a sair de dentro dela.
– Não! – gritou Daphne.
– Então talvez seja isto que você queira – murmurou ele, voltando a penetrá-la.
Ela arquejou.
– Isso. Não. As duas coisas.
Ele começou a se movimentar dentro dela, num ritmo propositalmente lento e constante. A cada impulso, arrancava-lhe uma arfada, e os gemidos de Daphne o deixavam cada vez mais louco.
Então os gemidos viraram gritos, os arquejos caram mais ofegantes e ele soube que ela estava perto do clímax. Simon começou a se mexer mais rápido, trincando os dentes e tentando manter o controle enquanto ela seguia rumo ao orgasmo.
Daphne chamou por Simon com sofreguidão, soltou um grito e então todo o seu corpo cou rígido embaixo do dele. Ela agarrou os seus ombros, erguendo o quadril com uma força na qual ele mal podia acreditar. Finalmente, com um último e intenso tremor, ela desabou sob Simon, alheia a tudo a não ser ao poder de seu próprio alívio.
Tomado pelo prazer, Simon se permitiu um último impulso, indo o mais fundo que pôde, saboreando o doce calor do corpo de Daphne.
Então, dando-lhe um beijo ardente de paixão, saiu de dentro dela e se liberou nos lençóis ao lado.
Foi apenas a primeira de muitas noites de paixão. Os recém-casados viajaram para Clyvedon e então, para extremo constrangimento de Daphne, se trancaram na suíte principal por mais de uma semana. (É claro que ela não estava tão envergonhada a ponto de realmente tentar sair do quarto.)
Depois que emergiram da reclusão da lua de mel, Daphne conseguiu, en m, conhecer o castelo, já que tudo o que vira desde sua chegada fora o caminho da porta da frente até o quarto de Simon. Passou, então, várias horas conhecendo a criadagem. Ela já havia, é claro, sido formalmente apresentada a todos, mas achou que seria melhor falar em separado com os membros mais importantes da equipe.
Como fazia muito tempo que Simon havia saído de Clyvedon, a maioria dos criados mais novos não o conhecia, mas aqueles que já tinham convivido com seu marido em sua infância pareciam – pelo menos aos olhos de Daphne – muito devotados a ele. Ela mencionou isso de forma bem-humorada enquanto os dois passeavam a sós pelo jardim.
– Morei aqui até ir para o colégio – disse ele laconicamente.
Daphne no mesmo instante se sentiu desconfortável pela indiferença na voz do marido.
– Você nunca foi a Londres na infância? Quando éramos pequenos, nós costumávamos...
– Eu nunca saía daqui.
O tom de Simon deu a entender que ele não queria falar sobre esse assunto de jeito nenhum, mas Daphne ignorou os sinais e decidiu ir em frente de qualquer maneira.
– Você deve ter sido uma criança maravilhosa – disse ela em tom casual. – Ou então uma criança extremamente malcomportada, para ter inspirado tamanha devoção.
Ele ficou em silêncio.
– Meu irmão Colin também era assim, sabe? – continuou Daphne – Um verdadeiro capeta, mas tão encantador que todos os criados o adoravam. Nossa, uma vez...
Sua boca congelou, entreaberta. Não parecia fazer muito sentido continuar.
Simon tinha dado meia-volta e se afastado.
Ele não se interessava por rosas. Nem por violetas. Mas, naquele momento, Simon se viu apoiado numa cerca de madeira olhando para o famoso jardim do castelo de Clyvedon como se fosse um profundo admirador de flores.
Tudo porque não conseguia lidar com as perguntas de Daphne sobre sua infância.
A verdade era que ele detestava lembranças. Desprezava qualquer tipo de recordação. Até mesmo permanecer em Clyvedon era desconfortável. Simon levara Daphne à casa de sua infância apenas pelo fato de ser essa a única propriedade
pronta para ocupação imediata.
Sua memória trouxe de volta os sentimentos de quando ele era pequeno. E Simon não queria se sentir como aquele menininho de novo. Não queria lembrar as inúmeras cartas que mandara ao pai e que caram sem resposta. Não queria recordar os sorrisos gentis dos criados – sempre acompanhados por olhares piedosos. Eles o adoravam, sim, mas também sentiam pena dele.
E o fato de terem odiado o velho duque por causa dele... Bem, isso nunca o zera se sentir melhor. Ele não fora – e, na verdade, ainda não era – nobre a ponto de não experimentar certa satisfação com a falta de popularidade do pai, mas isso nunca anulou seu constrangimento ou desconforto.
Ou sua vergonha.
Queria que o admirassem, não que sentissem pena dele. E foi só depois que caiu no mundo sozinho, saindo inesperadamente de Clyvedon para estudar em Eton, que Simon sentiu o gosto do sucesso pela primeira vez.
Ele havia chegado tão longe... Agora, preferiria ir para o inferno a deixar as coisas voltarem a ser como no passado.
Nada disso, é claro, era culpa de Daphne. Ele tinha consciência de que ela não queria feri-lo ao perguntar sobre sua infância.
Mas como ela poderia saber que isso o incomodava? Daphne não sabia nada a respeito de suas di culdades de fala. A nal, ele havia feito um esforço sobre-humano para mantê-las fora do conhecimento dela.
Não, pensou, dando um suspiro cansado, na verdade ele não precisara fazer esforço algum para escondê-las de Daphne. Ela sempre o deixava à vontade, livre.
Sua gagueira praticamente não dava mais sinais de vida, porém, quando ocorria, era sempre durante períodos de estresse e raiva.
E a vida com Daphne não tinha nada de estressante ou irritante.
Apoiou-se ainda mais na cerca, com o peso da culpa nos ombros. Ele a havia tratado de modo abominável. Parecia que não conseguia parar com isso.
– Simon?
Sentira a presença de Daphne antes que ela falasse. Sua esposa havia se aproximado dele por trás, silenciosamente. Mas ele sabia que ela estava lá. Podia sentir seu cheiro suave e ouvir o sussurro do vento em seus cabelos.
– Essas rosas são lindas – disse ela.
Simon sabia que era o jeito dela de suavizar seu mau humor. Sabia que ela estava morrendo de vontade de fazer mais perguntas. Mas era bastante madura –
por mais que ele gostasse de implicar com ela por causa de sua idade – e entendia muito sobre os homens e seus temperamentos idiotas. Ela não iria dizer mais nada.
Pelo menos não hoje.
– Disseram que foi minha mãe que as plantou – respondeu ele. As palavras saíram mais ásperas do que Simon gostaria, mas ele esperava que ela as interpretasse como o pedido de paz que ele desejava que fossem. Como Daphne não
disse nada, ele acrescentou: – Ela morreu quando eu nasci.
Ela assentiu.
– Fiquei sabendo. Sinto muito.
Simon deu de ombros.
– Eu nem cheguei a conhecê-la.
– Isso não significa que não tenha sido uma perda.
Ele pensou na própria infância. Não havia como saber se a mãe teria sido mais compreensiva que o pai em relação a suas di culdades, mas imaginava que ela não poderia ter sido pior.
– Sim, acho que foi – murmurou ele.
Mais tarde naquele dia, enquanto Simon tratava de negócios, Daphne decidiu que seria um bom momento para conhecer a Sra. Colson, a governanta. Embora ela e Simon ainda não tivessem decidido onde iriam morar, Daphne achava que iriam passar algum tempo em Clyvedon. E, se havia uma coisa que ela aprendera com a mãe era que uma dama precisa ter um bom relacionamento com a governanta de sua casa.
Não que Daphne tivesse motivos para achar que não se daria bem com a Sra.
Colson. As duas haviam se falado brevemente quando Simon apresentou a nova duquesa aos criados e logo ficou claro que ela era do tipo amistoso e falante.
Daphne passou no gabinete dela – um quartinho minúsculo ao lado da cozinha –
um pouco antes da hora do chá. A governanta, uma mulher bonita de 50 e poucos anos, estava debruçada sobre sua mesinha, trabalhando no cardápio da semana.
Daphne bateu na porta aberta.
– Sra. Colson?
A mulher ergueu o olhar e se levantou imediatamente.
– Alteza – disse ela, fazendo uma pequena reverência. – Devia ter mandado me chamar.
Daphne sorriu constrangida, ainda desacostumada à sua nova posição.
– Eu já estava por perto – explicou ela, justi cando sua aparição pouco tradicional nos domínios da criada. – Mas, se tiver um momento, Sra. Colson, eu pensei que poderíamos nos conhecer melhor, já que a senhora mora em Clyvedon há tantos anos e eu espero viver aqui por bastante tempo também.
Ela sorriu com o tom afetuoso da jovem.
– É claro, Alteza. Existe algo em particular que a senhora gostaria de saber?
– Não, nada em particular. Mas, se eu quiser administrar Clyvedon de forma adequada, ainda tenho muito a aprender. Será que poderíamos tomar o chá na sala amarela? Gosto muito da decoração de lá. É tão aconchegante e ensolarada... Pensei
em talvez fazer dela minha sala pessoal.
A Sra. Colson lançou-lhe um olhar curioso.
– A última duquesa achava a mesma coisa.
– Ah – respondeu Daphne, sem saber se isso deveria deixá-la desconfortável.
– Cuidei com muito carinho daquela sala ao longo de todos esses anos –
continuou a Sra. Colson. – Ela é ensolarada porque ca na parte sul da casa. Todos os estofados foram reformados há três anos. – Ela tinha uma expressão de orgulho no rosto. – Fui até Londres para conseguir o mesmo tecido.
– Sei – comentou Daphne, saindo do gabinete na frente da governanta. – O
falecido duque devia amar muito a esposa para garantir que a sala preferida dela fosse tão bem conservada.
A Sra. Colson não olhou para Daphne.
– A decisão foi minha – informou ela em voz baixa. – Eu tinha um orçamento fixo para a manutenção da casa e considerei este o melhor uso do dinheiro.
Daphne aguardou enquanto a governanta chamava uma camareira e lhe dava instruções para o chá.
– É uma sala encantadora – disse Daphne assim que deixaram a cozinha –, e, embora o novo duque não tenha conhecido a mãe, tenho certeza que cará comovido ao saber que a senhora achou adequado manter a sala preferida dela.
– Era o mínimo que eu podia fazer – disse a Sra. Colson enquanto as duas percorriam o corredor. – Afinal de contas, nem sempre servi à família Basset.
– Ah, não? – perguntou Daphne com curiosidade. Governantas eram famosas por sua lealdade e costumavam servir uma única família por gerações.
– Não, eu era a camareira pessoal da duquesa. – Quando chegaram à porta da sala amarela, a Sra. Colson esperou do lado de fora para permitir que Daphne entrasse primeiro. – Antes disso, fui sua dama de companhia. E minha mãe foi ama dela.
– Vocês deviam ser muito próximas – murmurou Daphne.
A mulher assentiu.
– Depois que ela morreu, ocupei várias posições aqui em Clyvedon até nalmente me tornar governanta.
– Sei. – Daphne sorriu para ela e se acomodou no sofá. – Por favor, sente-se –
disse ela, indicando a cadeira à sua frente.
A Sra. Colson pareceu hesitar diante de tanta intimidade, mas acabou obedecendo.
– Fiquei muito triste quando ela morreu – contou. Lançou a Daphne um olhar levemente apreensivo. – Espero que não se importe que eu lhe fale sobre isso.
– Claro que não – disse Daphne com rapidez. Ela estava bastante curiosa sobre a infância de Simon. Ele lhe contara muito pouco sobre isso, mas ela sentia que essa etapa de sua vida tinha um signi cado muito importante. – Por favor, fale mais. Eu adoraria ouvir sobre ela.
Os olhos da Sra. Colson ficaram marejados.
– Ela era a pessoa mais gentil e bondosa que existia. Ela e o duque... Bem, eles não eram um casal amoroso, mas se davam bem. Tinham um tipo próprio de amizade. – Ergueu o olhar. – Ambos eram conscientes de seus deveres como duque e duquesa. Levavam suas responsabilidades muito a sério.
Daphne assentiu.
– Ela estava determinada a dar um lho a ele. E continuou tentando mesmo depois que todos os médicos lhe disseram que poderia ser perigoso. Ela chorava no meu ombro todos os meses quando vinham suas regras.
Daphne aquiesceu, tentando disfarçar sua tensão. Era difícil ouvir histórias de pessoas que não podiam ter filhos. Mas sabia que teria que se acostumar. Seria ainda mais difícil responder a perguntas sobre o assunto.
E haveria perguntas. Perguntas educadas, mas com um sentimento de pena.
Felizmente a Sra. Colson não percebeu a a ição de Daphne. Deu uma fungada e prosseguiu com a história.
– Ela vivia dizendo que nunca poderia ser uma duquesa de verdade se não conseguisse dar um lho ao duque. Isso partia meu coração. Todos os meses, partia meu coração.
Daphne se perguntou se isso também aconteceria com ela. Provavelmente, não.
Ela ao menos sabia que não engravidaria. Já a mãe de Simon tinha suas esperanças destruídas a cada quatro semanas.
– E é claro que todos agiam como se não ter um bebê fosse responsabilidade dela
– continuou a governanta. – Como poderiam saber disso? Não é sempre a mulher que é infértil. Às vezes a culpa é do homem.
Daphne ficou em silêncio.
– Eu sempre lhe falava isso, mas ainda assim ela se sentia mal. Eu dizia... – O
rosto da Sra. Colson cou vermelho. – A senhora se importa se eu falar francamente?
– Claro que não.
Ela assentiu.
– Bem, eu falava o que minha própria mãe me dizia. Não há nada que nasça sem que uma semente forte e saudável seja plantada.
Daphne continuou quieta. Não conseguiu responder nada.
– Mas então ela nalmente teve o Sr. Simon. – A governanta soltou um suspiro maternal e olhou para Daphne com uma expressão apreensiva. – Sinto muito – disse ela de repente. – Eu não deveria estar me referindo a ele dessa forma. Ele é o duque agora.
– Não pare por minha causa – pediu Daphne, feliz por ter um motivo para sorrir.
– É difícil mudar na minha idade – re etiu a Sra. Colson com um suspiro. – E, infelizmente, acho que parte de mim sempre irá se lembrar dele como aquele pobre menininho. – Olhou para Daphne e balançou a cabeça. – Teria sido muito mais fácil para ele se a duquesa não tivesse morrido.
– Mais fácil? – murmurou Daphne, torcendo para que a Sra. Colson lhe contasse mais detalhes.
– O duque nunca entendeu o pobre garoto – a rmou a governanta. – Ele tinha ataques de fúria, o chamava de idiota e...
Daphne levantou a cabeça de forma brusca.
– Ele achava que Simon era idiota?
Isso era um absurdo. Simon era uma das pessoas mais inteligentes que ela conhecia.
– O duque nunca soube ver o mundo além do próprio umbigo – retrucou a Sra.
Colson, bufando. – Nunca deu uma chance ao filho.
Daphne se inclinou para a frente e aguçou os ouvidos para assimilar tudo o que a governanta dizia. O que o duque havia feito a Simon? E seria esse o motivo que o fazia ficar paralisado toda vez que o nome do pai era mencionado?
A Sra. Colson pegou um lenço e secou os olhos.
– Você precisava ter visto como aquele menino se esforçava para melhorar.
Partia meu coração. Simplesmente partia meu coração.
Daphne estava tão impaciente que cravou as unhas no sofá. A Sra. Colson nunca chegava ao ponto.
– Mas nada do que ele fazia era bom o bastante para o duque. Esta é apenas minha opinião, é claro, mas...
Nesse instante, uma camareira entrou com o chá. Daphne quase gritou de frustração. A bebida demorou uns dois minutos para ser servida, e durante todo esse tempo a Sra. Colson tagarelou sobre os biscoitos, querendo saber, entre outras coisas, se Daphne os preferia simples ou com uma camada de açúcar por cima.
Daphne teve que largar o sofá antes que arrancasse um pedaço do estofado que a Sra. Colson tanto se esforçara para preservar. Finalmente a camareira saiu. A governanta tomou um gole de chá e perguntou:
– Onde estávamos?
– A senhora falava sobre o duque – respondeu Daphne no mesmo instante. – O
falecido duque. Que nada que meu marido fazia era bom o su ciente para ele e que, na sua opinião...
– Minha nossa, a senhora estava prestando atenção. – O rosto da Sra. Colson se iluminou. – Fico lisonjeada.
– Mas a senhora estava dizendo... – estimulou Daphne.
– Ah, sim, é claro. Eu ia dizer apenas que sempre achei que o falecido duque jamais perdoou o filho por não ser perfeito.
– Mas, Sra. Colson – retrucou Daphne baixinho –, ninguém é perfeito.
– É claro que não, mas... – Os olhos da governanta foram perpassados, por um breve instante, por uma expressão de desdém em relação ao falecido patrão. – Se
tivesse conhecido o velho duque, a senhora entenderia. Ele esperou muito tempo por um filho. Na cabeça dele, o nome Basset era sinônimo de perfeição.
– E meu marido não era o filho que ele queria? – perguntou Daphne. – Ele não queria um filho. Queria uma réplica de si mesmo.
Daphne não conseguiu mais conter sua curiosidade.
– Mas o que Simon fez para ser tão repugnante ao duque?
Os olhos da Sra. Colson se arregalaram de surpresa e ela levou a mão ao peito.
– Ora, a senhora não sabe – murmurou ela. – Claro que não sabe.
– O quê?
– Ele não conseguia falar.
Daphne ficou boquiaberta.
– Como assim?
– Ele não sabia falar. Não disse uma palavra até os 4 anos de idade, e quando conseguiu aprender, não parava de gaguejar. Meu coração se partia toda vez que ele abria a boca. Eu via que havia um menininho muito inteligente ali. Ele apenas não conseguia fazer as palavras saírem direito.
– Mas ele fala tão bem agora... – atalhou Daphne, surpresa pelo tom defensivo em sua voz. – Eu nunca o ouvi gaguejando. Ou, se ouvi, e-e-eu não percebi. Está vendo? Acabei de gaguejar! Todo mundo faz isso quando está confuso.
– Ele se esforçou muito para melhorar. Foram sete anos, pelo que me lembro.
Durante sete anos ele não fez nada além de praticar com a ama. – A testa da Sra.
Colson se franziu. – Qual era mesmo o nome dela? Ah, sim, ama Hopkins. Era uma santa. Tão dedicada ao menino que parecia que ele era lho dela. Eu era assistente da governanta na época, mas ela sempre me deixava ajudá-lo a treinar.
– Foi difícil para ele? – quis saber Daphne.
– Às vezes eu achava que ele morreria de frustração. Mas ele era tão obstinado...
Meu Deus, que menino teimoso. Nunca vi ninguém tão persistente. – A Sra. Colson balançou a cabeça com tristeza. – E o pai ainda assim o rejeitava. Isso...
– Partia o seu coração – atalhou Daphne. – Teria partido o meu também.
A Sra. Colson tomou um gole de chá durante o longo e desconfortável silêncio que se seguiu.
– Muito obrigada por me convidar para tomar o chá com a senhora, Alteza –
disse ela, interpretando o silêncio de Daphne equivocadamente como desagrado. –
Apesar de ter contrariado os costumes, foi muito...
Daphne ergueu o olhar enquanto a Sra. Colson buscava a palavra certa.
– Gentil – concluiu ela, enfim. – Foi muito gentil de sua parte.
– Obrigada – murmurou Daphne distraidamente.
– Ah, mas eu não respondi a nenhuma de suas perguntas sobre Clyvedon –
lembrou de repente a Sra. Colson.
Daphne balançou a cabeça.